[11]
CHEIRAVA MAL O TAXISTA
O número XXXIV de A Jornada de Cristóvão de
Távora Terceira Parte (Jorge, 1990: 71) parece ser um poema
relativamente autónomo no conjunto, marcado pela sobressaltada
percepção de se estar partilhando portugalidade com um
taxista que cheira mal.
Cheirava mal o taxista. Era mesmo
um fedor acima de qualquer pituitária
e todo esse cheiro de mistura com
rama de eucalipto, uma senhora de
Fátima inesperadamente em louça e
o aviso por motivo de saúde é favor
não fumar obrigado. Carpélio,
um pequeno corno de marfim e no grosso
pulso a famosa pulseira anunciada. Era
português e bom cristão eu sei, mas o
cheiro meu deus o cheiro. Se calhar
não era cristão era mouro.
A um canto uma rosa sêca, estiolado
vermelho.
Uns estranhos insectos vieram viver à
sombra e ao sol de tanto cheiro. Cheguei
a casa e tomei banho de mistura com a
música de Tom Waits, que por sinal ainda
traz as unhas mais sujas
e o cheiro ténue e letal envolve o ar
que por toda a tarde e noite respiro.
Cristóvão de Távora é um tema e uma ausência,
e uma objetivação que aparece e desaparece. É o
nome próprio de uma perspetiva e do que nela sempre falhará,
a qual deve organizadoramente se abrir «numa obra atravessada
de múltiplas associações dispersadoras.»
(Magalhães, 1990:118) A Jornada é um conjunto
de sobreposições, interseções e tangentes,
de tempos, de lugares, de eventos, de gentes e de ações,
a pretexto da jornada de D. Sebastião em África, onde
foi acompanhado por uma personagem de fugidia presença histórica,
chamada Cristóvão de Távora. Esta épica
pós-Eliot tem seu quê de anti-épica, pois é
um conjunto de ficções intotalizáveis e sua imagem
orientadora é a dispersão coeva e cotidiana de onde toda
ficção emerge. O tempo histórico se submete à
temporalidade desgarrada e desgarradora do cotidiano; e o muito que
se compagina e interseciona, de tão ubíquo, parece orientado
pela percepção cética de uma geral falta de ligação
entre os assuntos humanos.
No XXXTV, o poema encontra uma das imagens (o táxi) mais perto
da épica e de seu todo mítico acontecido: um conjunto
fechado e uma consistência que, por isso mesmo, negam o diverso.
Mas esta consistência não lhe serve. E, para entrar rapidamente
em matéria, é nítido que na página se estabelecem
como duas tendências antagónicas a invenção
de um espaço de simbolismo «pessoal» designado «epicamente»
por Cristóvão de Távora e a força e gravidade
«cinética» de uma especificidade redundante designada
por taxista. Por meio de poemas, a invenção simbólica
de Cristóvão de Távora tentava a conexão,
ou antes a sobreposição, das experiências do corpo
colectivo e do corpo subjetivo (taxistas incluídos). A viabilização
do procedimento achava-se
suposta por designações como 'nacionalidade'. Mas quem
está autorizado a fazer a ligação é o poeta
e não o taxista. A Jornada do poeta é um Museu
Secreto, murado de palavras. O taxista exibe seu Museu Livre, estabelecido
no estereótipo. Então, no táxi se produz um evento
de produção da diferença cultural «como produção
de entidades minoritárias que se dividem no acto de serem articuladas
ao corpo coletivo». O resultado é alienação
de si mesmo. (cf. Bhabha, 19984:3) O sujeito só volta a si, e
não inteiramente, depois que se purificou. Sem contexto de depreciação
do taxista, aquilo mesmo acontece por toda A Jornada. Para
epopeia clássica, que não pretende ser, o poema se acha
condicionado pela produção de diferença cultural
como resultado desgarrador da articulação de entidades
minoritárias ao corpo coletivo. A «nova» epopeia
de Jorge tem esta forma no conjunto e nas partes. Todos que, «sem
excepção/ caíram e ergueram e levaram a / palavra,
o corpo do barco1», «chegaram a este ponto da jornada».
(Jorge, id.: 183)
Agora, eu faria notar que no Museu Secreto estão convivendo objetos
de cultura muito díspares e que o Taxi Público é
também um espaço de bric-à-brac. Este
mísero museu, todavia, passa ao poeta uma imagem de consistência,
recusada, e que só é de consistência porque está
munida do sentido majoritário do estereótipo social.
O discurso começa rombo, topicalizando o cheiro e não
a pessoa do cheiro. Com algum desprendimento clínico, pondo no
descritivo uma ligeira patina de pretensão social, e exibindo
uma distância educada para o sentido, o poeta vai descrevendo
as insígnias culturais do taxista as quais, como sentido estabelecido
por consenso, estão ali no corpo e perto do corpo, sem pecado
e sem vergonha — e o agredindo. O corpo do taxista consegue um
efeito épico que resulta da articulação imediata
e sem distância entre o corpo coletivo e a identidade, majoritária
deste modo, de que ele assim se apropria. A conexão procede do
todo para o indivíduo e não, como em A Jornada,
da individualidade para o todo.
Esta cultura «tenta» apropriar-se do poeta por impregnação.
O poeta se defende contra seu cheiro animal, detalhando o heteróclito
cultural. O detalhar e o recurso (auto-) irónico à excomunhão
(«Se calhar / não era cristão era mouro»)
não impedem, todavia, a percepção de que o taxista
é a verdade em caricatura de «Cristóvão
de Távora», para além de ser, como ele, português.
O poeta precisa colocá-lo fora de uma área cultural-nacional
aparentemente circunscrita por traços salientes da experiência
que reaparecem em diferentes ocasiões e nos múltiplos
exemplos simultâneos dos que «caíram e ergueram e
levaram a palavra, o corpo do barco». Que diferença entre
Cristóvão de Távora e o moço taxista se
não uma diferença de cultura? Entre a heterogeneidade
da Alta Cultura e a heterogeneidade da Cultura Baixa.
Então, se pode dizer que a impureza do taxista desencadeia um
acto de cultura, onde a cultura performa uma distinção
social. O que no taxista é «natural» —
para ele tão natural como seu cheiro — é submetido
a uma operação puramente objetivante, finda a
qual se segue a excomunhão e o estiolar da flor de Eros («A
um canto uma rosa seca, estiolado vermelho»). A tender-mindedness
do poeta, seu idealismo, otimismo e dogmatismo, refuta um fato persistente
— um cheiro — com o sentimento. Ou, melhor dizendo, com
uma reintegração no sentimento de si. A fim de operar,
o sentimento se torna uma espécie cie raciocínio, uma
técnica aperfeiçoada — aperfeiçoamento pretenso
ou real — como enumeração analítica não
excessivamente longe de seu
arquétipo animal: se trata de obter alimento, segurança
e parceria sexual — os fins mais elevados do Universal. A transferência
de funções do mecanismo cultural do Museu Secreto marroquino
para o táxi será de novo transferida, mas para o banheiro
que o taxista desconhece.
O Museu Secreto que se incorporou no poeta é um organismo
de grandes capacidades económicas. Consegue formalizar automaticamente
estímulos, sem outros repelões afectivos para além
dos necessários a sua auto-preservação. Perante
o prodigioso aça do moço, que ocorre à revelia
do sujeito, se desencadeia logo uma especialização cultural
que se diz «metaforicamente» no uso de um órgão
do sensório altamente especializado e na sua consequente seleção
de estímulos: a vista.
A visão abstrativa corresponde à demanda da cultura discriminativa
com a capacidade de «exploração» ou de «varredura»
dos instrumentos tele-visivos. Eliminam-se grandes porções
redundantes da imagem. Ficam a senhora de Fátima de louça,
o aviso autoritário e bronco, o corno de marfim, a pulseira no
grosso pulso, a rosa se estiolando — um espantalho onde metonímias
se entrechocalham. Jorge devolve a performance majoritária do
taxista ao plano das minúcias, das «especialidades»
exageradas que condenaram certos animais anti-diluvianos à extinção.
A operação abstrativa sacou da identidade do taxista toda
profundidade de campo. A «varredura» óptica-concetual
abstraiu do particular no taxista para chegar à Espécie.
Está agora concluindo que o moço não é boa
parceria. Isto determina uma escolha para si que é, em sentido
forte, uma escolha de si. Se pode atribuir ao banho de mistura com a
música de Tom Waits um sentido de «masturbação».
Da cultura do taxista o único todo é o cheiro. O cheiro
é tratado primeiro sem estetização (o taxista simplesmente
cheirava mal); depois, como fedor acima de qualquer pituitária,
recebe um comentário pedante com as palavras longe e acima
das coisas; em seguida, «cheiro» ocorre numa simples exclamação
onde o mais se diz com menos, como só quem diz superiormente
sabe dizer («mas o cheiro meu deus o cheiro»); se segue
o paródico triunfo marialva do cheiro (sombra e sol são
a arena da lide tauromáquica) — e, finalmente, o cheiro
permanece como resíduo «ténue e letal».
A permanência do cheiro mostra bem como a abstração
— a Cultura — é um triunfo precário. O corpo
contaminado pelo cheiro, e pelos piolhos desenvolvidos na sujidade donde
provém o cheiro, teve de recorrer, para purifícar-se,
a um envolvimento sensório equivalente à agressão.
É o banho de mistura com a música de Tom Waits, que se
aceita como todo não discriminado, a despeito de alguma ironia
objetiva.
Neste ponto surge, com efeito, uma ironia de que o poema está
consciente (essa consciência é uma diferença de
cultura e a cultura como diferença): Waits, «por sinal
ainda/ traz as unhas mais sujas». Como se sabe, Tom Waits é
na imagem, no ternário, no som, e na própria voz, um cantor
dirty. Mas como reza «Praise of Limestone», a música
«pode ser feita em qualquer lugar, é invisível,
/ e não cheira». (Auden, 1975, eu sublinho) A
portugalidade cultural no Museu Secreto, sobre ser invisível
e ubíqua, também não cheira (embora os cristãos
tivessem descoberto as virtudes da higiene bem depois dos «mouros»).
O recurso ao banho e ao cânone da noite não afirma exatamente
a mortalidade da Cultura (agora já não tanto lançada
em bases nacionais); o que afirma é a a ameaça letal dirigida
contra o Museu Secreto da Cultura pela cultura coletiva que em forma
de identidade «grudenta» invadiu o espaço público.
Essa ameaça está no ar que se respira.
A experiência da nacionalidade é afectada no XXXIV pelo
perder pé do sujeito no terreno do social-nacional que se revela
como um somatório de partes de diferença, e não
como um somatório de «ficções» culturais
— não uma sociedade anónima, com nome próprio
de pessoa coletiva (Cristóvão deTávora). Ao contrário,
é uma experiência da naçãonada [nationness]2.
Como pessoa que vive em minoria, o poeta é onde a cultura da
nação se reinscreve através de condições
de contradição e contingência. (Bhabha, id.:
2) E rapidamente se reinscreve como a cultura especializada que opera
sua necessidade sobre distinções de classe e performa
distinções de classe, logo devindo diferença cultural.
Sobre o limes do espaço público e sobre linhas
de excomunhão. O que de um lado da linha é majoritário,
é do outro lado minoritário. E todas as linhas são,
afinal, linhas de inconsistência que possibilitam operar.
E com esta moral termino.
[trad. de A. L M.]
Bibliografia
Bhabha, Homi K.
(19984) The Location of Culture, NewYork, Routiedge.
Auden,W.H.
(1975) Collected Shorter Poems, 1927-1957, NewYork, Vintage
Books.
Jorge, João Miguel Fernandes
(1990) A Jornada de Cristóvão de Távora Terceira
e Última Parte, Lisboa, Presença.
Magalhães, Joaquim Manuel
(1990) «Posfácio» in A Jornada de Cristóvão
de Távora Terceira e Última Parte, Lisboa, Presença.
|
1
Os remadores, portanto. Reveja-se o ensaio de Titi Camara. [N.
do org.] |
| 2
A
tradução abstrusa quer passar o sentido de uma nação
não mais pré-conhecida pela sua identidade e unidade
supostas. A nacionalidade e suas tradições estão
em processo de negociação permanente. [N. do trad.]
|
|