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Na sua génese, o cânone literário português é claramente um produto do Romantismo e do seu nacionalismo cultural. Se o valor estético era colocado a par da natureza ética e nacional dos autores e das obras, muitas vezes, porém, era conferida a primazia ao critério nacional. Como afirma Vassilis Lambropoulos, a propósito da literatura grega moderna, o carácter nacional de uma obra podia suprir a carência da dimensão literária, mas não o contrário: "Literature had to be national, or be nothing at all." (1988: 10). Segundo F. Schlegel, na sua História da literatura antiga e moderna, o critério nacional fornecia um ponto de vista simples para ajuizar com facilidade e segurança: "C' est le point de vue moral qui rapporte tout à la question de savoir si une littérature est entièrement nationale, parfaitement adaptée à la prospérité nationale et à l' esprit nationale." (1829, II: 108).
Ensaio primeiramente publicado em Ave Azul, Revista de Arte e Crítica de Viseu, III Série, nº 7-9 (Verão 2000-2005).
O Nacionalismo do Cânone Literário Português:
Entre o Ético e o Estético.
por Carlos Cunha
Na sua génese, o cânone literário português é claramente um produto do
Romantismo e do seu nacionalismo cultural. Se o valor estético era colocado
a par da natureza ética e nacional dos autores e das obras, muitas vezes,
porém, era conferida a primazia ao critério nacional. Como afirma Vassilis
Lambropoulos, a propósito da literatura grega moderna, o carácter nacional
de uma obra podia suprir a carência da dimensão literária, mas não o contrário:
"Literature had to be national, or be nothing at all." (1988: 10). Segundo
F. Schlegel, na sua História da literatura antiga e moderna,
o critério nacional fornecia um ponto de vista simples para ajuizar com
facilidade e segurança: "C' est le point de vue moral qui rapporte tout
à la question de savoir si une littérature est entièrement nationale,
parfaitement adaptée à la prospérité nationale et à l' esprit nationale."
(1829, II: 108).
A passagem do conceito de literatura nacional de "projecto" a instituição
ou "campo cultural", operada pelo Romantismo, manifestou-se através do
que C. Guillén designa como "signos de institucionalização" de uma literatura
(1998: 330). Esses signos são as antologias (florilégios, grinaldas, ramalhetes,
"Parnasos" nacionais) e a existência de um cânone organizado em termos
periodológicos, que funcionam como "campo textual" no seio de uma "instituição",
com os seus agentes (escritores, críticos, professores, editores), organizações
(academias, imprensas, escolas, universidades teatros) e publicações (revistas,
periódicos, traduções, antologias e histórias literárias). Em termos globais,
é possível constatar que esta actividade fundacional opera através de
um conjunto de estratégias e de práticas discursivas que institui a nacionalização
das "belas-letras" e da cultura. Deste modo, a institucionalização das
literaturas nacionais contribuiu para a naturalização da sua existência
como habitus e "crença". Mas o nacional é algo que, à semelhança
das fronteiras geográficas e políticas, depende do espaço inter-nacional.
Por consequência, como afirma P. Casanova, "la tâche principale des fondateurs
de littérature c' est, en quelque sorte, de 'fabriquer de la différence'."
(Casanova, 1999: 302).
Nesta lógica, os primeiros historiadores da literatura
estabeleceram os períodos literários de acordo com a existência de épocas
originais ou nacionais e de épocas imitativas ou de influência estrangeira.
Esta nova taxinomia institui um dualismo entre um critério ético (nacional)
e estético-histórico, tendo uma clara implicação na estruturação periodológica
das histórias da literatura, que passam a organizar-se em função da existência
de épocas/escolas nacionais e épocas/escolas de imitação de literaturas
estrangeira. Madame de Staël, por exemplo, caracteriza desse modo as principais
épocas da literatura alemã: escola francesa, escola inglesa e escola alemã
(1968 [1813], I: 169). Em termos literários, o nacional/original é equiparado
a um conceito tipológico de "romântico" (como género) e o estrangeiro/imitativo
a uma concepção igualmente tipológica de "clássico". A história literária
e a sua periodologia condensa-se na luta entre clássicos e românticos
e o Romantismo é perspectivado como uma revolução político-literária que
representava o triunfo definitivo do "espírito nacional" (romântico) sobre
o absolutismo e sobre o domínio clássico (francês). Em termos globais,
o percurso histórico e o valor de cada literatura são aferidos em função
da fidelidade a esse "espírito romântico-nacional".
O primeiro historiador
da literatura portuguesa como um todo, Friedrich Bouterwek, aplica à evolução
literária esta oposição entre a escola romântica e a escola clássica,
elogiando a literatura espanhola e a literatura portuguesa pelo seu carácter
romântico, isto é, pela fidelidade às tradições nacionais. Do mesmo modo
procederão depois Sismondi, F. Denis, Garrett e Herculano, apesar de destacarem
a imprecisão do conceito de romantismo. Garrett opõe a dimensão nacional-popular
do romantismo à opressão clássica e Herculano coloca a tónica na alteridade
histórica da "escola antiga" (classicismo) e da "escola moderna" (romantismo).
Os românticos associam assim o cânone literário a um "imaginário nacional"
de matriz liberal (popular) que procuram legitimar. Deste modo, cada literatura
nacional podia ser vista como um sistema autopoiético, desenvolvido a
partir do seu Volksgeist. Na sequência de Garrett, a crítica
literária de A. P. Lopes de Mendonça, L. A. Rebelo da Silva e Andrade
Ferreira e os trabalhos de história literária de Teófilo Braga procuraram
instituir um cânone literário de raiz romântica, isto é, um cânone assente
na "comunidade imaginada" nacional (B. Anderson, 1996), construída a partir
de uma revisão do passado, com base na ideia da existência ancestral de
uma literatura popular. Este "cânone imaginado" responde assim à necessidade
de identificação cultural da nação, para legitimar os valores e o sentido
histórico de uma comunidade nacional autóctone e independente, de uma
tradição nacional: "Canons play a major role in creating the identity,
legitimacy, and self-image of communities." (Szégédy-Moszák, 1991: 386).
Da conjugação do critério romântico da originalidade (e correlativa análise
das influências externas) com o critério histórico-periodológico resultam
duas grandes linhas fundamentadoras que presidiram à elaboração da história
da literatura portuguesa. Por um lado, há desde o início uma forte consciência
de que a literatura portuguesa dependia na sua história das literaturas
europeias (e daí escola francesa, espanhola, italiana), conduzindo ao
lugar-comum de que a literatura portuguesa era uma literatura imitativa
ou receptora. Por outro lado, a articulação romântica da literatura com
o Volksgeist e a história nacional (a literatura como expressão
da sociedade), conduziu ao desejo e à necessidade de estabelecer uma história
literária centrada nos valores nacionais. Esta dupla orientação está longe
de ser específica da história da literatura portuguesa e deriva em grande
medida do facto de os irmãos Schlegel e de M.me de Staël terem definido
as literaturas europeias com base na sua organicidade autónoma ou na sua
dependência imitativa.
O critério nacional conduziu ainda à escolha das
obras que melhor representassem o "espírito nacional", e que ao mesmo
tempo sobre ele exerceram um efeito positivo, numa acção de reciprocidade.
As palavras de Teófilo Braga são bem elucidativas do predomínio do ético
(étnico) sobre o estético:
"O facto de reconhecer a existencia da Litteratura
portugueza não depende sómente dos catalogos bibliographicos, mas do grau
de alimento e vigor moral que o povo recebe por essas obras. Podem contar-se
milhões de volumes, e apenas quatro ou cinco exercerem uma acção reconhecida.
Bastava termos os Lusiadas, a Historia Tragico-maritima,
os Romanceiros populares, para sentir-se sob esses documentos
agitar-se uma raça, uma nacionalidade; as outras obras podem representar
os meios que violaram a evolução do espirito nacional, abafando-o pela
auctoridade ou pelo prestigio." (1872: 9).
É nesta lógica que o próprio
critério literário é com frequência considerado insuficiente para a avaliação
dos escritores, como observam Antero de Quental e Teófilo Braga a propósito
de Camões, embora tenham posições divergentes:
"N' este ponto de vista, historico e psychologico, não do ponto
de vista meramente litterario d' uma esteril poetica de convenção, é que
os Lusiadas devem ser estudados e comprehendidos" (Quental, 1872: 28;
destaque nosso).
"O estudo de Camões não póde ser feito exclusivamente pelo lado litterario;
visto assim era grande, mas incompleto. Ha n' elle uma feição organica,
que explica os problemas da litteratura e da raça." (Braga, 1873:
2; destaques nossos).
O mesmo fará Teófilo Braga ao analisar a obra de
Garrett, que reavalia desde 1892, em termos políticos e em função do seu
carácter nacional:
"Não basta analysar litterariamente a obra de Garrett,
para reconhecer que n' ella começa uma epoca nova da Litteratura portugueza.
(...) Pela revivescencia das tradições, á medida que se inspirava d' ellas,
é que Garrett, se vae elevando á individualidade suprema, em que nos Poemas
historicos acorda um passado de gloria, no Theatro ensina o modo de formar
uma opinião publica, e no Lyrismo imprime o cunho da sentimentalidade
amorosa do povo portuguez. O homem, a sociedade e a arte são inseparaveis
n' este estudo sobre a renovação da Litteratura portugueza moderna (...).
Garrett apparecerá mais do que um poeta, um orador, um politico, um prosador,
um dramaturgo, um pedagogista, um erudito, é mais - é uma nacionalidade
que resuscita. E emquanto a sua obra fôr lida, esse sentimento da nacionalidade
não se apagará facilmente, apesar dos atropêllos que contra ella exercem
os poderes empiricos." (1903: 6-7).
Garrett e Camões aparecem irmanados
como representantes da nacionalidade, por terem realizado a sua "síntese
afectiva":
"Camões e Garrett estão a par como as duas almas que tiveram mais profundo
o sentimento da raça, e que mais soffreram as catastrophes da nacionalidade
portugueza." (1905: 674-5); "n' esse parallelismo exstia uma fulgurante
verdade. Para a critica europêa Garrett representava toda a litteratura
portugueza moderna, como Camões toda a gloriosa época da Renascença."
(id.: 676-7).
Por outro lado, associa ainda Garrett ao outro elemento da sua trindade
canónica, Gil Vicente, salientando o facto de Garrett restaurar o teatro
com Um Auto de Gil Vicente e a coincidência do ano da trasladação
de Garrett para o Panteão Nacional (1902) com o centenário "da fundação
do Theatro portuguez por Gil Vicente em 1502":
"Gil Vicente e Garrett synthetisavam uma mesma elevação social; um creara
o theatro como orgão da opinião publica para uma burguezia preponderante,
o outro restaurara o theatro para um regimen politico da livre expressão
do pensamento; ambos se inspiraram na tradição nacional" (id.:
683).
Deste modo, poderemos aplicar ao cânone literário português as palavras
de E. Fox acerca do cânone espanhol: "el canon literario español se debe
tanto a razones ideológicas como a razones estrictamente literarias."
(1995: 13). Por consequência, como sublinha José-Carlos Mainer, nota-se
"la persistencia se un canon literario mixto" (1994: 24), que inclui as
obras de uma "certa tradição", mas exclui outras, e com frequências por
razões diversas. Tal facto torna-se sobretudo evidente na elaboração das
antologias literárias. Fidelino Figueiredo, ao reflectir sobre o "Critério
para a organização duma anthologia litteraria" (1918), que serviu de prefácio
à sua "Antologia Geral da Literatura Portuguesa: 1189-1900", expõe o dilema:
"o coordenador terá de nortear-se ao mesmo tempo por dois criterios, nem
sempre francamente conciliaveis, o historico e o esthetico." (1918: 144).
Curiosamente, considera esta conciliação particularmente difícil na literatura
portuguesa porque "no geral não é de uma grande perfeição formal, de escrupuloso
acabamento e requintada execução" (id.: 150). Por consequência,
"Só em obras completas, bem representativas dum gosto, duma epocha e das
personalidades litterarias dos seus autores, se podem aprehender as caracteristicas
essenciaes duma litteratura, as quaes são predominantes qualidades de
conjuncto, raramente qualidades de pormenor." (id.: 145). O paradoxo
que daqui resulta consiste no facto de as características de uma literatura,
deduzidas de uma análise de conjunto, não poderem ser exemplificadas através
de autores e de obras individuais (ibid.).
Devido à interferência
do critério histórico-nacional, com claras implicações político-ideológicas,
a selecção de textos e da "tradição nacional" é mais devedora do pensamento
de quem a elabora do que da sua qualidade estética. Para Teófilo Braga,
"Quem escrever uma historia litteraria, tem, diante da serie das obras
de arte, de deduzir o genio e o caracter intimo do povo que as sentiu,
e sobretudo de pôr em relêvo as circumstancias exteriores que lhes deram
origem." (1870: 3).
A consciência de que a literatura constitui o património
espiritual de um povo tem implicações importantes a nível da história
literária, que se estrutura e constrói com base numa lógica circular:
o "espírito nacional" deduzia-se a partir dos textos, que o reflectiam,
e os textos seleccionados ilustrariam esse mesmo carácter nacional nos
momentos mais importantes da sua história, que legitimavam a sua importância
enquanto textos da história literária nacional. Assim, ou se parte de
uma ideia prévia sobre o que é o "espírito nacional" ou se seleccionam
certas obras de onde ele é deduzido, segundo os critérios de valor do
historiador.
É com base nesta circularidade que Teófilo Braga considera a literatura
como um documento precioso da antropologia, pois crê que a raça se reflecte
na literatura: "não é isto um abuso do critério das ciências biológicas
aplicado a um fenómeno psíquico e social." (1984 [1909]: 68). As literaturas,
continua, distinguem-se por tradições em línguas escritas e pelo modo
de sentir de uma nacionalidade: "consequência destes factores de ordem
moral, nem por isso estão independentes do determinismo biológico, que
em antropologia são as persistências atávicas ou hereditariedade dos caracteres."
(ibid.).
Com base nesta fenomenologia da raça, concebe a literatura
portuguesa como uma manifestação do génio dos portugueses equivalente
aos descobrimentos:
"A vastidão do corpo da História da Literatura Portuguesa corresponde
à importância desta viva manifestação do génio estético deste povo, tão
notável como a sua energia activa na iniciativa das Navegações e Descobrimentos
geográficos"; "Os títulos de nobreza de Portugal não consistem exclusivamente
em ter iniciado os grandes Descobrimentos (...), a par da ocupação de
vastíssimos domínios, criou o Povo português uma das mais belas línguas
românicas, e nela os seus Escritores, Poetas, Historiadores, Viajantes
e Filósofos produziram uma opulenta Literatura que seguiu a par e com
brilhantismo a evolução das Literaturas meridionais"; "foi e ainda é hoje
uma das forças morais que sustentam a nacionalidade e autonomia de Portugal."
(id.: 59-60).
Os descobrimentos terminaram, mas, segundo Teófilo Braga, nos portugueses
"mantêm-se fecundas as suas faculdades artísticas, científicas e filosóficas,
suscitadas pela comparticipação no concurso mental europeu, em que acima
de cada Nação se afirma o ideal da Humanidade." (ibid.). Assim,
a literatura pode considerar-se nacional apenas com base numa teoria prévia
sobre as características dessa nacionalidade e da sua cultura, assentes
numa tradição literária específica ou numa visão política da história
pátria, sendo pois uma construção cultural, que selecciona, organiza e
interpreta.
Este aspecto é sobretudo visível na elaboração do cânone literário
escolar, cujas transformações resultam em grande medida das alterações
políticas e sociais que sustentam os governos que presidem à sua efectivação.
A literatura e o cânone escolar funcionam assim como um "capital cultural"
através do qual a escola contribui para a reprodução das relações sociais
e da ordem social (Guillory, 1993: 55-8).
Os estudos literários modernos,
dominados pelo discurso da história literária, deram entrada no ensino
superior e no ensino secundário sob o signo do conceito romântico de literatura
nacional, articulando-se na sua génese e evolução com o conceito de identidade
nacional, nos seus compromissos ideológicos com os Estados-nação modernos.
A história literária contribuiu assim para a modelização da "consciência
da identidade nacional" nos planos ideológico, ético, cívico e moral.
Deste modo, o sistema de ensino actuou em sintonia com o processo de nacionalização
da literatura e acentuou-o.
O início da nacionalização da literatura começou por uma aproximação comparativa
das literaturas clássicas e modernas, presente nas histórias da literatura
dos irmãos Schlegel e de Madame de Staël, e este estudo conjunto manteve-se
até finais do século XIX. Nos Estados- -nação emergentes ou em vias de
constituição, a valorização das línguas vernáculas e das literaturas nacionais
emergiu sobretudo como um processo de emancipação face à hegemonia das
culturas (língua e literatura) greco-latina e francesa. Mas, sobretudo
nos países mais antigos, a construção da "literatura nacional" implicou
uma "nacionalização dos clássicos". R. Escarpit regista este movimento
nacionalizador na história literária francesa, com Jean François de La
Harpe e Desiré Nisard, que baptizou o grande século clássico como representativo
do espírito da nação (1958: 1778-9). Nisard interessava-se pelas grandes
obras do ponto de vista ético, "Persuadé que les lettres doivent être
un supplément de l' experience individuelle, une force active et présente,
une discipline qui s' ajoute aux exemples du foyer domestique, à la réligion,
aux lois de la patrie" (Moisan, 1990: 75). Por isso, procura nos grandes
escritores "moins l' habilité de l' artiste, que l' autorité du juge des
actions et des pensées", encarando-os "comme des maîtres aimés et obéis"
(ibid.). Nisard usa assim a história literária com "pragmatismo
moral", ao serviço da nação francesa, em busca do "espírito francês" nas
obras literárias, para elucidar os "jovens espíritos". Segundo Nisard,
o ensino da história literária devia ter uma função cívica, moral e patriótica.
É esta vinculação da história literária à problemática da identidade nacional
que definia o objectivo desta disciplina ao longo do século XIX. Na transição
do século XIX para o século XX, Gustave Lanson defendia a renovação científica
das humanidades e a aplicação do rigor científico à história literária,
mas enfatizava ainda a sua missão formativa.
Em Portugal, a preocupação
com a construção do Estado-nação que emerge após a revolução liberal é
evidente em praticamente todos os escritores e intelectuais portugueses,
e a história literária colocou-se então ao serviço da legitimação da "literatura
nacional", do mesmo modo que o discurso histórico em geral. O ensino formal
e "informal" da história (comemorações, rituais colectivos, símbolos,
etc.) destinava-se a fundamentar e inculcar a consciência da identidade
nacional. Uma análise dos curricula, programas, instruções e manuais do
ensino secundário desde 1895 até 1974 revela-nos um crescente acentuar
do nacionalismo e patriotismo na formação escolar, pois apostava-se na
educação como factor de regeneração nacional. Ora, nas sucessivas reformas
de ensino que se produziram em Portugal, com as suas motivações político-
-ideológicas, a literatura nacional, com o seu cânone literário dos grandes
autores, foi um forte instrumento de socialização e formação dos jovens
cidadãos segundo a imagem oficial da nação.
Com efeito, já nos programas do curso complementar de 1895 (sexto e sétimo
anos do Liceu) se afirmava que para além de conhecer os principais factos
da história da nossa literatura, o aluno também "firmará o seu sentimento
moral e nacional por meio das leituras e dos commentarios respectivos."
Mais ainda, considerava-se que "O estudo secundario da lingua e da literatura
patria ministra os primeiros dados para a apreciação scientifica do caracter
nacional, com seus defeitos e qualidades, apreciação que depois o alumno
formulará com segurança e lhe será proveitosa na vida practica." (1).
Como se sublinhará nos programas de 1905, "Não basta que o lyceu ensine,
é preciso que eduque" (2). Se na prática os liceus se
destinavam a uma elite, os textos legais das reformas de 1918, 1929 e
1947 explicitavam que o ensino liceal se destinava à formação de um escol
que havia de ingressar no ensino superior e ocupar lugares de chefia.
Assim, o sistema educativo apostava, de modo global, em ser o motor da
regeneração e do progresso da nação, mediante a educação dos seu futuros
dirigentes, modelados à imagem dos "grandes homens" e do Império.
É nos primeiros anos do ensino liceal que se aposta em especial na formação
moral, cívica e patriótica dos alunos, nomeadamente com a fusão das disciplinas
de Português e de História na disciplina de "Narrativas Históricas" (primeiro
e segundo anos do curso liceal) (Portaria de 21/1/1918), centrada na biografia
dos grandes homens - que em 1919 (3) se designará Português
e História-, reforçando a vertente patriótica dos objectivos, pois visa
"gerar no espírito dos alunos o amor pátrio e o orgulho da raça" e procura
a "Explicação rudimentar das transformações capitais da nossa sociedade,
acentuando a acção do povo através dos seus grandes homens", manifestando
uma clara concepção positivista de heroísmo. Dizia o relator da comissão
de revisão do ensino secundário masculino de 1918 que "é preciso não esquecer
que o ensino deve ter uma feição acentuadamente nacional, deve ter um
cunho profundamente patriótico; é o ensino secundário que mais que nenhum
outro pode e deve dar coesão e grandeza, e portanto solidez e elevação,
à alma nacional." Cabia-lhe assim inculcar um espírito de "solidariedade
nacional", começando por fazer (nas duas primeiras classes) "conhecer
e admirar os grandes vultos portugueses do passado", porque é nessa idade
que os alunos se identificam com os heróis, "idade heróica por excelência,
a idade dos mitos e das lendas, aquela em que o espírito tem 'um grande
poder de amplificação' ", devendo ministrar-se um ensino "essencialmente
moral e patriótico" (4). O Português e a Literatura Portuguesa
desempenharam um papel primacial nestes objectivos. Como se anuncia explicitamente
nos programas de 1926, "nesta, como em nenhuma outra disciplina, deve
haver, além do propósito da transmissão do saber, e da formação moral
e intelectual do aluno." (5).
Através deste poder histórico e simbólico da nação, como elemento de legitimação,
a história literária contribui, como "história monumental" (Nietzsche),
para a mobilização das vontades, reforçando a dimensão pedagógica da historia
magistra vitae, agora ao serviço dos projectos da nação. Ao ilustrar
os grandes exemplos e as lições do passado, a história era por excelência
uma disciplina de formação moral e patriótica (6). Desde
os programas de 1894/95, passa-se a dar relevo à educação moral e patriótica
no ensino da literatura portuguesa, colocada assim ao serviço da construção
da identidade nacional, com base em pressupostos nacionalistas, de acordo,
aliás, com as tendências literárias que emergiram nas últimas décadas
do século XIX, que reactualizaram um certo nacionalismo cultural da primeira
geração romântica (7). A este facto não é alheia a proliferação
intensa da ideia de decadência, fortemente veiculada pela Geração de 70
e acentuada depois do Ultimatum. O diagnóstico de decadência
da raça, alargado ao ensino, é traçado, entre outros, por Adolfo Coelho,
Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins (Portugal, o "enfermo
do Ocidente") e Teófilo Braga (numa primeira fase). A própria visão idealizada
do espírito popular e suas tradições acaba por se transformar numa perspectiva
disfórica na viragem do século: "visto anteriormente como o guardião de
tesouros sobre os quais repousaria a identidade mesma do país e a esperança
da sua regeneração, o povo é agora visto como afectado ele próprio pela
decadência da nação. A sua cultura deixou de ser poética e original, para
ser medíocre e falha de originalidade." (Leal, 1995: 140) (8).
Com o advento da República, o ensino tornou-se decisivo para os republicanos,
que pretendiam reformar a mentalidade portuguesa, em particular pela instrução
e "educação republicana" (João de Barros), de modo a construir um novo
modo de ser português e a aproximação à Europa (9).
Não
surpreende pois que na análise dos programas e manuais do ensino secundário
desde 1895 até 1936 se note um crescente acentuar do nacionalismo e patriotismo
na formação escolar (que não se extingue até 1974), pois apostava-se na
educação como factor de regeneração nacional, ideia que remonta em particular
à Geração de 70 e ao ideário liberal-republicano.
Aliás, os programas mais nacionalistas resultam de conjunturas políticas
melindrosas e articulam-se com um movimento global de reacção às crises
político-económicas e às ameaças de potências estrangeiras, como nos anos
noventa, em que se conjugam o Ultimatum, a revolução republicana
de 1891 e a crise do estado liberal e das finanças públicas, o que explica
em parte as tendências nacionalistas culturais e literárias, que se prolongarão
nas primeiras décadas do século XX (neogarretismo, saudosismo, renascença,
integralismo). De igual modo, a Primeira Guerra Mundial e as crises da
Primeira República, entre outros factores, ajudam a explicar o crescimento
das tendências nacionalistas (10).
Através de um longo processo, pode observar-se a construção de planos
de estudos, curricula e metodologias que, apesar das constantes
alterações, não deixam de ter uma certa continuidade, contribuindo para
a estabilização do cânone literário e das metodologias de ensino da história
literária. A necessidade de um curso de literatura portuguesa e da história
da literatura portuguesa era já formulada por Herculano em 1834. Francisco
Freire de Carvalho pretendeu com as suas Lições (1840 e 1840a)
elaborar um "Curso completo de Principios de Litteratura Nacional" (1840a:
6), procurando ser pioneiro neste domínio, como se vê pelo título da sua
obra seguinte: Primeiro Ensaio sobre Historia Litteraria de Portugal,
desde a sua mais remota origem até ao presente tempo (1845). Afirmava
aí que iniciara a sua elaboração em 1814, para fazer valer a sua prioridade
em relação ao Bosquejo Histórico da Literatura Clássica, Grega, Latina
e Portugueza (1844), de A. C. Borges de Figueiredo, professor do
Liceu Nacional de Coimbra.
A primeira reforma de Rodrigues Sampaio (1872)
reunifica as cadeiras de"Oratória, Poética, Análise Retórica" e "Literatura
Clássica, Especialmente Portuguesa. Exercícios de Composição e Declamação
Portuguesa" na cadeira de "Português, Oratória, Poética, Literatura e
Literatura Portuguesa" (no terceiro ano de Português, leccionado no sexto
ano dos liceus de primeira classe).
Surge então o primeiro esboço de programa, uma vez que se trata de uma
enumeração de tópicos a abordar e de uma lista de autores e textos a analisar,
pela ordem contida no nome da disciplina: em primeiro lugar estudava-se
Oratória, aplicando-se à análise do estilo de autores selectos portugueses;
depois vinha a Poética, que contemplava a análise literária de excertos
de poesia, passando-se à análise da Literatura (definição, estudos que
abrange, gosto literário, crítica literária), que implicava a análise
literária de autores selectos portugueses e noções gerais "da litteratura
antiga, da idade media e dos tempos modernos", para se estudar de seguida
a história da literatura portuguesa, de acordo com os géneros discursivos
da Retórica (na prosa) e com as "escolas poéticas" (na poesia) (11).
Esta fixação canónica orientava a feitura de selectas e manuais, que,
à falta de programas detalhados, serviam de guias programáticos, cabendo
ao conselho dos liceus a sua aprovação.
Os programas de 1872 contemplam para os primeiro e segundo anos de Português
o estudo da gramática, com exposição e análise de trechos selectos, nomeadamente
de poesia, para o estudo da metrificação, pelo que dão continuidade ao
plano de estudos da reforma de Fontes Pereira de Melo (1860), mantendo-se
esta orientação nos programas 1880 e 1888, no âmbito das reformas de Luciano
de Castro (12).
Com a progressiva separação entre o ensino da gramática portuguesa e o
ensino da gramática latina, e entre o estudo da Oratória/Poética e o estudo
da literatura, estava preparado o caminho para a autonomização da literatura
portuguesa em relação à tutela clássica. Na primeira reforma de Luciano
de Castro (1880) aparece pela primeira vez a cadeira de "Literatura Nacional",
no quinto e no sexto anos, tanto no curso de letras como no de ciências
(divisão que surge pela primeira vez), e em ambos com a mesma carga horária.
Em última instância, cremos que para esta autonomização contribuiu de
modo significativo o Curso Superior de Letras, instituído por D. Pedro
V em carta de lei de 8/6/1858, e em que existiam em separado as cadeiras
de Literatura Antiga e de "Literatura Moderna, especialmente a Portuguesa"
(13). Não obstante esta divisão, só em 1901 é que foi
instituída no Curso Superior de Letras a disciplina de "Literatura Nacional
e suas origens", no âmbito da reforma de Jaime Moniz (cf. Aguilar, 1939:
112), muito provavelmente porque o Curso passava a conferir habilitação
para leccionar no ensino liceal. Desde então, a articulação disciplinar
entre os dois níveis de ensino acentuou-se (14).
Doravante, desde 1880, e em períodos alternados, a literatura aparece
associada ao estudo da língua portuguesa, até à designação definitiva
da disciplina de Português, sendo normalmente dada prioridade à língua
(através dos textos literários) nos primeiros anos e à literatura nos
anos complementares (o actual ensino secundário) (15).
Por outro lado, como referimos atrás, desde a reforma de 1894/95, o ensino
liceal ganha um cariz formativo-nacionalista, que se exacerbou na reforma
de Sidónio Pais (1918) e na reforma de 1936. A reforma de 1894/95, sem
abandonar a tradição humanística anterior, atribui uma dimensão ideológica
explícita aos programas e dá início à associação do ensino do Português
e da História nos primeiros anos do curso liceal. A história de Portugual
passa a ser ensinada nos dois primeiros anos através dos textos literários
que focavam os momentos gloriosos da nação e os seus heróis.
A partir da reforma de Jaime Moniz e João Franco (1894/95), de tendência
humanística, que muitos autores consideram a melhor reforma do século
XIX, enfatiza-se, e até 1974, a parte formativa (moral, patriótica, nacionalista)
do ensino secundário. No entanto, ela confere primazia ao Latim, vindo
a seguir a "Língua e Literatura Portuguesa", porque, como se diz no relatório
da reforma de 22/12/1894, "a alma portuguesa é um pedaço da alma latina",
o que se repetirá em programas seguintes (16).
Esta orientação humanístico-moral e nacionalista-patriótica (épico-colonial)
teve profundas implicações na elaboração dos manuais e na interpretação
dos textos e dos autores canónicos. De modo global, podemos distinguir
a sua incidência na selecção de autores (cânone), de textos (selectividade
antológica) e das obras (selectividade canónica), que, a par dos mecanismos
de omissão e de cortes textuais, se articularam com um processo revisionista
da história literária e da memória histórica nacional, como se verificou
em relação à Geração de 70. Este conjunto de processos visava a construção
de uma visão positiva do passado e a produção de uma contra-memória da
ideologia decadentista que marcou o século XIX. Envolveu por isso uma
alteração dos curricula, dos programas e reflectiu-se no reforço dos mecanismos
de controlo dos manuais. Como os programas eram genéricos e só foram instituídos
como tais no último quartel do século XIX, os manuais eram uma peça central
no ensino/aprendizagem. Daí a necessidade de controlar os seus conteúdos
e as suas mensagens, mediante a sua autorização (concurso e comissões
de avaliação, bem como o próprio mecanismo de controlo dessas comissões),
até se chegar ao livro único, que tornou "monológico" e oficial o discurso
da história. Assim, os manuais escolares transmitem um dado "capital cultural"
(ideológico-cultural) dos detentores do "poder simbólico", com o intuito
de produzir a sua socialização e uniformização em termos nacionais (17).
O desejo de transformar a mensagem ideológica transmitida pelos manuais
de Português numa mensagem atractiva conduziu ao uso de textos literários,
para suscitar um forte apelo estético e imaginativo, como se verficou
em particular nos primeiros anos do curso liceal (18).
Aliás, como sublinha Aguiar e Silva, "O texto literário -mais propriamente,
o texto poético- desempenhou, ao longo de toda a história do Ocidente,
um papel preeminente na formação escolar, educativa e cultural dos jovens"
(1998/99: 23). Este papel formativo, numa dimensão religiosa e moral,
é com frequência destacado pelos autores de antologias e selectas literárias
(19).
Para além da fixação dos programas, o "controlo institucional da interpretação"
(Kermode, 1983) é reforçado através das instruções e observações para
a sua execução (com medidas disciplinares para quem não cumprisse), e
mediante os mecanismos de aprovação dos manuais. A importância que é concedida
à disciplina de "Língua e Literatura Portuguesa" é reforçada nas Observações
ao programa da disciplina, que surgem pela primeira vez (20).
O estético é posto ao serviço do ético, o que parece óbvio e natural ao
redactor das Observações:"Os sentimentos estheticos, pela sua affinidade
com os sentimentos moraes, desenvolvem-se concomitantemente com estes
no estudo das letras", havendo na nossa literatura "materia bastante para
se exercitarem, firmarem e alargarem os variados sentimentos de ordem
moral". Aliás, afirma-se que a finalidade deste estudo nos três primeiros
anos do curso liceal é a "Instrucção moral derivada dos textos." Nos programas
do curso complementar (sexto e sétimo anos) declara-se que para além de
conhecer os principais factos da história da nossa literatura, o aluno
também "firmará o seu sentimento moral e nacional por meio das leituras
e dos commentarios respectivos." Obteria assim "os primeiros dados para
a apreciação scientifica do caracter nacional".
É também em 1895 que começa a tendência para associar, nos primeiros anos,
o Português e a História de Portugal, sobretudo na sua dimensão épica,
o que aparece ainda mais explícito nos programas de 1905. No primeiro
ano são recomendadas leituras de "Poesias (narrativas e lyricas) e trechos
de prosa muito simples (fabulas, contos tradicionais, narrações da historia
real e lendaria da patria, noticias de homens notaveis, algumas lendas
da antiguidade classica, ligadas às origens peninsulares)". No segundo
ano estudar-se-iam trechos análogos e "Lendas dos períodos visigótico
e arabe. Descripções muito simples, particularmente geographicas (de Portugal
e suas colónias) e de histora natural, em relação com os programmas respectivos.
Exemplos da poesia epica tradicional portugueza (romanceiro)". No terceiro
ano recomendam-se trechos análogos aos dos dois primeiros anos (21).
Neste contexto, Os Lusíadas aparecem naturalmente como "a mais
perfeita escola de patriotismo em que póde iniciar-se a mocidade portugueza",
cabendo-lhe a primazia no quarto e quinto anos, com a recomendação de
que se façam "as omissões convenientes." (22). As Observações
privilegiam nos primeiros cinco anos, para além do lado moral, o "incentivo
ao gosto pela litteratura e pelo desenvolvimento do sentimento nacional."
Não surpreende, por isso, que comece em 1895 a tendência para associar
o ensino do Português ao ensino da História de Portugal. Os temas históricos
ensinam-se através dos trechos literários (23). Daí o
lugar cimeiro atribuído ao Português, pelo efeito que se pensava que tinha
no espírito dos jovens:
"O ensino da língua nacional ocupa um dos primeiros
logares no plano dos lyceus, não só pela sua importancia immediata e pratica,
mas ainda pela grande influencia que exerce no desenvolvimento do espirito,
quando methodicamente dirigido."
Em 1918 oficializa-se esta fusão das disciplinas de Português e História
nos dois primeiros anos do ensino liceal, que teve a sua versão definitiva
em 1968, com a instituição do Ciclo Preparatório, razão pela qual as duas
disciplinas pertencem, no segundo ciclo, ao mesmo grupo disciplinar (24).
No entanto, em 1918, no terceiro ano, na disciplina de Português continua
a recomendar-se que se analisem textos análogos aos dos dois primeiros
anos (25). Este reconhecimento da importância do Português
na formação moral e nacionalista é vem vincado através de uma expressão
que se reiterará nos textos de outras reformas:
"Não esquecerá o professor que é a aula de Português uma das aulas do
liceu em que melhor se pode desenvolver o sentimento nacional e a formação
moral do aluno"; "salientou-se sempre o aspecto formativo das disciplinas
adequando-se-lhe sempre os programas como instrumento capital do ensino.";
[desenvolvimento] "do sentimento estético do aluno, da sua actividade
moral; o avigoramento do sentimento nacional." (26).
Deste modo, o cânone literário para esta disciplina "mista" tem como critério
primacial a dimensão ética, o que não impede que se tente a sua conciliação
com o valor estético, v.g. em autores como Júlio Dinis, Garrett,
Herculano e Trindade Coelho. Mesmo em autores de reconhecido valor, os
textos a estudar são seleccionados de acordo com um critério ético-moral.
O programa recomenda uma série de textos para de lá serem retirados os
trechos a estudar:
-Contos Populares Portugueses de C. Pedroso, Contos
de D. João da Câmara, Brios heróicos de portugueses de António
Pereira da Cunha, Fabulário de Henrique O' Neill, Os Meus
Amores de Trindade Coelho, Campo das Flores (fábulas) de
João de Deus.
-Julio Dinis (A Morgadinha dos Canaviais, As Pupilas do Senhor
Reitor e Uma Família Inglesa), Garrett (Romanceiro)
e Herculano (Lendas e Narrativas).
-Pinheiro Chagas (Migalhas de História Portuguesa).
Também se
fornece uma lista canónica para as terceira, quarta e quinta classes:
-Garrett (Um Auto de Gil Vicente), Herculano (Lendas),
Rebelo da Silva (Contos e Lendas), Pinheiro Chagas (Migalhas),
Xavier Cordeiro (Leituras ao Serão).
Em 1919 incluem-se de novo para as primeiras classes a História Alegre
de Portugal de Pinheiro Chagas, as Virtudes Cívicas e Domésticas
de Vilhena Barbosa, a Mocidade de Fernando Caldeira e a
Harpa do Crente de Herculano. Para as classes seguintes recomendam-se
de novo as Viagens na Minha Terra e Mário, de Silva
Gaio. Se em 1918 se recomendava de modo vago a leitura de poesias, o programa
de 1919 especifica que se tratam de poesias de Herculano, Garrett, Castilho,
Mendes Leal, Soares dos Passos, Gonçalves Crespo, Tomás Ribeiro, João
de Deus e outros.
A orientação formativa e nacionalista da reforma de Sidónio Pais/Alfredo
de Magalhães funde a educação clássica tradicional com a visão enciclopédica
do positivismo, embora em termos curriculares predominem as letras (27).
Os problemas da instrução e educação pública são aqui vistos como uma
das necessidades nacionais de "mais determinante influência, porque visam
a produzir uma profunda transformação do espírito nacional" (28).
No preâmbulo, definem-se como fins da instrução secundária os de "ministrar
os elementos de uma cultura geral e habilitar para os estudos superiores,
promovendo para isso a aquisição de um determinado conjunto de conhecimentos,
o progressivo desenvolvimento intelectivo do espírito, o desenvolvimento
normal do corpo e a educação do sentimento e da vontade." De notar ainda
a concepção elitista que aqui se tem do ensino secundário, que se destina
"à formação de um escol que deve ter, directa ou indirectamente, uma influência
preponderante na marcha dos negócios públicos". No decreto que estabelece
os programas também se afirma algo similar:
"um dos principais objectivos
do ensino secundário que é não só seleccionar e formar homens de enérgico
carácter e viva inteligência, mas também adequá-los a determinada sociedade,
em que vão colaborar, ou seja, neste caso, tornar consciente e diferencial
a qualidade de português."
Trata-se, em suma, de formar uma elite imbuída de um certo espírito nacionalista,
o que se atingiria privilegiando-se a História de Portugal, a língua e
literatura portuguesas e a Geografia da metrópole e das colónias (29).
Neste sentido, compreende-se a criação da disciplina de "Narrativas Históricas"
(denominada "Português e História" em 1919), centrada na biografia dos
grandes homens, reforçando a vertente patriótica dos objectivos, pois
esta disciplina visava "gerar no espírito dos alunos o amor pátrio e o
orgulho da raça", mediante a "Explicação rudimentar das transformações
capitais da nossa sociedade, acentuando a acção do povo através dos seus
grandes homens." (30). Mas a reforma de Sidónio Pais
atribui a todos os professores a tarefa de ministrar a instrução cívica
(sentimento patriótico). O próprio canto coral, introduzido pela primeira
vez, tal como os trabalhos manuais, como é dito programa, "não deverá
deixar de ter uma feição nacionalista." (31).
Apesar de esta reforma não ter tido aplicação prática, pois Sidónio foi
assassinado em Dezembro de 1918, ela viria a ter uma grande influência.
Desde 1918 que os primeiros anos do ensino liceal mantiveram esta orientação
(32), que já vem de 1895 e se mantém nos programas do
Ciclo Preparatório (33).
No preâmbulo dos novos programas do curso complementar de 1929 (34)
reafirmava-se o papel formativo do ensino liceal: "Dos liceus sai a maior
parte dos indivíduos que hão-de constituir mais tarde o escol nacional."
(35). Daí a necessidade de desenvolver faculdades "que
leve à formação do homem verdadeiramente digno dêste nome, do homem de
vontade disciplinada e forte, habituado a procurar e amar a verdade e
a sentir o que é grande e belo." Para isso, promover-se-ão "e de forma
acentuada, interêsses morais, estéticos e sociais", preparando os alunos
"para virem a ser cidadãos úteis à Pátria, elementos de vida e de progresso,
e não corpos inertes ou agentes de dissolução.":
"Sem esquecer o desiderato da amizade e mútua cooperação dos povos, deve
predominar, na efectivação deste programa, a idea de garantir e realizar
uma educação nacional." "Na parte lingüística do ensino secundário ocupa
evidentemente lugar primacial a língua pátria: o centro da cultura lingüística,
e até certo ponto de toda a cultura liceal, deve ser o estudo da língua
materna (36).
É indispensável que o aluno compreenda
bem a importância que para a vida, para a grandeza e para a independência
nacional tem a sua língua; é preciso que a respeite como enorme fôrça
moral da sua Pátria, que a venere como depósito da cultura do seu País,
que a ame como guarda das tradições da sua terra; é necessário que êle
se convença de que tem obrigação estrita de velar pela sua pureza, e que
por isso precisa de bem a estudar, precisa de bem a conhecer.
Não é só dever de estudante; é dever de patriota." (37).
Com a reforma de Carneiro Pacheco (1936) (38), que dá
prioridade à missão educativa do ensino liceal, atribui-se explicitamente
a doutrinação nacionalista e corporativista ao Português, à História,
à Educação Moral e Cívica e à Organização Política e Administrativa da
Nação (39). No preâmbulo do Decreto-Lei nº 27 084 diz-se
claramente que o ensino liceal tenderá à formação da "mentalidade corporativa
em que há- -de desenvolver-se a actividade dos portugueses", pondo-se
assim o ensino, "orgânicamente, ao serviço da unidade moral da Nação",
para "valorizar a sua grande missão educadora". Deste modo, dá um valor
primordial ao ensino liceal "na missão educativa da Família e do Estado
para o desenvolvimento harmónico da personalidade moral, intelectual e
física dos Portugueses, nos termos da Constituição" (artº 1).
O decreto de 1948 que institui novos programas (40) mantém
a articulação entre a língua, a literatura e a história nos dois primeiros
anos. Os textos a estudar deviam ensinar a amar a terra no que tinha de
vivo, pitoresco, belo, tradicional, folclórico, historicamente pessoal
e humanamente valioso, afeiçoando a alma a exemplos de virtude, dedicação
e heroísmo, à corografia e ao folclore, aos sentimentos nacionais e à
história pátria, contendo estímulos para uma reflexão e "formação nacionalista".
Devia ainda formar as bases "de uma consciência imperial", que a população
semiculta ainda não tinha. Escolher-se-iam assim trechos históricos aptos
a definir um povo ou uma época e "a evolução histórica do nosso agregado
nacional". Recomenda-se ao professor que, na sua resenha histórica, forneça
uma visâo positiva da história nacional:
"abster-se-á de pormenores ou
de juízos criadores de um pessimismo derrotista esforçando-se por enraizar
nos alunos a convicção de que as nossas comprovadas virtudes explicam
o engrandecimento cada vez maior."
Como referimos, os primeiros programas
do ensino liceal datam de 1872, e aí aparece a Literatura Portuguesa como
uma parte da cadeira de "Oratoria, Poetica e Litteratura Classica principalmente
Portugueza", leccionada durante o o último ano do curso. Recomenda-se
em particular a análise de autores selectos portugueses. Este facto mostra
que a literatura portuguesa tinha ja uma grande importância, mesmo quando
leccionada numa disciplina de pendor clássico. Aliás, os textos literários
eram utilizados nos primeiros anos do ensino da língua portuguesa, como
se observa no plano de estudos de 1860, mediante a análise gramatical
e estilística de "poetas e prosadores" portugueses.
Este facto não se altera com a articulação (desde 1895) do Português com
a História, em que os textos literários desempenham a função de incrementar
o patriotismo nos jovens estudantes. Assim, se nos primeiros dois anos
do ensino liceal os textos literários eram postos ao serviço do ensino
da língua e da história portuguesas, nos anos seguintes (do terceiro ao
quinto ano), desde 1872 até 1894/95, estudava-se o Latim e não o Português.
A reforma de 1894/95 instituiu a disciplina de Língua e Literatura Portuguesa
em todo o curso liceal (do primeiro ao sétimo ano, o que sucede pela primeira
vez). Por esta razão, os textos literários passam a ser estudados em todo
o curso geral (os primeiros cinco anos do curso liceal). Em 1905, as próprias
noções de história literária aparecem mais cedo, na quarta classe (o quarto
ano), e a sua articulação com a história de Portugal prolonga-se até à
quinta classe (o quinto ano): "Noções de historia litteraria baseadas
na leitura e ligadas com a historia nacional." Nestes dois anos apenas
aparece uma lista de autores, numa sequência que traduz claramente o seu
agrupamento por épocas, apesar de estas não serem enunciadas. Neste primeiro
programa do século XX incluem-se pela primeira vez Arnaldo Gama, Júlio
Dinis, Camilo, João de Deus, Antero e Eça. Em 1918 introduzem-se as Cartas
de sá de Miranda, as poesias líricas de Camões e Oliveira Martins, e em
1919 Guerra Junqueiro (Os Simples) e as poesias de Mendes Leal,
bem como as Lendas da Índia de Garpar Correia.
Aliás, nos programas
de 1918, 1919 e 1926 mantém-se uma lista, com sucessivas alterações, de
autores e obras recomendadas para leitura e análise. Da selecção feita
entre 1872 e 1935 poderíamos extrair a conclusão de que se trata de um
"cânone antológico" que procura conciliar a tradição clássica com a modernidade
romântica, sobretudo desde 1895. Eis os autores recomendados:
-Bernardim,
Gil Vicente, Sá de Miranda, António Ferreira, Camões, Diogo Bernardes,
Corte Real, Rodrigues Lobo, Padre António Vieira, Correia Garção, A. D.
da Cruz e Silva, Filinto, Bocage, Garrett, Herculano e A. F. de Castilho
-Mousinho de Quevedo, Gabriel Pereira, Sá de Menezes, Jerónimo Baía, Sóror
Violante do Céu (escola espanhola ou gongórica),
-Historiografia: F. Lopes,
João de Barros, Diogo Couto, Damião de Góis, Fernão Mendes Pinto, Frei
Luís de Sousa, Francisco Manuel de Melo, Alexandre Lobo, Fr. Bernardo
de Brito, Duarte Nunes Leão, Frei Francisco Brandão, Severim de Faria,
Jacinto Freire de Andrade, Frei Pantaleão de Aveiro, Herculano e L. A.
Rebelo da Silva.
-Prosa: Fr. Heitor Pinto, Manuel Bernardes, Jorge Ferreira
de Vasconcelos, L. A. Rebelo da Silva, José Estevão, Francisco Manuel
de Melo.
Quanto à história literária propriamente dita, ela é estudada
de forma concêntrica num ou dois anos do curso complementar, numa sequência
diacrónica, com um programa próprio desde 1872, ano em que a antiga décima
cadeira já se denomina "Português, Oratória, Poética, Literatura e Literatura
Portuguesa", correspondendo ao terceiro ano de Português (leccionado no
sexto ano dos liceus de primeira classe e no quarto ano dos de segunda
classe). O estudo da literatura implicava a análise literária de autores
selectos portugueses e noções gerais "da litteratura antiga, da idade
media e dos tempos modernos." Na Literatura portuguesa estudam-se as origens
da língua e analisa-se a literatura do ponto de vista da linguagem:
"Analyse
critica da pureza e elegancias da linguagem portuguesa, nos auctores dos
seguintes seculos". Se esta perspectiva mostra uma forte influência do
estudo da Retórica, como se vê pela diferenciação dos prosadores segundo
os vários géneros de discurso (familiar, epistolar, narrativo, descritivo,
didáctico e oratório), esse estudo é distribuído num quadro típico de
uma história da literatura portuguesa que muito deve a Teófilo Braga (e
a Costa e Silva), com uma distribuição por géneros em relação à prosa
e por escolas em relação à poesia:
Poesia (escola dos trovadores, escola clássico-italiana,
escola espanhola ou gongórica, escola clássico-francesa e escola romântica);
Eloquência sacra (no período gongórico e desde o período
arcaico) e parlamentar (desde 1821); Historiografia (destaques
nossos).
Na lista de prosadores para texto das lições enunciam-se as obras a analisar,
vindo de seguida a lista de poetas a estudar.br> Numa segunda fase, em
1880, o estudo da Literatura Portuguesa autonomiza-se e, sob a égide do
trabalho teofiliano, mantém um currículo relativamente estável até meados
do século XX (41). O programa de "Literatura Nacional"
(42) é uma espécie de resumo do de 1872, com pequenas
alterações. Acrescenta-se, nomeadamente, a tripartição genológica em relação
à arte poética, que se aplica à escola clássica-italiana, onde se recomenda
o estudo dos poetas épicos, líricos, dramáticos e dos novelistas. A escola
dos trovadores passa agora a chamar-se escola provençal e a escola espanhola
ou gongórica recebe a designação de escola clássico-espanhola. O programa
de 1872 referia-se aos caracteres de cada escola, e na espanhola ou gongórica
aos caracteres e defeitos, o que se mantém em 1880, apesar da alteração
do nome. Outra curiosa novidade de 1880 é a a referência à vida e obra
dos escritores das várias escolas (em 1872 só se recomendava a análise
das obras mais notáveis de cada um) e a introdução de dois temas que denotam
um aprofundar da vertente histórica e comparativa:
-"crítica histórica" e "Historia da litteratura: noções de litteratura
oriental, grega e latina", noções dos ciclos literários da Idade Média
e das literaturas modernas (espanhola, francesa, inglesa, alemã e italiana)
nas suas relações com a portuguesa (43).
Na parte correspondente
à história da língua (no âmbito da filologia e das línguas românicas),
manda exemplificar a sua evolução através de textos das épocas literárias
correspondentes.
Os programas de 1888 pouco alteram em relação ao de 1880 (44),
mas no sexto ano a história da literatura aparece como matéria autonomizada,
ao recomendar-se uma "sucinta notícia da história litteraria portugueza
e lição dos mais insignes escriptores portugueses". Esta tendência aparece
consagrada nos programas de 1895, em que se dá destaque à literatura medieval
(45). O aluno deve, afirma-se, ter "conhecimento dos
principaes factos da historia da nossa litteratura estudados em producções
typicas". Contudo, o propósito nacionalista não deixa de estar presente:
o aluno "firmará o seu sentimento moral e nacional por meio das leituras
e dos commentarios respectivos." Este tipo de formação, como observámos,
era extensivo a todo o curso liceal e a todas as disciplinas.
No que toca à história da literatura portuguesa, ela aparece distribuída
pela sexta e sétima classes (sexto e sétimo anos), segundo o método regressivo,
embora já na quinta classe (quinto ano) se recomende a "Classificação
elementar dos generos litterarios", que estruturam a história literária
deste programa, uma vez que desaparece a antiga organização por "escolas".
Deste modo, embora a orientação cronológica seja respeitada, ela é regressiva
no teatro, o único "género" que é leccionado nos dois anos, e só no sétimo
ano se estudam textos medievais. É neste último ano que se preconiza um
"Lance de olhos comprehensivo sobre os generos litterarios e a historia
da litteratura portugueza, baseado nos factos que a leitura fez conhecer,
completado com algumas noções ácerca da influencia das litteraturas estrangeiras,
sem listas de auctores d' estas litteraturas, e restricto quanto á designação
dos escriptores portuguezes com as respectivas indicações biographicas,
aos que forem sufficientemente representados na leitura." Aliás, neste
ano, aconselham-se, como exercícios, "Exposições oraes sobre a vida e
obras dos auctores lidos". No sexto ano dever-se-ia estudar a poesia lírica
do século XVI até ao presente (de Bernardim até Castilho) (mediante uma
selecção), o Hissope, o teatro de Garrett, a epistolografia e
a novelística (v.g. Lendas e Narrativas). Para o sétimo ano reserva-se
o estudo do teatro clássico e de Gil Vicente, a oratória (Vieira, Garção,
a oratória parlamentar), a história e a literatura de viagens. Para além
dos resumos do Amadis e da Demanda do Santo Graal, aconselha-se
o estudo de uma breve colecção de trechos da literatura portugueza até
1520.
Este programa oferece ainda indicações importantes em termos metodológicos,
privilegiando a análise dos textos e o "methodo inductivo ou heuristico",
razão pela qual se aconselha que as noções de gramática, de poética, de
estilística e de história literária sejam deduzidas da leitura e que os
manuais de leitura integrem essas noções através de introduções, notas,
breves notícias (antepostas aos textos) e apêndices. Aquilo que também
noutros programas se denomina "Explicação verbal e real dos textos lidos"
compreende uma análise gramatical e lógico-semântica das partes e do todo
(a lembrar o círculo hermenêutico), bem como anotações estilísticas (figuras),
derivadas ainda da retórica, agora simplificada, como se pode ver nas
instruções para a quarta classe (quarto ano): "Observações estylisticas
simples, fugindo do emprego dos termos technicos da velha rhetorica, que
serão substituidos por expressões da lingua corrente, com excepção dos
usados com muita frequencia." Por outro lado, especifica, em relação ao
sexto ano, aquilo que se entendia pela noção de "análise literária":
"analyse
propriamente litteraria, isto é, o estudo das particularidades estylisticas
e logicas; do plano: (disposição), idéa fundamental, intenção, desenvolvimento,
sentimentos expressos, personagens, caracteristicas, episodios, digressões,
correlações historicas e biographicas, comparações de passos, textos,
obras completas, acções, descripções, typos (heroes); no drama em especial:
composição, pensamento fundamental, caracteristica das pessoas; exposição,
ascensão, episodios, conflicto, peripecia, catastrophe."
Os programas de 1905 (46) têm menos instruções nacionalistas
e patrióticas do que os de 1895, mas é algo parecido, pelo que se pode
concluir que as tendências interpretativas anteriores se mantiveram. Nas
três primeiras classes diz-se que os trechos selectos deviam ser extraídos
das obras-primas dos escritores portugueses que ilustraram a história
e a vertente épica da pátria, tendência que vem de 1895. Mas as noções
de história literária aparecem agora mais cedo, na quarta classe e a sua
articulação com a história prolonga-se na quinta classe: "Noções de historia
litteraria baseadas na leitura e ligadas com a historia nacional."
Nestas
duas classes (o segundo ciclo desta reforma), acaba por se ministrar a
história da literatura portuguesa. Na quinta classe, para além da mencionada
ligação à história, os alunos deveriam ficar com "Vistas de conjunto sobre
cada uma das epocas literarias, e demonstração á face dos textos." Aliás,
solicita-se que os trechos sejam sobretudo seleccionados a partir do século
XVI "e distribuídos de modo que o caracter de cada escritor e o espirito
geral de cada epoca ressaltem naturalmente da leitura e possam radicar-se
no espirito dos alumnos por meio das necessarias explicações do professor",
seguindo-se uma lista canónica de autores a estudar. No Curso Complementar
de Letras, a história da literatura portuguesa distribui-se, numa ordem
cronológica, pelas sexta (até ao século XVII) e sétima classes (desde
o século XVIII), com o objectivo de estudar a "historia das literaturas
antiga, medieval e moderna nas mais notaveis relações com a portuguesa".
Na sétima classe há uma aproximação à contemporaneidade, uma vez que se
deveria falar do "Estado actual e tendencias da moderna literatura." Em
suma, trata-se de um resumo de ideias que já vêm dos programas de 1872,
embora com uma especificação própria e em que se nota a crescente importância
do discurso da história literária.
Os programas seguintes mantêm esta estruturação cronológica e a comparação
com as histórias das literaturas estrangeiras. No entanto, os programas
de 1918 (47) reforçam a importância do Português e da
Literatura portuguesa no curso complementar, para a "formação moral e
intelectual do aluno" (48). Entre 1918 e 1930 não se
produziram alterações significativas no que toca aos conteúdos programáticos
e aos objectivos desta disciplina em relação ao Curso Complementar, apesar
de se terem efectuado algumas mudanças no plano de estudos (49).
Os programas de 1931 (8/10/1831) trazem algumas alterações de conteúdos,
mas não de objectivos. No entanto, é até então o mais detalhado em relação
aos cursos complementares, em que os programas de Língua e Literatura
Portuguesa eram muito sucintos. Aparece-nos agora a divisão da história
da literatura portuguesa em grandes épocas (medieval, clássica e romântica)
e a valorização do estudo das personalidades literárias, em particular
dos autores susceptíveis de serem estudados numa perspectiva nacionalista,
como D. Duarte, D. Pedro, Camões, Garrett e Herculano. É segundo essa
perspectiva biográfica e nacionalista que se estudam a biografia de Camões
e Os Lusíadas, com o seu "significado nacional", as biografias
resumidas de Garrett e Herculano (salientando o seu contacto com o estrangeiro).
Os programas de Literatura promulgados durante o Estado Novo (1931, 1934,
1935, 1936) permanecem praticamente idênticos de 1931 a 1936, não obstante
este último ser o que apresenta maior pendor nacionalista (e corporativista),
dando continuidade aos de 1895 e de 1918 (50).
Em 1936
o estudo da literatura divide-se entre o sexto e o sétimo anos e segue
a divisão em três grandes épocas, tendo em conta os elementos nacionais
e as influências estrangeiras: medieval (XII-XV), clássica (dividida em
três períodos) e romântica.
Apesar de à selecção dos autores e dos textos
presidir um critério histórico-moral, dando-se relevo à história nacional,
recomenda-se, nas Observações, que se dê importância ao critério estético,
de modo a fazer ver a "evolução da nossa arte literária, na expressão
e nas ideias", o valor dos autores e das obras, "a partir dos primeiros
rebates de consciência integral da nação, no século XV." Ao mesmo tempo,
porém, sublinha-se que nunca se pode perder de vista o intuito moral,
pelo que os textos com matérias que pudessem desenvolver nos alunos tendências
prejudiciais deveriam ser omitidos, ou "sofrerão os necessários cortes."
Em última instância, porém, os objectvos fundamentais da disciplina de
Português eram a aquisição da língua materna e, como se reiterará em 1948
e em 1954, "Promover a ilustração do espírito e também a educação cívica
dos alunos, por meio da exposição metódica da história da literatura portuguesa,
à luz de numerosos documentos que permitam acompanhar a evolução dos sentimentos,
das ideias e da arte, bem como da linguagem, numa síntese da vida mental
da Nação."
No sétimo ano notam-se duas inovações significativas que reforçam esta
vertente nacionalista. Por um lado, Gil Vicente é apresentado, em conjunto
com Camões, como intérprete privilegiado "de uma época da vida da Nação".
Por isso, deveriam ser conhecidos os seus textos mais representativos
da sua "acção nacionalista" e do "zelo apostólico". Quanto a Eça e a Antero,
se em 1934 se recomendavam leituras abundantes e largamente comentadas
de ambos ("objectivos e valor estético da sua obra."). Eça e Antero entram
pela primeira vez nos programas liceais em 1905. Em 1918 seleccionam-se
Cartas de Inglaterra, A Cidade e as Serras (parte descritiva)
e os Sonetos de Antero. Mas agora só se aconselha, nas Observações,
a leitura de Eça nas férias (A Cidade e as Serras e leituras
seleccionadas dos outros romances pelo professor), "de modo a que se evite
o escolho de abafar sob o interesse forte de mórbidas emoções a disposição
para a actividade crítica de análise". No que se refere a Antero, as leituras
são limitadas a alguns sonetos e o estudo do autor reduzido "a uma ideia,
embora imprecisa, da tormentosa vida mental do poeta e do significado
da sua arte."
Em termos da história literária propriamente dita, o programa de 1948
(51) (o de 1954 nada lhe altera) é o mais inovador desde
1872 e deixa-nos já não muito distantes de uma história da literatura
actual. No entanto, paradoxalmente, afirma-se que "as noções de história
literária estão excluídas deste programa", que devia servir para dar uma
ideia da formação e evolução das diversas correntes literárias e da feição
das personalidades mais definidas. Em relação à época clássica, confere
(no sexto ano) pela primeira vez grande importância ao misticismo de Frei
Agostinho da Cruz e aos estudos humanísticos (Heitor Pinto e Amador Arrais,
Samuel Usque, mística de Frei Tomé de Jesus, Clarimundo), e procura destrinçar
os elementos medievais e clássicos em Sá de Miranda, Gil Vicente e Camões
(no sétimo ano).
Relativamente ao segundo período da época clássica, introduz
o conceito periodológico de barroco (sem conotações pejorativas) no sétimo
ano, uma vez que no sexto ainda se faz referência ao "gongorismo" na lírica,
na mística e na prosa (cultismo e conceptismo). O barroco é mencionado
como um fenómeno generalizado na história da arte e enfatiza-se "O valor
estético e os resultados positivos do estilo afectado."
Quanto ao terceiro período, notam-se pela primeira vez nos programas oficiais
as noções de neoclassicismo ("reacção neoclássica") e pré-romantismo ("prenúncios
da renovação romântica") (52).
Em relação à época romântica, nota-se a desqualificação
de Castilho e dos seus "epígonos" (João de Lemos e Soares dos Passos),
que provocaram a "degenerescência do sentimento lírico". João de Deus
é enquadrado na fase de transição. No segundo momento romântico, para
além da "dissidência de Coimbra" e do naturalismo, o programa inclui o
Parnasianismo (Gonçalves Crespo e Cesário Verde), o Simbolismo (Eugénio
de Castro e António Nobre) e a literatura de agitação social, com Junqueiro
e Gomes Leal. Estes movimentos são enquadrados nas tendências da literatura
europeia da segunda metade do século XIX, com os seus interesses filosóficos,
científicos e sociais. Camilo e um certo Eça são "reabilitados", mas o
mesmo não se passa com Antero, Guerra Junqueiro e Gomes Leal. Se em 1948
o destaque vai para o "primeiro" e para o "último" Eça, que deixa de ser
"leitura de férias". Eça, afirma-se no programa, será a figura mais estudada
na parte final do programa. Quanto aos outros romances e escritos, o programa
recomenda uma cautelosa reserva: "trechos de outros romances sujeitos
a cuidadosa selecção, romance realista, o estilo das diversas fases da
sua evolução, marca pessoal, revolução da linguagem, valor da sua arte,
efeitos da sua influência e reconstituir a sua personalidade literária."
Antero continua a ser estudado através de alguns sonetos por se entender
que o seu drama teria pouca ressonância aos dezasseis anos de idade: "ansiedades
de um espírito sincero e nobre, rico de finas sensibilidades, enamorado
de ideias generosas de justiça e humanidade, inclinado todavia à mística
especulativa, e parecendo eternamente desesperado de encontrar o farol
que procurava para lhe iluminar as trevas que lhe barravam os caminhos."
A exploração sumária de Junqueiro e Gomes Leal deve-se a motivos óbvios,
recomendando-se que se faça referência à sua "arte cegamente apaixonada
ao serviço da agitação social, com valor controvertido". Por isso, mandam-se
ler só trechos de tonalidade lírica suave.
A dimensão ética continua assim a sobrepor-se à dimensão estética, mas
desta vez pela subvalorização da componente ideológica dos escritores
de forte capital simbólico e cultural, compensada pela sua apreciação
estética. O que não deixa de ser irónico, em particular porque na literatura
portuguesa oitocentista se torna evidente a falta de uma autonomização
do campo literário. Como sublinha F. Vieira Pimentel, "a nossa literatura
não chega nunca a tomar genuína consciência do facto de a obra artística
poder vir a constituir, ou ambicionar constituir, um domínio autónomo;
fica, pelo contrário, presa à concepção representativa que tende a fazer
da linguagem um instrumento tradutor de realidades pré-existentes." (1991:
61). Daí, segundo Vieira Pimentel, não possuirmos "obras críticas de fôlego
subordinadas ao intuito de fundamentar e explicar a produção artístico-literária
dos sucessivos períodos a partir de um foco caracterizadamente estético."
(ibid.). O que facilita, parece-nos, o trânsito do domínio estético
para o ético, e vice-versa.
NOTAS
(1)- Decreto de 14/9/1895 (Diário do Governo nº 208,
de 16/11).
(2)- Decreto de 3/11/1905 (Diário do Governo nº 250,
de 4/11).
(3)- Decreto de 26/9/1919 (Diário do Governo nº 196).
(4)- Decreto 5:002, de 27/11/1918 (Diário do Governo
nº 257-Iª Série, de 28/11). Nas instruções para o ensino das "Narrativas
históricas" afirma-se claramente que "Nesta secção o ensino histórico
é essencialmente moral e patriótico; nele se ministra ao aluno um conhecimento
integral da história pátria, decomposta nas suas principais individualidades
obreiras."
(5)- Decreto 12156, de 20/8/1926 (Diário do Governo nº
183-Iª Série).
(6)- A história era entendida, como sublinha Sérgio Campos
de Matos, como uma disciplina de formação moral e patriótica, através
dos grandes exemplos e das lições do passado (1990: 126). A história oficial,
sobretudo desde os anos trinta do século XX, adopta um discurso missionário
e transforma-se em história monumental (ibid.).
(7)- Portugal, no fim do século XIX, tinha-se transformado
e por isso era necessário dar uma organização diferente aos portugueses:
"O Ultimato, em 1890, foi o primeiro momento desse processo. Nunca, como
durante o Ultimato, houve tanta histeria acerca da necessidade de uma
'ideia colectiva', de organizar os Portugueses à volta da comunhão com
a Pátria e as coisas portuguesas." O Diário de Notícias era o jornal mais
lido. Foram "os escritores e a imprensa quem melhor formulara a ideia
da nação e fizera a sua propaganda." Desde 1880 nota-se essa nova instituição,
a manifestação patriótica; a arte de governar começou a requerer a existência
de uma nação (Ramos, 1994: 39).
(8)- Cf. Maria Teresa P. Coelho, 1997. Esta alteração
de perspectiva é visível em Francisco Adolfo Coelho ("Esboço de um programa
para o estudo antropológico, patológico e demográfico do povo português",
1890). Para este autor, os sintomas do mal português eram a falta de iniciativa,
o espírito de hesitação, a incapacidade progressiva para o trabalho, sobretudo
intelectual, a ambição, o predomínio do egoísmo sobre o espírito colectivo,
um espírito excessivo de imitação e a insânia moral frequente: "A causa
determinante principal afigura-se-nos estar na falta de educação capaz
de imprimir a todos os órgãos da vida o exercício que exige o seu desenvolvimento
normal, equilibrado." (apud R. de Carvalho, 1986: 657).
(9)- João de Barros advogava um método educativo de raiz
nacionalista, com base no amor à Pátria e à República ("A Educação Republicana",
1916). Em "A República e a Escola" (s/d) diz que moralmente os portugueses
do século XIX eram desvirilizados, sendo necessário republicanizar o país
e a escola. Em 15/10/1910, no Diário do Governo defendia-se (diploma do
Ministro da Guerra) a instrução militar preparatória a partir do ensino
primário e na comissão encarregada de estudar a sua concretização estava
João de Barros (cf. R. Carvalho, 1986: 653).
(10)- Numa análise dos programas e manuais do ensino
secundário para a disciplina de História entre 1895 a 1939, Sérgio Campos
de Matos observa que neste período "Os planos de estudos em que mais se
valorizam os propósitos nacionalistas são promulgados na sequência de
momentos de ameaça externa ou de crise, traumáticos para o país" e interroga-se:
"Não funcionará o reforço de um sentido de coesão nacional e de identificação
com o 'carácter da nação' como compensação para a vivência de uma certa
'desordem' (em diversos sentidos) e a enraizada obsessão decadentista
que então se exarcerbava entre a elite intelectual portuguesa ?" (1990:
38); "Ao exacerbamento do nacionalismo que detectámos nos programas dos
liceus de 1895, 1918 e 1936, não serão alheios os conflitos diplomáticos
ou militares em que, directa ou indirectamente, Portugal interveio (Ultimatum
inglês de 1890, I Guerra Mundial e Guerra Civil Espanhola)." (id.:
120; cf. 205, n. 748). Do mesmo modo, as Comemorações públicas, nos seus
vários ciclos, respondem a um idêntico propósito antidecadentista e nacionalista
(Catroga, in Torgal, Mendes, Catroga, 1996: 551). Cf. Catroga e Carvalho,
1996: 87-8.
(11)- O programa de 5/10/1872 (Diário do Governo nº 229,
10/10 e nº 230, de 11/10), de acordo com o plano de estudos publicado
no Decreto-lei de 23/9/1872 (Diário do Governo nº 217, de 26/9), assinado
por António Rodrigues Sampaio, foi regulamentado em 31/3/1873 (Diário
do Governo nº 77, de 5/4).
(12)- Publicados respectivamente no Diário do Governo
nº 240, de 20/10/1880, e no Diário do Governo nº 252, de 3/11/1888. (13)-
A ideia da criação de uma instituição de ensino superior para o estudo
das letras vem, segundo Teófilo Braga, de 1835 (Dias Pegado) e foi formulada
ao parlamento e à Academia das Ciências em 1857 por José Maria de Abreu
e Latino Coelho (1902: 196-8). D. Pedro V justificou esta reestruturação
das humanidades e a substituição da Poética e da Retórica em função das
pretensões existentes e da necessidade da reforma do estudo da história
e da literatura (id.: 200-1). Trata-se, como anota Teófilo de um reconhecimento
da importância social das "ciências humanas", valorizadas por Renan, em
L' Avenir de la Science, e por Comte, no Curso de Filosofia
Positiva (id.: 224).
(14)- Deve-se em grande parte à intenção de formar professores
a criação das disciplinas de Língua e literatura francesa e Línguas e
literaturas alemã e inglesa (separadas em 1921), para além da de "Filologia
românica em geral e filologia portuguesa em especial" (cf. Aguilar, 1939:
112).
(15)- Esta alternância verifica-se, por exemplo, nas
três reformas de Luciano de Castro (1880, 1886, 1888). No entanto, na
reforma de João Franco/Jaime Moniz (1894/5) volta-se ao modelo da segunda
reforma de Luciano de Castro, com a disciplina de "Língua e Literatura
Portuguesa", só que desta vez de forma continuada do primeiro ao sétimo
ano, o que se pode considerar o sistema mais coerente até então, dado
que antes apenas se ensinava o Latim nos anos intermédios. Em compensação,
o ensino do Latim passa a ser extensivo a todos os anos, o que se coadunava
com a orientação humanística desta reforma, que concedia a primazia ao
Latim e logo a seguir à língua e à literatura portuguesas. Na reforma
seguinte, de E. José Coelho (1905), mantém-se este sistema, com excepção
do Curso Complementar de Ciências. A reforma de Sidónio Paes/Alfredo Magalhães
(1918) volta a "Português e Literatura Portuguesa" no ensino complementar,
tanto de letras como de ciências. Em 1919, na reforma Sá Cardoso/Joaquim
José Oliveira, esta passa a designar-se simplesmente Português. Na reforma
de 1921 retoma-se a designação de "Língua e Literatura Portuguesa".
(16)- Nas observações aos programas de 1918 fazem-se
referências à necessidade de "familiarização com os grandes ideais de
ordem moral e estética dos autores latinos." Nos novos programas do curso
complementar de 1929 (14/11) reforça-se esta orientação, sublinhando-se
que somos latinos e que o nosso passado literário e artístico, como o
europeu, tem as suas raízes mais vigorosas em Roma, e por intermédio dela,
na Grécia. Aduz-se ainda que "o latim representa também a literatura cristã,
e o espírito cristão domina toda a civilização moderna, sendo Roma uma
escola de heroísmo e de patriotismo e um exemplo vivo de razão prática",
do homem universal. Nesta lógica, "o espírito nacional não pode, sem graves
perigos, quebrar a sua solidariedade com o passado." Nos programas de
1919 e 1926 destaca-se a articulação com as literaturas clássicas: "Noções
de literatura grega e romana, quanto baste para a compreensão das literaturas
modernas, especialmente na Renascença." (Decreto nº 6:132, Diário do Governo
nº 196-Iª série, 26/9/1919). "Ligeiras noções das literaturas grega e
latina, quanto baste para a compreensão das modernas." (Decreto nº 12:594,
de 2/11/1926).
(17)- Cf. Alain Choppin, 1992: 19-23.
(18)- Este propósito está bastante explícito nos programas
de 1948, que tendo em vista o papel desempenhado pelo romanesco, pelo
dramático e pelo colorido na idade juvenil, faz apelo ao recurso à narrativa
(reportagem), às biografias romanceadas e até ao romance histórico, referindo
textos concretos: romances de Herculano, A Vida de Nun' Álvares,
de Oliveira Martins, algumas páginas de El-Rei Junot, de Raul
Brandão, trechos de Eça sobre a morte de Disraeli e a inauguração do canal
do Suez. Em 1928, o Decreto nº 15:088 impõe a propaganda colonial portuguesa
nos livros de leitura escolar. Em relação às selectas, os programas de
1932 exigiam que os livros de leitura focassem o império colonial, preocupação
confessada em 1905, quando o legislador critica a reforma de 1895 porque
"a nossa especial situação de país colonial não nos parece haver sido
sufficientemente ponderada". Em 1936, esta recomendação acentua-se e as
colectâneas são colocadas ao serviço da grandeza imperial de Portugal,
devendo integrar aspectos coloniais e sentimentos nacionais, para "dar
continuidade ao ensino elementar da corografia e da história nacionais",
fornecendo pretexto para reflexão moral e cívica "pela evidência dos melhores
aspectos culturais da nossa civilização." Os textos literários de onde
os excertos proviriam eram os "de matéria real e essencialmente moral,
com acentuado predomínio dos assuntos portugueses."
(19)- Joaquim Carreira de Mello, nas suas Lições
Portuguezas de Litteratura e de Moral, enfatiza esse papel formativo:
"É certo que todos os livros, maximamente como este, pela sua especial
applicação, devem ter um fim moral; nós teremos bastante cuidado na escolha
dos trechos, que entrem na sua composição. A poesia, que não nos trouxer
reflexões moraes, não será a da nossa escolha, e procuraremos, quanto
possivel seja, aproveitar aquella, que nos estabelecer argumentos sensiveis,
as verdades da Religião, e contemplações da existencia de Deus." (1861:
VI-VII). A. C. Borges de Figueiredo, nos Logares Selectos dos Classicos
Portuguezes, uma das antologias de maior êxito editorial ao longo
do século XIX, salientava na décima quarta edição que recorreu aos trechos
dos clássicos e modernos "que por mais accommodados tive á cultura, assim
intelectual e moral como civil e politica, dos mancebos." (1876: VI).
Por sua vez, Luiz Filippe Leite e Bernardo de Sá, no prólogo da Selecta
Portugueza, declaram que à sua elaboração presidiu o pensamento "de
que se deveriam evitar cuidadosamente as fantasias poeticas improprias
da idade em que os alumnos frequentam estas aulas." (1888: VII).
(20)- Diário do Governo nº 208, de 16/9/1895.
(21)- Esta redacção mantém-se praticamente idêntica em
1905, 1918, 1919, 1926 e 1936.
(22)- Em 1895 e em 1905 recomenda-se a leitura de metade
da epopeia na quarta classe e da outra metade na quinta classe, com exclusão
do Canto IX, esquema que se manterá em 1919, 1926, 1934 e 1935. No programa
de 1918, o estudo d' Os Lusíadas alarga-se a três anos: na terceira
classe estudam-se as primeiras 18 estrofes do Canto I, e os Cantos III
e IV; na quarta classe estuda-se o resto do Canto I e os Cantos II, V
e VI; na quinta classe os Cantos VII, VIII e X. Recomenda-se ainda ao
professor que seleccione as passagens mais belas e apropriadas e que na
segunda classe se estudem "lendas e mitos que possam contribuir para a
compreensão das alusões que se lhes façam nos cantos de Os Lusíadas
a estudar na classe III". Esta prática das omissões complementa-se a pouco
e pouco com a defesa de cortes explícitos. Se nos programas de 1931 se
justificam os cortes a "todos os textos que contenham matéria que possa
desenvolver prematuramente nos alunos tendências impróprias das suas idades",
os programas de 1934 e 1935 generalizam a norma a "todos os textos que
contenham matéria que possa desenvolver nos alunos tendências prejudiciais",
o que se repete nas observações ao programa de Literatura Portuguesa de
1936, não obstante a ressalva de que a prioridade devia ser dada à dimensão
estética, desde que compaginável com os interesses sociais e morais da
adolescência: "Para as leituras em casa serão aconselhados livros que,
pela sua ideologia, não colidam com os princípios cristãos que devem orientar
a educação da mocidade." As observações ao programa de 1948 apenas especificam
que se devem evitar textos passíveis de "provocar emoções mórbidas ou
prejudicar (...) a boa formação moral". No entanto, não deixam de ser
importantes as recomendações para não se abusar da prática de ultilizar
os textos literários para efectuar exercícios gramaticais. Contudo, no
primeiro ciclo (de dois anos), o ensino do Português (mediante textos
literários) continua a ter a missão de despertar sentimentos elevados
de civismo e de amor à Pátria, educando a inteligência dos alunos e ensinando
a língua, contribuindo para uma "recta formação da sua personalidade de
homem e de português."
(23)- Adolfo Coelho, no prefácio da sua antologia Leituras
portuguesas, destinado à terceira classe dos liceus, destaca a articulação
preconizada pela reforma de 1895 entre os programas de Geografia (Europa
e África), História (Grécia e Roma) e de "Português", e que foi por isso
que seleccionou trechos relativos aos descobrimentos e à geografia e etnologia
de África, por serem os descobrimentos "o ponto culminante da nossa historia",
renovados com os modernos exploradores de África, que "fizeram renascer
tradições gloriosas" (1897: VI-VII).
(24)- A reforma de Sidónio Paes/Alfredo Magalhães (1918)
coloca no primeiro e segundo anos a disciplina de "Narrativas Históricas".
A reforma de Sá Cardoso/Joaquim José Oliveira (1919) só altera o nome
daquela disciplina para "Português e História". Por sua vez, na reforma
de Barros Queiroz/Ginestal Machado (1921) volta-se à designação de 1918
(Narrativas Históricas). Curiosamente, desde 1926, os temas da história
de Portugal passam a integrar-se nos dois primeiros anos da disciplina
de Português, com a prescrição da leitura de "lendas e narrativas relacionadas
com a história da nacionalidade: exemplos de virtudes cívicas e domésticas
tiradas da história pátria". Em 1936 afirma-se mesmo que "A disciplina
de português visará sempre, além do estudo da língua, o conhecimento da
história pátria, em forma de narrativas", o que aparece repetido no plano
de estudos de 14/10/48 (artº 6º, § 1º) e nos programas do Ciclo Preparatório,
aquando da sua criação (Portaria nº 23 601, de 9/9/68). No preâmbulo da
reforma de 1948 (Decreto-lei nº 36 807, de 17/9/47), ao defender-se o
regime de classe para o curso geral (os cinco primeiros anos), enfatiza-se
a vantagem do ensino simultâneo de certas disciplinas, "pelas relações
de umas com outras, como sucede por exemplo com (...) a Literatura e a
História". Aliás, em 1954 a disciplina de Português tem a designação de
Língua e história pátria.
(25)- É o que se passa nas reformas de 1926, 1929, 1930,
1935 e 1936. Com efeito, se todos estes programas recomendam, como referimos,
a leitura de textos histórico-patrióticos, é o de 14/10/1936 que mais
explicitamente insiste na formação moral e patriótica-colonial dos alunos,
pelo que a disciplina de Português nos três primeiros anos incide nas
narrativas históricas: "Leitura de trechos simples em prosa e verso: pequenas
descrições das paisagens de Portugal (continental, insular e ultramarino);
pequenas descrições de usos, costumes, instituições e monumentos nacionais;
contos e poesias populares; lendas e narrativas ligadas com a história
da nacionalidade; exemplos e virtudes cívicas e domésticas tiradas da
história pátria; narrativas, contos e fábulas que possam contribuir para
a educação moral dos alunos; poesia narrativa e lírica."
(26)- Estas expressões aparecem no Preâmbulo e nas Observações
relativas às primeira e segunda classes (28/11/1918).
(27)- Decreto nº 4650, de 14/7/1918. O regulamento foi
publicado em 8 de Setembro (Decreto nº 4:799, Diário do Governo nº 198,
de 12/9/1918) e os programas foram publicitados em 28 de Novembro (Decreto
nº 5002, Diário do Governo nº 257, Iª série, de 28/11/1918).
(28)- Portaria de 21/1/1918.
(29)- Em estas ideias integram-se no que Vilaverde Cabral
designou a "ideologia portuguesa": "desde o início da década de 1870 até
meados de 1920, a elite intelectual portuguesa se foi tornando portadora
de uma ideologia cada vez mais coerentemente nacional e autoritária. A
tese da decadência nacional, sem ser exclusiva a Portugal, desempenhou
entre nós o papel de irresistível trampolim do nacionalismo para o autoritarismo"
(Cabral, 1987: 19).
(30)- Decreto 5:002, de 27/11/1918 (Diário do Governo
nº 257-Iª Série, de 28/11). A tarefa de fortalecer o patriotismo é sobretudo
atribuída a Língua Portuguesa e Narrativas Históricas, cujo programa consta,
entre outras coisas, de "biografias de guerreiros, navegadores, conquistadores,
exploradores, revolucionários, mártires e santos" que tenham sido "figuras
de psicologia relativamente simples" e que "ostentem uma bem visível unidade
de ideal" (inclui Gomes Freire de Andrade, D. Pedro IV, o Marechal Saldanha,
José Estêvão, Sá da Bandeira e o Duque da Terceira). Estas biografias
contribuíam, segundo o legislador, para que se "exalte o culto do heroísmo,
nas suas diversas formas" (sobretudo a obediência a um fito superior),
para se incutir aos educandos "a concepção combativa da vida" - "fanático
amor da pátria". Declara ainda que o ensino desta disciplina deve ser
"essencialmente (...) patriótico", o mesmo devendo suceder quando (a partir
do terceiro ano) as disciplinas de Português e de História se leccionam
separadamente. Mas o estudo do "ser português" é extensivo às restantes
disciplinas do ensino secundário, em articulação com o estudo do meio
físico, social e cultural do País. Na segunda classe estudam-se "Figuras,
com igual poder de sugestão educativa, mas de mais complicado carácter,
e vida menos predominantemente activa e mais intelectual, estadistas,
administradores, diplomatas, escritores e artistas" (v.g. Damião de Góis,
João de Barros, Gil Vicente, Camões, Padre António Vieira, D. Francisco
Manuel de Melo, Frei Luís de Sousa, Frei Manuel do Cenáculo, o segundo
duque de Lafões, Mousinho da Silveira, Garrett, Herculano, Castilho, Soares
dos Reis, D. Pedro V, Antero, Oliveira Martins e Eça). Recomenda-se ainda
que se forneçam informações sobre as respectivas épocas, sobre feitos
de armas e outros episódios célebres.
(31)- Rui Ramos põe em relevo o facto de que a orientação
patriótica do ensino ter sido estabelecida em particular pelos republicanos,
que acreditavam que se se pudesse educar todas as crianças Portugal acabaria
por ser uma república feliz. A instrução primária era a religião da república.
Em 1913 cria-se o ministério da Instrução Pública. Em "A Escola e a República"
(1913), João de Barros definiu a educação republicana como uma escola
patriótica, um curso de cidadãos (Ramos, 1994: 420): "A educação republicana
significava, assim, um sistema de mobilização e de propaganda em benefício
do Estado republicano. Por isso, a República pôs um ponto final à liberdade
de ensino em Portugal." (id.: 421). Por outro lado, é preciso ter em conta,
como nota L. Reis Torgal, que as observações aos programas revelam uma
concepção epistemológica positivista, o que se explica porque as correntes
"republicanas" tiveram uma forte influência comtiana, do mesmo modo que
os integralistas, pela via maurrasiana, e estas linhas encontraram-se
com outras correntes no Estado Novo, num complexo discurso epistemológico
(in Torgal, Mendes e Catroga, 1996: 442).
(32)- Em 1905 afirmava-se que o programa de Português
e História devia desenvolver "na alma dos alunos o respeito e o culto
da pátria", e nas classes seguintes devia focar o evolucionismo e a ideia
de "progresso humano". Em 1919 (26/9) atribuía-se à primeira classe a
"Exposição elementar dos principais acontecimentos da nossa história e
bem assim noticia dos grandes homens que neles intervieram, contribuindo
para o engrandecimento de Portugal. Lendas e episódios característicos
que mais se prestam a gerar no espírito dos alunos o amor pátrio e o orgulho
da raça. Leituras históricas." Na segunda clase preconiza-se a "Continuação
da história pátria com a mesma orientação da classe anterior. Explicação
rudimentar das transformações capitais da nossa sociedade, acentuando
a acção do povo através dos seus grandes homens." Em 1926 (2/11) acrescenta-se
que "O conhecimento, ainda que fragmentário, da nossa terra e da nossa
história, deve ser ministrado através da leitura, por forma a gerar no
espírito dos alunos o amor pátrio e o orgulho de ser português." Atribui
ainda um carácter primacial ao Português para "o conhecimento da nossa
língua, do nosso povo, da nossa Pátria". Do mesmo modo, no programa de
1931 declara-se que esta disciplina deve fomentar o sentimento nacional
e a formação moral, para desenvolver nos alunos o amor pátrio e o orgulho
de ser português. Em 1936 volta a salientar-se que "O professor não deverá
esquecer que a aula de português é uma das aulas do liceu em que melhor
se pode desenvolver o sentimento nacional e a formação moral do aluno";
"O conhecimento da nossa terra e da nossa civilização (o continente, as
ilhas e as colónias) deve ser ministrado sobretudo através da leitura,
por forma a gerar no espírito dos alunos o amor pátrio e o orgulho de
ser português.". Nas Observações realça-se que os textos devem ser usados
para aprender a língua e ao mesmo tempo para dar o "conhecimento da terra
portuguesa e dar notícia dos acontecimentos históricos que nos seus vários
recantos se efectuaram."
(33)- Com efeito, o programa de "Narrativas Históricas"
já estava contido in nuce nalguns tópicos do programa dos três
primeiros anos de 1895 e de 1905: "noticias de homens notaveis", "biografias
de portugueses ilustres". O programa de 1905 é parecido com o de 1895,
mas inicia mais cedo a aprendizagem de noções de história literária (na
quarta classe) e prolonga a sua articulação com a história até à quinta
classe: "Noções de historia litteraria baseadas na leitura e ligadas com
a historia nacional." Uma das novidades do programa de 1918 é o facto
de recomendar para o primeiro ano as biografias dos heróis militares e
de reservar para o segundo as biografias dos heróis de carácter cívico
e intelectual. No capítulo XIII do Regulamento ("Da educação cívica")
diz-se que a educação cívica "deve ser dada pelos professores durante
o ensino das disciplinas que para tal ofereçam ensejo, e nomeadamente
das de português e de história", complementando-se essa orientação com
palestras, associações, culto do hino e da bandeira nacionais, comemoração
de datas históricas nacionais e dos homens notáveis de Portugal, visitas
a monumentos nacionais, etc.
(34)- Decreto nº 16:362, de 14/1/1929 (Diário do Governo
nº 11, Iª série, de 15/1). (35)- Esta ideia, que vem de trás, é expressa
de modo explícito na reforma de 1947 (Decreto-Lei nº 36 807, de 17/9/47),
vocacionando as humanidades para formar esse escol: "Convirá rever o velho
conceito das humanidades, em face das realidades do homem social moderno.
Para uma educação integral dos espíritos que devem constituir um escol
não podem desprezar-se as humanidades clássicas." Porém, continua, para
os alunos em geral, vocacionados para o trabalho, essa preparação é dispensável.
(36)- A reforma de Ricardo Jorge (2/10/1926) reduz o
curso complementar a um ano e os respectivos programas (Decreto de 2/11/1926)
atribuem carácter primacial ao Português na medida em que proporciona
"o conhecimento da nossa língua, do nosso povo, da nossa Pátria". Em posterior
reforma de 1930 (Decreto nº 18:779, Diário do Governo nº 197, Iª série,
de 26/8/1930) afirma-se no preâmbulo que "o liceu não cura suficientemente
da instrução moral dos seus alunos e faz silêncio no que respeita à instrução
cívica", atribuindo por isso às duas primeiras classes uma hora para a
instrução moral e cívica, disciplina que surge pela primeira vez e que
visa dar o conhecimento da vida de grandes personalidades nacionais (heroísmo
moral e activo) e estrangeiras (cientistas), para incutir "o amor ao ideal
e aos sacrifícios", e valores como o dever, etc. Para além da redução
das disciplinas, "Restabelece-se o equilíbrio entre o ensino das sciências
e o das humanidades, que tam poderosamente contribuem para a formação
do espírito, e melhoram-se as condições do ensino da nossa língua."
(37)- É na parte das "Letras" que, "Sem descurar a parte
informativa do ensino secundário, deve o professor atender predominantemente
à parte formativa: esta é mais importante que a primeira, não podendo
no emtanto dispensá-la." A história, considerada "mestra da vida", como
diz o relator, deve contribuir, com o Português, para a "educação intelectual
e a formação moral dos alunos": "poderá e deverá ser uma escola de verdade,
de tolerância e de patriotismo. No ensino do português e da história,
como aliás no das outras disciplinas dizia o relator da comissão de revisão
do ensino secundário masculino de 1918 é preciso não esquecer que o ensino
deve ter uma feição acentuadamente nacional, deve ter um cunho profundamente
patriótico; é o ensino secundário que mais que nenhum outro pode e deve
dar coesão e grandeza, e portanto solidez e elevação, à alma nacional."
(38)- Decreto-Lei nº 27 084, de 14/10/1936.
(39)- Sérgio Campos de Matos sublinha que os conhecimentos
destas disciplinas são considerados socialmente úteis, indispensáveis
à reprodução cultural e social de um conjunto de valores e à disseminação
do capital cultural, através de um discurso pedagógico normativo que visa
construir efeitos de sentido e de "verdade" (1990: 24). Há que ter em
conta que esta dogmatização se estabelece num processo gradativo de 1926
a 1958, com três fases distintas (cf. Matos, 1980: 339).
(40)- Decreto-Lei nº 37 112, de 22/10/1948.
(41)- A primeira reforma de Luciano de Castro, em 1880,
ramifica o Curso Complementar (quinto e sexto e anos) em Letras e Ciências
(para os liceus nacionais centrais), que têm em comum a Literatura Nacional
nos dois anos (Iª e IIª parte) e com a mesma carga horária.
(42)- Diário do Governo nº 242, de 22/10/1880.
(43)- Na escola clássico-francesa menciona-se a influência
das Arcádias e das Academias. Em 1872 só aparece Garrett na escola romântica,
mas em 1880 acrescentam-se Herculano, A. F. de Castilho e Soares dos Passos.
Mencionam-se ainda as causas e efeitos do romantismo em Portugal e as
novelas, ficções e tradições populares. A Eloquência divide-se agora em
discurso sagrado e profano e recomenda-se uma resenha dos oradores quinhentistas,
"gongóricos", do período arcádico e dos oradores parlamentares. Na Historiografia
acrescenta as universidades, academias e sociedades literárias portuguesas,
e divide a historiografia em duas fases: "Chronistas e historiadores do
reino e das conquistas nas differentes epochas da historia litteraria
portugueza."
(44)- José Luciano de Castro, na sua terceira e última
reforma (20/10/1888), não altera de modo significativo este programa (Diário
do Governo nº 252, de 3/11/1888), suprimindo alguns pontos (v.g. tira
noções de literatura oriental e muda relações com as outras literaturas
para influência da literatura espanhola, italiana e francesa sobre a literatura
nacional). Esta reforma reduziu o número de disciplinas de cada ano para
duas, separando os cursos de letras e de ciências do terceiro ao sexto
ano, ficando a Literatura Portuguesa no sexto ano de ambos os ramos, com
dez aulas semanais, pelo que a redução a um ano não implicou, pelo contrário,
uma diminuição da carga horária.
(45)- Para os sexto e sétimo anos as Observações recomendam
o estudo de trechos das diversas épocas da língua, a partir dos cancioneiros
dos séx. XIII e XIV, sendo a literatura medieval representada por uma
breve selecção de textos.
(46)- Diário do Governo nº 250, de 4/11/1905. A reforma
de 28/8/1905 (Diário do Governo nº 194, de 30/8/1905), de Eduardo José
Coelho, justifica-se com a necessidade de introduzir aperfeiçoamentos
em relação à reforma de 1894/95, pondo a tónica no papel educativo do
ensino liceal, na sequência da reforma anterior: "Não basta que o lyceu
ensine, é preciso que eduque". Na prática, mantém as disciplinas da reforma
anterior, mas reduz as horas semanais de cada disciplina e o peso do Latim,
neste caso em função da "necessidade da vida moderna" de aprender as línguas
vivas, até porque na reforma anterior, diz o legislador, "a nossa especial
situação de país colonial não nos parece haver sido sufficientemente ponderada".
No entanto, volta a restabelecer a ramificação entre letras e ciências
no complementar, eliminando o Português no curso complementar de ciências.
(47)- Diário do Governo nº 257-Iª série, 28/11/1918.
(48)- Em 1926 enfatiza-se este propósito: "nesta, como
em nenhuma outra disciplina, deve haver, além do propósito da transmissão
do saber, o da formação moral e intelectual do aluno."
(49)- Assim, por exemplo, o programa de 1926 destina-se,
num só ano, à preparação para a Instrução Superior do Curso de Letras,
tratando-se, no fundo, do reconhecimento de uma função que já existia
de facto (Diário do Governo nº 245-Iª série, de 2/11/1926). Em 1927, os
Cursos Complementares voltam a ter dois anos (Decreto nº 13.056, Diário
do Governo nº 18, 22/1/1927). Os programas de 1929 esclarecem ainda que
o estudo das literaturas modernas "não pode nem deve ser muito profundo",
sendo "mais ou menos subsidiário do estudo da literatura portuguesa",
levando os alunos "pouco a pouco a compreender a beleza literária, a respeitar
os valores espirituais e também a entrever a evolução dos diferentes géneros."
(Decreto nº 16:362, Diário do Governo nº 11-Iª série,14/1/1929) Os programas
de 1930 não trazem nada de novo (Decreto nº 18:885, Diário do Governo
nº 225, Iª série, 27/9/1930).
(50)- Em 1948 preconiza-se uma educação estética mais
precoce, desde o terceiro ano: "Leitura e estudo de trechos em prosa e
verso, de obras literárias portuguesas dos séculos XIX e XX, acessíveis
à inteligência dos alunos, visando despertar o gosto literário e artístico,
o interesse científico e contribuindo para uma sólida e recta formação
moral." Em 1954, essa educação estética inicia-se logo nos dois primeiros
anos: "Recitação de breves poesias. Observação de particularidades estéticas
rudimentares, só na medida em que possam contribuir efectivamente para
a educação da sensibilidade." Em relação ao curso complementar, recomenda-se
o confronto de textos de épocas, estilos ou de personalidades diferentes
e o contacto com os textos e seus valores artísticos.
(51)- Esta remodelação de programas deveu-se à aprovação
de um novo Estatuto do Ensino Liceal (Decreto-Lei nº 36: 507, de 17/9/1947),
que procurava simplificar o curso geral (de cinco anos).
(52)- Daí a importância que a análise teórica ganha.
No sexto ano mandam-se ler trechos de O Verdadeiro Método de Estudar,
Cartas do Cavaleiro de Oliveira e as epístolas de Correia Garção.
Recomenda-se ainda a análise crítica do espírito reformista do século
XVIII e a leitura de textos de Francisco José Freire, D. Francisco Alexandre
Lobo e do Cardeal Saraiva. Para o sétimo ano, para além de A Marília
de Dirceu, surgem as composições dos poetas do "grupo brasileiro", o movimento
intelectual da segunda metade do século XVII e os trabalhos históricos
e filológicos das novas academias.
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