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TODOS, E TODOS SEM EXCEPÇÃO
No«sistema» de congruências e incongruências
designado como A Jornada de Cristóvão de Távora,
o poema XLII, «Todos, e todos sem excepção»,
destaca pela sua unidade e pelo seu carácter generalista e abstracto.
Não tem, como, por exemplo, no poema anterior, senhores de bengala
nem maples de brocado vermelho, sobre os quais nada há a saber,
É um epitáfio que lembra ao interpelado viajante a condição
humana transitória:
Todos, e todos sem excepção
chegaram a este ponto da jornada.
Vieram sob a vela de um barco
partiram, a cada instante,
sobre o lugar de uma promessa.
Invocaram o mais sombrio
e deram longas braçadas
para a existência de maior
claridade
e todos, todos sem excepção
caíram e ergueram e levaram a
palavra, o corpo do barco.
Viajante, vieram e chegaram.
Estão diante de um muro
todos, sem excepção. Não
partirão jamais.
(Jorge, 1990: 85)
A Jornada não recorre de todo à forma de um
esquema de informação onde se descreve detalhadamente
o muito que ali surpreendentemente está. Em vez disso,
o muito que ali está submete-se à configuração
errática de um diálogo não presenciado.
Os descritos em co-presença como provindos de realidades múltiplas
estabelecem entendimentos e desentendimentos nunca começados,
que se interrompem para dar lugar a outros, e que se reatam noutras
condições, subsumidos todos no presente do autor que é
um sentido historicamente em aberto. A esta objectividade (ou a esta
abstracção) designada por um nome próprio onde
podem pendurar-se mil e uma descrições, pois não
é mais do que o nome historicamente fugaz de um deuteragonista
— de
um ubíquo Tirésias acompanhante —, corresponde por
outro lado aquele sentimento de exclusão que autentifica a percepção
do passado para todo aquele que o percepciona. Este cânone em
acto, que situa a obra em algo que é um mundo — ou seja,
que é um todo, mas, enquanto todo, inabarcável —,
se no mundo a situa é como um elenco de obras a determinar, mas
sob a atenção do excluído por uma totalidade pressuposta
— pela totalidade pressuposta em todo o tipo de existência
passada. De um lado o todo, do outro lado aquele que foi expulso —
nem tanto desse todo, mas do seu sentido alienígena —,
no próprio acto de se constituir em atenção. Assim
como a derrota de D. Sebastião, que encerra o acontecido na sua
vertente de passado constituído, deve ser eticamente desejável,
assim a derrota da atenção constitutiva da atenção
se torna como que uma espécie de virtude: aquele que foi excluído
foi distinguido pela exclusão.
Na assimilação do cânone ao mundo, o tradicional
poder do cânone sobre o mundo (imaginado ou não) transforma-se
no poder do mundo sobre o cânone, sob uma atenção
que designa indiscernivelinente a antropomorfização de
uma carência e a carência dessa antropomorfização.
O que está morto é arrancado à sua inércia
agida, como produto de um poder de agir, e colocado sob uma atenção
sem poder de agir. Não, como é óbvio, que o presente
não seja feito e desfeito de acções. Mas o que
no presente se faz não é determinado por uma atenção
a que qualquer coisa como um todo tenha sido apresentada. No presente,
as acções são produzidas por uma atenção
a que nunca se apresentam com evidência plástica suficiente.
Nunca estacam na condição de efeito terminal. Nestes termos,
o sentido que a atenção, como quem é, supõe
como passado e acabamento desse passado escapa-se — parece escapar-se,
mas parecer é bastante — igualmente à atenção,
por mais diligente que esta seja, por todas as fendas do que acontece.
A atenção está pronta para aproveitar a lição
do poema XLII, que dispõe A Jornada sob a luz da morte.
A atenção empurrada para um estado de nostalgia é
satisfeita por esta catabase em que os heróis apresentam
à colectividade a norma de uma subjectividade íntegra,
auto-criada a partir de uma autenticidade que vitalmente exige expressão
estética.
Os sinais do autêntico residem no interior individual e não
no colectivo exterior. Consistem em nomadismo e recusa do conforto (estar-se
«sob a vela» é precisamente não se estar confortavelmente
abrigado); em superação contínua e em nunca se
dar por satisfeito com o já conseguido; em submeter-se a dolorosa
metamorfose «alquímica» («invocar o mais sombrio»:
obra ao negro) de forma a se poder atingir, como quem diga, a realização
pessoal («a existência de maior claridade»); em nunca
desistir e em passar o testemunho («a palavra, o corpo do barco»).
O testemunho que se passa denuncia o seu carácter de realização
estética na perfeita forma do «barco»; da palavra
que se passa, revestida de inegável dignidade «gnóstica»,
não está ausente a noção de um modo de ser
e de habitar poético, que inegavelmente se opõe à
palavra inautêntica da tribo. Jornada, no contexto, refere
o título da epopeia e recupera o sentido alegórico que
equaciona vida com viagem.
Partir sobre uma promessa oferece à viagem o sentido,
considerado modelar porque estético, de uma recusa de concretização
tão presente na arte a partir dos Modernismos e das Vanguardas.
O que importa é um fazer que continuamente se adianta novos objectivos,
recusando a paz identitária do já feito. A vida define-se
pelo «novo». E supõe-se que a morte sanciona como
inalterável e incorruptível este esforço heróico,
subtraído já ao tempo.
Neste «sítio» residem os remadores da «palavra».
Logo no início, o poema assume essa palavra como sua. O primeiro
verso é enfático («todos, e todos sem excepção»),
e é retomado na complicação e na resolução.
Como o começo se nos afigura sempre uma estrutura integral por
direito próprio, o seu reaparecimento no todo ou em parte reforça
a sensação de encerramento. Como o repetido é,
mesmo quando condensado, tudo o que há para repetir
(«todos, e todos sem excepção»; «todos,
sem excepção»), a repetição, que não
esquece a ênfase, não é apenas formal mas temática
— o que se ass(c)ertou é reass(c)ertado. (cf. Smith, 1968:
66) A clausura formal, graças à qual o discurso se fecha
sobre um todo, corresponde prestimosa à transmissão de
uma ideia de todo. Este mundo é um todo. Só o
é, se bem virmos, porque substanciado por uma ideia de morte
que transforma o tempo em espaço, e que molda ainda esse espaço
à forma do impasse. Os remadores são um colectivo exemplar
porque estacados todos pela morte «diante de um muro». Há
um todo épico porque há impasse. Enquanto houve tempo,
não houve, como Luckács notaria, senão desconexão
«alegórica» e estatismo; quando não há
tempo, há uma épica, mas uma épica estática.
(cf. Lukács, 1995) Também o poema responde a esse estatismo
como inscrição falante, à maneira dos epitáfios:
Viajante, vieram e chegaram.
Estão diante de um muro
todos, sem excepção. Não
partirão jamais.
(Jorge, id.: ibid., eu sublinho)
Contrariamente à maioria dos epitáfios (mas lembro o
dos mortos no desfiladeiro das Termópilas), a voz da não-pessoa
fala em nome de um colectivo onde ninguém se distingue. Citemos
Woordsworth, para não desapontar o leitor atento:
[O epitáfio] é um registo para guardar
a memória do morto, como um tributo devido ao seu merecimento,
para refrigério dos corações tristes dos sobreviventes
e para proveito comum dos vivos: registo que é para ser acabado,
não de maneira geral, mas, sempre que possível, em estreita
ligação com os restos mortais do falecido. E estes, pode
acrescentar-se, entre as modernas nações da Europa, são
colocados dentro de, ou contíguos aos seus lugares de culto.
(Woordsworth, 1988: 327)
Este epitáfio, literário não esqueçamos,
visa o efeito de colocar os seus mortos dentro de um lugar de culto.
Ou seja, neste ponto da jornada, visa transformar A Jornada de Cristóvão
de Távora, que até aí fora um «vórtice»
ou um não-interior, num lugar com um dentro. Nesse dentro cultu(r)al
teriam todos os fragmentos a sua necessidade expressiva. Constata-se,
no entanto, como essa necessidade é débil e, para tudo
dizer, uma ideia abstracta. Continua a não haver nada para para
saber do velho com bengala e do maple de brocado vermelho. E, em rigor,
nada há para dizer. O corpo colectivo é sublimado nesta
ilha dos mortos; o viajante tradicionalmente interpelado, nos termos
do poema não é o humano qualquer, mas o nómada
destinado a remador. Oferece-se ao corpo colectivo nacional, como lição
e exemplo, uma subjectividade que dele se desligou, e que só
parece poder perspectivar-se comunidade quando ela e as outras como
ela vêm parar diante de um «muro». Presenciaríamos
finalmente o diálogo quando passamos do Múltiplo ao Uno;
quando não pode haver nem há diálogo, mas uma sua
representação muito simbólica: uma astuta disposição
de metonímias (uma dinâmica inculcada), com origem numa
presença e com presença numa origem1.
Bibliografia
Jorge, João Miguel Fernandes
(1990) A Jornada de Cristóvão de Távora Terceira
Parte, Lisboa, Presença.
Luckás, Georg
(1995) «The Ideology of Modernism», in Kadarkay, Arpad (ed.)
The Lukács Reader, Oxford, Blackwell.
Siiüth, Barbara Herrnstein
(1968) Poetic Closure. A Study of How Poems End, Chicago, The
University of Chicago Press.
Woordsworth, William
(1988) Selected Prose, John O. Hayden (ed.), London, Penguin.
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1
Na formulação de Woordsworth, temos uma relíquia
colocada no interior de um lugar sagrado, ou contígua a este,
que, aponta para uma inscrição, a qual, por sua vez,
aponta para a comunidade dos vivos. A metáfora seria recusada,
a
título de «maneira geral». No poema deJorge,
produz-se uma idêntica ocupação dícitica
do espaço: o remador morto aponiii piira uma «voz»
que, por sua vez, o aponta para um viajante.
Em ambos os casos, o sistema de relés não dispensa
a «maneira geral», denegada apenas. A sequência
woordsworthiana desemboca como «proveito comum» na comunidade
dos vivos; no poema XLII, cncontra-se uma comunidade exemplar na
origem da dinâmica. E o poema é evidentemente uma «maneira
geral».
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