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BLOODY PARENTS
Escolhi de Não É Certo Este Dizer o poema «Bloody
Parents»1. O que nele primeiro me chamou a atenção
foi o título em que a maldição e a consanguinidade
se acham sobrepostas. Transmite-se de pais a filhos a condição
mortal que é uma queda, e a continuidade de sangue é esse
anátema. O poema é todo ele um movimento que visa aprofundar
a negação até encontrar a forma mais extrema do
epitáfio. A sua anulação como poema e como epitáfio.
BLOODY PARENTS
E quando o crânio
limpo de pele e nervos
as grandes órbitas vazadas
para a nenhuma forma
de mundo
e quando assim somente crânio
ficar em baloiço no extremo de uma
tábua
à luz de uma vela verás melhor o
teu retrato em sangue. Modelo
feito em grosseiro cimento
seguindo o exacto feitio do teu
rosto
em sangue funcionará, gelado, sobre
elegante pedestal. E quando o crânio
for matéria imutável que desafie o
tempo conferido pela imortalidade
do autor
ainda
o retrato é uma escultura profundamente
instável
que despejado do sangue dos nossos
pais, malditos pais, também eles caídos
de um suporte ligado à vida
e se desligas o conjunto
o teu retrato desaparece num charco
sem forma
limpo de pele e nervo, vencido à
luz de nenhum outro mundo.
O poema mima o pensamento processual de algumas formas modernas da
arte que refere. A obra é produzida através da sua equivalência
com o mínimo de matéria sobrevivente a uma operação
de desbaste. Na demanda pelo avesso do oco central, originativo do perímetro
da forma, o caroço resultante atesta, antes de mais e para além
do mais, a matéria erradicada. Ou nem tanto essa matéria
como a equivalência dela à forma depreciada como sensível.
Encontramos Hegel nestes trabalhos de casa. Agressão e abuso,
lacuna e silêncio significam que a forma da arte, a representação
sensível («pele e nervo»), não é adequada
ao conteúdo, à verdade em sua universalidade. A arte é
ultrapassada por um pensamento (da «estrutura») e por uma
reflexão (da e com a «estrutura»). Essa ultrapassagem
incorpora outras motivações. A anáfora que encadeia
o discurso, delimitando verticalmente fases num processo em progressão,
inicia-se sobre uma afasia (dá-se pela porção terminal
de um discurso alhures começado); e encarniça-se sobre
a própria negação ou sobre o que nesta se perspectiva
como o rasto de existência que a mesma negação obriga
a pressupor. A negação encontra ainda e sempre o que negar,
tal como a passagem do poema a epitáfio não chega a última
palavra: o epitáfio volta a poema — não deixa de
ser um regresso a poema, e ab initio. O processo parasita os
fundamentos, que logo se tornam o infundamentado — mas nunca de
forma decisiva —, da sua construção discursiva.
Ao mesmo tempo, a anáfora articula-se com a interpelação
que condiciona decisivamente o interpelado. Ele é um «eu»
objectivado, o exemplar hipócrita, semelhante e irmão,
da condição humana comum.
Afasia na elipse do sintagma verbal, que transforma o começo
no recomeço de uma continuação (E quando):
E quando o crânio
limpo de pele e nervos
as grandes órbitas vazadas
para a nenhuma forma
de mundo
e quando assim somente crânio
&c.
Negação contínua, multímoda, progressiva,
direccionada para um fim, que, quando se abre o dique do acumulado anafórico
(«e se»), produz como resultado a eliminação
de forma e diferença:
e se desligas o conjunto
o teu retrato aparece num charco
sem forma
limpo de pele e nervo, vencido à
luz de nenhum outro mundo.
A redução ao crânio parece incorporar autenticidade
e evidência. Trata-se de ver melhor o nosso «retrato em
sangue». Mas algo acontece ao «sangue», que não
poupa a evidentia. Ver melhor implica uma (des)realização
que é do mesmo passo uma (des)idealização. O retrato
é cimentado e gelado e o mesmo sucesso deve abranger necessariamente
o «sangue» no «retrato». Dessa sorte, uma verdade
que «vísceras» autenticam (o «sangue»)
acorre a um retrato despejado do «sangue», nem nosso mas
dos pais, nem dos pais mas dos pais dos pais, nem dos pais dos pais
mas da «vida» de que todos foram uns meros episódios,
diferenciações, e quão fugazes, de uma vanitas
— de umas formas de carne.
Finalmente, perde-se o retrato de toda a evidentia, como desaparecido
num «charco sem forma». Tudo isto, privilégios ainda
da arte, teria tido começo na representação em
privado de um crânio em cimento. A matéria típica
da construção civil é por seu turno uma representação
do crânio, a que o mesmo crânio, embora sem «pele
e nervo», não pode não falhar quando o poema encarreira
no aprofundar da negação. O cimento significa, vale dizer,
a matéria insusceptível às idealizações
da forma, que o mesmo crânio aqui representado pode não
garantir. O cimento é, portanto, mais crânio do que o crânio.
Obviamente, o cimento pode padecer de análogas complacências
da susceptibilidade.
Atalho enredos. Do processo intentado contra a humanidade via arte,
que é procedimento de supressão radical da forma, fica
o sujeito proferidor, e notoriamente. Esta «impossibilidade lógica»,
que o seu tanto resume as «impossibilitações»
anteriores é o próprio sujeito, «rosto» primeiramente
figurado no inerte «instável»:
ficar em balouço no extremo de uma
tábua
(…)
o retrato é uma escultura profundamente
instável
(…)
O osso sucessivamente dessubjectivado, e sem (forma de) representação
realmente boa, correlato objectivo da caveira, aparece-nos como o Dasein
do sujeito — e antes de mais pela sua transposição
mortificante, muito (anti)artística: o cimento grosseiro. O que
o fulano das artes escolhe para seu rosto é portanto o crânio
que não representaria nada, e logo não desviaria do Último.
Não traindo já uma interioridade, escapada pelas «grandes
órbitas» não vazias mas «vazadas», seria
a inexpressividade mais precavida do sentido. Presença imediada
e imediata (do espírito), por isso que é original e repele
a imitação e a glosa, trata de adquirir pelo avesso noções
que cabem todas nos precintos da «imortalidade do autor»
— mas é afinal o vazio do sujeito como blocagem2.
A redução ao crânio elimina portanto a interioridade
geradora do perímetro da forma. E esta minha leitura teria começado
pelo fim.
Ora a interioridade é ainda a alma como prisão do corpo
e não pode separar-se da dimensão institucional em que
existe uma figura como aquela daquele autor que é assim mesmo
imortal. O inerte instável para que se desvia o «retrato»
é uma figuração que resiste a esta da imortalidade
do autor (e da obra cimentada), as quais, todavia, por serem realidades
estabelecidas ex instituto não serão por isso
menos efectivas:
(…) E quando o crânio
for matéria imutável que desafie o
tempo conferido pela imortalidade
do autor
ainda o retrato é uma escultura profundamente
instável
A interioridade é exteriormente construída, por forças
apenas referidas em «retrato», «escultura»,
«autor» e «imortalidade», e implicitamente em
todo o ambiente de arte; mas é ainda o composto social-biológico
do sangue e do parentesco. Trata-se de uma cadeia nem sequer diacrónica
de interconexos, de certo modo parasitas da «vida», que
produzem um ambiente de forma, e que socializam na forma da forma sinais
de transcendência. As duas séries não convergem
de todo, nem somam algures num só vector. É sem dúvida
notável que seja num sistema vocacionado para a perenidade da
forma que se produza a verdade acintosa da redução da
forma ao «charco», e baixe luz alguma do céu inexistente.
Desligado do conjunto, o «retrato» desaparece, «vencido
à / luz de nenhum outro mundo».
O corpo que escapa à prisão de uma interioridade escapa
a uma interioridade que é um conluio de forças direccionadas
para a produção de forma, e tangled up in blue.
Escapa ainda como sujeito reduzido ao osso dessubjectivo e como algo
que, finalmente, não é possível figurar. O poema
responde a esse impossível com um «charco», que todavia
passou da «arte» à «vida» e do particular,
embora bom exemplo, à generalidade; e busca para última
palavra o «à luz de nenhum outro mundo», que é
negação radical, decerto, mas uma fórmula pessoana
— a qual regressa, por isso mesmo, aos domínios da «imortalidade
do autor» e demais parentela. Entretanto, a interioridade terá
ficado pelo que Foucault disse que era: «o efeito e o instrumento
de uma anatomia política» que ao corpo impõe os
retratos que o subordinariam a uma alma suspeitada (ou suspeita)3. O
pensamento «estrutural», que extrapola da forma vazando
o interior, nega a superfície do corpo à inscrição
dos sinais e promessas de resgate da alma que (sempre) falta. O inerte
instável torna-se antes o sinal, certo é que longínquo,
de toda a significação social atribuída em perpetuidade
à alma (e ao autor) — ou à arte ou à forma
(e, por isso mesmo, continuamente renunciada, seja por inteiro, seja
por uma ou por mais partes).
A arte que utiliza o cimento grosseiro recusa, pois, o estatuto de alma.
A relíquia fantástica vem mostrar a cegueira dos valores
«morais» configurados pela anatomia política e o
vazio do mundo que resulta da sua interpretação —
mas também, fatalmente, do arbítrio de toda e qualquer
anatomia. Na maldição dos parentes de sangue atinge-se
não apenas (e, claro, apenas por perspectiva) um estado de pós-forma,
mas de pós-natureza também.
Com efeito, nesse lugar de confluência — anatómico,
dir-se-ia — da natureza e da política que é a família,
e ao desligar-se o «retrato» da morfo-esfera que lhe dá
vida (leia-se ‘alma’), o que se recusa é o modelo
reprodutivo do moderno: individualidade procriando individualidade,
num movimento que procria, por sua vez, a conceptualização
do futuro4.
A forma que afirma sobre o corpo e contra o corpo a existência
em abastança de um «espaço psíquico»
interior afigura-se ao poeta uma impostura. A agressão à
forma pelo «interior» re-produz o osso da impossibilidade
lógica do sujeito e a extrema pobreza do corpo que se não
deixam, todavia, transcender pela alma. Dir-se-ia que a forma é
arguida, como toda a roupagem, de (fingir) fazer Um5. É o
editing invisível de todo o realismo — ou seja, de
toda a coerência — que o poema trata de expôr, confrontando
o sujeito, depois de despojado de «alma», com a sua impossibilidade,
constitutiva e originária. A mesma forma humana e os arredores
dessa forma seriam eliminados.
Recusa-se todo o encanto que, superveniente, viria animar o ordinário.
E para que o ordinário se diga como tal, sem verniz, diz-se ainda
mais que ordinário: brutalidade, grotesco e horror. A desvelação
depois do strip-tease do ser é a verdade do ser depois
que transformada a aletheia em cómico no escuro. A ultrapassagem
do «retrato» é, enfim, uma comédia negra,
exilada da comunidade, sem a reintegração, a reconciliação
ou o renovo característicos da comédia vegetal de que
Frye desenhou o arquétipo6.
A forma escavada até à caveira seria um procedimento algo
intencional, na medida em que se visa um sem-sentido intrínseco
que pudesse funcionar como uma estrutura formativa. Essa não
se ligaria, porém, a nenhuma idealização formal.
Não seria sequer funcional, uma vez que não integraria
a anatomia política enquanto núcleo agregador de fantasias
sociais. Estar-lhe-ia destinado, pelo contrário, o papel de representar
a realidade mais empírica — o grosseiro cimento capaz de
repelir e de escarnecer todas as fantasias e de sonegar ao homem a imensa
capacidade de escapar a «realidades perceptuais»: no caso,
a um percepto nu.
De facto, extirpada a forma, e esvaziado o ambiente formal, o fragmento
subsistente do humano tornar-se-ia um ícone que não existe
no espaço de representação e se colocaria para
lá de toda a coerência e de todo o verosímil7. É,
em fim de contas, uma crítica do «espectáculo».
Esta crítica, insista-se, negaria toda a lei, que, não
sendo mais do que forma de lei, aparece aqui como lei de formas.
Põe-se em causa a forma (e o formalismo) Nome-do-Pai, que se
deduz da sucessão das gerações para além
de carne e sangue, e que é a lei formal da cultura (das formas).
Por um lado, ela é perspectivada como nivelamento (e contemporaneidade)
de pais e filhos pela mesma condição de mortais, a qual
o sangue disfarçara, ao mesmo tempo que era o medium
de transmissão da mortalidade; por outro lado, ela é denunciada
como impostura, por isso que não existiriam vivos mas a Vida
que é suporte vital a que todos estão ligados como efémeros
parasitas:
o retrato é uma escultura profundamente
instável
que despejado do sangue dos nossos
pais, malditos pais, também eles caídos
de um suporte ligado à vida
e se desliga o conjunto
o teu retrato desaparece num charco
sem forma
limpo de pele e nervo, vencido à
luz de nenhum outro mundo.
O ser humano é um facto de tanatologia, insusceptível
de ser recoberto por significações sociais que não
sejam falsas. Na verdade, como o próprio poema mostra, é
pelo menos um ser em extremo susceptível a imagens. E, quer no
baloiçar do inerte primordial, quer na materialização
da presença humana como caveira, o poema, apesar do cimento,
não pode não significar-nos a irredutibilidade social
dessa presença. Em suma, o corpo renunciável significa,
e mesmo na grossa máquina da felicidade de onde não houvesse
caído para se esborrachar. E uma vez que não há
imagens, fantasias ou significados que não sejam sociais (por
isso que não podem não significar socialmente), o que
este corpo desligado do «interior» significa é o
reclamar de todas as significações sociais que foram canceladas,
renunciadas ou expropriadas pelas anatomias políticas que o subordinaram
ao «interior»8.
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1
João Miguel Fernandes Jorge, Não É Certo
Este Dizer, Lisboa, Presença, 1997, pp. 42-3. |
| 2
Cf. Slavoj Zšizšek, Le plus sublime des hystériques:
Hegel passe, Paris, Point Hors Ligne, 1988, p. 123. Venho falando
de «rosto», e com razão; não esqueçamos
que a «escultura» é um «retrato».
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| 3
Cf. Michel Foucault, Discipline and Punishment, trans.
Alan Sheridan, New York, Vintage, pp. 30 passim.
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| 4
Cf. Marilyn Strathern, After Nature. English Kinship in the Late
Twentieth Century, Cambridge, Cambridge University Press. |
5
Cf. Eugénie Lemoine-Luccioni, La robe. Essai psychanalytique
sur le vêtement, Paris, Seuil, 1983.
|
6
Cf. Gerald Bruns, Heidegger’s Estrangements. Language,
Truth, and Poetry in the Later Writings, New Haven, Yale University
Press, p. 187. |
7
Uma observação de género. Mesmo na forma da
negação mais extremada, o ‘homem’ é
o princípio activo da cultura. Cruza fronteiras, funda e
desfunda, diferencia e desdiferencia. A forma é substanciada
pelo género ‘fêmea’, sobre o qual se opera
como elemento no espaço do plot, topos,
inércia, matriz e matéria. Cf. Teresa de Lauretis,
Alice Doesn’t. Feminism, Seniotics, Cinema, Bloomington,
Indiana U. P., p. 119. |
8
Bloody Parents tem parentesco com This Be the Verse,
de Philip Larkin: «They fuck you up, your mum and dad. / They
may not mean to but they do. / They fill you with the faults they
had / And add some extra, just for you.». Philip Larkin, Collected
Poems, Anthony Thwaite (ed.), New York, Noonday, 1989. |
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