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MAIS UM E OUTRO REMADOR
Baltimore, a cidade que lê [the city that reads1]. Adiante pela
Charles Street. International Office. Regresso à Broadview. Ida
e regresso na neve, vento agreste, carros poucos, quase só.
Texto negro em página branca.
O poema de João Miguel Fernandes Jorge,«Sub você
aqua», assim começa.
MAIS UM E OUTRO REMADOR
Sub você aqua.
Anoitecia e levavam-se por
aquele ribeiro de mar.
Sob as sombras do verão
aguardavam uns pobres
peixes quotidianos. A-
guardavam o que em cada um
de nós é
silêncio, olhos que guardam,
lábios que dizem. Sob
sobre voz o crepúsculo foi
tão breve
um término quieto.
Na cor fria, tão breve,
mais um e outro remador.
Anoitecia e levavam o corpo
o corpo do barco
para a obscuridade da água.
(Jorge, 1988: 89)
O poema começa com um verso que, na forma da frase nominal,
sugere um absoluto declarado. Esse incipit, todo um verso e
toda uma frase, é uma «fórmula lexicográfica»,
economicamente abreviada. Joga com noções de notoriedade,
literalidade, objectividade. Na entrada aqua inscrevem-se as
actividades dos «remadores» e a sua «fenomenologia».
O mundo (a cidade) parece estar a ser lexicograficamente orientado.
A «voz» aqua, num certo dicionário não
muito longínquo dos dicionários conhecidos (um que se
estruturasse por «campos»), subsume 'ribeiro','mar', 'peixes',
'barco', 'água', e ainda certamente o 'levar-se' que viola regras
de categorização estrita. Aos «conteúdos»
sub voce de um dicionário corresponde um leitor que
tem a forma de uma cidade que lê. Uma cidade que lê, não
como um somatório, ainda que estruturado, de leitores empíricos
diversos (e das suas idiossincrasias), mas como polis ideal(izada),
possui o sentido como sentido inequívoco e literalmente objectivado.
Esta é uma ocasião favorável a um certo tipo de
observações.
Cross Street2. Café diante do porto. Arejar na Chesapeake Bay.
A neve gela. Nevão também sobre Maryland.
Observações derivadas dos tópicos da objectividade
O poema de Jorge, como outros poemas de Jorge que conheço, tem
a forma geral de uma objectividade que só pode ser uma objectividade
de coisa escrita. Não vejo, por exemplo, como memorizar esta
voz. Esta voz não é memorável como «Cai neve
na natureza / E cai no meu coração». O poema da
neve, que conheci muito antes de ver neve cair, ocorre-me nas ruas de
Baltimore. (Neste momento, a neve tem mais de um metro de altura). Precisamente
porque o poema de Augusto Gil se mantém nos limites da imitação,
não creio que se sinta necessidade de imitá-lo (a não
ser com intenção de paródia, mas não é
esse o caso que interessa). (Tenho-o pronto na memória, mas não
acredito nele. Não lhe reconheço o poder de dizer o «mundo».
Olho-o à distância do seu «ridículo»).
O poema de Jorge é obscuro, os versos são esquartejados
por enjambements violentos, e coloca-se deliberadamente para
lá da imitação. Não quero dizer com isto
que esta arte não possa imitar-se e bem exactamente. Pode —
e, para além da sua feição egolátrica, justamente
à conta da sua idiossincrasia. Mas cada linha imitada seria um
passo mais para fora do domínio da imitação. Imitado,
permaneceria obscuro, pois não nos vem por linha sucessória,
nem incorpora a evidência do colectivamente partilhado ou partilhável.
E, no entanto, arrasta consigo o fantasma do «clássico».
O que quer que pense é um pensamento formal, do tipo que a estética,
em registo analítico, muito investiga por aqui: todo e partes
regidas, proporção, etc. O primeiro verso tem a forma
da protasis (exposição), o que se segue até
ao terceto final tem a forma da epitasis (complicação)
e este terceto tem a forma da catástrofe (resolução).
Na verdade, o corpo do poema parece seguir-se de «sub você
aqua», na forma da explicitação do que vem sub
voce; e a estrofe final adquire a figura da catástrofe através
das imagens de uma dissolução da forma no indiferenciado
(«a obscuridade da água»). Desta forma, aristotelicamente
dizendo, o poema é um mythos.
Estas ideias são mais gerais do que a poesia3; formam, dir-se-ia,
a capacidade ledora da cidade. Mas o que quer que a cidade lesse no
poema não iria além destas formas «a priori»
da estética.
Uma vez mais o espectáculo das row houses. Vernon.
Longínqua a memória de um romance de Pearl Buck (?). Uma
americana, viúva de um chinês, regressada aVernon, com
um filho com marcas de «raça».
A cidade
O mundo que é objecto desta (des)construção lexicográfica
é a cidade. Na cidade ganham relevo e pertinência o quotidiano,
a pobreza do quotidiano e a natureza colectiva do quotidiano: «aguardavam
uns pobres / peixes quotidianos».
O enunciador está com os «remadores». Com a «natureza»
brilhante dos «remadores» vêm contrastar uns «peixes».
Detecto aqui uma objectivação, que é moral, derrogatória,
e devolvida. Gonsidero-a como um a priori mais da gramática
estética da cidade — um «insulto». A «fenomenologia
do remador» não é apenas aquática. É
também nocturna: sombras, crepúsculo, obscuridade, anoitecia.
O mundo dos remadores deve ser crido sob palavra [sub voce].
É criado sob palavra. A criação verbal é
magia declarativa: o regime da frase é assertivo, o sentido obscuro,
e as repetições encantatórias. Ao «levavam-se»
corresponde o «levavam»; às «sombras»
corresponde «anoitecia» e a «obscuridade»; «aguardavam»
corresponde a «a/guardavam» e «guardavam»; «tão
breve» a «tão breve», e «sub voce»
a «sob/sobre voz». Institui-se um espaço semântico
de sinonimização que dissolve numa paranomásia
as barreiras de sentido entre 'aguardar' e 'guardar', que elimina o
condicionamento dos dícticos espaciais por um oxímoro
(sob/sobre), e que, forçando a ligação genitiva
[genitive link], faz do quotidiano limitado expressão
do sem limites («ribeiro de mar»).
Identicamente, o verbo 'levar' é tocado pela magia verbal. Em
«levavam-se por/ aquele ribeiro de mar», o movimento aparece
como direcionado pelo sujeito (-se), mantendo-se com 'levar'
a noção de um movimento direccionado que, pelo contrário,
submete o «remador» (o curso da água). A reaparição
final de 'levar' dará por obtida a emancipação
sui generis da vontade do «remador». O enjambement
tem como efeito apresentar o primeiro verso como frase completa, e o
segundo como especificação, que a revela afinal incompleta:
«levavam o corpo/ o corpo do barco». Numa expressão
que funciona entre o literal e a metáfora genitiva, o resultado
é a atribuição de 'corpo' a 'barco'. E o corpo
do barco só pode ser todo o barco, assim plasticamente evidenciado.
O corpo, que é todo o sujeito, é um «objecto»
direccionável pelo mesmo sujeito. O barco (o corpo do barco)
é levado como um objecto que há-de submeter-se a direcções
— a direcção que o sujeito lhe impõe e a
direcção que o mar, a água, lhe imporá.
Para além da troca metonímica do «remador»
pelo «barco», a verbalização impõe
um acordo entre o sujeito que ganha como barco a direccionalidade, e
um território definido pelas suas dele direcções.
Contra a gramática (dissolvida), produz-se uma adequação
«natural» entre a vontade e as forças de um território.
Mais do que a adequação ao terreno, o que a vontade define
é a transformação mimética do «remador»
em «terreno». Esse terreno contrasta com o quotidiano. Pela
ausência de limites, pelo seu carácter aórgico
natural, não é regulado nem pela pobreza nem pela espera.
Há indivíduos não individuados mas colectivamente
percebidos que estão prisioneiros de uma identidade. Os «peixes».
O pronome indefinido «uns» inicia a depreciação
zoomórfica que se completa com o epíteto redundante: os
«peixes» são essencialmente pobres; a pobreza é
a essência dos peixes.
Esta pobreza está moralmente indexada. Os «peixes»
são passivos, pois «aguardam». O que «aguardam»,
e que também eles (quase) guardam — e provavelmente sem
saber que guardam e aguardam —, é o que se manifesta como
autenticidade íntima numa sinalética quase tribal. É
o que dispensa as palavras por ser «o que em cada um / de nós
é / silêncio» — e que se comunica através
de olhares reservados e sob as palavras [sub voce]. Curiosamente,
a comunicação indirecta encontra o oxímoro espacial
que é o primeiro título da obra de Fernandes Jorge: Sob
Sobre Voz (1971).
Os «remadores», que apareceram sem aparecer, ao reaparecerem
com a identidade metafórica de quem «rema», são
«mais e um outro». Sugerem passagem, e são sugeridos
como elementos de uma sequência já algures iniciada e de
indefinido término. A sua identidade não é estática.
Finalmente, e por símbolos de água, noite e fusão,
eximir-se-iam a toda a identidade. Um patamar temporal (crepúsculo
e «término quieto») — e os remadores partem
para o «infinito».
Os «remadores» são seres distintos e notavelmente
«ginasticados». A «ginástica» que fazem
parece um operador imaginário de auto-suficiência.
Regresso da JHU4 à Broadview. Enregelado. Recomponho-me a chá
de limão quente.
Outras proezas de remadores
Fernandes Jorge tem mais «remadores». Nas obras que foi
me possível obter encontrei «Estudo para Remadores»
(O Regresso dos Remadores), «O Remador Ainda»,
poema imediatamente anterior a «Um e Outro Remador» e «O
Remador de Zimmer» (A Jornada de Cristóvão de
Távora Primeira Parte). Em todos há combinação
de matérias, metamorfoses, mudanças de meio, deslizar
das gramáticas da identidade. O deslocar-se implícito
ao nadar e ao remar, o ir de um lugar para outro lugar (e até
para lugar nenhum), simbolizam inevitavelmente transformações.
(Tal é a força das gramáticas).
No primeiro poema os remadores nadam mais do que remam. São portadores
do todo, profetas e heróis fundadores. Em suma, são artistas,
que exprimem a sua pesonalidade autêntica contra a tribo5. «Tentam
ultrapassar o amigo / que pelas águas se perde». (Jorge,
1982: 143), e são tratados como uma emergência pela «cidade
que lê». Por isso mesmo, são irrisoriamente divinizados,
coroados— marginalizados pela glória e pelos seus equívocos,
numa tentativa de os pôr a ratificar a ordem social repressiva
(os louros revelam-se um tropo da tropa, a efígie um tropo do
dinheiro):
(...) Os outros irritam-se
pedem aos deuses, aos fragmentos, liquidem-no
transformem-no no cantor de montanhas
coroem-no com o quépi de folhas de loureiro,
o perfil de moeda nova.
(id.: 141, eu sublinho)
«O Remador Ainda» é a um tempo mais obscuro e mais
claro. A sintaxe oblíqua escapa a centrar-se em sujeitos, objectos,
acções. É difícil identificar. Todas as
entidades e todos os eventos são compósitos. O divino
e o humano, o natural e a prótese, o masculino e o feminino,
a lucidez e a loucura, o anjo e o demónio, o ele e o eu, compõem
um caleidoscópio notável. Algo haverá como um «encontro»
furtivo «no quarto sombrio da casa»; (id., 1988:86)
e, no fim, o poema é dito por um eu que exorta «o demónio
querido» a não renegar «o fogo/ o mar do remador»
e a não «cessar de remar». A performance
atlética é uma «aprendizagem». (id.)
O ser outro, o imprevisto, a liberdade (o voo) é possível:
quem diz, remador,
que já não há lugar para um voo de ave
sobre inesperado navio? Quem dirá
remador?
(id.:87-8)6
O «Narrador de Zimmer» começa pela proeza atlética
que conduz à auto-suficiência. O «barco rompera as
amarras nocturnas» (1986: 89) O remador continua «a sonhar
acima das suas/ sombras» (id:. ibid.) O poema
acaba com a interrupção «razoável»
do exercício:
A água fendida do casco.
Cessaria de remar
desembarcaria entre as árvores da
margem, mas primeiro,
descansando os remos
mergulharia a mão na opaca planura
do lago.
(id:. ibid.)
Note-se a fusão entre a«água» e o «casco»
promovida pela obliquidade da expressão «fendida do casco».
E note-se, finalmente, que o retorno a «terra», ou seja,
à realidade, é ocasião para afirmar a intimida-de
ou a fidelidade ao meio de que se faz parte e que se vai momentaneamente
deixar.7
O que é «sob sobre voz» institui-se como objecto
de interpretação.
Ao ler estudos de «género» fico com a noção
de que as lógicas sociais-imaginárias da «generalização»
[engenderment] são lógicas que de raiz se opõem
à interpretação. O social apresenta-se como não
sujeito a interpretação. É o resultado de uma performance
que ninguém viu e que ninguém vê, e que por isso
não foi nem é submetida a escrutínio. O que se
«vê» não tem complicações topológicas
do tipo sob/sobre. É todo «lexicograficamente» arrumável
sub voce. A funcionalidade da performance da matriz
hetero significa que «não é possível uma
leitura, ou que leitura e interpretação aparecem como
um ver transparente, onde aparência e sentido coincidem».
(Butler, 1993:192) A consistência social dos «peixes quotidianos»,
diria Eve K. Segwick, reside na «marca diacrítica mais
simples e determinativa da organização social: um sistema
de género estável». (Sedgwick, 1993:58) O remar
de Jorge institui na forma do clássico uma outra forma. Todo
o passo que o coloca para lá da imitação é
um passo que o situa na interpretação. Exposição,
complicação e catástrofe configuram não
apenas a necessidade clássica da forma: aquilo que essa forma
necessária pensa torna a interpretação necessária.
Por este aspecto, os poemas de Jorge seriam meramente «modernos».
Mas estes versos de Jorge põem agora em relevo a divergência
entre o léxico e a leitura, que rompe a matriz hetero da cidade
ledora. A re-categorização e a descategorização
gramatical mexem com a matriz que impõe as exclusividades mútuas
do género, do desejo e do sexo. (cf. Butier, id.) Remar
parece ser uma actividade, em grande parte estética, de ruptura
com todo o identitário firmado na matriz heterossexual dominante.
O desempenho ab-errante da(s) identidade(s) de género transcenderia
todos os limites de todas as gramáticas e, como julgo que implica
o «atletismo», seria aquisição de poder.
Pensei, ao ler «O Remador de Zimmer», que o título
seria uma expressão do tipo «O Pensador de Rodin».
Zimmer seria, portanto, não um topónimo, mas um autor,
um artista — um remador. Coincidência. Precisamente aqui
ao lado [next door], em Washington D.C,, vive o fotógrafo
de origem alemã Richard von Zimmer. As suas fotografias mais
clássicas são performances de género,
tipo drag queen; algumas outras, electronicamente tratadas,
apresentam-nos também seres onde o género, no que é
dado a ver, não parece ser reconhecível; em «Tim
Miller» o cromossoma notório esconde a «marca diacrítica
mais sim-ples e determinativa» do sistema social-genérico.
Pode apreciar-se a obra num site que o próprio artista
mantém na internet. (Zimmer, 1990)
[trad. de J. E. C.].
Bibliografia
ButlerJudith
(1993) Bodies That Matter, New York, Routiedge.
Coetzee, J.M.
(1998) «What Is a Classic?», ín MeIzer. A. M.,Weinberger,
J. & Zinman, M. R .(eds.) Multiculturalism and American Democracy,
Lawrence, University Press of Kansas.
Jorge, João Miguel Fernandes
(1982) O Regresso dos Remadores, Lisboa, Presença.
(1986) A Jornada de Cristóvão de Távora Primeira
Parte, Lisboa, Presença.
(1988) A Jornada de Cristóvão de Tâvora Segunda
Parte, Lisboa, Presença.
Sedgwick, Eve Kosofsky
(1993) «Epistemology of the Closet», Abelove, M., Barale,
M.A. & Halperin (eds.) The Lesbian and Gay Studies Reader,
New York, Routledge.
Taylor, Charles
(19922) Sources of the Self. The Making of Modern Identity,
Cambridge, Harvard University Press.
Zinuner, Richard von
(2000) «Richard von Zimmer Photography, Version 5.5», in
http://www.3eg.com/rvz/.
|
1
Os bancos e as paragens da cidade estão cheios de letreiros
com esse lema. [N. do org.] |
| 2
Mercado popular de Baltimore. [N.do org.]
|
| 3
Imito, em «contraponto», um trecho de J. M. Coetzee
sobre a sua primeira audição de Bach. A obra ouvida
nunca é obscura, nunca se coloca para lá da imitação.
A sucessão temporal dos sons revela todavia uma arquitectónica
que não é apenas ligação de unidades.
Elas «incarnam» num objecto de ordem mais elevada. A
«incarnação» não é apenas
de ideias musicais, mas de ideias mais gerais do que a música:
exposição, complicação e resolução.
«Bach pensa em música. Em Bach, a música pensa(-se)».
(Coetzee, 1998:205) .
|
| 4
The Johns Hopkins University. [N. do org.] |
5
Todo o self moderno, hoje um ideal normativo, foi criação
dos primeiros artistas — os românticos. (cf.Taylor,
19922)
|
6
Este trecho, entre outras coisas, exemplifica bem o ideal de autenticidade.
Nas palavras de Taylor: «Há uma certa maneira de ser
que é a minha maneira [o meu caminho, my way]. Fui
chamado a viver a minha vida desse modo». A conclusão
é que não responder à vocação
é mentir a si mesmo, «não atinar com o propósito
[miss the point] da minha vida». (id.: 30) |
7 Em O
Barco Vazio (1994) o remador aparece no poema «Os Remadores
do Douro», e em Terra Nostra (1992) é o Leitmotiv
de «Três Falsas Elegias». Em A Jornada de
Cristóvão de Tâvora Terceira e Ultima Parte
(1990) o remador é
um dos motivos, e explicitamente nos poemas XIX, XXXI e XXXIV. A
todos deve Câmara desconhecer. [N. do org. ] |
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