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UM BARCO NA MANHÃ
O poema «Um Barco na Manha» (Jorge, 1997:105) começa
com um evento que tem a forma de uma epifania. Algo acontece «de
repente». De repente, parece ao sujeito da enunciação
que se acha identificado com «o mecanismo/ dos estores do [s]
eu quarto».
A identificação não é da ordem do estar-se
ciente de uma coisa que habitualmente não nos é mais do
que o seu mecanismo, e de que habitualmente nem precisamos de estar
cientes, de tanto que no nosso quotidiano não se faz notar, desde
que funcione. Não vemos os estores. Não são uma
expectativa, mas uma expectativa desde sempre satisfeita. Essa identificação
é antes mimética. Tudo o que é da ordem da inquestionabilidade
do meu espaço (e trata-se do «meu quarto») desliza
para a assumpção de uma forma nesse espaço que
é uma forma do imperceptível característico desse
espaço. A partir daí, o que não percebemos torna-se
o mecanismo mesmo da percepção que por dentro coincide
com todo o perceptível, enquanto, e sem mais, apenas perceptível.
Em princípio, a epifania não arrasta o sujeito para a
percepção do que estaria ocultado atrás da normalidade
desse espaço. Não se tem mais do que a experiência
da normalidade desse espaço, a partir do ponto de vista dos estores.
Ou antes, e de uma forma mais imediata: os estores e o sujeito são
compossíveis, e o espaço é uma extensão
do que seria a sua perspectiva.
De algum modo, a experiência epifântica é um pôr
em cena do princípio idealista esse est percipii. O
estore (aliás, a «lâmina») parece uma forma
privilegiada para figurar o espírito: menos objecto porque, dependendo
da posição, é mais superfície e mais linha.
O mecanismo dos estores engendra, gera e procede à gestão
dos espaços.Tal como o estore «central» guarda todas
as outras lâminas, assim o mesmo estore oculta «todo o espaço».
A existência do espaço depende de um como abrir e fechar
de estores, que obviamente lembra o abrir e fechar dos olhos.
Eis o poema:
UM BARCO NA MANHÃ
De repente pareceu-me que estava
identificado com o mecanismo
dos estores do meu quarto. Era uma dessas estreitas
lâminas e o meu espaço
engendrava os espaços das outras lâminas
e o que na verdade existia era a multiplicação
dos espaços, cada um deles continha,
implicitamente, todos os demais. Fui,
nessa manhã, estreitíssima lâmina, alumínio
que guardava todas as outras lâminas — espaço
entre os espaços, todo o espaço
eu ocultava, como
quem passa o fogo entre dois fogos, um barco
na manhã retrocede sobre as ondas — todas
as lâminas do mar.
(Jorge, 1997: 105)
Quando Jorge escreve que «Era uma dessas estreitas/ lâminas
e o meu espaço/ engendrava os espaços das outras lâminas»,
suponho que não se refere a lâmina ao espaço que
ocupa, mas ao espaço que contém (o «meu espaço»),
e que passa ainda por ali a noção de intervalo. O que
se segue é regido por uma correcção. «O que
na verdade existia», escreve Jorge, é a existência
«mística» ou «matemática»
de todos os espaços em cada um dos espaços. Cada espaço
de cada lâmina seria uma mónada, uma perspectiva total
e singular que contém o todo enquanto conjunto de todas as outras
perspectivas totais e singulares: «o que na verdade existia era
a multiplicação/ dos espaços, cada um deles continha,/
implicitamente, todos os demais»1. Durante toda a manhã,
o sujeito foi então «estreitíssima lâmina»,
expressão onde é de registar a desmaterialização
do «estore» em «lâmina». A troca metonímica
do objecto pela forma desespecifica o objecto, que se torna, em contrapartida,
um nexo genérico; e o superlativo aproxima o resultado da «forma»
de objectos mentais como o «conceito».
A substituição metonímica continua, todavia, com
apenas a pausa de uma vírgula. O objecto é agora trocado
pelo material, e inegavelmente para ser mais objecto. Não se
é apenas «lâmina», mas «alumínio».
O estado «espiritual» a que se chega por figuração
numa descorporação do sujeito parece rever-se e até
comprazer-se não tanto no objecto mas no que neste, sendo ele
alumínio, figuraria a essência da objectualidade. Com efeito,
o alumínio é o exemplo que parece corresponder a um conhecimento
absolutamente profano, inespecífico do objecto. O alumínio
não atrairia, não teria saliências nem propriedades.
É uma pura função, um neutro no espaço.
Esta necessidade (digamos, necessidade) da identificação
do espírito com o objecto neutralizado em objectualidade tem
que se lhe diga. O que se pode já assinalar é que a troca
da lâmina pelo alumínio de que é feita exprime a
identificação com uma forma não transcendente,
e que o alumínio é uma mera materialidade — uma
«racionalidade» que substitui os materiais.
Então, enquanto «alumínio», e durante toda
a manhã, o sujeito da enunciação foi a lâmina
que guardava todas as outras lâminas — e, «espaço
entre espaços (compossibilidade), «todo o espaço
/[...] ocultava».
O poema acaba com uma ambiguidade típica de Fernandes Jorge.
A comparação surge em fim de verso com enjambent,
de modo que se insinuam duas leituras simultâneas:
(...) espaço
entre os espaços, todo o espaço
eu ocultava, como
quem passa o fogo entre dois fogos, um barco
na manhã retrocede sobre as ondas — todas
as lâminas do mar.
Pode ler-se que ocultar todo o espaço é como quem passa
o fogo entre dois fogos, ou que um barco retrocede sobre as ondas como
quem passa o fogo entre dois fogos. A simultaneidade das leituras é
coerente com a pequena monadologia poemática, a qual é
substanciada ainda com a atribuição das «lâminas»
às ondas do mar. A continuidade «leibnitziana» dos
espaços e das matérias, do interior e do exterior, faz
do poema o equivalente de uma representação escheriana.
Proponho agora que voltemos a este «Barco na Manhã»
na suposição de que persianas, lâminas e alumínio
são estranháveis em contexto de lirismo. A minha segunda
proposta de leitura será uma extensão da primeira, depois
de conduzir esta 'A um ponto de reversão. A primeira
proposta de leitura é que não vejamos o poema, mas o que
nele se figura, como objecto de «arte». Neste passo, pode
ajudar-nos (ajudando-nos a traçar as linhas de um contraste)
a noção de «artisticidade» que Adorno, na
Teoria Estética, põe em destaque como designando
a «verdade artística». (cf.Adorno, 1970)2 Nestes
tempos, em que, desde há muito tempo, «nada do que se refere
à arte é evidente», a começar talvez pelo
«seu direito a existir», (id.: 9) não seria
talvez muito de estranhar o parecer a alguém com dotes artísticos
que esteja identificado com os estores do seu quarto. Pois não
persegue assim a arte, enquanto anti-arte [Anti-Kunst], a sua
legalidade imanente, renegando o princípio da realidade e a norma
da comunicação, de modo a que, fiel depositária
de uma contra-imagem social, possa funcionar como lugar-tenente [Statthalter]
da utopia?
Na verdade, utopia, e perto do sentido etimológico, é
o que se passa com o espaço. E o barco, arquétipo de todos
os barcos para todas as Ítacas, é bem uma imagem da utopia.
Joga a sua sobrevivência num romper de barreiras («passa
o fogo entre dois fogos») e renega da realidade e do ideal de
comunicação, pois não só passa o fogo entre
fogos, como retrocede. Mas o barco que retrocede é acrescentado
ao poema por um equívoco.
E até que o barco venha, o interior [Inneres] do concreto
artístico foi ocupado por uma força de objectivação
exterior, um «monumento low tech», tão familiar
que não era fitado já por nenhum olhar intencionante;
que assimila/parodia a mediação interna da obra de arte
ao integrar a humanidade ao objecto. O sujeito é assimilado aos
estores, ao invés de, enquanto artefacto, o evocarem os estores.
Como vimos, o sujeito só se perspectivava espírito enquanto
alumínio, ou seja, enquanto banalidade objectual. E enfrenta
esta arte que problema levantado pelos avanços do «material»?
Comecemos por repetir que aquela força deflui mais de um objecto
do que de um artefacto.
1) Ronda, ao menos, pela equipolência entre criação
e selecção, parecendo ser por isso da ordem do ready
made,
2) É um objecto esquisito, pois não é mais do que
uma superfície (lâmina) e é-o tanto mais quanto
subsiste sem marcas de artesania,
3) Como forma simples, i. e., integridade sem sentido e sem transcendência,
o objecto poupa ao sujeito a divisão. Paralelamente, o mecanismo
integra as falhas (lâminas) num contínuo,
4) Como «monumento low tech», o objecto é
gerado mas não criado. Não tem forma de cultura,
5) O objecto é um gerador/gestor de espaços, que economiza
para o artista a dimensão física, a qual portanto não
resgata como «nobre» (corpo, e sobretudo a mão),
6) A lisura do objecto, não marcado e não marcável
(lâmina e alumínio) nega signos, símbolos e imagens,
e expande-se em replicabilidade «inerente» (um estore /
vinte estores intermutáveis / mecanismo). À ausência
do acidente corresponde a presença plena de um automatismo,
7) O objecto tem, portanto, um estatuto modular e serial. A compossibilidade,
o que se diz em termos de guardar e ocultar, e a noção
mesma de mecanismo, figuram a existência interna a uma obra de
uma parte (uma forma modular) que se repete em sucessão regular,
8) É uma escultura não apenas situável no espaço,
mas que tabula o espaço — todo o espaço —
e que, no entanto, tem as formas básicas da pintura: as duas
dimensões da flatness, com, por acréscimo, e
dependendo da posição, a linha que é o ser conveniente
à ontologia dessa flatness. Uma outra observação
a fazer seria esta: como lâmina não ocupa espaço,
mas, como quem diga de alguém que esse alguém lhe toma
tempo, enquanto mecanismo de lâminas toma o espaço
(na verdade, o poema, de algum modo, descreve esta escultura como espaço),
9) Os estores são uma catarse mecânica, acelerada em «cascata».
Situam os efeitos da catarse antes de toda a catarse, na medida em que,
como se vê no poema, a sua existência é
contemporânea e colocal do cubo do quarto esvaziado. Lembrar-se-á
(i) que o quarto nada contém, nem sequer o sujeito, (ii) que
o sujeito é uma superfície, (iii) que o quarto é
esvaziado em espaço, e (iv) que o mar em que o quarto se «transforma»
é o espaço,
10) Co-emergente do «objecto», encontramos um medium
que se esgota na sua operatividade. Essa operatividade-em-si é
a pureza acrítica do medium,
11) Este objecto é indissociável do quarto. O quarto ocupa
nitidamente o lugar da sala de exposições. Evento num
quarto, o objecto é arteem regime de situação,
12) Colateralmente, o conjunto lâminas / quarto é um pouco
à escolha (i) uma máquina fotográfica «completa»,
(ii) um teclado ou uma tipografia que escrevem/entre-têm espaço,
(iii) a máquina psíquica, cujo programa é um mecanismo
enamorado da repetição modular, e capaz de fazer rewinds
(o barco retrocede),
13) A situação implica uma experiência da arte (nestes
seus objectos), transcrita para a forma da epifania e da assimilação
do espectador pelo objecto,
14) Essa experiência é a da objectividade como intranscendência
do objecto; a da inexaustibilidade do objecto em situação,
porque nada há que exaurir; a da apresentação de
uma «duração indefinida». (Fried, 19952:143-44).
Quando a tipologia das lâminas se estende ao mar, ou seja, a todo
o espaço, o objecto em situação afírma-se
inesgotável; quando o barco (restituída presença
humana, agora englobada por ou implicada nesta experiência) «retrocede»,
o indefinido experienciado parece ser não já da objectualidade
mas do tempo, do «tempo que ao mesmo tempo passa e chega, simultaneamente
aproximando-se e afastando-se, como se apreendido numa perspectiva infinita».
(id.: 145)
'Iodos estes tópicos (e quantas fantasias!), dispostos por ordem
crescente de complexificação, cobrem uma rede razoavelmente
extensa (e razoavelmente exemplificativa) de significados, práticas
e interpretações da chamada arte literalista ou minimal
art, de algumas outras que lhe estão adjacentes, e essa
rede é, pelo menos, também evocativa do sistema dos media.
Finalmente, este objecto-situação parece ter sido tipicamente
descrito por Clement Greenberg, quando adverte em certo literalismo
um novo estilo de escultura:
Tornar a substância inteiramente óptica,
dar a forma, seja ela pictural, escultural, ou arquitcctural, como uma
parte integral do espaço ambiente — e parece que o anti-ilusionismo
descreveu uma volta completa sobre si. Em vez da ilusão das coisas,
oferecem-nos a ilusão das modalidades: nomeadamente, que a matéria
é incorpórea, imponderável, e que existe apenas
opticamente, como uma miragem. (apud Fried, id:. 137)
As valorações de Greenberg e Fried, «adornianas»,
são implícita ou explicitamente negativas. Já as
bases adornianas em que lancei a questão são apenas as
bases em que a questão foi lançada, para fornecer a uma
problemática algum contraste.
Voltando à «miragem» de que fala Greenberg, di-la-ei
relativamente conveniente ao aparato óptico referido no poema.
O que esse aparato produz não pode defender-se da sua apreciação
como miragem. E se o barco na manhã é obviamente uma miragem,
é possível que o poema que acomoda esta situação,
e que se torna reconhecivelmente poema com o barco, se julgue capaz
— e seja capaz — de acomodá-la por miragem. O próprio
poema é, nesse caso, uma miragem.
Vai o barco atrás da arte, reconhecendo na «anti»-arte
os órgãos que, por exemplo, nos permitiriam viver ética
e esteticamente em ambientes que requerem novas sensibilidades —
ou, por isso mesmo, e em relação ao experimentado, retrocede
deveras?
De certo modo, o que foi submetido à experiência (à
recepção) depois activamente produz metáforas.
Pode dizer-se, portanto, que o evento não foi (e, a ser verdade,
não poderia ser) verdadeiramente uma experiência (nem sequer
sufista). Havendo barco e vontade, o que quer que tenha sido,
se alguma coisa foi, é apenas «recuperado» como experiência
em forma de barco e travessia, de poesia e consciência.
Atraído pela forma de arte identificada com um efeito
sem causa [Wirkung ohne ürsache], parece que o barco responde
com um impulso de emancipação ao «objecto»
que existe como objectualidade em situação, independemente
de qualidades — que existe, em suma, como efeito. O poema converte
mesmo o efeito sem causa em Acção e Qualidade: passar
e fogo. Ora, (i) a artisticidade desta «obra» é
atribuída pela recepção a um objecto-em-situação.
Lembre-se que o sujeito da enunciação aparece não
como o que faz arte, mas com o que responde ao objecto nos termos de
uma identificação com ele. Nem a «lógica»
do objecto, nem a do mimetismo em relação ao objecto,
por muito rigorosas que sejam (sobretudo a primeira), se podem confundir
assim com a «lógica» rigorosa das obras de arte.
Finalmente, (ii) o poema concede a verdade literal (literalista?) da
arte por metáfora. Como barco, o sujeito expurgado é restituído
ao mundo, que, em forma de lâminas, poderia matinalmente habitar.
O que quer que o barco faça é passar pelo aperto simbólico
de um fogo entre dois fogos. Foi-se de um regime de frases para outro
regime de frases. Que o mar seja de persianas
não torna esses regimes co-naturais:
(...) como
quem passa o fogo entre dois fogos, um barco
na manhã retrocede sobre as ondas — todas
as lâminas do mar.
Este como é como duas vezes. Por esse facto
não será menos como. A presença do mar
— da Natureza — não decorre do texto da experiência
mas de uma gramática do equívoco. Mar e barco não
se seguem das lâminas, a não ser pelo simples motivo que
tudo se segue de tudo quando há «belo». Particularmente,
havendo «belo», a perspectiva infinita em que a produção
mecânica de espaço se transformou para podermos ver um
barco no mar torna-se nostalgia; e o retrocesso do barco pode
agora sentir-se como «a beleza das marcas do tempo»3
(Olalquiaga, 1999) As marcas do tempo têm beleza na medida em
que não são de todo marcas. A relação
entre nós e o barco longínquo mas presente perdeu-se no
mar do tempo. Essa perda é lida, e desde logo porque é
barco. O «barco» perdido restitui uma aura à cultura
que o criou. Perder o «barco» é encontrar a Ítaca
da cultura. Um objecto sem forma de cultura é substituído
pela cultura em forma de objecto (e não de lâmina —
nem sequer por estilização).
A moral da história é acrescento à história,
que de uma dinâmica «vazia» faz precisamente uma história
«cheia». Ver as ondas do mar coma lâminas é
poeticamente possível (tem-se visto de tudo), mas não
é poeticamente necessário. A experiência das lâminas
não é válida para o mar, que aparece aqui a arbítrio
gramatical. No contexto, as lâminas do mar são meramente
um símile. Apesar das aparências em contrário,
o experienciado com o «objecto» não tem campo de
aplicabilidade universal. O mar só representa esse campo de aplicabilidade
como símbolo. Mas a representação simbólica
suportaria «qualquer» outro experienciado. É, de
resto, muito nítida a diferença dos dois mundos de que
se força o assemelhamento.
Dir-se-ia que a situação-de-arte, em si própria,
não é abastada nem bastante. A sua experiência teve
não só de passar a outro domínio, modificando-o
para todo, como de tomar-se por outra coisa. Ademais, a experiência
das lâminas não aceitava decerto que a verdade de arte
da arte dependesse da recepção e fosse apenas metafórica.
Logo a seguir aceita.
Ao detectar a incoerência justamente no ponto em que o poema a
exige quero apenas fazer notar que uma dinâmica pouco humana é
sarada por um retrocesso bastante humano; que a catarse do sujeito se
propõe contínua com a plenitude intencionada. Ou que uma
«fisiologia» capaz de bastar-se sem consciência é
substituída por um objecto platónico colocado numa «imago»
maternal, se calhar como todas. O barco é o objecto de uma identificação
à distância, e identificação apesar de tudo
porque o mar é materno.
A experiência do «objecto» enquanto objecto de arte
oferece-se no barco uma ocasião de se redescrever como experiência
de arte. O barco evoca o humano; as persianas-persianas, lâminas
e alumínio, tornam-se persianas do mar por metaforização
das ondas. Noto uma recaída em algo como artes, que estabelecem
uma relação simbólica com o seu sensorium
pressuposto, de algo como media, que estabelecem uma correlação
no real com a materialidade com que lidam. (cf. Kittler, 1986)
A tradução para arte (a poesia) da experiência da
objectualidade coloca o poema entre estas configurações,
como num impasse.
[trad. de F.C.]
Bibliografia
Adorno, Theodor
(1970) Gesammelte Schriften. Vol. 7 . Ästhetiche Theorie,
Frankfurt Am Main, Suhrkamp.
Bochner, Mel
(1995) «Serial Art, Systems, Solipsism», in Battock, Gregory
(ed.) Minimal Art. A Critical Anthology, Berkley, University
of Califórnia Press.
Fried, Michael
(1995) «Art and Objecthood», in Battock, Gregory (ed.) Minimal
Art. A Critical Anthology, Berkley, University of Califórnia
Press.
Kittler, Friedrich A.
(1986) Grammophon Film Typewriter, Brinkmann & Bose, Berlin.
Jorge, João Miguel Fernandes
(1997) Não É Certo Este Dizer, Lisboa, Presença.
Olalquiaga, Celeste
(1998) The Artificial Kingdom. A Treasury of the Kitsch Experience,
New York, Pantheon Books.
|
1
A «monadologia» é decididamente anti-empirista,
mormente se contrastarmos esta (co-)implicação das
lâminas, e dos espaços (espaço é uma
implicação geral de existência), com a conhecida
afirmação de Hume de que «nenhum objecto implica
a existência de qualquer outro objecto», (apud
Bochner, 1995:92) |
| 2
Não se trata aqui de proceder à salvação
[Rettwig] da obra. Não se veja, portanto, esta leitura
como uma mortificação do poema de Jorge. Não
se ajuíza exactamente do poema como sendo expressão
bem sucedida de uma falsa consciência; portanto, não
se pretende de todo sacar de uma obra mortificada uma beleza segunda
que seria um objecto de conhecimento. Poder-se-á mesmo dizer
que no fim pouco há que seja da ordem de conhecer. |
| 3
Não distingo aqui como Celeste Olalquiaga entre nostalgia
e melancolia, entre um bom Kitsch e um Kitsch
mau. De resto, a expressão citada integra no contexto de
origem a explicação do Kitsch melancólico
através de uma enumeração dos seus efeitos. |
|