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Introdução
A lírica galego-portuguesa chegou-nos sobretudo
através das três grandes antologias: os Cancioneiros da Ajuda, da Biblioteca Nacional e da Vaticana. É um corpus de mais de mil e seiscentos
textos, acontecidos em instituição artística semi-autónoma: a produção
é individual e por escrito; a transmissão é oral e a recepção
colectiva; o assunto dos textos pode circunscrever-se entre a
socialização e a sociabilidade, a que se subordinam temas e géneros
situáveis no amplo espectro que vai da «idealização erótica» ao
«realismo». (cf. Bürger, Avant-Garde)
Trata-se de uma produção de cortes senhoriais e régias, musicada e
classificada pelos próprios em géneros razoavelmente definidos:
cantigas de amor, cantigas de amigo, cantigas de escárnio e mal dizer
(os que dizemos maiores), prantos, pastorelas, tenções, etc.
(classificados estes por Tavani como menores e/ou contaminados).
Adopto a posição de Tavani (Lírica)
e não considero as Cantigas de Santa
Maria nem no corpus,
nem no «sistema». O facto de se poderem considerar uma conversão da
lírica profana ao divino, numa atitude com antecedentes análogos nos
«últimos provençais» (Guiraut Riquier) não me parece que ponha em causa
a exclusão. (cf. Bertolucci, Morfologie,
Dicionário) Pesadas as
diferenças (pois tratar-se-ia de substituir a senhor pelas armas e não pela
Virgem), não incluiríamos decerto na lírica as gestas em
galego-português que um Alfonso X, tendo renegado da fin’ amors, resolvesse fazer em
exclusivo. Do mesmo modo, não tiraremos conclusões tão globais do facto
de Alfonso, ao que parece, ter efectivamente substituído a mesma senhor
por objectos menos próprios (é na lírica um «satirista»). O cancioneiro
mariano integra outras tradições, tenha-as embora modificado com
notórias interferências corteses.
Os produtores antologiados são designados uns por trovadores e outros
por jograis. A distinção traduz de raiz uma distinção de classe, que
por sua vez se traduziu numa divisão do labor artístico: o trovador é
nobre e compõe, o jogral não o é e executa. Esta classificação seria
posta em causa, e esbater-se-ia mesmo, no decurso da evolução da lírica
galego-portuguesa, ou, mais precisamente, em pontos específicos desta.
A lírica galego-portuguesa foi escrita num galego-português «culto» —
em acepção estrita, realmente não falado — por indivíduos provenientes
de «todas» as nacionalidades peninsulares, alguns dos quais galego de
todo não falariam nem português. Sobre não ser uma «literatura», não
era em nada «literatura nacional».
Cedo circunscrito ao Noroeste Peninsular, os seus códigos endógenos e
os seus códigos exógenos sofreriam uma mutação acentuada com a
centração das instituições trovadorescas nas cortes régias, sobretudo
na corte de Alfonso X já quando infante, e depois quando rei.
Devemos as primeiras propostas de datação para os textos mais antigos
desta «lírica» a Carolina Michaëlis. (Michaëlis, Ajuda).
No mundo nom me sei parelha, de Pai
Soares de Taveirós teria sido produzido em 1189 ou 1198 (sendo de
considerar nesta diferença a possibilidade de uma gralha, por isso que
os dois algarismos finais estão invertidos e uma das datas ocorre longe
da outra numa nota);
Ai eu
coitada, como vivo em gram cuidado, atribuída a Sancho I,
produzida em 1199;
Tu que ora
vēes de Montemaior, de D. Gil Sanches, produzida em 1211;
Ora faz ost’
o senhor de Navarra, de Joam Soares de Pavia, produzido em 1213;
Finalmente, e sem qualquer data, uma convicção
não despicienda reportada por José Joaquim Nunes e de algum modo ecoada
no II Volume de Ajuda: o
primeiro centão da pastorela de Airas Nunes — So lo verde ramo frolido/ vodas fazem a meu amigo/ [e] choram olhos d’ amor” - seria
genuinamente popular, «e o que de mais antigo da poesia popular
subsiste». (Nunes, Crestomatia).
No que respeita aos dois primeiros textos, a datação é muito produzida
em contexto de «romance histórico», uma das formas com que a sociedade
burguesa clássica (isto é: oitocentista), das bandas mais solipsistas
da esfera pública às cidadelas da ciência positiva, se fez herdeira de
passados nacionais. Estaríamos perante os amores de Sancho I com a
Ribeirinha, filha de um Pai Moniz. Seria ela retratada em manto real,
numa, e teria sido posta na outra a queixar-se da demora do seu amigo
na Guarda.
A primeira cantiga — famosamente conhecida por da garvaia — afinal não será, crê-se e
sabe-se, nem de amor, nem sobre a Ribeirinha, nem do século XII. Sendo
de Pai Soares, avança bastante pelo século seguinte — em datação larga
será do seu segundo quartel; e o mesmo sucederia se fosse do Martim
Soares a quem já andou atribuída. No primeiro caso, desloca-se mais ou
menos inequivocamente para a Galiza, de onde era Pai Soares, e onde os
Pai Moniz abundam. (Resende de Oliveira, Depois do Espectáculo)
A autoria da segunda cantiga foi decisivamente questionada por
Pellegrini que interpreta de outro modo uma das rubricas que a
antecede, bem como a «guarda» que na cantiga surge. O texto seria de
Alfonso X, que com outras a ofereceu ao seu «hóspede» Sancho II; e o
termo guarda, pertencendo à terminologia «militar», não designaria a
povoação a que Sancho I concedeu foral. Aceitando o topónimo e a
autoria do rei castelhano, Resende de Oliveira propõe que datemos a
composição do inverno de 1246-47, altura em que Alfonso, então infante,
passou pela Guarda numa incursão de apoio a Sancho II. (Pellegrini, Sancio, Resende de Oliveira, Despossessão)
A cantiga de Gil Sanches situa-a o mesmo Resende de Oliveira em 1223,
integrando-a no contexto das pazes feitas entre Afonso II e as irmãs.
(Resende de Oliveira, Dicionário)
Ficamos assim com a composição de Pavia e com o centão.
López-Aydillo (Los Cancioneiros)
situou aquela em 1196; e, reconsiderando os dados internos e externos,
Carlos Alvar adianta-a ligeiramente para o período entre 1200 e 1201:
para isso corrige a estada do rei aragonês na Provença, e tira
consequências da coincidência da estrutura métrica do sirventes com a da canção de cruzada de Conon de
Béthume — esta dotada do imenso prestígio de que usualmente se fazem
fontes. (Alvar, Dicionário)
Já o centão o diríamos pouco à vontade entre tanta manifestação de
acribia. Creio que não será bem o caso, a partir do momento em que é um
sintoma excepcionalmente bom de uma doença muito própria destes estudos
e que me apetece qualificar de original: a determinação do termo a quo dependeu e depende ainda do
chamado problema das origens. O que de mais fresco li sobre o assunto (História de uma Despossessão, de
Resende de Oliveira) de todo não departe deste thematon. Algo como a Escrita
cumpre a função «original» (?).
Assim, no presente estado da questão (e não parece que possamos já modificá-lo), temos que o texto
datável como mais antigo é Ora faz
ost’ o senhor de Navarra, e que Joam Soares de Pavia, nascido
pouco depois da batalha de Ourique, não deve andar longe de ser o mais
antigo seja dos trovadores de que temos obra, seja de entre os
meramente referidos. (cf. Resende de Oliveira, Depois do Espectáculo) De resto, de
algum prestígio «arquetípico» deve ter gozado Joam Soares para que na
famosa carta-proémio o marquês de Santillana lhe recorde o nome de
entre os autores presentes no cancioneiro de sua avó, D. Mencia de
Cisneiros — e para que nos Nobiliários
seja identificado como «o trobador».
Não me prendendo excessivamente com o problema das origens, que
assinalei com um verde ramo frolido,
convém mencionar o prestígio como se diz incontornável da origem
popular que se quer ver atestada pela existência da cantiga de amigo
tão desta lírica peculiar, sobretudo na espécie paralelística. Mesmo um
adepto, embora condicional, da tese mediolatinística como Lapa não
escapa à presunção de originalidade característica do nosso Volksgeist, remetendo todos os
traços desta directa ou indirectamente para a cantiga d’ amigo. (Origens, Lições, Miscelânea) Independentemente das
possibilidades de datação, a cantiga de amigo teria de ser
necessariamente anterior a espécimes cultos como a cantiga de amor,
derivados e relacionados.
A descoberta das Karjas por
Samuel Stern veio por algum tempo relançar a questão. Estes poemas
curtos, que formam o último qufl
das moaxafas, citações em
romanço moçárabe andaluz ou com intercalações dele — sem pejo tratado
tanto de espanhol como de mais aparentado com o galego-português,
enquanto posições mais severas consideram o todo escrito em árabe
vulgar —, foram produzidos entre a primeira metade do século XI e o
século XII. Neles, o tema nuclear, congruente com o modelo de
comunicação em que ela fala,
é esse que os leitores da cantiga de amigo se habituaram a reconhecer:
o da jovem que se lamenta da separação ou da ausência do amigo.
(Lorenzo, Dicionário).
As Karjas, pela anterioridade
apetecível, foram retalhadas entre arabistas, tradicionalistas e
defensores da tese das origens populares para toda a «moderna» lírica
europeia. Na pensínsula, seriam disputados entre os dois lados de uma
fronteira política, a qual já se acharia indelevelmente traçada em
termos culturais-nacionais. As mais profundas e irredutíveis
disposições nacionais-culturais circunscreveriam aqueles dois lados a
uma esfera própria de acção, a que estes textos «tradicionais»
concederiam justamente um suplemento de origem. Hipotetizaram-se assim
migrações ascendentes e descendentes, na suposição de que as cantigas
de amigo estivessem na origem das karjas,
ou de que as karjas fossem
fonte e influência das cantigas de amigo.
Tavani tratou o problema de forma «estrutural». Resumindo rápida e algo
grosseiramente, Karjas,
cantigas de amigo e muitas outras espécies manifestam em circunstâncias
histórico-culturais às vezes muito diversificadas um arquigénero: o da
canção de mulher; não é plausível que estes dois produtos
superestruturais de infra-estruturas entre si quase alienígenas
pudessem alguma vez ter-se achado em estado de estabelecer contactos, e
frutíferos menos ainda. (Lírica)
A esta ou outras posições negativas deve reconhecer-se a vantagem de
brutalmente arredarem discursos mais do que ociosos.
Afastada a questão, deparamo-mos com uma cantiga de amigo atribuída a
Raimbaut de Vaqueiras e conservada num manuscrito catalão que já foi
dito ser do último quartel do século XII. É uma cantiga de amigo
genuína, pese à língua. Independentemente da data precisa, surge com
ela uma formulação legítima: a de o género «ter» de estar
suficientemente estandardizado para poder com tanta exactidão
reproduzir-se numa língua e numa «literatura» que, conhecendo cantigas de mulher, por inteiro
ignoram esta tipologia particular. A estandardização, argumenta-se,
requer tempo.
Finalmente, não escapou à observação os «arcaísmos» em que a língua
destes textos abunda, e notoriamente nas paralelísticas e
semi-paralelísticas. Há todo um conjunto de palavras características
onde se mantêm os /n/, /l/ e /d/ em posição intervocálica, quando o
estado de evolução da língua o não justificaria. E arcaísmos são também
muitas formas de conteúdo que vão de significados
«rituais-antropológicos» à fala.
Com tudo isto contrasta algo como um facto, observado por Resende de
Oliveira: a cantiga de amigo datável como mais antiga é de Bernaldo de
Bonaval, e remonta à década de trinta do séc. XIII (diz respeito à
sagração da capela de Bonaval). Daqui parte o historiador para negar a
anterioridade autóctone do género.
Tavani (cf. Lírica)
contar-nos-á e recontar-nos-á sistematicamente as razões pelas quais a
Galiza e Santiago de Compostela podem pretender ao título de
importantíssimo centro cultural, invocando analogias com o culto e a
arquitectura. Aqui, o argumento encaminha-se para a afirmação da
capacidade de aggiornamento
cultural e artístico da região, notavelmente antecipando sobre o que
acontece no resto da Península. Esta capacidade de se pôr a par com
modelos transpirenaicos é, confesse-se, adiante descartada quando nos
dirá da global simplificação e banalização dos modelos trovadorescos.
Em qualquer caso, Tavani põe em destaque uma estranheza não
suficientemente observada até aí: porquê o galego-português como língua
lírica para não falantes maternos dela? Entra em cena a Galiza como
território bom para a cultura, porque sem fronteiras em guerra, e
acompanha-a Santiago como laboratório cultural. Num contexto
acarinhador de actividades artísticas, modelos vários, indígenas e nem
tanto, teriam sido elaborados de modo a se chegar ao género específico
da cantiga de amigo. Esta teria vivido em oratura mas em prestígio até
à chegada e acomodação dos modelos transpirenaicos de lírica
cavaleiresca. E estes teriam trazido consigo a noção de que o valor já
reconhecido ao género se traduziria de forma mais conveniente na sua
passagem à escrita. Ou seja, e recorrendo à tendência para a associação
de uma língua a um género — do tipo oïl
para a gesta, oc para a
lírica —, a adopção do galego-português para a lírica galego-portuguesa
teria sido orientada pelo facto de o galego-português já ser recebido
como língua de lirismo, antes da trovadoresca, graças a uma cantiga de
amigo prestigiada.
Esta explicação, que brigaria com a exposição da influência provençal
em termos de «geografia linguística»1,
recebe nova actualidade com os resultados da investigação de Resende de
Oliveira. Graças ao investigador inestimável, sabemos hoje que a lírica
trovadoresca começou no NE da Península em galego-português. O seu
recente tratamento da questão em termos de uma correlação algo débil
entre lírica — ou já literatura — e escrita (com esta a ocupar uma
posição estético-metafísica de privilégio como nome da definição prévia
de um ser suposto2) não evita a
recolocação, agora mais do que nunca pertinente, da hipótese abdutiva
de Tavani. É bem menos plausível que um trovador como D. Rodrigo Díaz
de los Cameros tenha escrito no galego-português, que, com motivos,
supomos ter escrito, apenas porque a sua mãe fosse galega3.
Isto dito, não parece que tenhamos cantigas de amigo genuinamente
antigas e genuinamente «originais». As investigações «físicas» de
Resende de Oliveira não permitem supô-lo. Do mesmo modo, os critérios
propostos por Tavani não parecem capazes de nos permitir alcançá-las.
Tavani, aliás em tempos de maior desconhecimento das cronologias dos
autores, propunha (i) que se afastasse a antiguidade das que manifestam
provençalismos e (ii) que traçássemos a linha de evolução do género e
sobre esta colocássemos as de datação incerta e de autoria desconhecida
ou duvidosa (na esperança de que entre elas se achassem anteriores a Ora faz ost’ o senhor de Navarra).
O segundo critério é logicamente impossível. Supondo que haja tal coisa
como uma linha de evolução do género, ou que a evolução de um género
seja linear, a existência de cantigas anteriores ao texto de Joam
Soares de Pavia entre as duvidosas impossibilitaria o traçado da linha
evolutiva, por isso que seriam absolutamente necessárias para a traçar
e não estariam disponíveis para o fazer.
Restam-nos os «arcaísmos». Estes, com palavras não menos
características que já foram chamadas «iberismos», formam de facto o
léxico peculiar do género, que vai muito além de senhas de
identificação genológica do tipo amigo
e amiga. Que um autor como
Afonso Sanches use de uma língua para si «arcaica», e diríamos que está
a produzir uma cantiga de acordo com regras de género. Quando António
José Saraiva observa nas cantigas duas camadas — remotíssima uma e
coeva outra —, diríamos a sua observação congruente com a de Lapa da
existência de temas iniciais, textualmente bem delimitados, que o resto
da cantiga glosa. Em todo o caso, impõe-se uma observação liminar: a
mera e simples apropriação de textos genuinamente ante-trovadorescos, e
mesmo genuinamente populares, vê necessariamente alterada a sua força
ilocutiva quando (re)produzidos e recebidos em contexto
«aristocrático». (Diogo, Leitura e
Leituras, Genologia e
generalização)
Passemos dos cimélios da
lírica ao termo final.
Para explicar o legado do Livro de
Cantigas do Conde D. Pedro a Alfonso XI, e não a nenhum seu
consanguíneo português, diz-nos D. Carolina (cf. Ajuda) que «a arte portuguesa
ficára orfan e agonizante desde a morte de D. Dinis». Lá trovaria o
jogral Joam no seu pranto à morte do rei (1325):
Os trobadores que ficaron
eno seu reino e no de Leon,
no de Castela e no de Aragon,
nunca pois sa morte trobaron!
E dos jograres vus quero dizer:
nunca cobraron panos nem aver,
e o seu bem muito [o] desejarom.
Elsa Gonçalves e Ana Maria Ramos (Lírica) acham ao pranto um
suplemento de interesse no facto de «fazer coincidir a morte de D.
Dinis com a morte da poesia galego-portuguesa». Do que escrevem parece
todavia inferível que o jogral tenha integrado essa morte aos tópicos
do género. E que a nós compete, portanto, decidir se é ou não este o
termo a quem da lírica. Na
verdade, já um dos tópicos (o panegírico do sucessor, no caso Alfonso
XI de Castela) muito parece uma prospecção de mercado, de resto
corroborada pelo outro texto existente do jogral, A sa vida seja muita, cuja feitura,
a avaliar pela referência às capacidades cinegéticas de um sobredotado
na matéria (o futuro D. Pedro I), deverá circunscrever-se ao período
entre 1334-1340.
Com bastante segurança, ficam datados dois textos de Joam da Gaia,
presentes nesta antologia, e um de Estevam da Guarda, respectivamente:
uma data rondando 1325 para o do cavaleiro que se vendeu como asno no
mercado; 1333 para o do bispo «cárdeo», D. Miguel Vívas; e qualquer
coisa como 1333-1338 para o ataque de Estevam à mesma personalidade.
De Resende de Oliveira vem-nos — episodicamente diga-se — a hipótese da
cantiga datável mais recente (década de 50): Já Martim Vaasques da estrologia, a
qual liga o historiador à interdição da jograria aos clérigos por
Afonso IV.
Em qualquer caso, as datas cruciais correspondem desde D. Carolina não
a textos mas a eventos: 1350 para o testamento de D. Pedro, onde o
Conde lega a Alfonso XI aquele seu Livro
de Cantigas promovido por Tavani a sub-arquétipo alfa; 1354
para a morte do mesmo personagem. De resto, na periodização que a
estudiosa propõe para a lírica surge-nos uma modulação tanatológica a
envolver esta cronologia: a partir de 1300 teríamos o «crepúsculo» e os
epígonos, e de 1350 em diante a «noite». Caracteristicamente, um
período de decadência, que Tavani menos preso a considerações
«culturais-nacionais» e a alguma retórica positiva, ou seja:
naturalística, propõe antes que se trate como um período de transição.
Justifica-o o facto de na outra esfera «cultural-nacional» nos aparecer
o Cancioneiro de Baena,
também chamado galego-castelhano, não com inteira propriedade, e de
bastante anómala constituição (1430-1445). «Originalmente», corresponde
a uma recolha da produção poética das cortes dos primeiros Trastâmaras
(1369-1454) da responsabilidade de Juan Alfonso de Baena. (cf. Beltrán,
Dicionário)
A existência daquele período de transição deveria substanciar-se com
textos grosso modo de entre
1350-1400; e implicaria a substituição do critério externo por um
critério interno. (Tavani, Lírica)
O primeiro funciona aproveitando os Cancioneiros para separar as águas:
é lírica galego-portuguesa tudo o que vem nos cancioneiros
galego-portugueses, é lírica galego-castelhana tudo o que está
antologiado no Cancioneiro de Baena.
Tavani demonstra muito precisamente que não é assim. Por exemplo, Pero muito amo, muito nom desejo,
que andou atribuído a D. Dinis, apesar de escrito em português é
conatural da lírica «galego-castelhana», e desde logo pela presença de
uma novidade métrico-rítmica: o verso de arte mayor. Em contrapartida, as
canções de Villasandino, por exemplo, denotam marcas da cantiga d’ amor. Tratar-se-ia,
enfim, de observar algo como a desestruturação e a reestruturação de
códigos. Nesta perspectiva de aplicação de um critério interno, não
tenho notícia de trabalho feito.
Na verdade, o Cancioneiro de Baena
manifesta (i) um diferente sistema de géneros, sendo que os maiores se
chamam canção, perguntas e repostas e dezíres, (ii) a inovação do verso
de arte mayor (medida entre
todas nobre), (iii) a dissociação entre o verbo e a música, e (iv) a
muito baixa definição do galego utilizado. Com ele entramos num
universo «poético» peninsular substancialmente diferente, o qual vai
ser inegavelmente dominado pela língua e pela cultura castelhanas.
As razões expendidas para esta mutação, que se diria afectar o nosso Volksgeist, são de vária ordem.
Resumo: desaparição do mecenato por falta de condições não apenas de
gosto (inflação, peste, dissensões internas e externas), e necessidade
de legitimar uma nova dinastia e educar uma classe dominante nova —
finalidades que se supõem efectivar-se mais capazmente em prosa.
(Tavani, Lírica, Lapa, Lições)
Comecemos pelos testemunhos.
O Cancioneiro da Ajuda
(A) é um códice pergamináceo, com iluminuras e espaço reservado às
pautas que não chegaram a ser feitas, datável de fins de XIII começos
de XIV. É adéspota, e notavelmente incompleto: as suas 310 cantigas,
com raras excepções, pertencem ao género de amor. Encontra-se na
biblioteca do palácio da Ajuda.
O
Cancioneiro da Biblioteca Nacional (B) é um dos apógrafos
italianos. É um códice de papel, anteriormente designado por
Colloci-Brancuti, sendo Collocci o humanista que o mandou copiar e
Brancuti o nobre italiano em cuja biblioteca foi descoberto. É o mais
completo (cerca de 1560 cantigas, numeradas por Colloci), e apesar de
alguns desaires manifesta a característica organização tripartida
global: os textos são distribuídos pelos géneros maiores — amor, amigo, escarnho e mal dizer, por esta
ordem. É acéfalo, os textos estão na maior parte atribuídos a autores,
e começa com a incompleta Arte de Trovar, poética anónima. É pertença
da Biblioteca Nacional, após doação do governo italiano.
O
Cancioneiro da Vaticana (V) é o outro apógrafo italiano,
igualmente da responsabilidade de Colloci. Ainda de papel, contém 1200
cantigas não numeradas, e encontra-se na Biblioteca Apostólica
Vaticana. Manifesta a mesma organização do anterior.
O
Cancioneiro de um Grande d’ Hespanha, hoje na Brancfort Library,
é uma cópia de V, com lacunas, feita em Itália, talvez em XVI.
O Pergaminho
Vindel (R) é um fólio pergamináceo, datável de fins de XIII,
inícios de XIV, contendo as sete cantigas de amigo de Martim Codax
igualmente presentes em B e em V, e a música de seis delas. Leva o nome
do livreiro madrileno que o deu a conhecer e é hoje pertença da
Pierpont Morgan Library.
O Pergaminho
Sharrer (T), descoberto por Sharrer em 1990 na Torre do Tombo,
contém sete fragmentárias cantigas de amor de D. Dinis, e a respectiva
anotação musical.
Os 5 lais da
Bretanha (Va) são três folhas de papel que reproduzem em feição
de prosa os 5 lais da Bretanha presentes nos primeiros fólios de B.
Encontram-se na Biblioteca Vaticana.
Da tenção
entre Afonso Sanches e Vasco Martins (de Resende) há duas
cópias, uma na Biblioteca Nacional de Madrid (M) e outra na Biblioteca
Municipal do Porto (P).
Finalmente, a Tavola Collociana (C) é um índice
ordenado de autores, com as respectivas cantigas numeradas, tal como em
B. Deve-se a Colloci.
A exiguidade e parcialidade dos testemunhos é um caso único no conjunto
da «moderna» lírica românica, mormente se compararmos o número destes
cancioneiros com os occitânicos.
Em qualquer caso, nada indica que o processo de constituição da
tradição manuscrita da lírica galego-portuguesa não siga os passos
assinalados por Gröber para a provençal:
Um primeiro registo em
folhas soltas (os rolos, por isso que circulavam enroladas mas também
dobradas), estado entre nós directamente atestado pela existência de N,
e indirectamente quer pela existência de M e de P, quer pelas rubricas
que em B atestam a mudança de rolo.
Unidos uns aos outros ou transcritos em livro, os
rolos constituirão em seguida recolhas parciais, de um só ou de vários
autores, estádio conjecturável de testemunhos de B e V quanto à
existência de um livro de D. Dinis, ou argumentável a partir da
detecção de conjuntos como os que Resende de Oliveira chamou de
cancioneiro de jograis galegos e cancioneiro de clérigos (este muito
notório por ignorar o princípio organizativo da tripartição genérica).
Assim, por «junção», se chega às grandes recolhas
colectivas. (cf. Tavani, Lírica,
Gonçalves, Dicionário)
Tavani propõe a existência da primeira recolha colectiva (o arquétipo ómega), de onde saiu como sua cópia
parcial o Cancioneiro da Ajuda
(A); de uma outra cópia, acrescentada durante cerca de um século, e
identificada com o Livro de Cantigas
do Conde D. Pedro (o subarquétipo alfa), teriam sido feitas duas
transcrições — beta, do séc.
XIV, do qual daria testemunho a Tavola Collocina (C), e gama, do séc. XV, distinguível pela
interpolação de textos alheios à tradição. De gama, por diferentes códices
interpostos (delta, épsilon, e zeta), derivariam os frondosos
apógrafos B e V. Eis o stemma:

Da crítica de Jean-Marie d’ Heur, Elsa Gonçalves e
Anna Ferrari a estas propostas resultaria por um lado que a tavola é feita sobre B, e, por
outro, que as coincidências entre B e V apontam para um antecedente
comum — de modo que, não invalidando as diferenças essa ascendência,
estaríamos perante códices irmãos. (cf. respectiva e respeitosamente Tradition, Tavola, Struttura)
Acrescente-se, finalmente, que Jean-Marie d’ Heur chega ainda a pôr em
dúvida a existência do arquétipo.
Eis de novo o stemma, agora,
parece, em estado de acusar deveras a pobreza e a esterilidade da
tradição manuscrita (Tavani, Lírica):

Para o fim deixei os resultados saídos da
investigação iniciada por Anna Ferrari sobre as quebras do princípio da
tripartição, e depois prosseguida por António Resende de Oliveira num
conjunto de trabalhos que revolucionou todo o nosso conhecimento da
lírica.
O historiador detectará nos cancioneiros duas zonas que grosso modo
correspondem a estádios da compilação geral: uma «zona tripartida» e
uma «zona complementar». (Depois do
Espectáculo)
Na «zona tripartida» são discerníveis dois
conjuntos, respectivamente batizados como «cancioneiro de cavaleiros» e
«recolha de trovadores portugueses». O primeiro é maioritariamente de
autoria galega, e os produtores situam-se nos três primeiros quartéis
do século XIII; no segundo, que veio a ser inserido no anterior, avulta
a autoria portuguesa, e dominam os produtores da segunda metade do
século. Os primeiros estão mais ligados a cortes senhoriais e os
segundos mais a cortes régias. As duas compilações tiveram seus
instantes de «sobreposição» temporal, mas foram feitas em círculos
diferentes e sob a responsabilidade de diferentes compiladores. O Cancioneiro da Ajuda é um exemplo
ou já um exemplar da junção das duas, com a ressalva do acrescento de
dois clérigos.
A «zona complementar» formou-se em três fases,
cada qual sob a responsabilidade de um diferente organizador. Na
primeira intervenção, que o historiador data de cerca de 1325,
inseriram-se na compilação geral obras de produtores de média e pequena
nobreza, portugueses na maior parte e activos na segunda metade de
Duzentos; na segunda fase (circa
1340), da responsabilidade provável do Conde D. Pedro, os autores são
agrupados pela condição social, e às vezes este critério ganha
precedência sobre o da tripartição. Deixa este de ser soberano cada vez
mais, por isso que juntar pela condição social, significando embora
apartar por classes, denota um sistema cultural que se passa a reger
por princípios «proselitistas»: trata-se de abranger e até «catequizar»
porções da realidade até aí ignoradas — jograis, clérigos, não
esquecendo um judeu Vidal merecedor de memorização pela escrita.
Destacam neste passo o que, circunscrito, resulta ser uma «compilação
de reis e magnates», o «cancioneiro de clérigos», o «cancioneiro de
jograis galegos» ou o «cancioneiro de Joam Airas de Santiago» — e estes
dois últimos seriam livros antes da incorporação. Na década de
cinquenta foram finalmente introduzidos os «cavaleiros ínfimos», de
forma indiscriminada, salvo essa discriminação. Trata-se de gente quase
toda portuguesa, do último quartel de Duzentos e primeiro de Trezentos.
Como se sabe, os provençais inventaram a fin’ amors. É no ocidente europeu a
primeira lírica «moderna» e dela brotaram as outras líricas
trovadorescas. Enumeremos algumas circunstâncias. Trovadores provençais
eram presença regular no NE da Península e, particularmente, nas casas
dos Cameros, dos Lara e dos Haro. Também a corte de Leão desde cedo se
distinguia pelo número e qualidade dos seus visitantes provençais. No
campo dos contactos frequentes, não são ainda de desprezar a posição de
Santiago como um dos três grandes centros cristãos de peregrinação, as
cruzadas e o comércio. Catalunha e Aragão adoptam com os géneros a
própria língua original deles. Por outro lado, trovadores como Joam
Soares de Pavia ou Rodrigo Díaz de los Cameros eram mais ou menos
coevos dos Chrétien de Troyes e outros iniciadores da lírica cortês
fora da Provença; e de todos eles se pode afirmar a pertença à geração
internacional da III Cruzada. (Meneghetti, Il Pubblico)
Assim sendo, a influência provençal sobre a lírica galego-portuguesa
chegou a ser sistematicamente perspectivada por três autores. Com
efeito, Rodrigues Lapa, Giuseppe Tavani e Anna Ferrari vão muito além
da mera enumeração e justaposição de factos soltos. (Lições, Lírica, Linguaggi)
I. Lapa parte do Volksgeist e
começa por declarar não haver notícia na nossa literatura de um único
verso traduzido ou imitado de autores estrangeiros. O nosso génio é
marcado pela espontaneidade, pela afectividade, pela emotividade, pela
autenticidade, pela simplicidade e despretensão; os provençais fariam
poesia raciocinante, intelectualizada, artificial, inautêntica. Entre
uma e outra esferas nacionais-culturais haveria, pois, aquela
incompatibilidade de génios que, em caso de casamentos, é motivo
legítimo para divórcio. Enumera de seguida o conjunto das diferenças
específicas que nos caracterizam. Sublinhemos: (i) a nossa lírica teria
brotado do ambiente matriarcal e doméstico, senão burguês, que nela
própria se representa; (ii) a nossa lírica estaria marcada pela
presença do segrel, cavaleiro pobre e algo marginal, que é por si só
uma ponte entre os ambientes populares e os aristocráticos; (iii) as
cantigas de amigo, pelos arcaísmos, denotam a existência de uma lírica
nossa, anterior à influência provençal.
Como se vê, a lírica que chamamos nossa acha-se toda representada num
género dela particular, ou até numa parte dos produtos desse género que
seria ainda mais representativa.
E diga-se também que, no respeitante aos arcaísmos, nos achamos na
contingência de aumentar a representatividade do género por uma
selecção ainda mais radical dos seus representantes. Uma vez que os
textos são todos posteriores à influência, dispomo-nos a opor palavras
que nesses textos aparecem ao não tão popular Geist invasor. Ora, finalmente, os
arcaísmos podem ver-se como uma regra de género, e o próprio Lapa nos
fornece os meios para assim os vermos.
No que toca ao segrel, construído a calhar para que a aristocracia
nunca perca contacto com o titã popular, depois dos trabalhos de
Valeria Bertolluci e de António Resende de Oliveira, podemos concluir
que é apenas um sinónimo de jogral, vindo especificamente a designar na
Declaratio um jogral
trovador, um doctor de trovar
— em suma, um jogral com a capacidade e uma reconhecida legitimidade
para compor.
Finalmente, aquele ambiente dito doméstico-matriarcal, parece-me antes
que na produção corresponde a, e/ou na (re)utilização em ambiente
aristocrático é congruente com, uma configuração marcada pela
patrivirilocalidade típica de estruturas de parentesco marcadas pelo
agnatismo. Amigas falando com amigas e mães falando com filhas de
coisas de sentimento, sobre indiciarem a presença de uma idealização
social do amor heterossexual, denotam sem intenção um grande realismo:
a solidariedade afectiva que para as mulheres sobra numa biopolítica
construída em benefício dos homens, tal que àquelas dificilmente se põe
a mera hipótese de manifestação de formas de solidariedade política,
como sejam a feitura de cantigas de amor. (cf. Diogo, Sátira, Leitura e Leituras) Lembremos: as
cantigas de amigo por muita origem que tenham feminina e popular são um
género «patriarcal», feito por homens, que, de resto, como dominados
que geralmente são no interior da classe dominante, dele podem
aproveitar compensações imaginárias, como sejam encontrar o outro sexo
num plano de amizade, ou dele apoderar-se sem os constrangimentos da
ordem agnático-linhagística.
II. Tavani pede emprestado à geografia linguística o seu modelo
explicativo. É um modelo de «difusão ondulatória», cuja aplicabilidade
parte do facto da diáspora de trovadores e jograis povençais a partir
da data fatal de 1210 (triunfo da Cruzada contra os Albigenses). A
influência é inversamente proporcional à distância do centro de
emissão, considerando-se a distância em termos físicos e «culturais».
Quanto maior a distância menor a influência. A maior identidade (ou
proximidade) entre estruturas sociais, culturais e linguísticas pode
conduzir à adopção não apenas da lírica mas também da língua. O NW da
Pensínsula e a Sicília gozarão dos privilégios da maior distância
possível, como territórios periféricos e com uma tendência cultural
pertinente para o ensimesmamento. Tavani reactiva, de resto, uma muito
antiga observação, qual seja a de que ambas as líricas muito se
assemelham.
Daqui se parte, e repetindo os passos de Lapa, para um naco de
«literatura comparada»: (i) na lírica galego-portuguesa dominam os
géneros erotico-idealistas — há poucas tenções e quase sempre formas de
expressão do mal dizer, poucos serão os partimens, pouquíssimos também os
prantos, nenhuma alba e uma só pastorela canónica; (ii) a cantiga de
amor é afrontosamente simplificada, atingida por processos de
banalização e estereotipização profundos; (iii) ainda muito pouco
representada se acha também a sátira nas modalidades que deveriam
defini-la: moral, literária e política, estando em contrapartida muito
próxima da invectiva por um lado e, por outro, escondendo-se, como
cobarde ou desprotegida de mecenas, no anonimato; e (iv), finalmente,
esta lírica apresenta-nos a singularidade das suas mais de quinhentas
cantigas de amigo, número comparativamente desproporcionado para
manifestações da canção de mulher.
Juntando os passos da exposição e outros pontos da obra tavaniana,
concluir-se-ia pela pobreza da vida social (morte incluída) nestes
núcleos do NW pensinular onde se fez lírica trovadoresca, opinião aliás
corroborada por uma tradição manuscrita estéril e talvez também pela
homogeneidade formal extrema dos textos em apreço. Ressalva-se a
inexistência de alba, a qual não se deveria a falta de jeito mas ao
facto de não ser um género vivo aquando da diáspora provençal.
Participando embora como responsável no fechamento do leque genológico,
a única diferença positiva apresentada pela lírica galego-portuguesa
reside na cantiga de amigo; na sua aparente simplicidade espontânea,
estamos perante um tipo textual refinado, estilizado, construído e
aristocrático. Tudo o resto é mais ou menos falho e mais ou menos
negativo.
Na verdade, a apreciação não resulta da simples comparação das duas
líricas entre si. Os critérios utilizados são de matriz estética e
literária, e não se acham originalmente incorporados na influência mal
assimilada. O repúdio do canto formal galego-português, dir-se-ia que
por ainda mais formal, esquece a funcionalidade deste, que me não
parece muito duvidosa; e, como nos mostra Beltrán, muitas são as
diferenças, mas a cantiga de amor não viveu sem padrões "estéticos"
próprios que também nós podemos apreciar. (Beltrán, Amor) Do mesmo modo, a tripartição
genérica deve antes perspectivar-se como um sistema de comunicação
integrado, capaz de desempenhar as suas prestações selectivas —passe o
anacronismo de tudo isto, que é mera forma de dizer — em relação àquele
conjunto de desejos, expectativas, inibições e necessidades a que
Niklas Luhmann chamou «meio». (cf. Systems)
Não nos apressemos a muito concluir do facto de utilizarem mais géneros
outros sistemas de comunicação social.
Finalmente, a questão da sátira, particularizante, sem temas de
interesse genérico e cobarde. Haveria em primeiro lugar que distinguir
entre o que é de interesse geral para nós (e para nós, professores) e o
que aquela produção-recepção consideraria de interesse geral para si.
Em seguida, poderíamos, talvez, admitir a hipótese de que a invectiva e
a particularização possam funcionar como uma força de expressão
«enérgica» de genuínos conteúdos satíricos. Quanto ao anonimato e à
cobardia, em si não os discuto, por isso que uma multidão pode ser
cobarde e anónima; mas é evidente que Tavani ajuíza do escarnho e mal
dizer (ilegitimamente colocado onde devia haver sátira) em termos
anacrónicos: é como se esta instituição músico-letrada fosse autónoma,
e estes textos fossem lidos individualmente e em privado. Considerando,
pelo contrário, que a recepção era colectiva, sem disjunção física
entre emissão e recepção, e que os interessados estariam presentes,
pouco lugar fica para aquele anonimato. Finalmente, e em termos
«estruturais», diga-se que o escarnh’
e mal dizer assume as formas básicas da sátira, se aceitarmos
que estas derivam dos três géneros do discurso partidário: epidíctico,
deliberativo e judicial. (cf. Guilhamet, Satire)
III. Como que a rebater Lapa, embora não ponha as coisas em termos de
imitação e tradução, ou seja de dependência perante fontes, Anna
Ferrari começa pelos textos, interessada agora não apenas em detectar
as já muito detectadas macro-estruturas mas em observar os textos mais
proximamente. O que está em causa são entidades menores como os
estilemas e o verso. Resulta inegável em certos autores a influência
provençal, menos genérica para o bem e para o mal do que parecera até
aqui. Esses autores influenciados, num arco diacrónico que abrange toda
a lírica, são essencialmente, mas não só, reis, magnates e presentes em
cortes.
Ferrari reactiva então uma velha proposta de Bertoni e propõe a
existência de duas linhas de difusão e influência: uma culta e outra de
massas. A primeira age através do escrito e pressupõe a leitura de
cancioneiros provençais, embora porventura sem compreensão plena do que
se lê. É elitista e selectiva, assimila micro-estruturas textuais; a
segunda funciona oralmente, é menos discriminativa, capta armações
globais, macro-estruturas. Os cancioneiros provençais, presume, vinham
com os dotes das princesas; e lembra que Alfonso X e D. Dinis tinham
entre os ascendentes Guilherme IX por intermédio de Eleanor de
Aquitânia (tendo o segundo, além do mais, casado com Isabel de Aragão).
Os contactos responsáveis pela influência oral são os conhecidos:
comércio, cruzada e Santiago de Compostela.
No seu instante mais empírico de comparatista, Ferrari nota que a
lírica galego-portuguesa não apresenta nem senhal nem tornada. Seriam órgãos definhados
por não se lhes exigir uso neste novo meio, onde ela, achando-se
confinada aos mesmos lugares, e em contraste com o nomadismo provençal,
seria caracteristicamente sedentária. Depois dos trabalhos de Resende
de Oliveira esta opinião não parece sustentável. Além do mais, supõe a
existência de um organismo inteiro e primeiro, de onde saiu uma versão
menos acabada, e sujeita ao meio como não o estaria o Original.
A designação de género comum a todos os tipos textuais presentes na
lírica galego-portuguesa é “cantiga”. A cantiga é um conjunto de
estrofes, sobre que se exercem forças de coesão e coerência textuais.
As estrofes são chamadas coblas ou cobras.
São cantigas mesmo as categorias não afectadas pela designação, como
pastorela, tenção ou alba; e todos os textos são ou cantigas de mestria
ou cantigas de refrão, conforme a este último recorram ou não recorram.
As cantigas ou são ateúdas ou não o são. Ateúdas são aquelas em que o
discurso continua de cobra
para cobra, com
encavalgamentos sucessivos. Existem ateúdas
sem finda e ateúdas ata finda. Finda é o destacado rebordo final
usado por certas cantigas para generalizações resumitivas do assunto
delas. Em geral, as rimas da finda
são as últimas da última cobla.
Deve considerar-se a cobla
como a unidade de estrutura e de sentido de uma cantiga. A cobla é afectada por repetições
internas que são antes de mais “exercícios” de coesão discursiva: o dobre e o mordobre (ou mozdobre).
Dobre é a repetição de uma palavra
na cobra e (optimizando) na
mesma posição estrutural. Há dobres
internos e dobres em posição
de rima. Diferentes cobras escolherão diferentes palavras para dobre.
Mordobre
é a repetição da mesma palavra diferentemente flexionada, em posição
estrutural idêntica, e em rima ou não.
Podem considerar-se imperfeitos os dobres e os mozdobres quando estes não ocorram
em todas as coblas, ou quando
seja diferente a sua posição estrutural.
Passemos à rima. Além da definição mínima que a caracteriza, submete-se
ela a outras constrições que vão afectando não apenas a cobla, mas a cantiga como unidade
de coblas:
Palavra perduda é o nome dado ao
verso que em todas as coblas e na mesma posição estrutural aparece sem
correspondência rimática.
Palavra rima
é o nome dado ao processo pelo qual uma palavra ou um sintagma se
repetem em posição de rima e na mesma posição em todas as estrofes.
Quando existam excepções, a palavra
rima será imperfeita; quando se conjuguem dobre e palavra rima, teremos a palavra rima dobrada.
Rima derivada
é o nome dado ao processo pelo qual palavras em variação flexional, ou
derivadas por sufixação ou prefixação, aparecem numa cantiga em posição
de rima, de forma mais ou menos sistemática. Pode entrar pelos domínios
do mordobre.
Usos sistemáticos de rima configuram ainda a globalidade das coblas de uma cantiga, de tal modo
que esta pode ser de
Coblas uníssonas quando as mesmas
rimas se repetem por todas as coblas
na mesma posição “estrutural”.
Coblas singulares
quando (i) o esquema rimático das coblas
varia de cobla para cobla e (ii) quando, mantendo-se o
esquema, as rimas são diferentes ou se acham diferentemente
distribuídas.
Coblas doblas
quando se alarga o domínio da repetição intencional ao par de coblas.
Coblas ternas
quando se alarga o domínio da repetição intencional ao trio de coblas.
Coblas alternas
quando actua como domínio estruturador das repetições a discriminação
das coblas em pares e
ímpares. Assim, haverá um esquema para as pares e outro para as ímpares.
Finalmente, podem considerar-se uma ou mais rimas
como uníssonas numa cantiga de coblas
singulares, e uma ou mais rimas como singulares numa cantiga de coblas uníssonas, etc.
Por isso que tendem a existir de forma autónoma, às cobras são impostas ligações na
perspectiva transtópica global da cantiga. Consoante os tipos de
ligação, e numa perspectiva maximalista, as coblas são:
Capdenals quando os começos de
verso (palavra ou sintagma) se repetem na mesma posição estrutural,
Capfinidas
se palavra, ou sintagma, ou unidade lexemática do último verso de uma
são retomados no primeiro verso da seguinte,
Capcaudadas
quando a última rima de uma é retomada no primeiro verso da seguinte,
Retrogradadas
quando uma repete em ordem inversa o esquema de rimas da anterior (nada
há na lírica galego-portuguesa que de longe se assemelhe à sextina de
Arnaut Daniel).
Falta considerar dois aspectos, que afectam mais caracteristicamente a
cantiga de amigo: o paralelismo e o leixa-prem.
Paralelismo
consiste grosso modo na repetição de estruturas sintáctico-semânticas,
com finalidades rítmicas e para sublinhar intencionalidades de sentido.
Paralelismo literal consiste na repetição de
um verso em coblas diferentes
(normalmente sucessivas) com variação no final. A variação atinge-se
por substituição de sinónimos ou por transposição quiasmática. Difícil
é que o processo não caia sob a alçada do que atrás se caracterizou
como coblas capdenals.
Fala-se de repetição literal quando o verso é
integralmente repetido, quer no refrão, quer for a dele.
Leixa-prem
consiste na repetição integral de um verso com uma cobla de intervalo,
tal que o segundo verso da primeira cobla é o primeiro da terceira e
assim sucessivamente. Prefere acentuadamente os dísticos e vem
sistematicamente associado ao paralelismo literal. (cf. D’ Heur, Arte de Trovar, Brea, Lírica Profana, Dicionário)
As cantigas são estruturadas como géneros, classificáveis em maiores,
menores e/ou contaminados. Escusado será dizê-lo, os géneros não
existem no popperiano Mundo I; e menos ainda opõem uns aos outros a
impenetrabilidade da pedra. Mas não só não deixam por isso de
funcionar, como formam um “sistema” integrado de comunicação
músico-letrada.
É grande a sua funcionalidade, enquanto classes de textos capazes de
operarem classificações de vária ordem. Lembre-se, desde logo, o
“princípio” da tripartição genérica, segundo o qual se orientou a
recolha dos textos no “Cancioneiro Geral”.
A tripartição opera com os géneros maiores: cantigas de amor, cantigas
de amigo e cantigas de escárnio e mal dizer. Os outros tendem a ser
recolhidos na área destinada ao escárnio e mal dizer.
Comecemos pelos menores:
Cantiga de seguir.
Em rigor, não se trata de um género, como a paródia não se pode
considerar um. Consiste na produção de textos por derivação de
pré-existentes. Segundo a Arte de
Trovar, que enumera por ordem de dificuldade, as cantigas podem
seguir-se de três formas: (i) adopção da música, que obrigaria o texto
derivado à equivalência métrica com o de partida, (ii) adopção da
música e da rima, (iii) adopção da música, da rima e do sentido de
alguns versos do texto de partida ou adopção da música, da rima, e do
refrão do texto de partida, dando-lhe um outro sentido. Há uma canção pop de Marco Paulo que pode servir
para exemplo global de um processo que é extremamente afim do contrafactum. Tomando como texto de
partida, Eu tenho dois amores/que em nada são iguais, surgiu no
folclore urbano o texto Eu tenho
dois tractores/com jantes
‘speciais. Cantigas de seguir terão feito Joam da Gaia e Lopo
Liáns.
Lai.
O lai é um género originário
da área francesa ou de tipo narrativo, quando a sua matéria seja a da
Bretanha, ou de tipo lírico quando o assunto seja amoroso e o
tratamento lírico, ou de tipo arturiano ou integrado, quando a matéria
era cortês-arturiana e o poema surgia enquadrado no interior de um
texto narrativo. Os lais da
lírica galego-portuguesa pertencem ao último tipo.
Descordo.
Caracteriza-se pela anisometria, em princípio utilizada como forma de
expressão de uma forma muito específica de conteúdo: o desequilíbrio
sentimental. Na perspectiva dessas alterações estruturais, Tavani
considera descordos apenas duas cantigas — uma de Lopo Liáns e outra de
Nun’ Eanes Cerzeo. A do primeiro foi todavia, e ao que indica a razo, obtida pelo processo de
seguir uma melodia pré-existente — justamente de um descordo. A
intenção terá sido paródica, e não se coaduna em primeira mão com a
temática amorosa. O texto do segundo seria assim o único descordo
canónico da lírica galego-portuguesa.
Pranto.
Deriva do planh provençal,
que por seu turno derivará do planctus.
Caracteriza-se como um lamento pela morte de uma personagem histórica
de estatuto elevado. A morte é ocasião de panegírico, tanto mais que
essa morte é também a do mundo que aquele sustentava com suas virtudes
e grandeza. O encómio coexiste com a derrogação retórica de Deus,
culpado de empobrecer um mundo que deixa à mercê dos homens sem prez. Os prantos da lírica
galego-portuguesa são cinco: quatro de Pero da Ponte (às mortes da
rainha Beatriz, do rei Fernando, de Lopo Dias de Haro e de Telo Afonso
de Meneses) e um do jogral Joam (à morte de D. Dinis). O mesmo Ponte
faz um pranto satírico, Mort’ é Dom
Martim Marcos. Dom Martim surge como o anti-paradigma ético, e
os vícios são convidados a procurar novo senhor.
Alba.
Trata-se de um género lírico-dramático, cujo quadro referencial mais
prototípico consiste no encontro nocturno dos amantes. O sentinela, na
sua função habitual, assinala a chegada do dia. Os amantes imprecam a
luz. É muito difícil argumentar que o género exista na lírica
galego-portuguesa.
Tenção.
Trata-se de uma cantiga feita a dois, regida normalmente por um
princípio de paridade (os interlocutores têm direito à mesma quantidade
de versos, alternadamente). A finalidade é debater um ponto de
“casuística”, tal que o primeiro interventor defende uma posição e o
segundo deve defender a posição contrária. A maior parte das tenções
caiem no âmbito do escárnio e mal dizer, apenas duas podendo
considerar-se de amor.
Partimen, também
denominado joc-partit.
Grosso modo, funciona
como uma tenção, com a ressalva de que o primeiro interventor fornece
as duas posições e o segundo escolhe a que vai argumentar pro — ao primeiro cabendo, assim,
defender a outra. A disjuntiva é do âmbito da casuística amorosa.
Existem dois partimen na
lírica galego-portuguesa: o debate entre Joam Baveca e Pedr’ Amigo (Pedr’ Amigo quer’ ora rem) e o
debate entre Pero da Ponte e Garcia Martins.
Pastorela.
Trata-se de um género lírico-narrativo, ignorado pela Arte de Trovar, cujo quadro
referencial canónico inclui (i) o encontro entre um cavaleiro e uma
pastora, (ii) a tentativa de sedução da pastora com palavras e
presentes; (iii) a aceitação ou a recusa da pastora. Considera-se
existir na lírica galego-portuguesa uma única pastorela verdadeiramente
canónica: a de Pedr’ Amigo de Sevilha, o qual, de resto, assim
classificará a sua cantiga (Quand’ eu
fui um dia em Compostela). Por ordem de “canonicidade” serão
ainda pastorelas Pelo souto de
Crecente de Joam Airas de Santiago e Vi oj’ eu cantar de amor de D.
Dinis, onde destaca o traço nuclear da interacção verbal dos dois
personagens. Já pastorelas contaminadas (sobretudo com a cantiga de
amigo), ou nem isso, serão os textos Cavalgava
noutro dia de Joam Peres de Avoim, Tres moças cantavam de amor de
Lourenço, Ũa pastor bem talhada
e Ũa pastor se queixava de D.
Dinis, e Oí oj’ eu ũa pastor
de Airas Nunes. (cf. Tavani, Lírica,
Gonçalves e Ramos, Lírica, Dicionário)
Passemos aos géneros grandes.
I. A cantiga de amor, de todos a mais praticada, é um género
erótico-idealista, cujo formato mais recorrente varia entre três e
quatro estrofes de sete versos decassílabos, octossílabos ou
heptassílabos — e com um léxico peculiar altamente formalizado, o qual,
no mais geral e fundamental, consiste numa translação para discurso
erótico do discurso jurídico-ritual típico das relações
feudo-vassálicas.
Tavani nota um programa de género bastante estrito, definível por um
exórdio que varia por poucos tipos (e nenhum deles o sazonal da canso) e por quatro campos sémicos,
dois secundários e dois principais. Os primeiros comportam um
panegírico da senhor e o declarado amor do trovador; os segundos a
distância da senhor e a coita do trovador. É possível articular um e
outro como duas células narrativas elementares unidas por relações de
consequência.
Numa retórica amplificativa, aliás global, a senhor é seleccionada como
única de todas as outras, e é louvada (i) por qualidades estéticas
muito genéricas, muito abstractas e afinal muito indiferenciadas (fremosa mia senhor, senhor de bom parecer, de bom semelhar, etc.) e (ii) por
qualidades éticas que são valores de civilidade (bom sem, mesura, bom falar, bom rir, etc.).
O amor que se declara é caracterizado como serviço e entra pelos olhos
ou atinge o trovador por ouvir dizer. A senhor, caracteristicamente,
não faz o bem, impõe entre si e o servidor uma grande distância
afectiva e mesmo física. O trovador não ousa dizer o amor, responde a
essa reserva com mesura e com coita. A coita textualiza-se em perdas —
de sem, de sono, etc. —, é
durativa e não intermitente, e tem consequências projectivas e
retroactivas metaforizadas como morte.
Do confronto entre a série jurídica “literal” e a série jurídica
“metafórica” ressalta uma diferença fundamental. Em princípio, direitos
e deveres de senhor e vassalo definem-se em termos de reciprocidade; e
em princípio, essa reciprocidade não consta das relações entre senhor e trovador: a senhor não faz o bem, deixa o
servidor sem auxílio e sem conselho, desamparado, etc. Reside aqui o
aspecto mais marcadamente pedagógico da fin’ amors. A recusa do bem ensina
contenção, moderação pulsional, mesura. O trovador é o “jovem” que
empreende educar-se sentimentalmente até substituir a mulher por um
texto. Genericamente, essa mulher é aquela que a sua posição
sócio-parental lhe pôs fora de alcance, e tudo aquilo que ela
representa ou simboliza em terra e poder “perdidos”; genericamente
ainda, essa mulher é aquele texto que é um ganho “correspondente” em
capital simbólico. Este capital distingue culturalmente toda a classe,
é uma forma de solidariedade política de toda a classe, e torna natural
o poder e o outro capital da classe – e não apenas para as outras
classes, mas para os “jovens” daquela.
Para uma apreciação não parcial (e não depreciativa) da sábia
composição estético-retórica da cantiga de amor convém ler Vicenç
Beltrán (Amor).
II. Do ponto de vista formal, a cantiga de amigo manifesta maior
preferência pelas coblas de
2, 3, e 4 versos com refrão, e exibe como seus emblemas aqueles
refinados processos de repetição que já foram referenciados. É
protagonizada em geral pela dona
virgo, ou pela menina em cabelo, e não pela senhor. Essa
protagonização abrange o mais das vezes a enunciação, embora não raro
possa o discurso das cantigas ser da responsabilidade de amigas e da
mãe, e as haja narrativas a cargo de um narrador masculino e
homodiegético, ou mesmo de um narador extradiegético e, em rigor,
assexuado.
Tavani especifica para o género um programa semântico menos lasso do
que o anterior — dois campos sémicos secundários (natureza e
panegírico) e três campos sémicos secundários (amor impedido, amor não
impedido, interdição por um terceiro). Ainda aqui a (não tão) oculta
estruturação narrativa é evidente, com os campos secundários em posição
prologal. A natureza mais pertinentemente presente é simbolicamente
modulada — e em grande parte libidinalmente modulada; o panegírico pode
ser feito em causa própria ou ser o do amigo; e, no que toca aos campos
sémicos do amor nota-se a relação disjuntiva que os estrutura.
A cantiga de amigo tem, se possível, um léxico peculiar ainda mais
diferenciado e “completo”, e marcado por “arcaísmos” (amigo, amiga, velida, louçana, lez, etc.). Esse léxico integra
preferencialmente formas discursivas (algumas ainda “arcaicas”) obtidas
por translação de um discurso jurídico mais “informal” e de ordem mais
privada: promessas, compromissos, penhores e fala. (cf. Cohen, Sanhuda)
É possível construir macro-textos com cantigas de amigo e cantigas de
amor, narrativa ou tematicamente inter-relacionadas, como faz o
Camanês. De facto, pelo modelo comunicacional envolvido (na cantiga de
amor fala ele, e na cantiga de amigo fala ela), e pela manutenção da
temática amorosa, cantigas de amor e de amigo colocam-se num plano de
acentuada complementaridade. Não são apenas géneros de discurso
distribuídos por géneros sexuais; em conjunto, participam do argumentos
sociais generalizadores (de engenderment),
os quais destinam naturalmente os sexos opostos um ao outro. (cf.
Diogo, Géneros e Generalização,
Ferreira, Telling Woman)
Assim, é notório o parentesco da cantiga de amigo com a paraliteratura
sentimentalmente especializada, que assaz bem cumpre com a função
social de idealização do amor heterossexual. Sirva de exemplo aquela
cantiga de Pedr’ Amigo de Sevilha, segundo a qual o mundo está
integralmente povoado por amigos cuja única (pre)ocupação é filhar amigas, e unicamente para as
bem amar.
No conjunto dos géneros, a cantiga de amigo compensa o homem trovador,
por isso que elas são
representadas a dizer-se apaixonadas por eles; e é óbvio que o género
permite designar por amiga o mesmo objecto que na cantiga de amor seria
designado por senhor, sem
atender à obrigação de uma referência exacta ao “estado civil”. O amor
desigual é trazido assim a um plano de amizade. Na mesma ordem de
ideias, cantigas que se ocupam com a identidade sexual das mocinhas (às
vezes, em colectivo), construindo-a na continuidade de rituais
antropo-sociais com a natureza, são apropriações “poéticas” de
mecanismos básicos de produção da mulher, sem consideração realista
pela apropriação que já foi deles feita pela ordem linhagística. (cf.
Diogo, Géneros e Generalização)
Impõe-se então uma observação. A mesma realidade — realidade crucial
deste sistema comunicativo — é designável por diferentes nomes
consoante os géneros textuais: senhor
na cantiga de amor, amiga na
cantiga de amigo, molher na
cantiga de escárnio e mal dizer.
III. A cantiga de escárnio e mal dizer, assim confortavelmente
designada nas duas espécies reconhecidas — mal dizer e escárnio —, é um
género formalmente pouco diferenciado dos anteriores, mas atravessado
por uma grande diferenciação interna de que dá alguma conta A Arte de Trovar. Refiro-me, como é
evidente, aos subgéneros de escarnho e mal dizer. Os dois tipos de
texto consistiriam em dizer o mal de alguém, e esse mal ou seria dito
por palavras cobertas que a
cultura letrada conhece como equívoco (escárnio) ou descobertamente (mal dizer). Para a
definição da modalidade sobrecodificada do dizer mal, o anónimo
poeticista achou necessário convocar a intenção do emissor, a intenção
do receptor e a intenção do texto. As cantigas de mal dizer como que
subsistiriam sem intenção que se lhe visse. (cf. d’ Heur, Arte de Trovar)
Este tipo de cantiga denota uma mutação acentuada dos seus códigos
endógneos, por pressão, suponha-se, de códigos exógenos. Na espécie de
escárnio, creio-o o género mais representativo da acentuada migração do
trovar das cortes senhoriais para as cortes régias. Ou, de forma mais
restritiva, para a corte castelhana pelas décadas de 40/50 do século
XIII.
De facto, na comparação com os espécimes anteriores, a cantiga de
escárnio adquire ou acentua certos traços: (i) explicitação de termos
com incidência metatextual: mal dizer, escarnir, posfaçar, deostar, departir…; (ii) a pessoa de quem o
mal se diz é frequentemente incorporada ao acto enunciativo como
alocutário, (iii) adquire na cantiga presença sistemática um conjunto
de ilocutivos expressivos e directivos, com especial relevância
concedida a promessas e conselhos, (iv) o discurso é produzido em
presença da máxima da cortesia que consiste em minimizar os prejuízos
em amor próprio do outro ou em maximizar os gastos em amor próprio meu,
(v) o equívoco comparece em força e/ou é realizado de bem mais
diversificadas maneiras.
Deve agora precisar-se que a máxima da cortesia é sistematicamente
derrogada pela ironia e que o sistema de ilocutivos é orientado para a
realização inverídica. Daqui resulta, um genuíno programa satírico, uma
vez que os textos são modelados, e não directamente, sobre os três
géneros do discurso partidário: epidíctico (falsos encómios),
deliberativo (falsos conselhos), judicial (falsas defesas). (cf.
Guilhamet, Satire)
Um texto de escárnio é um texto dúplice, sem grande parentesco com a
ironia por isso que a felicidade da sua recepção consiste em aceitar
que ele tenha dois “sentidos” ao mesmo tempo, em geral não
contraditórios mas apenas diferentes, enquanto que na ironia em geral
há um sentido verdadeiro, exclusivo do sentido aparente. Isto dito, e
reconheço a existência de equívocos num texto de mal dizer que dele não
fazem um texto de escárnio; que um texto pode ser inteiramente
construído sobre a ironia para produzir a equivocidade global (cf. Pero d’ Ambroa, sempr’ oí contar,
De Gonçal'Eanes do Vinhal), ou que um texto construído sobre um
equívoco venha a ser irónico (cf. a cantiga sobre a dona que não quer vela de sobre si tolher). No
segundo caso, a ironia arranca de um equívoco: “vela”, em que os
sentidos não são mutuamente exclusivos — no contexto, a palavra
significa vigilância, e designa como nome próprio a pessoa de um peão
(ou seja: nem tem sentido sequer) — e conclui globalmente por uma
ironia: ser casta e não o ser. No primeiro exemplo, o texto arranca de
uma ironia cotextualmente disfarçada (andar e não andar no mar) e o
sucesso da cantiga consiste em ter-nos o trovador mantido equivocados
ao longo de “toda” ela. Em qualquer caso, a realização do tipo não
exige uma certa pessoalização: aquela em que as “palavras cubertas”
incidissem sobre o nome da pessoa. O processo de equivocação incide
sobre o dizer o mal ou o mal a dizer.
Um texto de escarnho pode não depender de quaisquer tropos semânticos
ou lógicos, e ser obtido através do simples agenciamento
morfo-sintáctico de um discurso metrificado.
Um texto de escárnio é assim dois textos materialmente indiscerníveis.
A bem da didáctica, faço-o análogo a objectos paradoxais do tipo da
cabeça Coelho-Pato:

Deste modo, equívoco e formas de indirectividade
discursiva tornariam o género “literariamente” completo (pelo menos, na
modalidade de escárnio). Entretanto, texto de sociabilidade e de
socialização, complexificado em ambiente curial, o género denota também
uma grande continuidade com os domínios heteroglóssicos do discurso
social. Há géneros primários, orais e não orais, que com ele contactam,
e que ele modela: a conversa entre marido e mulher, a conversa obscena
entre homens, o dito de espírito, as modalidades de um falar informal e
culto, espirituoso e regido por princípios de tacto, em contexto
convivencial palaciano, que a II
Partida refere como fablar
engasajado, e o qual nos apresenta distribuído por três géneros:
departir, retraer e jugar de palabra. (Alfonso X, II Partida)
Em grande parte, estes géneros orais e aquele género letrado funcionam
como modelos de construção de uma nova identidade: a do cavaleiro. (cf.
Diogo, Escarnho e Mal Dizer, Leitura e Leituras)
Para instantes determinados desta Idade Média europeia — instantes
primeiros de instituição de uma nobreza de corte prevalecente sobre a
nobreza senhorial —, monarcas como Alfonso X chamam a si não apenas
magnates mas também aqueles cavaleiros obrigados à, ou vocacionados
para, a guerra e o trovar. Todos juntos integram aquilo a que le Goff
designa por hierarquia de iguais. Esta identidade grupal de realmente
não iguais acolhe indivíduos igualmente designados (por cavaleiros). A
palavra cavaleiro vai perdendo as acepções anteriores, nobilita-se, e
torna-se a palavra de uma nova nobilitação. A crer na II Partida, é mesmo a palavra que
melhor define (e historicamente definiu “sempre”) o nobre como homem de
boa palavra, que em cas d' el-Rei
se preza muito.
Entendamo-nos. Não quero aqui, como nos outros passos da introdução,
argumentar com a firme existência de uma realidade reflectida por
textos ou práticas simbólico-discursivas. Penso antes que estas e
aqueles, como mediados por poderes, querem intervir sobre essa
realidade, nomeá-la performativamente, e construí-la. Um exemplo
escolhido. Não é porque haja infanções decadentes que há discursos
sobre a decadência deles (devo até dizer que propriamente nunca vi
nenhum). A “decadência” é dita por uma classe de textos que performam
essa classificação desclassificante. Certos benenatorum (e ricos-homens) são
malevolamente referenciados por uma linguagem que não lhes descobre
qualidades “curiais-culturais” — vale dizer, que os não acha
“cavaleiros”. E devo ainda adiantar que a realidade resistiu a estas
práticas, na mente dos homens e nas instituições, como o provariam
trovadores apanhados na mutação e algum tanto sensíveis ao tornar do
mundo, ou as rebeliões senhoriais.
Como seja, textos há que visivelmente têm estas coisas como seu
assunto; e aqueles que visivelmente o não têm não são com eles
incompatíveis.
Neste passo, farei um pouco de comparatismo para reargumentar a
existência de um verdadeiro programa satírico subjacente ao escárnio e
mal dizer. A meu ver, devem reintegrar-se nesta classe de textos todos
os que dele foram extraídos para substanciar a existência à parte de
sátira política, moral, literária ou social. Se olharmos ao instante
horaciano em que a sátira, separando-se da invectiva, se constrói e
legitima, encontramos como fundamentos do género o estilo contínuo com
o sermo, conversa informal de
homens cultos, integrantes do convivium
liberorum, e o tipo de humor educado e urbano que distingue ou
distinguiria aquela classe. Ao sermo
corresponde o fablar engasajado,
ao convivium liberorum a
hierarquia de iguais, ao humor urbano a boa palavra, sem petulância,
sem deostos indiscriminados,
mais próprios do bufão; e, quando a matéria do humor for de matriz
escatológica e obscena, o discurso não directo garante um certo tipo de
urbanidade e decoro. Já não garanto, nem posso garantir, que as
práticas correspondem exactamente à ”normativa”, porque o não fazem;
mas constato a existência textual de práticas e normativas em
concorrência com a ausência delas4. De
resto, o obsceno (podex, conom) é utilizado para
caracterizar objectos à partida não corteses (homossexuais e “velhas”)
e integra enigmas textuais que de algum modo defendem esta literacia —
ou seja, a capacidade de conhecer por mediação linguageira — contra o
enigma da mulher e do seu gozo.
Termino, então, por uma referência ao dito de espírito “obsceno” muito
presente (obsessivamente presente), como género primário do escarnho.
Freud é aqui eminentemente adaptável.(cf. Mot d’ esprit)
Como esse dito de espírito, a cantiga de escárnio institui uma
comunicação tripolar entre ego,
ela e um terceiro. Trata-se, como afinal na cantiga de amor mas com
outros pressupostos geneológicos, de desviar para discurso um impulso
que não pode satisfazer-se no objecto: a posse livre da mulher,
socialmente impedida. Ego
produz uma cantiga que genericamente a possui pela vergonha, e que
acede a uma forma de existência social pelo consentimento arrancado ao
terceiro, representante das normas e dos interditos sociais — ou já,
como cantiga de amor tão frequentemente parodiada, norma discursiva
representativa de gente. Através do riso que lhe arrancam (e bónus de
prazer que recebe), o terceiro acha-se extemporaneamente na posição de
ter consentido no acto de força verbal.
Ora, Jerry Aline Flieger (cf. Purloined
Punchline) mostra nos resultados do dito algo que também nos
serve: sendo a mulher definida como o objecto e o objecto perdedor, a
verdade é que a prazenteira compensação de ego e do terceiro ou corresponde
também a uma perda ou sanciona uma perda.
Ego triunfa
verbalmente porque perdeu materialmente o objecto; e o terceiro perdeu
força e severidade num instante de riso.
Ademais, é possibilidade destes textos entrarem em roda livre. O
terceiro habitualmente conta ou reconta a “anedota”, ou por sua vez
fará uma cantiga de escarnho. A boa palavra torna-se, então, em todos
os sentidos (e não apenas porque interessada em “obscenidades”) uma
palavra imprópria: expropria o proferidor e é ela mesma expropriação.
De facto, quando Afonso Lopes de Baião produz um dito de espírito tão
triunfante como o corporizado na cantiga Em Arouca ũa casa faria, é para o
ver transformado num bon mot
produzido por um con
(recaindo, como se diz, sobre o joker),
e cujo sucesso, passa a advir de ser reportado ao campo do Outro, no
caso à Inteligência.
Posto isto, afirmo que o interesse destes textos reside sobretudo
naquela desapropriação da boa palavra que a todos abrange, a qual é
regida pelo objecto sintomático de toda ou quase toda a lírica: a
mulher. Não vejo como exultaria ninguém com a inteligência necessária à
feitura e ao entendimento destes textos. A cumplicidade de pensamentos
que eles estabelecem entre autor e receptor, tão frequentemente
espontânea como espontânea é a produção de ditos (que não
necessariamente de textos), é antes mais demonstrativa de uma inibição
universalmente partilhada — ou seja, de uma estupidez social.
Há um não sei quê de falacioso na consideração das primeiras cantigas
em conjunto com textos como a Notícia
do Torto ou o Testamento de
Afonso II, e a pretexto estarmos perante os textos mais antigos
escritos em português (ou, o que não é bem a mesma coisa, em
galego-português). (cf. Oliveira, Despossessão)
Fariam série pela escrita, grosso
modo considerada como registo vocacionado para afirmação da
ordem, do poder e da propriedade — ou já para se opor à desordem e à
expropriação, ou, ainda, para daquilo manifestar a Perda.
Será isto certo, mas no plano de umas generalidades assaz triviais.
Podendo escrever-se, o galego-português não é a escrita. Entre aquele e esta não
existe uma relação de sinonímia, nem de exemplificação simples de um
conceito, nem de imediata consequência. No caso da Notícia ou do
Testamento, conviria sublinhar a ausência da língua administrativa, até
D. Dinis omnipresente nos registos da escrita, ou seja, do latim. O
português que aqui aparece enquanto língua materna está muito
notoriamente ligado a contextos de rorganização das relações de poder,
e refere-se a realidades no momento e na ocasião dificilmente
«administráveis». De outro modo: o português aparece quando a
centralidade do poder não se afirma ou fraqueja. E o contexto mais
geral do uso do português tem decerto a ver com as condições de
existência da classe senhorial: dispersão local de poderes que de si
não produz um poder global regulador e a que não convém a intervenção
do poder central, por exterior (e, de resto, algo débil). Esta situação
vai sendo culturalmente abitrada, no terreno e de forma incerta quanto
ao desfecho, e logo mais por cantigas do que pela língua delas. Esta
última observação não precisa ficar-se por artes de sibila: não está em
causa a língua, porém uma relação especial com a língua, que acontece
ser «cantigas» e capitalização simbólica a partir dela.
Os acontecimentos que conduziram ao Testamento
radicam, como se sabe, nas tentativas afonsinas de implantação de um
poder «burocrático-racional» em notável antecipação sobre o resto do
Ocidente europeu. (cf. Mattoso, Identificação)
Portanto, em muitos e importantes sentidos dessa palavra aquele
português é «local» ou dirige-se ao «local», por isso que é mais
sistematicamente produzido em «cantigas» pela classe que se opõe aos
desígnios de Sancho. Não é o legítimo e «natural» veículo de uma
racionalidade «universal» como intrinsecamente identificada com o poder
de um centro — não é, como o latim, a sua letra. O mesmo português
usado naqueles dois documentos deforma a literacia — ou seja, um certo
tipo de relações com a linguagem5
— que se configura nos usos administrativos do latim escrito (o que não
impedirá a substituição dionisina deste pelo vernáculo). A Notícia do Torto não encontra um
poder central que assegure a acessibilidade universal do torto em
causa; e o Testamento nasce
da bem sucedida contestação, pela classe senhorial, do poder que
universaliza a linguagem da «burocracia nacional-estatal». Enfim, em
termos de literacia, o «português administrativo» de D. Dinis não é o
equivalente do português do Testamento
e menos ainda do da Notícia.
Quanto ao galego-português das cantigas, mesmo das mais antigas, não
tem ele como se sabe a dimensão crucial de registo, a não ser por
preconceito de letrado actual que o acha registado para si. Instante
prévio, a escrita era orientada para uma «vocalização ritual». E, nos
sentidos atrás invocados, não ficava propriamente para arquivo. Não é o
português daqueles dois documentos, quer do ponto de vista
interno-linguístico, quer do ponto de vista dos usos letrados. É
transplantado para registos tão característicos que os dois géneros
erótico-idealistas funcionam quase autotelicamente cada um no interior
de um léxico peculiar, a que ademais foi imposta uma formularidade bem
notória e, ao que tudo indica, uma norma culta, alta e coerciva. No
contexto destes géneros, parecerá (e é-o até certo ponto) uma linguagem
«literária» completa. Mas, enquanto canto formal, nela se dizem aquelas
fórmulas de homenagem político-pessoal a que globalmente se chama
«amor» — o conjunto, vale dizer, de deveres e obrigações nos quais se
configuram as relações feudo-vassálicas. E, se isto é válido para a
cantiga de amor, também é válido para uma porção mais do que
representativa das cantigas de amigo: aí a linguagem transposta para
canto é a do «direito privado» e mais informal que regula namoros,
noivados e bodas (contratos, promessas, penhores de promessas) a qual
é, às vezes, muito especificamente modelada sobre a fala. (vd. Cohen, Sanhuda) Quanto à cantiga de
escárnio e mal dizer, não é demais insistir na sua forma de também
estar entre a linguagem literária e a «heteroglossia» representada por
géneros primários.
Entre as características mais importantes desta relação com a linguagem
encontra-se assim a transformação de uma(s) língua(s) falada(s) numa
«koiné letrada», transmaterna e transnacional, que se exerce em
contextos rituais, e socialmente investidos, de tomada da palavra.
Desemboca numa oralização particular, metrificada e musicada, e a
palavra que se toma não é propriamente esta palavra. Esta palavra dá, antes, direito à
palavra e mesmo a um monopólio de qualidade. Estamos, finalmente,
diante do que os próprios consideram uma forma optimizada de literacia,
a qual muito exactamente se chama trovar. Recorramos a um texto de Joam
Soares Coelho, que, por risonho, não deve não levar-se a sério:
(…………………………………………………)
E quer’ em gram conhoçença dizer:
Sem leterad’ ou trobador seer,
Nom pod’ ome departir este grave.
(…………………………………………………)
Mas eu sei bem trobar e bem leer
E quero assi departir este grave.
(…………………………………………………)
E pois vos assi departi este grave
Tenho-m’ end’ ora por mais trobador
(…………………………………………………)
(V 1016)6
Sirva isto como uma chamada de atenção para os direitos da
heterogeneidade. O que há de mais uno e comum na lírica
galego-portuguesa é meramente a sua «koiné letrada» e aquela sua
homogeneidade formal denunciada por Tavani. Uma e outra parecem
singularmente vocacionadas para a caracterização de todo o objecto. E,
sem que com isso lhe conteste eu os benefícios cognitivos e didácticos,
o mesmo pode dizer-se da «gramática» em que o estudioso italiano
traduziu os géneros (campos sémicos e coisas afins). Todavia, não há
dúvida que não só os géneros são diferenciados, como as cantigas de
amor de D. Dinis são diferentes das cantigas de amor de Martim Soares;
que há muitas configurações da cantiga de amigo; que os géneros menores
têm configurações diferentes e diferentes distribuições diacrónicas; e
que a cantiga de escárnio e mal dizer é várias vezes diferente, e
diferente nas «mesmas» ocasiões. Analogamente, se em Castela parece ter
funcionado mais efectivamente a cisão da classe nobre em ordo seniores e ordo juvenes, em Portugal, as
partilhas iguais terão tido um grande peso (embora na prática
conduzissem quase naturalmente à vassalagem); (cf. Mattoso, Perspectivas) e há uma diferença
assinalável nos modos de produção das cantigas em contexto senhorial e
em contexto de corte régia, assaz visível diacrónica e sincronicamente.
Na segunda situação, os valores da fin’
amores são reconfigurados por uma mais afirmada civilidade,
instante primeiro e vacilante no processo pelo qual a nobreza de corte
vai predominar sobre a nobreza senhorial (de cujo seio, de resto, estas
práticas se diriam ter organicamente brotado). Finalmente, considerando
a existência de textos conceptuais (não falo de coisas como a Arte de Trovar, mas de outras que
esta poética extemporaneamente manifesta), isto é, de textos
reguladores das práticas, não necessariamente explicitados por escrito,
não circunscritos de uma vez por todas, e, quando escritos, não
necessariamente completos, assistimos decerto a várias
re-historicizações da comunidade textual trovadoresca: umas mais fortes
ou mais efectivas do que outras, com escopos diferenciados e
incorporando diferentes visões estratégicas. Tais textos são invocados
como se existissem, mas também são construídos e reconstruídos conforme
as ocasiões. Enumeremos ao sabor da pena:
A oposição entre o trovar
provençal e o trovar de Bernal de Bonaval (Alfonso X), e, mais tarde, a
oposição entre a coita e a
maneira provençal (D. Dinis).
A polémica das amas e tecedeiras que nitidamente
intercepta linhas de tensão entre o trovador e o jogral.
As demoções do jogral já desde Fernam Paes de
Talamancos.
As mudanças na realização técnica do escarnho.
A definição do cavaleiro pela espada e pela
palavra na entourage de
Alfonso X, e já a definição por Conde da corte como o lugar (ou não) do
amor.
O texto de Ponte contra o torpe desembargado e o de Estevam
da Guarda contra Chancom.
A demoção «louca» da fin’ amors por Cotom, ou a
redefinção das práticas proposta por Goterres.
A Declaratio
e os textos que se ante-relacionam com ela.
A datação inaugural, por Martim Moxa, da fin’
amors pela «clerizia», e a integração ao "Cancioneiro Geral" dos
jograis e dos clérigos, etc., etc., etc.
Feita a advertência, passo a dizer que a lírica trovadoresca é uma
parte característica no processo de modernização global (ou seja: da
racionalização) que afecta a sociedade medieva, sobretudo a partir do
século XI — e que afecta a classe nobre, segundo formas muito
específicas. (cf. Diogo, Sátira)
Genericamente falando, aumenta a produtividade do trabalho, amoeda-se a
economia, secularizam-se normas e valores, vai-se centralizando o
poder, crescem as literacias… Certas formas configuradoras da sociedade
tradicional são postas em causa: os seus «mitos centrais» precisam de
convicções éticas subjectivas e sofrem com a concorrência delas.
Valores e normas de acção descontextualizam-se e universalizam-se, e
surgem novos modelos de socialização. Em geral, e esse é um dos
aspectos típicos da modernização medieval, as tradições necessitarão de
ser inventadas (e que outra coisa é uma linhagem?)
No que diz respeito à classe guerreira, ela seguirá o processo, desde
logo criando de novo uma solidariedade de parentesco — e tão nova é ela
que, paradoxalmente, tem na raiz uma dessolidarização. De facto,
assentará no agnatismo e na linhagem, assim abandonando a estrutura
cognática «natural» e orgânica com os mitos centrais. Esta
desnaturalização produz «adolescentes» (mulheres, seniores e jovens),
obrigados a individualizar-se em função de identidades-do-eu
abstractas, (cf. Habermas, Técnica,
O Discurso) — ou seja,
de algum modo mais e mais susceptíveis a ideais. A modernização da e na
classe nobre assenta então na divisão entre uma ordo seniores e uma ordo juvenes, ou, uma vez que esta
classificação derivada do parentesco não é universal, entre posições
dominantes e dominadas na classe dominante, sendo que nas segundas
encontramos a maioria dos «intelectuais» da classe, investidos do
poder de simbolizar, e logo tornar legítimos e de toda a classe os
poderes dos que efectivamente dominam na classe. Os que ocupam a
segunda posição, mormente quando trovadores, incorporam visivelmente
alguma racionalidade: são devotos de uma vocação, são especializados e
são leterados, i. e., assumem
uma relação com a linguagem que, entre outras coisas, a supõe como o
mediador universal da experiência. Esta racionalidade substantiva é
caracteristicamente medieval; não tem como modelo a economia, mas o
livro. Os textos tornam-se modelos primários fora dos quais nenhuma
experiência pode potencialmente interpretar-se; tornam-se filtros
conceptuais, gramáticas do mundo mental e externo, dotados do potencial
de criar um modo de vida metódico (no caso, dominado pela mesura),
baseado em postulados éticos consistentes (como é o caso da fin’ amors), e sem dependência
necessária da racionalidade económica. Os trovadores formam uma
comunidade textualista que se orienta por textos conceptuais, opondo
uma cultura baseada em princípios racionais e discursivos à cultura de
base mítica e simbólica predominante. Todavia, nem essa oposição é
«privativa», nem são em geral perceptíveis as antinomias possíveis: o
mítico-simbólico é deveras predominante, e o textualismo — por vezes
com os visíveis desencontros da auto-ilusão —assume-se como um forma
optimizada quer daquele, quer já da sua percepção. Esses textos são
saber-fazer, esses textos dão à comunidade um passado, esses textos
estruturam os comportamentos dos membros e provêem solidariedade contra
o exterior. Os societários dominam e interiorizam os textos, e com eles
formam e reformam a acção do grupo. Os textos não são colectivamente
participados (como o seriam as cantigas de amigo «originais»), por isso
que esses rituais míticos são substituídos por rituais institucionais —
por interacções entre os membros do grupo estruturadas por
interpretações mais ou menos individuais dos textos conceptuais.
Estamos relativamente longe do face-a-face participativo de grupos
primários como o das raparigas banhando-se nas ondas ou dançando so lo ramo verde frolido. (cf.
Stock, Uses)
Não tocando excessivamente nos desvios «gramatológicos» de que sofre a
letra ou, diria Bloch, na bastardia da escrita, (cf. Diogo, Leitura e Leituras) falemos um
pouco mais de especialização. Na verdade, e como se antecipou, aquilo a
que assistimos é à reprodução no interior da classe nobre (uma classe
dominante) dessa divisão mais do que frequente e de resto fundadora nas
sociedades indo-europeias: os seniores
são a fracção dominante da classe, que dispõe do poder “temporal”, e os
“jovens” a fracção dominada da classe, que dispõe do poder “espiritual”
e cuja função mais geral consiste na simbolização dos cabedais da
classe (daí também a presença entre os trovadores de Guilherme IX, de
Alfonso X, de D. Dinis, de D. Pedro, de Sousas, etc.). O mais
interessante e característico, pois não é muito comum, é que esta
divisão vêmo-la nascer. Por ocasião de uma cisão que decorre de uma
distribuição da força, e reformula papéis sociais, a nobreza
senhorial-feudal cria o seu “intelectual orgânico” e a organicidade da
reformulação. A força (e o acto de força “inaugural”) torna-se legítima
(e efectiva) pela simbolização. O trovador é aquele que deve esconder
na simbolização, e antes de mais de si mesmo, a força que o prejudicou.
A instituição trovadoresca é assim o agente da transformação do capital
da classe em capital simbólico, isto é: legítimo — isto é: reconhecido
como natural e desconhecido como capital. E o trovador seria, antes de
mais, aquele em quem o capital simbólico esplende muito.
O que se nos depara aqui não é mais do que o encontro de uma
instituição com corpos — um modo característico de acção histórica, que
a comunidade textual grosso modo
ignora e idealiza. Citando Bourdieu, trata-se da convergência de uma
história objectivada em coisas, na forma de instituições, com uma
história encarnada em corpos, na forma de disposições duradouras a que
o sociólogo chamou habitus.
(cf. Bourdieu, Other Words)
Não se pode pensar a especificidade da comunidade textual da lírica sem
considerar situação e função. Entre outras consequências, encontramos a
necessidade (cultural, para que o diga) de inventar, redescobrir e
historicizar tradições, como a necessidade de adaptação dos corpos a
uma identidade pessoal de tipo novo. Tendencialmente “abstracta”
(enfim, é uma subjectividade), “re-descobre-se” na comunidade, e
exemplarmente por um evento textual ligado aos textos satíricos, como
despossessão subjectiva. Os textos de escarnho servem para produzir o
Texto, articulando o interindividual com o social, o literário com o
heteroglóssico — mas também impõem ao social percursos de “despesa”
ligados à irrupção e circulação de jouissance.
Todas as formas de representação produzidas pela instituição
trovadoresca não são de todo boas formas.
Tornemos agora à literacia que nos ocupa, para lembrar que há jograis.
O jogral sai de estratos sociais iletrados onde o conhecimento se
adquire por frequentação empírica do objecto (em sentido aristotélico,
um habitus); e onde o domínio
da linguagem de um mester significa a pertença à corporação e o direito
aos benefícios e privilégios que a distinguem. Os jograis da lírica
galego-portuguesa são frequentemente admoestados (i) por deficiências
técnicas na encenação da palavra trovadoresca e (ii) por ilegitimamente
pretenderem tomar a palavra. Neste caso, sobre eles recai uma estranha
restrição à universalidade mediadora da linguagem: falta-lhes o saber
que adviria do contacto directo com o objecto. O objecto que não
frequentaram empiricamente é a senhor — tudo aquilo, vale dizer, que no
trovar não seria técnico e que é, finalmente, todo o trovar. Ora este
objecto que se designa por ‘senhor’, que abruptamente passa a ser o que
não alcançam técnicas, e com que o trovador contactaria na perspectiva
de uma solidariedade de classe, é um nome de que teria a exclusiva
posse graças a essa solidariedade de classe que, afinal, mais não
concede do que o usufruto do nome. O mesmo é dizer que a universalidade
da linguagem, produzida por esta espécie de literacia, funciona para o
trovador desde logo porque não há contacto com o objecto, que é
inexperível, muito embora o aviste em todos os dias da realidade que,
para nobres, tem a forma do reconhecível7.
O conhecimento do objecto chamado senhor é mediado pela linguagem do
trovar (e tem existência simbolico-institucional, decerto muito
afastada da realidade, e logo para poder gerar «simbolos»). Integra
muito exactamente um repositório textual de experiências «alheias». Em
princípio, é acessível a todos os entes «letrados», independentemente
do grau de imediatez das experiências. Como nota Godzich, a literacia
supõe o acesso universal, mas a suposição de universalidade decorre da
impossibilidade real do acesso. É por isso que se convoca a mediação da
linguagem.
Assim, por um lado (i) o jogral é aquele que, como o trovador, sabe
tudo o que no trobar jaz, e
que, de tanto que o sabe, pode ser o porta-voz dos textos conceptuais.
É o caso de Juião que faz notar a Joam Soares Coelho:
(…) u fostes achar
d’ irdes por entendedores filhar
sempre quand’ amas quando tecedores?
Mas, ao mesmo tempo que se arroga a capacidade de trovar a senhores por isso que sabe fazê-lo,
o jogral, como o mesmo Juião, é aquele que a quem Joam Soares pode
responder, certo que o jogral deve reconhecer porque não pode conhecer:
Juião tu deves entender
que o mal vilam nom pode saber
da fazenda de bõa dona nada.
Os dois campos invocam direitos diferenciados, e trocam «realidades». O
jogral passa daquela que o limita para os textos com que conhecerá a
que não é sua; o trovador abandona conhecimento e textos para regressar
à realidade que lhe permite exigir reconhecimento, e como um padre que
cuidasse poder dizer umas missas informais. Esta literacia em boa parte
vocacionada para produzir qualidade a partir da linguagem regressa ao
objecto como fundamento e garantia da distinção. Passa de relação com a
linguagem a relação com as bõas donas.
Afirma-se a dissociação entre «bem querer» e saber ler. O primeiro
estabelece o alcance e a realidade das «leituras», de modo que um
jogral que saiba ler apenas saberá ler. O incidente, pois de um se
trata, não é dramático: o mal vilam
em geral não sabe leer. O
jogral é uma excepção quase absoluta.
Intervém aqui, portanto, uma quebra não empírica da literacia. Assim
Ambroa repreende Baveca nestes termos: “(...) lo que sabe molher bem
querer / bem quanto sab’ o asno de leer / por namorado por que o
metedes?”. Para que o diga: quando o objecto a ler é a mulher de quem
se trova, o leer do jogral
deixa de ter alcance. Diante do mesmo Ambroa, Pero Mafaldo não deixará
de invocar um imaginário decreto real, o qual obrigaria a que ninguém
mais pudesse trovar a não ser os trovadores. Esta literacia regulada
por decreto (verdadeira institucionalização do capitral simbólico) não
acontecerá nestes termos; mas surgirá, com efeito, um “decreto” que
pretende atalhar a tanto mal trovar:
a Declaratio de Alfonso X. Em
todo o caso, (ii) o nó aporético da questão revela-se decerto quando,
em tenção com o escudeiro Joam Garcia de Guilhade, o cavaleiro Joam
Soares Coelho admite a universalidade linguística dos nomes “senhor” e
“trovador”. A intenção é infamatória, mas dela resulta que possa trovar
cada um em talhe de qual é: o
coteife trovador
chamará à coteifa senhor, e senhor bem assim o cochom à cochõa. O que aqui (não) se
satisfaz é uma como que espécie de reivindicação aos bens a que se acha
com direito o conhecedor de um ofício; o problema é que esse ofício é
uma forma de literacia, isto é, um conhecimento, por mediação da
linguagem, de objectos não directamente contactados e de acesso tão
limitado como, ao tempo, as letras o eram; e problema é, finalmente,
que o trovador — esse que, lembrêmo-lo, trocou a mulher por um texto e
por um nome — abra mão dos seus nomes próprios, ainda que a cochõa que o cochom muito conhece passe a ser
conhecida contra-intuitiva e burlescamente pelos "enigmas" de uma
linguagem “conceptual”. A Declaratio
apresenta uma solução. O jogral pode tornar-se ele mesmo um texto
conceptual, ou seja, um doctor de
trovar. Com efeito, tal como a Declaratio
o concebe, atrás dele não está uma “subjectividade”, mas a corte régia
afonsina e as suas, dela, necessidades discursivas. Pero da Ponte
parece ter aceitado essa reconfiguração, tornando-se um agente da boa
palavra. Não reproduz textos de outrem (de outra classe), senão que os
passa a produzir. Lembre-se a cantiga sobre o torpe desembargado e um bom punhado
de outras mais.
Do mesmo modo, neste contexto de civilidade curial, essa forma
optimizada da literacia que é o trovar (conhecimento mediado mas
excepcionalmente penetrante) passará a integrar a definição da
superioridade “cultural” da nobreza da corte sobre a nobreza senhorial.
Trovar é tomar a palavra que caracteriza o homem de boa palavra, isto
é, o cavaleiro. (Alfonso X, II
Partida) Boa palavra e guerra são os dois temas mais comuns a
Alfonso X e aos seus cavaleiros — e um só tema, afinal, como se vê na
caracterização que o rei castelhano faz de Gonçal’ Eanes do Vinhal. Do
mesmo modo, este, na cantiga “Em gram coita andáramos com el-Rei”, toma
a palavra para explicitar aquele contexto em que ela se toma, e que faz
um homem de boa palavra de quem é capaz de a tomar (ou está
institucionalmente legitimado para a tomar). A esse contexto seriam
absolutamente alheios os infanções nas suas terras. Trata-se de algo
como o fablar engasajado
“legislado” na II Partida:
jantar e cear, obsequiar, burlar
corte.
Hic et nunc, e talvez
não para todos os actores, outros são já os textos conceptuais
nucleares do trovar; e esta literacia é bem menos orgânica com uma
cultura senhorial.
NOTAS
1 Neste âmbito, a utilização do
galego-português decorre necessariamente da distância física e
socio-cultural à fonte de influência.
2 Funciona neste Resende de Oliveira um
não dito porque impensado e «natural»: da perda, seja de terra ou da
mulher, segue-se a escrita. Para que isto fosse crível, seria
necessário não apenas a asserção afagadora das convicções dos
trabalhadores dos estudos literários, mas também uma «bibliografia
científica» mais completa e genuinamente assimilada, e uma prática de
escrita sua que fosse consistente com os tópicos literários invocados.
Dê-se uma amostra da «estética» em causa, reservada como é costume aos
finais de texto: «Sinal de uma perda, a escrita, enquanto elemento
fundador do espectáculo trovadoresco, participava igualmente na
encenação dessa perda e na sua sublimação por via literária. Daí o seu
poder. Daí a opção nobiliárquica». Todos os daí são retóricos. Resende
(re)encontra a definição a priori
de literatura. Como venho dizendo e praticando há algum tempo, a lírica
trovadoresca não é literatura mas literacia gramatologicamente
desencaminhada; e aqui não estará em causa a Escrita, mas antes uma
racionalidade textualista. (cf. Diogo, Sátira, Leitura e Leituras) Como um
historiador não devia esquecer, não existe a Escrita, disponível pelo
Ser que seja, para que aí desemboquem perdas, mas tão-só práticas em
contexto. A afirmação de que nada se cura com nada exige uma
substanciação retórico-hermenêutica mais capaz.
3 Numa nota deste texto que venho
referindo, Resende de Oliveira esquece-se a afirmar que era o galego a
língua materna do magnate (de quem, de resto, não estamos autorizados a
dizer que sinta perdas de terra ou de mulher).
4 Talvez seja benéfica esta
observação: os textos mais obscenos dos nossos trovadores nunca
implicam a bufonaria, isto é, a performance da obscenidade em corpo
próprio, salvo uma cantiga de Joam Soares Coelho, em que o obsceno
próprio é, todavia, transferido para a mulher (Luzia Sanches, jazedes em grande falha).
Em contrapartida, esse tipo de bufonaria petulante já nos aparece em
textos de jograis: Pedr’ Amigo de Sevilha recebe um peido de sua
senhor; e Pero d’ Ambroa “pinta” o seu cuu, de forma a que vença uma
donzela em bom semelhar.
5 Entenda-se literacia por esta
definição mínima. As literacias não são linguagem, mas tipos de relação
com a linguagem. (cf. Godzich, Literacy)
6 E o interlocutor de Vasco Gil da
Soverosa numa tenção concluirá: ei
sis’ e sei trobar e leo bem.
7 Bourdieu lembra que o nobre, segundo
o latim, é um nobilis, um
homem «conhecido», «reconhecido». (O
Campo Econômico)
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