RETIDOS OS DEDOS

SOB

O SABOR DAS COISAS

[12] TODOS, E TODOS SEM EXCEPÇÃO

Beladona» é um poema do livro Terra Nostra, a primeira visitação açoreana de João Miguel Fernandes Jorge. (Jorge, 1992: 32) É uma sequência de cinco parágrafos gramaticalmente completos, com cinco, quatro, cinco, três, cinco versos, respectivamente. Nào há elipses, não há colagem, e no verso a definição métrica não contesta muito a definição sintáctica, como é habitual nesta poética: apenas dois versos terminam com significados gramaticais (a, e), e apenas num outro nos aparece uma palavra cortada que descobre um falso étimo (per-/verso). O poema inicia-se inclusivamente por um perfeito decassílabo, medida em torno da qual rondam os outros versos, com excepção de três resoluções de frase, que são de sete, cinco e seis pés.

Talvez só eu a veja como a flor
da volúpia e do prazer
capaz de anular de um só instante
o ressentimento dos tímidos e a
inexperiência dos muito novos.
Não sei se é assim a beladona,
na revelação do rosa e do branco
quando em setembro ergue da terra
baixa o calor da sua haste.
No fim do verão surge a beladona,
conquistador de um tempo de mar
vagas de um sentimento sem fim e
a frágil cor obedece a um impulso
estranho e viril.
Quem diria a beladona carregada
de um tempo ferido por um per-
verso e brusco desejo?
Acaricia junto ao seio a paciente
tépida noite do outono e o caule
abre o juvenil rosa desarmado
do verão, mas não esquecido
do branco pólen, o seu veneno.

Orientado pela repetição do seu termo de privilégio (beladona), o poema chega a uma resolução tanto mais firmemente argumentada quanto esta se segue imediatamente a uma frase interrogativa — mas mantém uma curiosa qualidade preambular. Com efeito, nessa conclusão a beladona retém significados. Ela aparece-nos como o que está por detrás de uma rede vocabular, um pouco como a terra baixa de onde saiu e que, agora, como que reintegra. A beladona atrai a si um campo de sentidos algo diversos, recusando a sua definição mais unívoca ou mais exacta no exacto instante de definir-se: «mas não esquecido / do branco pólen, o seu veneno». O fim do poema coincide com um recuo, com um regresso.
A terra baixa era o suporte indiferenciado de toda a diferenciação. Dela, justamente, se erguera a beladona. A beladona desempenha agora o mesmo papel como argumento de indiferenciação sobre o qual o sentido pode diferenciar-se em sentidos. A beladona reintegra o preambular, recusando especializar-se: não apenas caule rosa, juvenil, e desarmado, mas branco pólen venenoso. Saída do velado, acaba interpondo entre ela e «nós» um véu de símbolos, uma suspeita de sentidos; ela mesma se torna velada.
A assimilação à «terra baixa» foi preparada nesta última frase do poema pela extrema contiguidade contextual com equivalentes dessa coexistência pacífica de in-diferentes: o seio e a «paciente tépida noite do outono». Assim, pode dizer-se que quando o poema regressa à beladona para concluir as suas cláusulas, temos que a beladona a que se regressa se esconde de toda a evidenciação. Torna-se um preâmbulo à beladona. Ela apenas abre para nós um mundo de sentidos na forma de sentidos latentes.
O poema estabelece uns certos ares de família com o Keats da Ode ao Outono:

SEASON of mists and mellow fruitfulness!
Close bosom-friend of the maturing sun;
Conspiring with him how to load and bless
With fruit the vines that round the thatch-eaves run;
To bend with apples the moss'd cottage-trees,
And fill all fruit with ripeness to the core;
To swell the gourd, and plump the hazel shells
With a sweet kernel; to set budding more,
And still more, later flowers for the bees,
Until they think warm days will never cease,
For Summer has o'er-brimm'd their clammy cells.
Who hath not seen thee oft amid thy store?
etc.

O natural apresenta-se como um modelo linguístico de dispersão controlada, i. e., poética, por veredas de sentido A deriva das palavras toma o aspecto de um movimento de correcção das aparências fenoménicas; paisagem ou beladona parecem um conjunto de diferenças verbais, que contrastam menos com quem vê e mais umas com as outras. Do «sujeito», beneficiado pelo Outono, diríamos então que devaneia.
«Beladona» cria esta «área» de sentido nos termos de uma espécie de circunferência que o delimita como sentido natural. A beladona contém todas as estações do ano: brota no Outono, e mais exactamente no fim do Verão; nasce como flor, primaveril por aí; o pólen, não esquecido, na sua brancura evoca o Inverno e o regresso deste ciclo natural. Nasce como sentido da terra; e é o sentido como nascer do sentido, quando ela mesma ocupa o lugar telúrico da in-diferenciação. Diz respeito a todas as idades humanas, que, não raro, são colocadas num plano de analogia com as estações do ano. Reúne em si os dois géneros sexuais, quer elidindo-os em androginia — os tímidos e os muito novos, «o juvenil rosa desarmado» —, quer promovendo a contiguidade dinâmica do materno e do paterno. Convêm-lhe ainda os dois géneros gramaticais: «a beladona carregada», «a beladona, conquistador de um tempo de mar». E a mesma dis-tensão de sentido ocorre da investigação «etimológica» (bela/dona) até à projecção metafórico-simbólica do «impulso estranho e viril»; a bela dona é um falo devidamente apreciado: «o doce calor da sua haste».
O poema é, pois, uma falofania. A manifestação do falo é captada num instante exemplar de ascendência vital, a que cabem todos os sentidos de juventude e de despertar, ditos antes de mais na erectilidade daquela haste, e na sua pureza linguistica e culturalmente nua: «o juvenil rosa desarmado do verão».
Desinibidora de sentidos — nos dois sentidos da palavra 'sentido' —, a beladona anula todas as defesas com a sua presença e manifestação. Converte imediatamente a inexperiência em experiência, abre perspectivas, e triunfalmente outorga o mundo inesgotável: «conquistador de um tempo de mar / vagas de um sentimento sem fim». A beladona, no seu puro manifestar-se, não está ligada nem ao «pecado», nem à violência. A sua essência não é designável nos termos do «per-verso e brusco desejo» que a carrega de um «tempo ferido». É, pelo contrário, inocente e «tempo de mar»: é toda carícia, paciência e tepidez. A beladona é, portanto, não humana, naquele sentido em que o humano surge como alguma coisa que se opõe ao natural.
O que este falo significa é a permissão, natural e vital, de uma transcenção dos géneros. Este falo é doado pela «terra baixa» como um diferenciar-se directo do maternal; e com essa doação vem a «terra baixa» de todos os sentidos como sendo o que convém ao seu sentido. O falo, no fim do poema, signfíca atrás do véu, como um equivalente da latência telúrica.
Os versos finais assimilam a lei designada por este falo àquelas práticas sexuais não reprodutivas que convertem o «branco pólen» em «veneno». Se este «veneno» neutraliza o «pólen», tudo o que de disfórico acompanha «veneno» está por sua vez neutralizado por tudo o que de eufórico (e essencial, graças ao epíteto anteposto) acompanha a «brancura». O desejo comandado pelo falo velado está ao serviço da desvelação falofântica. O movimento, se o há, é cíclico. Proscreve a diferenciação temporal, linear e irreversível. Integra a natureza — ou, pontualmente, tempo extático e felicidade, «tempo de mar»; ou, finalmente, tempo cíclico, sazonal, em que o que finda recomeça, tão logo a bela dona volte a erguer o calor da sua haste. Nem o sentido humano, nem a morte humana, nem a falicidade humana.
Beladona» é uma pastoral, uma utopia. A seu modo, propõe-nos um mundo em que o sentido fosse natural.

Bibliografia

Jorge, João Miguel Fernandes
(1992) Terra Nostra, Lisboa, Presença.
Keats, John
(1977) The Complete Poems, John Barnard (ed.), NewYork, Viking Press.