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ANATOMIA DE 1 2 3 CADEIRAS
Basta um livro do poeta Fernandes Jorge como O Regresso dos Remadores,
e até alguns poemas desse livro, para constatar-se a existência
necessária da cultura mundial. É uma existência
necessária e que, todavia, não podemos imaginar1. Esta
afirmação não se segue da ideia que ideais
de cultura mundial ou de cultura local não existem mais; ou de
que não existem mais ideais de cultura mundial uniforme, ou de
cultura local impermeabilizada contra os fluxos da mundialização
da cultura.
De fato, tende a aceitar-se uma cultura universal uniforme, que integra
desde padrões universais de consumo (é a McDonaldização
do mundo2) até ao consenso geral acerca do estatuto «sagrado»
da vida humana que se acha inscrito numa carta dos direitos do homem.
E, de fato, existem ideais de cultura local betumada contra o exterior
que podem ser silenciosamente majoritários e ruidosamente majoritários:
basta pensar no Afeganistão, mas também na Suíça,
onde os portugueses estão manifestando fundadas preocupações
a respeito de uma lei em projeto que exige dos novos emigrantes um «certificado
genético». O próprio poeta Fernandes Jorge se espraia
pelos meandros de uma cultura portuguesa bem local, com certo abandono.
Em «Pela Pátria
Portuguesa», em «Páginas na Minha Vida» também,
passam neo-garrettismos e folhas de António Nobre.3
A gente consegue enxergar muita informação de lugares,
de cultura e de arte — antropônimos e topônimos —;
o que a gente é incapaz de imaginar (ou só pode...) é
a imensa rede de informação, é a «world wide
web» que está subjazendo a um poema só, e, assim
bem, a todo livro. Ora, a fim de chegar a sua página e a seu
poema, cada frase, cada verso, parecem ter tido de perder não
pouco de seus links. Porém os links perdidos
lembram outros links e são lembrados de outros links,
e assim em sucessão, sendo raro que conduzam, de um plano para
outro plano mais profundo, até à fonte da informação,
e não sendo ocasional que o leitor se transvie (e muito). Sua
«estrutura» é sobretudo derivacional e lateral. Se
descobrimos um link, passamos de um segmento de informação
para outro segmento de informação.
Esses links são mais importantes do que as conexões
gramaticais entre frases e versos, sendo frequente que estas faltem.
Uma vez que o poema, impresso em página de papel, e não
carecendo de princípio ou de fim, se submete a leitura linear,
os links em falta são estruturalmente mais importantes
do que as faltas de gramática. Estas podem ser apenas condições
formais de exposição da falta que fazem aqueles.
A remissão infinita de informação coincide com
o inimaginável que é a forma e a substância da cultura
universal. Com ter temas e motivos o poema, além de título
muitas vezes, e ser possível rastrear alguma informação,
não é possível rastrear toda informação.
Também particulares, circunstâncias, biografemas, são
enquadrados por estas condições de exposição
do «assunto». Mas, não sendo possível rastrear
toda
informação, esta «sintaxe» reticular, que
em princípio derrota toda hierarquia, faz supor, porque é
poema, que sejanecessário despistar ela» completamente.
É uma obrigação de cultura, que hábitos
e formas herdaram de outros tempos.
O leitor se desengane, pois. Não está tratando com o modelo
dos Cantos, exponenciado aqui e descontinuado em trilhas inúmeras
— nem está estabelecendo relações de amizade
com o intertexto ou com ghost-text de Riffaterre, de mais fina
gramagem. O poema de Fernandes Jorge pode ser a face visível
de um hipertexto imenso e ocultado. E quando o caso é
esse, o poema de Jorge, sublinhando bem a contingência que sua
face visível adquiriu, mostra ser necessariamente contingente
e não de outro modo.
Se percebe já que as questões que põem-se aqui
são todas questões de forma, suposto que conteúdo
nenhum existe independente de condições de forma.
A forma dessa cultura englobante não é congruente sequer
com a noção de uma memória de atos de cultura.
A sua forma produz informação que é demais para
toda congruência4. É ainda mais descontínua do que
o poema pode ser em suas frases. Essa forma admite mesmo verbalização
de contingências puras do vivido como um dos segmentos mais que
comparecem elípticos na superfície poemática. A
cultura mundial não é naturalmente uma cultura configurada
numa enciclopédia integrada e «humanista», porém
o meio que a compromete. Por princípio, não faculta limitações
estritamente regulares, onde um sujeito possa se mover com a liberdade
cartesiana de um sujeito.
A questão que se põe é — «de onde os
segmentos acorrem?» Aí, a resposta só pode ser mesmo
— «do global».
Mas o poema enigmático se refere, com frequência através
de simbólicas obliquidades infinitamente mediadas, à cultura
— portuguesa, europeia, ocidental — que lhe estaria subjazendo
como o contínuo que lhe dispensa autoridade e funda sua performância
canônica. O poema exemplifica também essa cultura
com nomes e produtos da Alta Cultura. Então, como é poema?
Quando a cultura é canônica, quando o poema é o
performativo canônico e canonizante da cultura.
A forma 'poema' ocupa uma posição fulcral nesta situação.
Historicamente, se distingue da literatura geral na medida em que na
literatura representa a arte ou os privilégios variados que são
atribuídos à arte. A 'forma' poema presume encerrar
concentrados estéticos de informação e de
sentido — de cultura. A hipertextualidade poemática se
pode ver então como um acréscimo mirabolante de supostos
textuais e para-textuais internos. Mas o que ela de fato termina sendo
(ou parecendo) é hiperbolicamente toda Arte. A (des)localização
da cultura é relativamente estabilizada através do estabelecimento
de conexões de privilégio entre o poema e lugares
da arte, entre o poema e lugares da cultura, e através
da exploração e diversificação das conexões
existentes entre lugares da cultura e lugares da arte:
países, cidades, obras, arquivos, museus, tipologias textuais.
O poema que se ligou nessa rede é a Arte como fala natural e
transdutor universal de todas as artes. Em qualquer caso, e logo pela
mediação de outros sistemas de símbolos, o resultado
para o poema é a complexificação em forma
da referência, de si já complexa e multiforme. No medium
poemático, todos os sistemas simbólicos apresentariam
sempre níveis mais que razoáveis, próprios ou por
referência, de densidade sintática, densidade semântica
e plenitude relativa; em si ou num outro sistema de referência,
todo e qualquer símbolo teria capacidade de exemplificar por
amostra propriedades literal ou metaforicamente possuídas, (cf.
Goodman, 1978: 67-8 para a terminologia usada) Quando é Arte?
Quando é Poema. E a verbalização narrativa ou lírica
permite atribuir aos lugares e produtos da arte a «realidade»
contemplada de sua experienciação estética.
Esta questão é também a questão do valor,
pois a 'forma' poema presume ser o ponto vantajoso que permite reconciliar
juízos de valor em termos de uma economia geral do valor. Ora,
funcionalizações ou afuncionalizações da
arte — religiosas, estéticas, utilitárias, sociais,
culturais — são diversíssimas em função
do função do tipo de cultura, do género sexual,
da idade, das nações, das regiões, etc., entidades
todas elas sendo uma parte da complexa rede de diferenciações
não conciliáveis que é a cultura não imaginável,
(cf. Frow, 1995)
Em resumo, os poemas de Fernandes Jorge não se emancipam das
condições de forma da cultura global. Ao contrário,
as formas da Alta Cultura existem, são circuladas e performativamente
nomeadas na forma da cultura inimaginável. Todas as desejadas
formas de necessidade da cultura — e as artísticas antes
que as outras — existem num meio que é-lhes contrário:
são deuses de obediência diversa, de transmissão
contingente e também é contingente seu pôr em forma.
A forma «'poema', cuja tarefa foi desenvolver necessidade, malogrou
porque, sujeita ao inimaginável, não mais é possível
de se descobrir a gramática da plasmação da forma.
Tal como a prosa das artes de Scott Burton, Richard Long, Tim Head ou
Dan Flavin, a prosa poundiana do poema não transmite conhecimento
objetivo sobre fatos de cultura, porém sobre fatos de óptica,
materiais e resistência de materiais. São «sequelas
de deus», objetos re-projetados «no espaço do inferno»
da cultura global. (cf. Jorge, 1982:119) Mas a forma 'poema' pode dizer,
crer, indicar emesmo in-formar precariamente seu oposto5. Ela forceja
por se diferenciar da cultura inimaginável como de uma «formação
preparatória», embora o vestibular permaneça espreitando
à porta.
É sobretudo aquele oposto que me importa, e tal como o percebo
nos poemas «Scott Burton» e «Duas Cadeiras».
O poema legisla a cultura que legisla o mundo. Dá (sua) forma
à cultura global a fim de que essa cultura seja uma cultura arquitetada.
Faz cadeiras anatômicas.
O primeiro poema em exame será «Scott Burton», da
sequência Seis Poemas6. Scott .Burton (1939-1989) é
um artista americano, que num contexto mais largo de deslocação
da arte para a objetualidade produziu esculturas modeladas pela mobília
— mesas, mas sobretudo cadeiras. Homem da arte pública,
atacava a distinção entre formas estéticas e utilitárias.
As cadeiras reproduzidas seriam mesmo multifunções. Podiam
se dispor em círculo cerimonial, ou encostadas lateralmente para
funcionarem a todo comprimento, como um banco. A arte do domínio
público se entregava ao uso e integrava o indivíduo no
coletivo.
O poema é interessante, a vários respeitos. Em primeiro
lugar, é um poema sobre o multiculturalismo que parece a situação
correspondente à forma inimaginável da cultura, antes
mesmo de haver o conceito e a bibliografia imensa sobre o assunto. Em
segundo lugar, a forma 'poema' tem a forma de um discurso que parece
um despacho da elidade — mas também um naco de prosa típico
de certos reportados pelo Chronicon.
No poema, se diz ou, melhor dizendo, se dispõe:
No que respeita a cadeiras não convém
que numa cidade como n. y. haja mais que
dez. A saber: quatro cadeiras negras
para os assuntos dos negros
ou para personagens dos que velam o rosto
demais judeus polacos, russos, hispânicos;
quatro cadeiras são de fiar aos mais temidos;
duas cadeiras terão, de granito, homens de confiança
entrados e repartidos pelos mercados e ruas.
(id.: 117)
A decisão despachada decorre do bom senso que em nossos
antigos era uma unidade de medida (um cânone, uma conveniência
ao objeto) mais universal do que o metro do sistema métrico universal:
«no que respeita a cadeiras não convém».
Quem decide parece íntimo de um espaço — uma cidade
—, pois, se a abreviatura «n. y.» pode estar
imitando a ocorrência de abreviaturas nos manuscritos medievos
(cf. «Lx» por «Lisboa»), também pode
estar mimando abreviaturas e apodos com que os norte-americanos manifestam
intimidade com a notoriedade de suas urbes («l a», «big
appie», etc.). Quem despacha destina em usufruto cadeiras que
são propriedade pública — em fim de contas, destina
cargos. De «assuntos» se trata e não de assentos
para pessoas que assim se tornassem personalidades. Os eleitos são
já «personagens». E por quem são distribuídas
as cadeiras? Em grande parte, por outras figuras medievas redivivas
— a dos representantes dos mesteres e ofícios e a dos «homens
bons».
Encontramos dois sentidos da palavra «representação»
que são feitos coincidentes. A arte, que é a Arte, é
representativa porque assegura a representação política.Todas
as comunidades (toda cultura das comunidades diversas de Nova Iorque)
encontram na Arte boa representação. A boa representação
artística, se não é, representa a natureza social
em sua unidade e sua diversificação. Ademais, o que o
poema diz é substanciado pela existência de objetos que
existem em forma de função. Sendo que a «personagem»,
idealmente, renunciou já a sua pessoa em proveito da constituição
objetiva da realidade comunitária, daí decorre que o representante
político toma assento naturalmente na cadeira da Estética.
Sua experiência comunitária — bem evidenciada
nos dois «homens bons» que «sentarão»
no desconforto durável do «granito» como «homens
de confiança/ enteidos e repartidos pêlos mercados e ruas»
—, sua experiência comunitária, dizia, é imediatamente
experiência estética pelos tópicos da auto-renúncia
e da submissão à «obra» muito para além
de sua faticidade. (cf. Adorno, 1984: 4,476,479) Ao invés, se
afirma: a experienciação estética existe; tem validade
social.
Sendo de notar que a situação multicultural se afigura
ao poeta moderada, temos que quatro cadeiras são para «assuntos»
de negros» e, parece, de «islamizados», mas também
de judeus polacos, de russos e dehispanos; outras quatro como para «bellatores»
(talvez também para o homem lobo do homem», e talvez porque
a arte domestique, i.e., socialize; finalmente, as duas restantes são
para «homens bons», representantes do todo público
social: «homens de confiança/ entrados e repartidos pelos
mercados e ruas».
Em forma de poema, a arte de Burton estaria perdendo copyright
e trade mark. Estaria caindo no domínio público.
«Fiar» e «confiança» indicam que a Arte
é a natureza política da sociedade. As cadeiras de Burton
estão na origem do contrato social. Mas a Arte só pode
estar nesta posição por um édito. O édito
é restritivo, convém saber. Haverá dez cadeiras
para n. y. e não mais. A representação da polis
multi-étnica configura a política e o seu exercício
de modo estritamente funcional, pese aos dois «senadores»
supra-numerários, os quais são, de resto, a funcionalidade
do todo. O mesmo é dizer que, na dissolução da
fronteira entre obra de arte e utilidade, a forma 'poema', se dotando
da autoridade (formal) do édito, encontra uma moral ascética
transponível para a política.
A forma «Chronicon», como a forma do «edital»,
o registo abstrato do discurso, impessoal («não convém...»),
deve ser lida por uma consequência e também como uma figura.
A consequência é a da ambiguidade, que começa a
se desvelar no último dístico. Se pode ler que «homens
de confiança terão duas cadeiras de granito» e
que «duas cadeiras de granito terão homens de confiança».
A segunda leitura corresponde mais ou menos ao enunciado em sua linearidade,
não se considerando, então, nem hipérbato nem anástrofe.
Se verifica agora que todo o poema sustenta as duas possibilidades,
a saber, 'cadeiras que têm homens' e 'homens que têm cadeiras'.
Na verdade, menos abstratamente, o poema evitou dizer 'cadeiras que
são de homens' e acabou dizendo, de fato, 'homens que são
de cadeiras'. Os homens de confiança são alocados às
cadeiras de granito.
«Entrados e repartidos pelos mercados e ruas» ensina um
pouco mais. Os particípios em situação adjetival
indicam que os «homens bons» têm a qualidade ou a
condição, adquiridas, de entendidos práticos na
res publica. Não obstante, os particípios indicam
ainda uma ação terminada, onde 'repartidos' é um
pouco de se estranhar. 'Entrados' atribui a responsabilidade da ação
aos «homens bons»;'repartidos' já pode implicar que
os «homens bons» são o objeto que sofre a ação
de 'repartir'. A não ser assim, o segundo particípio deflete
ainda o sentido do primeiro. Se ninguém repartiu os «homens
bons», os «homens bons» se repartiram a si mesmos
«metaforicamente» (deram-se). Pois não se espalharam,
se repartiram. Com se repartirem, ou com serem repartidos
não eram indivíduos; do repartir, ou do ser repartido,
não se geraram indivíduos. Eram e são partes de
um todo. São esse todo repartido por «comarcas»,
vale dizer algo como o presente e a copresença fantástica
da comunidade a si, alma do povo que lhe sustenta o corpo místico,
etc. Inesperadamente, não é já tanto questão
de destinar, de
chamar, cada homem a sua cadeira, mas de mandatar os homens
das cadeiras com uma missão, um«apostolado». Os «homens
bons» são já os partidos, os repartidos. Note-se
então como a arte moderna e o passado haveriam finalmente
decretado a inexistência dos partidos políticos.
Os homens recebem seu mandato das cadeiras. Melhor dizendo, a cadeira
é o mandato. O mandato, a cadeira, age por intermédio
dos homens que elegeu. A cadeira não carece de homem físico
que nela venha se sentar.
Agora, a figura. A forma impessoal e «arcaica» do discurso
(«imperativa») me parece uma figura do «pré-textual»
ou do «pré-cultural» — vale dizer, do retorno
da pluralidade a uma origem, e da história a um
lugar:«n. y». A figura opera sobre uma distinção
que reconhece a diferença entre o «étnico»
e o «não-étnico». Porque, se os «homens
bons» poderiam ser encarnações humanas
de uma particularidade étnica — nada realmente nos é
dito em contrário —, a verdade é que estes «homens
sem rosto» aparecem a representar o todo depois de assegurada
a representação do plural particular a homens com «rosto».
Falo dos negros, dos judeus polacos, dos russos e, sobretudo, dos que
velam o rosto — o rosto de que falo é a visibilidade social
dos «não-americanos», que os homens sem rosto (i.
e., os «americanos» ) não podem, se diria, não
deixar de ver. Os demasiado notórios são conhecidos, mas
não obtêm reconhecimento. Talvez uma arte que é
«prosa» e função seja uma arte (do homem)
«sem rosto».
Noutro plano, a despeito do heroísmo modernista (renúncia
da pessoa em favor da função, da prosa e do granito),
este articulado de Fernandes Jorge tanto parece se reduzir a boa vontade
liberal como a simplificação populista;
o caso de ambiguidade se deve à pobreza política
das fórmulas; não decorre da complexidade inabrangível
do «assunto», e logo porque estas são cadeiras falantes.
O tema é difícil mesmo para multiculturalismos muito afirmativos.
Por exemplo, retribuição e respeito igual, exemplarmente
se restringem em Charles Taylor a culturas que «proveram o horizonte
de sentido de um número significativo de seres humanos»,
ou que «animaram» os todos sociais. Se excluem «meios
culturais parciais dentro de uma sociedade», culturas com débil
raio de ação ou de curto alcance temporal-histórico.
(Taylor, 1992: 67,66)
Nova Iorque é um todo social concebido. Há duas cadeiras
para seus «assuntos», entregues a homens «sem rosto»
— «entrados e partidos» (dissolvidos) na identidade
pública-política do todo («mercados e ruas»)
— e essas cadeiras no poema têm a última palavra.
Negros são puros negros, hispanos são hispanos puro sangue,
etc., na medida em que sua história e sua hibridação
reais desaparecem a favor da consistência do lugar notório
e intimamente conhecido que se chama «n. y.». A comunidade
minoritária abandona o domínio da incongruência
histórica e cultural, a fim de ser ordenada à consistência
do Lugar — a uma «cadeira». A cadeira majoritária.
Para concluir esta parte, direi que as designações utilizadas
não saem puras por alguém ter sentado em nome dos designados
nas cadeiras de Burton.
O poema «Duas Cadeiras» aparentemente é de outros
quinhentos.
De carvalho ebonizado e torneadas pernas.
Duas varas prolongam o espaldar inclinado
azul-turqueza os estofos.
Crescia naquela sala como a sombra da árvore
e o ouro das areias.
Desenhara-a mister Godwin e o senhor
William Watt executara-a cerca 1880.
De pau-santo.
Não foi criada como a de Godwin para um
senhor da indústria
mas tinha um fim específico que lhe deu o
século dezoito português
o duplo fim de ser uma cadeira de secretária
e barbear.
O vermelho da madeira, a verde pele onde
um grande senhor de Portugal ou um não
tão grande senhor de paço deixou jogar
no corpo da entalhada flor
a luz do dia.
(id.:83)
O poema descreve duas cadeiras e lhes acrescenta as breves indicações
que convêm ao fato de serem especiais. Ao contrário das
cadeiras de Burton, estas duas cadeiras são aproximações
da utilidade à obra de arte. A primeira cadeira, posto que não
conheço o senhor Godwin, me parece ser um produto do movimento
Arts & Crafts, em primeiro
lugar pela data (circa 1880), e, em segundo lugar, pelo surgir
da intenção de arte que obriga à distinção
entre o designer e o executante (o senhor Godwin e
William Watt). A segunda cadeira, multi-füncional (cadeira de secretária
e de barbear), é arte pela genuinidade. A aura histórica
envolve o cotidiano do possuidor esteticamente ab-negado: ele abdica
da grandeza (de sua prosápia de grande ou não tão
grande); ele desaparece para que a natureza venha aureolar a cadeira,
ainda em sua vida não mais sua: «tão grande senhor
do paço deixou jogar/ no corpo da entalhada flor/ a luz do dia».
«Flor» é uma voz ambígua. Designa ao mesmo
tempo a flor da madeira (a parte mais valiosa da madeira, por isso digna
da arte) que se entalhou no desígnio de fazer a cadeira; substitui
o nome «cadeira» pela expressão metafórica
«flor entalhada». A conclusão é que a arte
devolve a matéria formada à natureza como um sublimado,
um transfigurado, do natural. A utilidade desaparece desta flor
da arte como nunca desaparecera por inteiro quando a cadeira era uma
árvore. O sol não brilha sobre a flor renovada,
nem a flor renovada simplesmente se abre à luz do sol. O sol
joga no corpo da entalhada flor, sob a presença discreta
do titular ausente, o livre jogo da arte.
A primeira cadeira, a despeito de sua posse por «um senhor da
indústria», sofre a mesma transfiguração
simbólica, típica da arte. Se torna verdadeiramente natural:
«Crescia naquela sala como a sombra da árvore / e ouro
das areias». A cadeira é um contíguo indicial da
«árvore», sua extensão platónica real.
E vale «ouro».
Talvez possa acrescentar que a compaginação das duas cadeiras
é um processo de atribuição de individualidade
às cadeiras.
Não há como negar: todas estas cadeiras de Fernandes Jorge
são antropomorfos interessados na natureza (social-histórica),
que convocam a humanidade normativa do passado7 já na linguagem
já no objeto, o valor intrínseco, noções
de individualidade do autor, do esteta apreciador, do proprietário,
do representante que detém provisoriamente o usufruto não
tanto da cadeira como do que a cadeira simboliza — a fim de se
erigirem numa alegoria social da forma. Não interessa
que a cadeira sem gente e a cadeira dos «assuntos» públicos
sejam produzidas à escala humana, porém que é um
objecto que existe como forma objetiva da escala humana. No
que respeita a «Scott Burton», a cultura inimaginável
é submetida a uma redução de escala brutal.
Bibliografia
Adorno, Theodor
(1984) Aesthetic Theory, London, Routledge.
Eliot,T. S.
(19887) Notes Towards the Definitíon of Culture, London-Boston,
faber and faber.
Enzensberger, Hans Magnus
(1991) Médíocrité et folie, recueil de textes
épars, Paris, Gailimard.
Frow.John
(1995) Cultural Studies and Cultural Value, Oxford, Oxford
University Press.
Goodman, Nelson
(1978) Ways of WorId Making, Indianapolis, Hackett.
Jorge, João Miguel Fernandes
(1982) O Regresso dos Remadores, Lisboa, Presença.
Rietzer, George
(1998) The McDonaldization Thesis. Explorations and Extensions,
London, Sage.
Smart, Barry
(1999) Resistíng McDonaldization, London, Sage.
Taylor, Charles
(1992) Multiculturalism and tbe 'Polílics of Recognition',
Princeton, Princeton University Press.
|
1
Cf. Eliot, 19887: 62. Ao tentar definir a Cultura Europeia, Eliot
descobre a necessidade «lógica» de um ideal
de cultura mundial, embora essa cultura tenha de ser inimaginável.
E eleva esse ideal ao estatuto de condição de existência
de uma Cultura Europeia. Uma vez que culturas auto-contidas estariam
condenadas a não subsistir, «somos obrigados a manter
o ideal de uma cultura mundial, ao mesmo tempo que admitimos que
é algo que não podemos imaginar. Apenas o
podemos conceber, como o termo lógico das relações
entre culturas». Passados quarenta anos, e depois vinte anos
ainda, a necessidade da cultura mundial, esse sublime, não
é mais ideal. Também não parece que seja um
termo lógico do encontro entre as culturas. O livro de Jorge,
dos idos de 82, antecipava não sobre a realidade, mas sobre
sua concetualização. |
| 2
Cf. Ritzer, 1998 e Smart, 1999. |
| 3
Não passam puros, pois «o padre/ dava-lhes haxixe na
hóstia/ e à noite ouviam os cantores do centro/ da
emissora nacional.» (Jorge, 1982:135). |
| 4
A informação ininterrupta e descontinuada chegaria para
«pôr cheque mate durante semanas toda a potência
de pensamento de um Johann Gottfried Herder.» (Enzensberger,
1991: 34) |
5
Por vezes inventa entrar na intimidade da matéria, e lhe
dá um corpo cyborg, onde a natureza poderia ser...
seqüela: «DAN FLAVIN// Sob os lugares do manto /
o néon azul que- / brado / adquire o meio dos ferros a vibrante
/ luz / dos
sabres, / ramos de árvores, / secundários tubos de
sangue» (id.: 121). |
6
Este poema foi transferido para O Barco Vazio (1994), como
parte integrante de um poema maior também ele intitulado
«Scott Burton». Uma versão anterior fora já
publicada em As Escadas Não Têm Degraus, 4
(1991), pp. 97-100. Em geral, fora alguns deslocamentos de versos
e emendas (ex.: 'mind' substitui 'wind'), a diferença entre
ambos os textos provém de que a versão de 1994 elimina
um número razoável de versos da de ï991. O poema
é um InMemoriam. Rita Minardi reconheceria aqui
a forma da «dedicatória». [N. do org.] |
| 7
É muito frequente Fernandes Jorge atribuir ao passado todos
os predicados do Bem e do Belo humanos. O genuíno humano
da humanidade estaria não somente na arte, porém sobretudo
no passado. É uma visão política conservadora,
ainda tipicamente modernista, pois repudia a (des)organização
da civilização presente. |
| Scott
Burton, Six-Part Seating, 1985-1988, granito polido. |
|