RETIDOS OS DEDOS

SOB

O SABOR DAS COISAS

[12] TODOS, E TODOS SEM EXCEPÇÃO

No«sistema» de congruências e incongruências designado como A Jornada de Cristóvão de Távora, o poema XLII, «Todos, e todos sem excepção», destaca pela sua unidade e pelo seu carácter generalista e abstracto. Não tem, como, por exemplo, no poema anterior, senhores de bengala nem maples de brocado vermelho, sobre os quais nada há a saber, É um epitáfio que lembra ao interpelado viajante a condição humana transitória:

Todos, e todos sem excepção
chegaram a este ponto da jornada.
Vieram sob a vela de um barco
partiram, a cada instante,
sobre o lugar de uma promessa.
Invocaram o mais sombrio
e deram longas braçadas
para a existência de maior
claridade
e todos, todos sem excepção
caíram e ergueram e levaram a
palavra, o corpo do barco.
Viajante, vieram e chegaram.
Estão diante de um muro
todos, sem excepção. Não
partirão jamais.
(Jorge, 1990: 85)

A Jornada não recorre de todo à forma de um esquema de informação onde se descreve detalhadamente o muito que ali surpreendentemente está. Em vez disso, o muito que ali está submete-se à configuração errática de um diálogo não presenciado. Os descritos em co-presença como provindos de realidades múltiplas estabelecem entendimentos e desentendimentos nunca começados, que se interrompem para dar lugar a outros, e que se reatam noutras condições, subsumidos todos no presente do autor que é um sentido historicamente em aberto. A esta objectividade (ou a esta abstracção) designada por um nome próprio onde podem pendurar-se mil e uma descrições, pois não é mais do que o nome historicamente fugaz de um deuteragonista — de
um ubíquo Tirésias acompanhante —, corresponde por outro lado aquele sentimento de exclusão que autentifica a percepção do passado para todo aquele que o percepciona. Este cânone em acto, que situa a obra em algo que é um mundo — ou seja, que é um todo, mas, enquanto todo, inabarcável —, se no mundo a situa é como um elenco de obras a determinar, mas sob a atenção do excluído por uma totalidade pressuposta — pela totalidade pressuposta em todo o tipo de existência passada. De um lado o todo, do outro lado aquele que foi expulso — nem tanto desse todo, mas do seu sentido alienígena —, no próprio acto de se constituir em atenção. Assim como a derrota de D. Sebastião, que encerra o acontecido na sua vertente de passado constituído, deve ser eticamente desejável, assim a derrota da atenção constitutiva da atenção se torna como que uma espécie de virtude: aquele que foi excluído foi distinguido pela exclusão.
Na assimilação do cânone ao mundo, o tradicional poder do cânone sobre o mundo (imaginado ou não) transforma-se no poder do mundo sobre o cânone, sob uma atenção que designa indiscernivelinente a antropomorfização de uma carência e a carência dessa antropomorfização. O que está morto é arrancado à sua inércia agida, como produto de um poder de agir, e colocado sob uma atenção sem poder de agir. Não, como é óbvio, que o presente não seja feito e desfeito de acções. Mas o que no presente se faz não é determinado por uma atenção a que qualquer coisa como um todo tenha sido apresentada. No presente, as acções são produzidas por uma atenção a que nunca se apresentam com evidência plástica suficiente. Nunca estacam na condição de efeito terminal. Nestes termos, o sentido que a atenção, como quem é, supõe como passado e acabamento desse passado escapa-se — parece escapar-se, mas parecer é bastante — igualmente à atenção, por mais diligente que esta seja, por todas as fendas do que acontece.
A atenção está pronta para aproveitar a lição do poema XLII, que dispõe A Jornada sob a luz da morte. A atenção empurrada para um estado de nostalgia é satisfeita por esta catabase em que os heróis apresentam à colectividade a norma de uma subjectividade íntegra, auto-criada a partir de uma autenticidade que vitalmente exige expressão estética.
Os sinais do autêntico residem no interior individual e não no colectivo exterior. Consistem em nomadismo e recusa do conforto (estar-se «sob a vela» é precisamente não se estar confortavelmente abrigado); em superação contínua e em nunca se dar por satisfeito com o já conseguido; em submeter-se a dolorosa metamorfose «alquímica» («invocar o mais sombrio»: obra ao negro) de forma a se poder atingir, como quem diga, a realização pessoal («a existência de maior claridade»); em nunca desistir e em passar o testemunho («a palavra, o corpo do barco»).
O testemunho que se passa denuncia o seu carácter de realização estética na perfeita forma do «barco»; da palavra que se passa, revestida de inegável dignidade «gnóstica», não está ausente a noção de um modo de ser e de habitar poético, que inegavelmente se opõe à palavra inautêntica da tribo. Jornada, no contexto, refere o título da epopeia e recupera o sentido alegórico que equaciona vida com viagem.
Partir sobre uma promessa oferece à viagem o sentido, considerado modelar porque estético, de uma recusa de concretização tão presente na arte a partir dos Modernismos e das Vanguardas. O que importa é um fazer que continuamente se adianta novos objectivos, recusando a paz identitária do já feito. A vida define-se pelo «novo». E supõe-se que a morte sanciona como inalterável e incorruptível este esforço heróico, subtraído já ao tempo.
Neste «sítio» residem os remadores da «palavra». Logo no início, o poema assume essa palavra como sua. O primeiro verso é enfático («todos, e todos sem excepção»), e é retomado na complicação e na resolução. Como o começo se nos afigura sempre uma estrutura integral por direito próprio, o seu reaparecimento no todo ou em parte reforça a sensação de encerramento. Como o repetido é, mesmo quando condensado, tudo o que há para repetir («todos, e todos sem excepção»; «todos, sem excepção»), a repetição, que não esquece a ênfase, não é apenas formal mas temática — o que se ass(c)ertou é reass(c)ertado. (cf. Smith, 1968: 66) A clausura formal, graças à qual o discurso se fecha sobre um todo, corresponde prestimosa à transmissão de uma ideia de todo. Este mundo é um todo. Só o é, se bem virmos, porque substanciado por uma ideia de morte que transforma o tempo em espaço, e que molda ainda esse espaço à forma do impasse. Os remadores são um colectivo exemplar porque estacados todos pela morte «diante de um muro». Há um todo épico porque há impasse. Enquanto houve tempo, não houve, como Luckács notaria, senão desconexão «alegórica» e estatismo; quando não há tempo, há uma épica, mas uma épica estática. (cf. Lukács, 1995) Também o poema responde a esse estatismo como inscrição falante, à maneira dos epitáfios:

Viajante, vieram e chegaram.
Estão diante de um muro
todos, sem excepção. Não
partirão jamais.
(Jorge, id.: ibid., eu sublinho)

Contrariamente à maioria dos epitáfios (mas lembro o dos mortos no desfiladeiro das Termópilas), a voz da não-pessoa fala em nome de um colectivo onde ninguém se distingue. Citemos Woordsworth, para não desapontar o leitor atento:

[O epitáfio] é um registo para guardar a memória do morto, como um tributo devido ao seu merecimento, para refrigério dos corações tristes dos sobreviventes e para proveito comum dos vivos: registo que é para ser acabado, não de maneira geral, mas, sempre que possível, em estreita ligação com os restos mortais do falecido. E estes, pode acrescentar-se, entre as modernas nações da Europa, são colocados dentro de, ou contíguos aos seus lugares de culto. (Woordsworth, 1988: 327)

Este epitáfio, literário não esqueçamos, visa o efeito de colocar os seus mortos dentro de um lugar de culto. Ou seja, neste ponto da jornada, visa transformar A Jornada de Cristóvão de Távora, que até aí fora um «vórtice» ou um não-interior, num lugar com um dentro. Nesse dentro cultu(r)al teriam todos os fragmentos a sua necessidade expressiva. Constata-se, no entanto, como essa necessidade é débil e, para tudo dizer, uma ideia abstracta. Continua a não haver nada para para saber do velho com bengala e do maple de brocado vermelho. E, em rigor, nada há para dizer. O corpo colectivo é sublimado nesta ilha dos mortos; o viajante tradicionalmente interpelado, nos termos do poema não é o humano qualquer, mas o nómada destinado a remador. Oferece-se ao corpo colectivo nacional, como lição e exemplo, uma subjectividade que dele se desligou, e que só parece poder perspectivar-se comunidade quando ela e as outras como ela vêm parar diante de um «muro». Presenciaríamos finalmente o diálogo quando passamos do Múltiplo ao Uno; quando não pode haver nem há diálogo, mas uma sua representação muito simbólica: uma astuta disposição de metonímias (uma dinâmica inculcada), com origem numa presença e com presença numa origem1.

Bibliografia

Jorge, João Miguel Fernandes
(1990) A Jornada de Cristóvão de Távora Terceira Parte, Lisboa, Presença.
Luckás, Georg
(1995) «The Ideology of Modernism», in Kadarkay, Arpad (ed.) The Lukács Reader, Oxford, Blackwell.
Siiüth, Barbara Herrnstein
(1968) Poetic Closure. A Study of How Poems End, Chicago, The University of Chicago Press.
Woordsworth, William
(1988) Selected Prose, John O. Hayden (ed.), London, Penguin.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 Na formulação de Woordsworth, temos uma relíquia colocada no interior de um lugar sagrado, ou contígua a este, que, aponta para uma inscrição, a qual, por sua vez, aponta para a comunidade dos vivos. A metáfora seria recusada, a
título de «maneira geral». No poema deJorge, produz-se uma idêntica ocupação dícitica do espaço: o remador morto aponiii piira uma «voz» que, por sua vez, o aponta para um viajante.
Em ambos os casos, o sistema de relés não dispensa a «maneira geral», denegada apenas. A sequência woordsworthiana desemboca como «proveito comum» na comunidade dos vivos; no poema XLII, cncontra-se uma comunidade exemplar na origem da dinâmica. E o poema é evidentemente uma «maneira geral».