RETIDOS OS DEDOS

SOB

O SABOR DAS COISAS

[VI] OIRO SOBRE PISADO VERMELHO

«Oiro Sobre Pisado Vermelho», de O Barco Vazio, (Jorge, 1994: 81-3) é um conjunto de onze quadras onde domina o alexandrino aproximativo, rematadas por um terceto. Esta fórmula do poema é suficiente para lembrar Cesário Verde, e o seu assunto o de «Num Bairro Moderno», embora no poema evocado a unidade estrófica seja a quintilha rigorosamente decassilábica e à metamorfose do conteúdo da giga corresponda aqui a criação de um totem vegetal. (Verde, 1983: 63 ss).

OIRO SOBRE PISADO VERMELHO

Falei um dia do rosto dessa mulher tão
velha, que vende hortaliça, cabeças de
nabo, cenouras, vermelhos rabanetes tão
de brilho que pareciam metal pintado.

Via essa mulher, matriarcal senhora, a
uma esquina da rua da Atalaia. Eu
regressava das aulas pelo passo rápido
do Bairro alto que, por esses tempos,

começava a estender altos ramos nocturnos
para a mais comum noite da gente. A
mulher velha — não sei em que verso
antigo a deixei —, estava ali, quieta,

pousada entre o seu estendal de vegetais
e o grosso xaile, verão e inverno.
Negra incisão na manhã, rosado e velho
rosto, pronto a ser sondado a olho nu,

como dizem os professores acerca da
observação da natureza próxima.
Voltei a vê-la, quinze, vinte anos passados.
Reconhecia-a. Talvez por causa da mesma

esquina da rua da Atalaia. E disse
para quem me acompanhava «esta mulher
já entrou num verso meu». Tantos anos
e o mesmo pântano de verdes, os mesmos

olhos que significam sunve chuva, o
mesmo arco de pólen, declive entre as
votivas oferendas e a fugidia palavra dos
embalsamados lábios. Serei eu ou

será ela o mais sombrio tempo da história?
Murmura e abre um obscuro sulco, à
sua volta, ao redor do bairro. Descobre-
-se a seus pés um cinzento coelho, orelha

caída e outra alevantada
rói uma verdosa folha de couve.
A mulher de entre as pedras das casas
estende as mãos para o macio coelho.

Ergue-o, aproxima os mansos lábios vegetais
dos seus lábios de terra
vazados já em bronze. Obelisco que sonha
raízes no meio de flores mortas.

Deixei-me ficar por um instante,
perto do fim do século, frente a
uma divindade vegetal que desde o longe da minha
memória vende cenouras e hortaliça.

Sei o seu rosto velho e calmo
a paz desolada quando comigo fala
do nosso amor e, também, terror.

2
Ao poema é dado um título de pintura, em que a arte, os seus valores intrínsecos e o métier têm precedência sobre a humanidade do assunto. O referente figurado perde o poder de dar nome ao quadro; em contrapartida, os recursos próprios do medium utilizados na figuração do referente ganham esse poder. O processo remonta a Whistler, de que se evocará com proveito o "'Arrangement in Gray and Black, n°1» (o retrato da mãe do artista).
O humano preterido retorna dignificado no título, tropo que contém um outro tropo consentido pela ambiguidade de 'pisado': uma prosopopeia. Não se perde portanto nada, se lembrarmos ainda o abstraccionismo lírico 1 de um Robert Motherwell. A abstracção lírica do títuIo funciona então como uma metáfora. 'Pisado 'resgata 'vermelho', representante metafórico, mas algo arqueológico, de 'vida'; 'pisado vermelho' é o que metaforicamente se predica da mulher (re-)encontrada à esquina da rua da Atalaia, por isso que ela é velha; e 'oiro sobre pisado vermelho' é a predicação metafórica que se aplica à representação dessa mulher1.

3
Cesário encontra-se com o objectivismo de Pound e de Williams Carlos Williams; o verso adianta-se e atrasa-se em relação à gramática ou quebra o pé da prosódia — e, justamente porque a forma da quadra e do alexandrino é sufucientemente evocada, este é um dos poemas de Jorge onde é mais notória a definição «perfeitamente satisfatória» do verso pela «sua identidade em relação à prosa»: o enjambement. (Agamben, 1999: 50) A oposição do limite métrico ao limite sintáctico que longamente repete a impossibilidade de desenvolver o tema prosódico para lá da versura, o repetido esboçar de uma «figura de prosa», (id., ibid. e passim) ao mesmo tempo que se quebra o nexo sintáctico (não apenas no enjambement) e o verso se figura 'autónomo' na frase nominal, compõem um discurso entretecido de tropos «desastrados» e de uma espécie de precisão trôpega por onde se tenta afirmar — e se torna deveras afirmativa — uma incompetência narrativa e gramatical que vai substituindo o exposto e comentado por oiro sobre pisaáo vermelho e afins.

4
Todo o soupçon de derrogação desaparece tanto mais quanto mais a mulher se torna objecto. A sintaxe e a semântica ratadas são postas a uso expressivo, dir-se-ia que puramente lírico; pela disjunção típica do medium linguístico, tão exactamente colocada em relevo, cria-se uma figura da sua superação: a linguagem verbal tornar-se-ia densa como a da pintura; não mais seria um necessitado de articulação semântica. O objecto seria «natureza próxima» pronto a ser «sondado a olho nu». O que neste poema se dramatiza é justamente o encontro impossível do sujeito com uma verdade no plano do objecto.

5
Essa sondagem conduz a uma transfiguração do objecto nu plano lírico intencionado — algo que se figura no oiro superveniente ao vermelho pisado. Desta forma muito própria, o poema não descreve o mundo — vai tentando fazer sentido do mundo para além da sua descrição. Nestes termos, e algo paradoxalmente, fazer sentido exige a substituição do sentido não tanto por um objecto como por um totem, ou seja, pelo Objecto como objectivação do sem-sentido, ou do que, figurando a morte em corpo próprio, se isenta de sentido. No «oiro» apresenta-se, ademais, algo como a realização plena da natureza. Muito estranha embora, essa realização transparece numa figura que destaca do ambiente humano para se tornar uma «divindade vegetal», e todavia
máscara mortuária («lábios de terra / vazados já em bronze»): «a mulher de entre as pedras das casas / estende as mãos para o macio coelho».

6
O oiro, como se vê, é obtido por esforço. O que mais imediatamente ocorreria é o «pisado vermelho», que é o sinal da sujeição do humano à sua condição histórica, temporal e natural, a qual desemboca na «paz desolada» que não reconhece já os paradigmas — as oposições — da língua. A «paz desolada» é a impossibilidade de escolha entre «amor» e «terror». A possibilidade de escolha funda a sintagmatização discursiva. O oiro forçado afirma a autonomia humana face à conexão de causas e efeitos que conduz ao «pisado vermelho».
Como título, este acto de liberdade moral antecede e nega a «paz desolada»; e um seu efeito positivo reside no seguinte: livre de constrições empíricas, fora, afinal, da natureza e da descrição, o totem tem uma função justificativa e crítica. Repudia desde logo «a mais comum noite da gente», para quem o «Bairro Alto», «por esses anos,/ começava a estender altos ramos nocturnos». Mas a «matriarcal senhora» é extraída do social, a que talvez nunca tivesse de todo pertencido, e se parece permitir a crítica ao social referido pela quotidianização da noite2, não é porque nela se imagina o outro social — uma classe. Neste registo, seria ainda de considerar a afirmação de que o século chegou ao fim não assistido pela história.
Os «altos ramos nocturnos» acolhedores do «comum» sofrem a presença de uma «anamorfose» — máscara mortuária, caveira, obelisco, memento mori — que reintegra esses ramos à condição terrificante da «divindade vegetal». Mas a desprotecção social da matriarcal senhora é sobretudo um pretexto da sua carência de resguardo contra tudo o que pisa o «vermelho». A passividade absoluta disponibilizá-la-ia para uma abstracção lírica.
Observe-se agora que o poema refere o vermelho apenas na primeira quadra (com, adiante, um derivado e um implícito: rosado rosto, cenouras), e por implicação muito longínqua, no mesmo verso, o oiro: «vermelhos rabanetes tão/ de brilho que pareciam metal pintado».
Na verdade, a cor dominante é a cor «oposta», que desaparece na abstracção lírica: o verde. Não considerando as implicações, aparece este em «verde hortaliça», na designação metafórica do tipo genitive link que no plural generaliza uma condição («o mesmo pântano de verdes») e reaparece decisivamente e derrogado, mas não objectado, em «verdosa folha de couve». A verdosa folha surge na posição de representante do fundo da cadeia alimentar.

8
No gesto que destaca do meio das casas (das pedras das casas) e se torna gesto votivo («ergue-o») a velha senhora parece sair do meio humano para a natureza, mas a plenitude natural é um compósito verbal que não reconhece distinção entre o vegetal e o metálico. Com efeito, a máscara mortuária do rosto e o obelisco do vulto nada têm a opor no verso à descrição do mesmo objecto como «divindade vegetal».

9
Os versos em que andou aquela mulher são um sepulcro e um monumento que se abre sobre a morta ou sobre a morte. Mas são também um útero que responde ao que na matriarcal senhora é a Mãe perspectivada como lei da sujeição universal ao natural e à «desolada paz», onde (felizmente) se não distinguem o amor e o terror. Nesta materna sepultura, a «paz» — desolada porque imposta, apesar do «oiro» —, o amor e o terror dizem-nos da intimidade em que se acha o autor dos versos com a velha senhora. Uma espécie de «piedade filial» defronta a dignidade objectiva ou objectivada do humano na caveira.

10
O terceto final é notável, pela reversão imediata entre positivo e negativo. Podem pôr-se em relevo a legibilidade ou a capacidade comunicativa que este rosto adquire depois de mortificado, como também tudo aquilo que é posto em comum (o «nosso amor e, também, terror») numa comunicação pelo íntimo entre duas não mais ipseidades:

Sei o seu rosto velho e calmo
a paz desolada quando comigo fala
do nosso amor e, também, terror.

A autonomia ontológica do outro, figura cuja existência não é mais do que a negação do eu — essa autonomia, a que a morte impõe o seu autismo, aparece por antífrase «infeliz» como um conhecimento que é da espécie da certeza íntima («sei»). Mas a intimidade em que se comunica, dispensando a fala e a diferença, é também aquilo que exactamente dispensa os sujeitos da comunicação — que ja os dispensou. O repúdio da disjunção linguística e a preferência consequente pelo olhar, pelo quadro e, mais ainda, pela abstracção lírica, acham-se tão justificados como o seu oposto. Pode dizer-se que o poema esbarra aqui num equivalente da disjunção. De facto, o olhar nu que sondaria a natureza próxima reencontra a disjunção. O totem vegetal é o olho que faz mancha no quadro e elimina a distância que, no acto de percepção, falazmente constitui o sujeito como sujeito da consciência. Mas, justamente, quando o sujeito que olha diz «sei», é quando é englobado por um «saber» sem sujeito. (cf. Lacan, 1973)

11
Neste meio «natural» da disjunção de conjuntos, desemboca o «mais sombrio tempo da história». Um tempo despercebidamente transcorrido na memória e que regressa, quinze ou vinte anos depois, na forma inesperada do recalcado. «Perto do fim de século», a natureza faz a sua aparição como facies hipocratico da história. O rosto da velha senhora é deveras uma «incisão negra» na manhã; e a natureza próxima, disponível para sondagem a olho nu, devolve esse olho insondável, essa incisão negra, que coloca o autor do quadro no fundo do quadro, visado pelo Outro totémico não mais localizável. Mundo e história estão a cargo da Morta. E, máscara de bronze e obelisco, também a arte lhe pertence.

12
Aquele que abarca com a abstracção lírica do olhar é o mesmo que é abarcado por um fúnebre arco da aliança — «arco de pólen» e «declive» entre «votivas oferendas». A comunicação íntima, capacidade de quem «viu» e «sabe», quer colocar no mesmo plano o olhar e o olhado, transformar numa fala inteligível e direcionada («comigo fala») o sem-sentido que se corporizara na «fugidia palavra / dos embalsamados lábios». Todavia, a palavra plena, não sujeita a disjunção paradigmática («amor e, também, terror»), e o Objecto-totem não conseguem obrigar o rosto humano a exprimir o fundo vegetal infigurável, por muito que se aproximem de uma objectualidade não derrogada ou da existência em comum do amor e do terror. A desfiguração é figuração, e, portanto, uma reproposta ainda do humano. A ser objecto, o «obelisco» não pode ser tão humano que sonhe «raízes no meio de flores mortas», nem tão humano que velha senhora e poeta falem como mãe e filho de coisas suas — ou que dispensem palavras num beijo entre lábios de bronze e lábios vegetais3. E, todavia, é humanizado; e, quando da operação desumana fiquem resíduos, esses resíduos não são mais do que o humano que sobrevive à operação. Excrescências, redundâncias, mas não elimináveis. Ora, a palavra demiúrgica, que «abre um obscuro sulco, à sua volta, ao redor do bairro», é vazia — e mais abstracta do que lírica.

13
No decurso da transformação do poema em pintura, a paz desolada é talvez o «evento» que a exposição poemática prefere porque conduz à estabilidade. Mas esse evento fora já artisticamente configurado nesta quadra que termina por uma frase nominal. Considero que a paz desolada não o rasurou:

Ergue-o, aproxima os mansos lábios vegetais
dos seus lábios de terra
vazados já em bronze. Obelisco que sonha
raízes no meio de flores mortas.

Com o regresso do humano ao fundo da cadeia alimentar, «pântano de verdes», é toda a humana figuração que se destina à estabilização da «paz desolada». Enquanto metamorfose totémica — resto de restos, entre restos, e rosto disso —, o humano é o produto redundante e não intencional da tragédia da evolução.

14
Voltando atrás, ao Lacan do ensaio, parafrasearia assim: o mundo como materialmente fundado (sobre um «pântano de verdes») não dá pica que chegue; história e tradição, ao contrário do que Jorge costuma poetar, não garantem o que o mundo não dá (deixam o fulano falante diante de um «fim de século»); do grande gozo sempre presumido ficam uns jogos de ver bocados de oiro e pisado vermelho; e, como mais do que uma vez acontece em Jorge, uma palavra da mãe amável, entre votiva e sacrificial, deu-nos por verdade a morte.

Bibliografia
Agamben, Giorgio
(1999) Ideia da Prosa, Lisboa, Cotovia.
Jorge, João Miguel Fernandes
(1994) O Barco Vazio, Lisboa, Presença.
Lacan, Jacques
(1973) Les Quatre Concepts Fondamentaux de la Psycbanalyse, Le Séminaire, Livre XI, Paris, Seuil.
Verde, Cesário
(1985) Obra Completa de Cesário Verde, organização, prefácio e notas de Joel Serrão, Lisboa, Horizonte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 Retomando algumas noções básicas da crítica cinematográfica feminista, é possível constatar que a mulher não só está parada numa esquina (e «durante» vinte anos), como é «alinhada com a superfície da imagem». Em contrapartida, o homem percorre um espaço tri-dimensional. Aquele alinhamento é tanto mais efectivo quanto, em contexto de expressionismo abstracto, se faz deveras com a pretendida verdade anti-representacional do medium: a «flatness». Não insisto, e não insistirei muito, no papel que o género 'mulher' desempenha na construção dos espaços de representação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 A noite é rotinizada no colectivo indiferenciado («a gente»).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 Na eleição do «macio coelho» pela «matriarcal senhora» a mãe, com amor, transmite ao filho o terror.