No que a versos diz respeito, Sá de Miranda é decerto o nosso clássico. Camões é moderno, por isso que a sua língua faz parte da que falamos e escrevemos, se não é a que escrevemos e falamos; o bom Ferreira tem A Castro e alguns instantes marados de poética clássico-renascentista espalhados pelas Cartas. A sua ilegibilidade, porém, não decorre da língua usada e antes do verso supremamente chato e chocho. ...Miranda é clássico por ser histórico e nos fazer históricos Miranda sabe fazer versos que lhe ficam ao alcance da sententia, pelo geral breve e salutar, métrica e arte não obstante. Alguns dos sonetos da língua são seus, o que é prodígio quando o ouvido de hoje dificilmente tolera os seus hiatos, as suas ligações estranhamente consentidas pela sílaba entravada do arquifonema nasal, a dispersão irremediável dos elementos do soneto ainda longe de saber dos truques e regularidades que lhe garantem o fecho de ouro, &c. A arte do terceto em decassílabos (conquanto por vezes «aproximativos» aos nossos ouvidos herdeiros da história como resultados) é sua mais do que de Camões. A Elegia a Uma Senhora muito Lida… e a Carta a D. Fernando de Meneses — a qual se deve deixar com a edição de D. Carolina, colocando fora do cânone a de Lapa — são para quanto precisamos obras perfeitas. É certo que Camões é todo legível e Miranda não. Mas Miranda é um clássico pelo alcance das suas letras. Entenda-se por alcance antes de mais o âmbito. O cânone mínimo mirandino (meia dúzia de sonetos, as cartas e a elegia referida) tem quanto chegue de lirismo e abrange mais do que Os Lusíadas: é humanismo à Valla (e logo retórica à Cícero), filosofia moral e teoria política. Nos vários séculos de ouro do ocidente europeu, não há, que eu conheça, nenhuma obra em verso vernáculo que possa medir-se com Basto, posto inegavelmente prejudicada nos confrontos por aquele respeito tão literal ao seu prépon que os pastores falam mutatis mutandis o português das comadres vicentinas, que a verosimilhança é toda referências agrárias e que o mundo é visto e o pensamento visitado a partir desse tipo de referenciais. E, ainda assim, aí temos uma obra irremissivelmente envolvida numa dobra ficcional de autoria, que é um tratado em acto de retórica, de filosofia moral e de teoria política, diante do qual Os Lusíadas desmerecem. Camões é moderno por ter de algum modo inventado o português e por ser lírico; Miranda é clássico por ser histórico e nos fazer históricos.