[2]
INSULAR ESSÊNCIA
Em Bellis Azorica (1999) são menos nítidos os
processos e os resultados da estenografia de Jorge. Em contrapartida,
os poemas dão corpo a um movimento silencioso e ordenado. O verso
faz o que pode — mas não é muito dizível
o que exactamente faz — para ter um sentido interno que escolhe
no mundo algumas muitas coisas certas. Frases, estenografia, fragmentos,
transcritos não reportados, modalizantes, os próprios
elementos erotéticos, configuram esse silêncio como «prévio».
Tratamos porventura com nomes próprios ou com nomeações
colocadas sob a égide de um nome próprio — Açores
— e com a sua transposição para título e
latim como figuras já da restrição de uso. Os nomes
próprios, escreve o Katz que examina as propostas de Kripke sobre
o assunto para as repudiar, possuem, tal como os substantivos comuns,
um sentido prévio à referência, mas, contrariamente
a estes, enquanto incorporam um requisito anafórico que assegura
a relação entre nome e portador do nome em termos lógico-gramaticais
anteriormente a qualquer uso, em si mesmos comportam ainda uma distinção
entre uso e menção que, em contexto, restringe o número
e a qualidade dos candidatos a portadores de um nome próprio.
(cf. Katz, 1994) Assim 'Açores'.
Não se trata aqui de dar Katz por confirmado nestes textos (ou
de usar, em fim de contas, eruditas verdades katzianas na análise
de práticas e exemplos característicos). O que diz Katz
ao comum é pelo menos tão verosímil como o que
diz Kripke. Mesmo correndo o risco de transformar estas partes da semântica
intensional do primeiro numa espécie de imaginário antropologicamente
estruturado, importa mais considerar que Jorge reconfigura os seus recursos
típicos através de uma noção até
aqui inoportuna, pelo menos para a crítica, lançando mão
de «fantasias katzianas» inscritas numa política
de novo modernista, que é restrição de uso.
Falo da nomeação poética. 'Aldeia' será
por esse modo um nome próprio, e que além disso precede
(sobre) a realidade açoriana onde não corre. A propriedade
dos nomes, algo «transcendental», parece dar-se a capacidade
de tratar — e, mais do que tratar, colocar — contingências
do mundo e fragmentos «de uma vida» naquele puro plano de
sentido interno, formal, reunido. Invocando a mediação
que iria das «enganosas artes» aos anjos de um mundo natural
(dos mares e dos ventos), o poema final de Bellis Azorica conclui:
«Tenho muitos fragmentos para reunir». (id.: 113)
Se isto é programa, a reunião será normativo
até aqui pouco menos do que ignorado. E é algum entendimento,
posto peculiar fosse, da propriedade dos nomes, o responsável
por uma poesia que destaca das práticas gerais de Jorge? Eu diria
que a propriedade é antes de mais uma figura produzida por uma
semântica, por uma pragmática, por uma métrica,
por uma sintaxe… O poema é já reunido através
de condicionantes de estilo inabituais: enjambement menos abrupto;
tendencialmente um só tema e com jurisdição quase
plena sobre os motivos; campos lexicais e semânticos partidários
de certos sentidos (ocorre-nos logo o próprio silêncio)
e esses encurralados debaixo da umbrela isotópica; concepções
tais como a da produção espontânea-natural do acontecimento;
movimentos nos arredores do símbolo, e à vista de Wordsworth,
entre um objecto e um sujeito, os quais são
constitutivos de um sujeito — e contemplação
reflexiva, por mediação do «símbolo natural»,
de algum outro e de alguma síntese. A «insular essência»
do sentido tem parte nesta como noutras figurações. Nestes
termos, o mesmo sentido pode ver-se até como ruído
regularizado. Em certos casos, subordinação e antonímia
não seriam relações que nele se discernissem ou
percebessem. Esse sentido é misteriosamente uma coesão
«natural» opaca, um instante suspenso, e não o que
aquelas relações se encarregam de reunir [hold together].
Tal parece o caso de «O Terraço da Casa da Caloura»,
que, além do mais e antecedendo imediatamente o «programa»,
se diria reflexivo dos vários textos e da variedade de textos
que pudemos ler antes, entregando-os todos porventura à suspensão
e ao silêncio, num acto poético entre todos oblativo. (id.:
112) Esse sentido figurar-se-ia numa coincidência do que é
mundo com a sua forma — num alheamento natural aos sentidos de
relação, das gramáticas do comum quer da língua,
quer crítica, quer da crença, os quais, todavia, estariam
muito longe de o repudiar enquanto poético. Em rigor,
o poema é uma capacidade de dizer inefáveis, apesar do
e pelo contraste com o que, sendo dito, está às avessas
de um dizer que seria por ele quase sucessivamente preterido. De notar
que o que pudera ter sido fragmentário é agora notação
perceptiva, vária mas assimilada a um cronótopo.
Eram oito horas da manhã quando abri as portas para o terraço.
Em frente o mar. O sol ia alto. Não distingui a luz e
a parte maior do silêncio — os cães ao longe.
Nem sequer uma nuvem.
Havia uma voz; uma voz distante e encerrada noutra parte
de lonjura; o ordenado batimento do teu pulso
sentido por um momento e logo perdido. O mar não tinha
qualquer sombra. As colinas detinham-se na linha da
terra. O mar não tinha superfície suavemente pousado
no extenso da sua forma — existe outro rosto outro
rosto da vida.
Um arco surgiu. Não se ouvia o ruído do motor não
se viam
remos — vidro ferido pelo sol. Sem velas, sem vento;
uma figura perdida, encarcerada a partir do terraço da casa.
Tudo podia esvaziar-se — o mar, a luz, a serenidade, o
uivar dos cães apaziguados com um prato de comida. E
o silêncio ninguém o anulava.
Restou a sensação de que a menor fissura levaria a água
arrebatando-a a norte e a sul, a este e a ocidente.
O «sentido» começa por ser enquadrado por circunstâncias
de tempo e, sobretudo, de espaço (pois o tempo é, como
o outro que diz, meteorologia). Toda a percepção situada
coexiste, contudo, com a inibição da percepção.
O surgir dos particulares é contemporâneo ou colocal da
sua ultrapassagem. A matéria denota rarificação
ou pouca densidade. Algo de análogo se passa com a temporalização.
Ritmos e sons introduzem a sua própria ausência: perde-se
o «ordenado batimento» de um pulso; e o fundo acústico
do espaço deixa apenas a noção de fundo: «os
cães ao longe» deixarão de ouvir-se, e a voz que
introduz a profundidade com o silêncio está, por razões
de indiscernibilidade de planos espaciais, «encerrada noutra parte
/ de lonjura». O todo englobante não declara limites
para lá dos quais houvesse algo. O espaço é uma
fusão «sinestésica» do ouvido e da vista para
ser uma espaço amplo: «Não distingui a
luz e / a parte maior do silêncio». O sol é
esta «parte maior»; e esta «parte maior» perdeu-se
do registo quantitativo, para ser antes o paradigma do silêncio,
a sua parte «régia». A ausência de sombra do
mar não distingue contiguidades e diferenças no espaço
amplo. Analogamente, o mar que não reflecte as colinas
que se detinham na «linha da terra» serve de exemplo
ao tipo de coexistência que se chama 'amplo' ou, por atenção
filosófica ao mar, res extensa. Tal como se elimina
a diferenciação pelo erradicar das «metonímias»,
assim os objectos não seriam ecos simbólicos
— «metáforas» ou «símbolos»
— uns dos outros. Extensão pura, acordo da forma com a
extensão, o mar «suavemente pousado / no extenso da sua
forma» não seria espelho: «não tinha
superfície». Daqui brotaria, porém, a lição
apolínea (e rimbaldiana ainda assim) — a lição
da arte — que é sempre sobre a vida: «existe outro
rosto outro / rosto da vida».
O «rosto» aparece aqui a propósito de espelho, e
apesar da negação deste. A afirmação abrupta
de existência derroga as condições que inibiriam
a sua produção por uma simples figura de retórica
— a epizeuxe ou reduplicação: «outro rosto,
outro rosto». Que esse rosto seja o da vida, que o não
tem, e produziu-se aqui uma «metáfora» cuja pertinência
reside nessa síntese — na Aufhebung carnal, identidade
e sentido — das coisas humanas que chamamos rostos. Assim, na
recaída da metáfora, o percebido do terraço seria
a unidade de um rosto; e os eventos em jeito incoativo daí percepcionados
não seriam mais do que a originação de uma plenitude
— colocação não prosseguida ou não
temporalizada, suspensa —, a qual é o resultado da sintetização
natural-espontânea de um «todo», de resto chamado
a significar o outro «rosto da vida». Como talvez
nos digam a repetição e o enjambement, estamos
diante de um contexto opaco, que depende de um desejo não verbalizado.
Na ocasião, não existe um rosto da vida outro-outro; deseja-se
que exista. Trazer o rosto tão conatural da nomeação
ao extenso que se diz percebido enquanto tal (e não
sem inverter uma linha de percepção interna ao percebido
tal que quem engloba seria englobado), tem a virtude estética
da colocação no mesmo plano da coisa e do juízo,
do natural e do símbolo, da paisagem e da vida (do extenso que
se exime ao sentido e do sentido que consagra o extenso), e ambos constatados
contempláveis. O que existisse enquanto tal declararia a existência
de um outro rosto da vida.
O poema recomeça a partir daqui, com um «arco»
que não é menos do englobar e da aliança que os
dos topoi a propósito. O poema regressa aos seus termos
como noutros domínios se reforçam e betumam argumentos
com hipóteses ad hoc. Não se vê ou se ouve
qualquer coisa situável. A existência, que (pela preferência
por «ninguém» em vez de «nada») devemos
entender como sendo a humana, não macula o extenso natural. O
mesmo agente humano, que poderia «encarcerar» o percebido
no seu ponto de vista, vai aparecer por reversão (espécie
de campo / contracampo) como o que é percebido pelo extenso.
Não sem o paradoxo topológico que se exerce sobre «o
ponto de partida», passa a integrar a série de tudo o que,
nos registos da vista, da audição e do ritmo, introduzem
o espaço e logo se perdem: «uma figura perdida,
encarcerada a partir do terraço da casa»1. A anulação
afirma o espaço como silêncio não anulável;
o espaço está firme consigo, bastado e idêntico.
Uma série de proposições, por assim dizer atómicas,
não reconhecidas embora como contraditórias, integraram
uma série caracterizada pelo facto de se excluírem mutuamente.
A simples existência suportaria toda a ausência: «Tudo
podia esvaziar-se — o mar, a luz, a serenidade, o / uivar dos
cães apaziguados com um prato de comida (…)».
Em rigor alógico, esse movimento é positivado como silêncio
que ninguém pode anular. A coisa extensa corresponde simbolicamente
ao sentido interno mas ilimitado da «ilhada essência»,
ao silêncio sem fissuras que é sentido (poético)
pela anulação do sentido discriminável (prosaico).
A suspensão epifântica do devir no mundo e no
sentido é sublinhada pela ameaça de precaridade, que não
pode não depender de um sujeito desculpadamente vestigial: «Restou
a sensação de que a menor fissura levaria a água
/ arrebatando-a a norte e a sul, a este e a ocidente». Ora, se
é possível resgatar o escoar final da plenitude lendo
pelo través da epifania, também pode argumentar-se que
o extenso é negação, por isso que diz duas opostas
coisas (o rosto e a dissolução do rosto); e pode ainda
suspeitar-se de que o «resto», mais original do que o silêncio,
esteja deslocado — que tudo isto, enfim, foi posto por alguma
angústia narcísica como sentimento de fim de mundo (ao
que se crê, mais solicitado pelos poentes do que pelos começos
do dia).
Digo que a epifania do natural é uma epifania da cultura como
congruência espacial. O natural pleno resulta de um «poder»
que desencadeia um processo pelo qual o mundo abandona todo o recheio
cultural até não ser mais do que a pura forma da cultura.
A epifania do natural é uma manifestação do nome
próprio 'Açores'.
O sentido com nome de 'Açores' regula restrições
de uso que reconhecem (como sempre em Jorge) contingências e particulares
de lugar. Nem tudo pode reivindicar o nome 'Açores', a não
ser o todo encaminhado para «sentido interno» desse nome.
O nome próprio é restringido a diferenças locais
(a ilhas) e é «símbolo» de várias
universalidades (históricas — e portanto perguntas),
entre as quais a portugalidade, a arte, a religião. condicionados
pela posição territorial periférica que um estado
pobre administrou e administra, os Açores são muito mais
o passado do que o presente ou o futuro, são muito mais ilhas
do que arquipélago — mas, por isso mesmo, são a
cultura portuguesa em «ilhada essência», aparentemente
alheada do político ou já dos seus dissensos. A menos
estado, mais nação.
Contra algumas aparências em contrário (cf. os independentistas),
a portugalidade não é escolhível — é
confirmada pelos terceirenses com o sngue. Nas ilhas, a cultura portuguesa
é percebida como coerência e como coerência do
lugar. Ilhas, história, cultura e rituais permitem ao verso
imaginar-se traçando fronteiras em torno de coerências
locais. Por outro lado, a portugalidade universal permite que o verso
possa capacitar populares açorianos, apesar da particularidade
local, para usar nomes que não têm. Nos Açores,
por pré-conceito de portugalidade, a Aldeia passa a existir («Entre
Fajãs»):
Entre a Fajã dos Cubres e a Caldeira do Santo
Cristo fica uma pequena aldeia abandonada —
eu sei, a palavra aldeia não faz parte da
geografia açoreana, mas é uma das palavras mais
perfeitas do português — (…)»
(id.: 111)
Nos Açores, o verso de Jorge pode ainda imaginar o que no continente
[Europe] porventura é muito difícil de imaginar-se:
uma cultura portuguesa que, distinguindo-se por uma «essência
ilhada», se acha disposta ao lado da natureza — em «aldeias»
— com a força de adesão de uma conveniência
étnica. É este um dos sentidos de «O Terraço
da Casa da Caloura»: interno, essência e local são
por assim dizer sancionados por um sentimento (quase meteorológico)
de fim de mundo. Não se pense, contudo, que nos versos de Jorge
este espaço que se diria preservado do «funcionamento»
ininterrupto do capital não é do nosso tempo. A «dissipação
do sagrado» — entendendo-se pela expressão a passagem
a património cultural-turístico de templos, quadros, narrativas
históricas, festas, rituais, casamentos, mortes e mesmo o espaço
extenso — é inseparável desta visitação
em que a própria natureza é visitada.
Esta portugalidade é em grande medida um passado de outros, visitado
e apreciado por segmentos — em versos. Neste contexto, o poema
de Jorge é uma paisagem estética cuja «fachada»
integra o vernáculo fragmentado das comunidades «primitivas»2.
A «paisagem» apresenta-se como traçando uma fronteira
— como ilhando — esses elementos vernáculos. Tornados
correlatos objectivos do poema, pondera-se-lhes a capacidade de reflectir
o universal — e permitem sopesar a corrosão do universal.
O verso afirma a tensão entre aquilo que seria localmente coerente
— e a arte, a cultura, a religião, que lhe aparecem antes
como incoerências do universal, forma e sombra de um desejo.
Na recaída dessa tensão, resulta mesmo a noção
de uma inconveniência entre cultura e natureza, não paliada
já pela portugalidade localmente reforçada. Creio ser
o caso de «As Tábuas da Paixão», texto talvez
afectado à partida por ser um (outro) caso em que a portugalidade
universal se encontra com o «falso» portador de um nome
próprio. Refiro-me aos painéis referidos no poema, que
é muito duvidoso serem de Cristóvão de Figueiredo3.
Foi aqui que encontrei a expressão «insular essência»,
de resto depreciativa.
No lago de Santa Cruz os patos recebem com pessimismo
o seu contributo para os assuntos humanos. O ganso, certo
da sua beleza, inspecciona a validade que não têm os poetas.
Mais parece o ganso um cavaleiro da autonomia,
ao grasnar as leis
da história ou da cultura a insular essência — o
ganso
perde-se no reflexo das águas do tanque, as melhores casas
da vila dominam na inversão da imagem.
Argumento e rigor, os degraus que conduzem patos e ganso à
superfície espelhada; e no centro da ilha, à escura lagoa
— certeza, claridade, o temor de fugir.
(E chegámos ao fim do século na mais que perfeita ilha.
As
ruínas de Delos têm o mesmo sentimento. Ao redor, campos
de
extermínio — o mar.)
O anjo ainda se percebe na amarelecida tábua
que menos hábil mão pintou. Não é um anjo
músico, mas
pertence-lhe a voz que vai narrar a Paixão (talvez mal
atribuída) de Cristóvão de Figueiredo: tábuas
enegrecidas,
as mãos que do alto do lenho protegem a terra,
já sem força. Oh Gólgota, funesto
Gólgota! As figuras, pelo sofrimento, juntam-se muito e
a respiração traz-nos maior dor. O gesto, a mão
direita
voltam-se para um céu de chumbo. Braço e todo o corpo
caem, em abismo. As mulheres escutam
a pedra, pesadas armaduras, a corda, o madeiro; uma vara
de metal ergue-se para ferir, rasgar, romper nenhum
símbolo: Cristo está privado do seu poder, da sua glória.
Resta-nos a contingência, época obscura, perigosa:
também o homem é uma espécie natural. Os patos
estão
no meio do lago; se tivesse inconsciente descobririam a humilhante paixão?
(id.: 48-9)
O poema começa por dar-nos uma imagem da cultura como coerência
do lugar: na ilha «mais que perfeita», e no centro da comunidade
(«no largo de Santa Cruz»), a natureza é integrada
à cultura por um reflexo altamente selectivo, a que a arte humana
conduz como «argumento e rigor»: «as melhores casas/
da vila dominam na inversão da imagem». Analogamente ao
que acontecia no poema «O Terraço da Casa
da Caloura, a «insular essência» da portugalidade
na Graciosa é da ordem de um oracular a que não falta
convicção [ Del(f)os e o «fim de século»].
A cultura nacional limitada à e pela Graciosa é, além
do mais, um reduto preservado do exterior: «Ao redor, campos de/
extermínio — o mar»).
Regressando aos patos e ao ganso, com que o poema começa, diria
que, sendo alegorias dos poetas e do crítico (ou já do
político), é muito interessante que este, na sua arrogância
narcisista, dê voz (grasne) a uma concepção da autonomia
da poesia e da cultura, que se faz sofrer de leavisite: a coberto
da beleza, a poesia e a cultura seriam a destilada essência da
história e da cultura, que justificam a autonomia política.
Já os patos se diriam escolhidos para alegorizar o que alegorizam
em função de serem, de seus, assaz desajeitados. Os patos
não se acham legisladores da humanidade. São ditos, a
esse respeito, «pessimistas». Parece ainda que, por acréscimo,
a coerência cultural só pode constituir-se como forma e
harmonização formal sobre o sacrifício do «ganso»;
«o
ganso/ perde-se4 no reflexo das águas do tanque»5.
O ganso separa-se da comunidade, mas esta (auto-)exclusâo é
formal. O sacrifício do ganso grasnador é justamente a
condição que subjaz ao pôr em forma da «insular
essência» da cultura; e os patos mudos, que por modestos
não reivindicam a beleza, configuram, afinal, a concepção
que Leavis oferece da cultura regulada pelas leis da autonomia poética
— em tempos de cultura de massas, os agentes culturais reivindicam
um magistério de influência, constituindo-se em sociedade
secreta6. Desprezando, dir-se-ia, as supostas «leis da história»,
e realmente recalcando as figuras políticas do dissenso.
A segunda parte do poema tem como seu núcleo um pedaço
de poesia ekfrástica (uma das especialidades de Jorge),
e com ela ocorre o «oráculo». Jorge substitui-se
ao anjo não músico, que narra a Paixão. Na perspectiva
do universal — à sombra da religião —, seremos
agora abandonados à natureza. A verdade simbólica do correlato
objectual só se mantém em negativo. Actualizado o quadro
(cf. o sistema verbal no presente), desemboca-se numa acção
onde o encarniçamento e a violência em absoluto contrastam
com a inanidade dos resultados: «uma vara/ de metal ergue-se para
ferir, rasgar, romper nenhum/ símbolo». A restrição
do narrador ao painel em que Cristo aparece num momento em que é
apenas humano («Cristo está privado do seu poder, da sua
glória») dá-nos assim o oráculo adequado
«ao fim do século». A lição do «nenhum
símbolo» é: «Resta-nos a contingência,
época obscura, perigosa:/ também o homem é uma
espécie natural.» A fórmula lembra Hõlderlin
e o início de «Patmos» (curiosamente, um poema não
do «funesto Gólgota» mas do Pentecostes):
Mas onde há perigo, cresce
também o que salva.7
A perda de necessidade por falência do simbólico é
assim acaracterística da época em que vivemos. Parece
haver uma relação entre os dois enunciados, tal que o
primeiro denota um estado de coisas que estaria na origem do estado
de coisas denotado pelo segundo. Somos «também» uma
espécie natural porque o que fazemos não «fere»
símbolo nenhum. Todavia, esta nossa «paixão»
não nos salva no natural de que nos distingue — dos patos
que estão «no meio do lago» —, na medida em
que é «humilhante». Que a percepção
do humilhante exija aos patos o que os patos não têm —
inconsciente —, e ser-nos-á talvez dito deste modo (o que
é obra de curto-circuito e torcer para o avesso) que decaímos
do símbolo e do universal à condição humana
«natural» como a uma ferida narcísica. Nesta perspectiva,
sentido interno, insular essência, ou coerência cultural
ordenada ao lugar, autonomia poética ou autonomia política,
dão-se a perceber como construções «ptolomaicas».
E o mundo volta ao devir pelas suas fissuras remendadas8.
[trad. de F.C.]
Bibliografia
Hôlderlin, Friedrich
(1991) Poemas, trad. de Paulo Quintela, Lisboa, Relógio
d' Água.
http:/www.geocities.com/TheTropics/2l40/graciosp.html.
Jorge, João Miguel Fernandes
(1999) Bellis Azorica, Lisboa, Relógio d' Água.
Katz, J.J.
(1994) «NamesWithout Bcarers», The Philosophical Review,
103.
Seis Séculos de Pintura Portuguesa — Catálogo Cl,
http: // www. uc. pt /artes/6spp/c2.html.
Zukin, Sharon
(1991) Landscapes of Power. From Deroít to Disneyworld,
Berkley, University of Califórnia Press.
|
Deposição
de Cristóvão de Figueiredo.
Imagem
descarregada de www.uc.pt/artes/
|
| 1
Não ignoro a possibilidade de que esta figura seja o «barco»
— gramaticalmente eliminado através da substituição
por hipónimos seus —, e que ele esteja portanto «encarcerado»
na perspectiva com origem no terraço. Todavia, a possibilidade
não tem grandes consequências; no poema continuaria a
dizer-se o abandono da perspectiva no espaço amplo que abriu. |
| 2
Estabeleço uma analogia com a transformação da
zona baixa das cidades norte-americanas e europeias (metrópoles
e não metrópoles) que vai no sentido do enobrecimento
urbano. (Cf. Zukin, 1991) |
| 3 Pintor
«primitvo» quinhentista, português. [Dos seis painéis
da Igreja de Santa Cruz, na Graciosa, o sexto tem por tema o Pentecostes
— desce o Espírito Santo sobre a Virgem Maria, as Santas
Mulheres e os Apóstolos — e os cinco restantes «narram»
a Paixão: Caminho da Cruz, Reposição
da Cruz, Calvário, Invenção
da Cruz e Exaltação da Cruz. (www.geocities.com/The
Tropics/2140/graciosp.html) — N. do t.] |
| 4
A sorte de Narciso, gramaticalmente, não anda longe dos usos
de 'perder' que nos aparecem em «O Terraço da Casa da
Caloura». |
| 5
Aquém e além da alegoria: a contribuição
mais óbvia dos patos para os assuntos humanos, e daí
um compreensível «pessimismo», reside no fornecimento
aos ditos humanos da sua carne como alimento; e este facto é
restituível como sentido simbólico na equiparação,
que o poema permite, entre os patos (os poetas) e Jesus Cristo, o
qual, tendo contribuído outrossim para aqueles assuntos com
a sua carne, bem poderia ser igualmente «pessimista». |
| 6
Assumiriam, não a reconhecendo, a sua real condição. |
| 7
Segue-se a tradução de Paulo Quintela. (Holderlin, 1991:407)
[N. do t.] |
| 8
O poema não aceita a política do «narcisismo cultural»
que identifica na «autonomia» de que o ganso seria o «cavaleiro»;
mas, aceitando a ordenação local da cultura —
alcançada sobre o (auto-)sacrifício do «ganso»
—, coloca-se na situação de submeter esta outra
«autonomia» a uma ferida narcísica, por já
não tutelada pelo «universal». |
|