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A ÚLTIMA HORA DO DIA
O poema «A Última Hora do Dia» (Jorge, 1997: 71-2)
é um texto bastante longo, suspenso de um onirismo inquietante.
O sujeito da enunciação está muito realisticamente
sentado numa estação de caminhos-de-ferro, à espera
e sem pertences, como em férias, rodeado de cestas de viagem.
Subitamente, no mesmo plano, dir-se-ia que ali, está
também um leão de quem sucintamente se diz ser trespassado
na carne por flechas numerosas. A intromissão deste S. Sebastião
no mundo real é da espécie da inquietante estranheza.
Se por um lado, alheio a esta presença, o mundo continua, o facto
é que continua agora no vazio escuro da estação,
onde mais parece que as pessoas fazem por alhear-se do leão e
umas das outras. A descrição objectiva e não comentada
do leão é interrompida pela redescrição
da estação, após o que surge a última frase
da estrofe, frase nominal, que pertence (eu sei) ao universo semântico
do leão: «Na mão esquerda o cálice com o
dragão». A segunda estrofe põe em cena alguém
à beira-mar. É um mundo parado e nocturno, com anjos de
paz, saídos de ingénua representação a «ajuda
[r] o tumulto das nuvens».
Regressa na terceira estrofe o sujeito da enunciação,
talvez no comboio que «abre caminho entre silvados» e chega
não numa estação mas «numa grande árvore
carregada de maçãs». Não seria exactamente
um jardim o que quer que fosse mas «os restos de um corpo»
onde tu viveste, há muito tempo. O regresso ao Éden
é uma visitação de restos. O «unicórnio
de metal» está para lá de um espaço tomado
de assalto por urtigas e roseiras bravas, num «labirinto de sombras
e buracos».
A quarta estrofe leva-nos para um mar onde um barco, humanizado talvez
por elipse gramatical, navega à deriva, apanhando objectos, olhando-os
e lançando-os à distância. Um comentário,
que é uma interpelação aos que lá não
estiveram, e que os afasta da «armadura dos meus sonhos»,
afasta-nos também do plano do mundo descrito. Quando a este se
regressa, o «ele», coisa ou pessoa de quem se fala, pode
já não ser o barco, mas, por exemplo, o «leão».
Quem quer que seja, «olha-me nos olhos» e eu «não
escondo que para ele é sempre inverno». Daí que
«ele», provavelmente já não o leão
mas o sujeito da enunciação na perspectiva de outra enunciação
(poeventura da dos que, não tendo estando lá, não
viram «armadura dos meus sonhos») — daí que,
dizia, ande a contar
(...) todas estas mentiras e dragões
e unicórnios são coisas que não há
também tu.
É possível que estejamos perante um diálogo reportado
sem marcas de transposição, caso em que aquele que não
acredita em «mentiras», como descrente da imaginação,
existiria tão pouco ou ainda menos do que unicórnios e
dragões.
A última estrofe começa por trazer-nos de volta o sujeito
da enunciação, o qual seria o sujeito da explicação
de tudo isto que «tão mal» explica. Declara-se, sem
transição, a preferência do «deus cantor»
pela «última hora do dia». E deixa-se supor que esse
deus cantor tem uma existência de passado («preferia»).
A «última hora do dia», hora de transição
entre mundos, conduz-nos à nursery, com o recolher dos
brinquedos aos armários, e com a ama que «lhe» contava
histórias. Ao resumo, tipo enumeração-bazar, das
histórias da ama seguem-se duas inquietantes declarações
de existência, que contrastam com o quotidiano que remata o contado,
e o poema termina:
e a ama lhe contava histórias «quatro homens
e duas
mulheres um toca alaúde e sobre a mesa um frango
assado e pastéis». O clarão de uma serpente.
O comboio corre a fornalha subterrânea da água.
Ora, deve dizer-se que a qualidade onírica de um texto quase
surrealista, discretamente regido por uma subjectividade sonâmbula,
é também, no entanto, a qualidade de uma antologia comprimida
que é um facto de arquivo — de um «sistema geral
de formação e transformação de enunciados».
(Foucault, 1976: 130) De facto, o poema de Jorge corrobora perfeitamente
a hipótese da existência de algo como «regras de
uma prática que ao mesmo tempo possibilitam a sobrevivência
de enunciados e a sua submissão a modificação regular».
(id:. ibid.)
O poema é uma história caleidoscopicamente configurada,
em que palavras e matéria provêm dos livros de Narnia,
um dos clássicos da literatura infantil.
As maçãs desempenham um papel importante em O Sobrinho
do Mágico: Digory planta a macieira que protegerá
Narnia e uma maçã curará a sua mãe na terra.
O leão que «recebe numerosas flechas» é Aslan,
morto, sem figuração sebástica, como o Cristo que
é (O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Fatos). Entre
as cenas mais impressivas da série está o olhar nos olhos
que Aslan exige (e a Feiticeira Branca não o olha exactamente
nos olhos). Figurações do Éden e de Narnia ao abandono
acontecem também. A serpente terá em Narnia o seu «arquétipo»
— na feiticeira branca, ou na cobra que governa o reino subterrâneo
(O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Fatos e O Trono
de Prata). O barco humanizado evoca um pouco o Companheiro
da Alvorada.
O problema de contar mentiras de «unicórnios e dragões»
põe-se com Lucy em quem os outros a princípio não
acreditam; e com Edmund que nega a verdade por «amor ao inverno»
com que a Feiticeira Branca cobre Narnia até ao triunfo de Aslan.
O velho professor põe em causa o princípio segundo o qual
as «coisas reais existem sempre» e acorda as crianças
para a possibilidade de haver «outros mundos por toda a parte,
e mesmo aqui pertinho». (O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Fatos).
A última das sortidas ao mundo paralelo de Narnia acontece através
de um acidente ferroviário onde perecem os heróis (A
Ultima Batalha); e O Príncipe Caspian começa
assim:
Era uma vez quatro crianças que se chamavam Peter,
Susan, Edmund e Lucy e que, como já foi contado no livro O
Leão, a Feiticeira e o Guarda-Fatos, tiveram uma aventura
extraordinária. (...) Tudo isto ocorrera um ano antes e agora
os quatro estavam sentados num banco de estação de caniinho-de-ferro,
com grandes malas de viagem e cestas empilhadas à sua volta.
(...) A primeira parte da viagem, enquanto iam todos juntos, parecia-lhes
sempre pertencer ainda às férias (...) (Lewis, 1995:9)
Nos capítulos seguintes, encontraremos a macieira e a muralha
de pedra:
Subiram a custo a margem íngreme, abriram caminho
por entre silvados e viram-se à volta de uma velha árvore
carregada de grandes maçãs de um amarelo-dourado, tão
rijas e suculentas que dava gosto ver. (...)
— Que é aquilo? — perguntou Lucy, apontando em frente.
— Por Júpiter! — exclamou Peter — É
uma muralha. Uma velha muralha de pedra. (...)
— Isto não era um jardim — disse Susan algum tempo
depois — era um castelo e aqui devia ser o pátio.
—Tens razão. Sim, aquilo são os restos de uma torre
— confirmou Peter. — E tudo o que está ali era em
tempos um lance de escadas que ia até ao cimo da muralha (...)
— Há séculos, ao que parece — disse Edmund.
(id.: 18)
Na verdade, o lugar era Cair Paravel, onde séculos antes tinham
sido reis de Narnia.
Surge também o barco com que se pescam «pavandras, um belo
peixe cor do arco-íris» (id.: 35). O inverno perpétuo
é criação maléfica da Feiticeira Branca;
e «Se vocês estivessem lá estado» é
uma fórmula do narrador desta matéria infantil, que cito
de O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Fatos: "'Se
vocês estivessem lá estado, teriam visto o luar a incidir
num velho tronco de árvore e num pedregulho de um tamanho razoável.
Mas, se continuassem a olhar, etc. (id., 1994:117)
Transcrevo agora o poema:
A ÚLTIMA HORA DO DIA
Estou sentado num banco de estação dos caminhos-
-de-ferro com grandes malas de viagem e cestas
empilhadas ao meu redor, mas nada disso me pertence;
o que possuo cabe num bolso do casaco e uma viagem
de comboio é sempre tempo de férias.
Com algo mais de meia figura, atado a um tronco, o
leão recebe numerosas flechas que lhe ferem a carne;
ninguém se despede e todos seguem por caminhos
diferentes: era uma estação vazia e escura,
na plataforma grandes malas enormes cestos quase
ninguém. Na mão esquerda o cálice com o dragão.
Tem as mãos cruzadas sobre o peito
à beira de uma praia, um mar muito calmo cobre a
areia; de pé sobre o crescente da lua, com uma
ondulação tão ligeira
nuvens e cinco anjos, dois deles levam açucenas e
rosas e para além da areia branca trazem palmas
ramos de oliveira
e ajudam o tumulto das nuvens.
Sentia sede como costumava acontecer na água salgada.
O comboio abria caminho por entre silvados e parava
numa grande árvore carregada de maçãs.
Cheguei à muralha; não é exactamente um jardim,
são os restos de um corpo e nele viveste, há
quanto tempo foi isso! Mas se voltares o rosto para
o fogo ainda poderás ver, para além da pedra
o unicórnio de metal,
um labirinto de sombras e buracos cheio de urtigas
e de pálidas roseiras bravas.
Na foz do grande rio
o barco navegava à deriva, em pleno mar apanhava
objectos e olhava para eles e lançava-os à distância
como quem perde velhos amigos. Se vocês tivessem lá
estado veriam a armadura dos meus sonhos
as primeiras estrelas a aparecerem no céu e
nenhum podia ir deitar-se com um mistério destes por
arder. Olha-me nos olhos
não escondo que para ele é sempre inverno
por isso anda a contar todas estas mentiras e dragões
e unicórnios são coisas que não há
também tu.
Estou a explicar tudo muito mal. O deus músico
preferia a última hora do dia
quando os brinquedos voltavam para os armários
e a ama lhe contava histórias «quatro homens e duas
mulheres um toca alaúde e sobre a mesa um frango
assado e pastéis». O clarão de uma serpente.
O comboio corre a fornalha subterrânea da água.
O que detecto desta colagem (e o mais que detectasse) não elimina
a desassossegada estranheza do conjunto. Pontualmente perspectivado
de fora por um princípio de explicação («quando
os brinquedos voltavam para os armários») e pontualmente
perspectivado de dentro («a armadura dos meus sonhos» que
não é a armadura sonhada, mas uma atribuição
aos sonhos da irredutibilidade fundadora de um segredo), o conjunto
qua conjunto é afinal uma perspectiva como uma mónada
o seria. Entre o clarão de uma serpente e o comboio que «corre
a fornalha subterrânea da água» volta a caber um
todo inexplicável, de contrários coincidentes, sustentado
por um contínuo e um movimento — apesar da infância,
enigmático e inquietante.
Os símbolos estão nos dicionários. Fico-me pela
paráfrase.
[trad. de F. C.]
Nota do tradutor
O tradutor seguiu a recente tradução portuguesa dos livros
de Narnia.
Bibliografia
Foucault, Michel
(1976) The Arcbeology of Knowledge and the Discourse on Language,
trans. A. M. Sheridan Smith, NewYork, Harper and Row.
Jorge, João Miguel Fernandes
(1997) Não É Certo Este Dizer, Lisboa, Presença.
Lewis, C. S.
(1994) As Crónicas de Narnia. O Sobrinho do Mágico,
Lisboa, Gradiva.
(1994) As Crónicas de Narnia. O Leão, A Feiticeira
e o Guarda-Fatos, Lisboa, Gradiva.
(1994) As Crónicas de Narnia. O Rapaz e o Cavalo, Lisboa,
Gradiva.
(1995) As Crónicas de Narnia. O Príncipe Caspian,
Lisboa, Gradiva.
(1995) As Crónicas de Narnia. A Viagem do Companheiro da
Alvorada, Lisboa, Gradiva.
(1995) As Crónicas de Narnia. O Trono de Prata, Lisboa,
Gradiva.
(1996) As Crónicas de Narnia. A Última Batalha,
Lisboa, Gradiva.
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