Artistas CongreGagos e Pedro Meneses © 2005
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Sinceridade ou Falta Dela.
Dois Textos Trovadorescos, Pessoa, Velvet Underground e Cowboy
Junkies
por Pedro Meneses (aluno do 2º Ano da Licenciatura em Estudos Portugueses da Universidade do Minho)
I.
Os quatros textos em análise
reflectem sobre a condição do trovador ou do artista perante o mundo (social)
e reflectem-no aos olhos do artista ou trovador. Tanto na lírica galego-portuguesa
como nas duas versões de Sweet Jane existe um propósito a cumprir,
que só ao criador incumbe, pela capacidade que tem em analisar o mundo que o
rodeia. O trovador e o artista têm o objectivo de desocultar, desvendar, descobrir
a realidade, através de uma “visão profunda”, segundo a expressão de Jorge de Sena
(Sena, 1968: 9).
II.
A expressão de sentimentos (fictícios, como se verá) está ao serviço
desse ideal gnoseológico. O trovador quando elabora uma cantiga aprende
e estrutura o comportamento dos membros da sociedade a que pertence. A
expressão de sentimentos não é o fim a que o trovador tende, como os românticos
o conceberam, é o meio para a aceitação da sua condição social. O trovador
quando escreve manifesta que está inserido na sociedade, que aceita o
papel que tem a desempenhar, como se refere numa expressão de Sweet
Jane (tanto dos Velvet Underground como dos Cowboy Junkies):
“and anyone who ever played a part”. Estamos longe da expressão individual
dos sentimentos. A cantiga de Fernam Rodrigues de Calheiros Ora faz
a mim mia senhor é absolutamente simbólica. Quando o trovador compara
a sua situação à de um vassalo, “Como senhor pode fazer a vassalo”, o
que quer dizer é que há mulheres que não consegue ter, dada a sua condição
social. O panegírico que na primeira cobla o trovador faz à senhor é uma
tese (afirmação) fictícia criada para aprender. Uma cantiga segue uma
dialéctica. Ou seja, também aqui o poeta é um fingidor, ainda que os seus
fins não sejam estéticos. Este verso de Pessoa da Autopsicografia
denota um processo poético que consiste em fingir dor, em fabricar sentimentos,
porque se se verificar etimologicamente a palavra poeta descobre-se que
provém do grego poietés, que significa operário. Neste poema,
“ […] a denotação é a última (ou a primeira) das conotações” (Diogo e
Monteiro, 1995: 60). O trovador é, então, um operário forçado a sê-lo.
Sentir ficticiamente é o seu papel, é uma manifestação simbólica da sua
real condição, ainda que não concorde com ela; ao mesmo tempo que reproduz
simbolicamente “ […] a terra e poder perdidos” (Diogo, 1998: XXXII). Cantando-se
a mulher, a perda é cantada. O texto substitui esse bem que não se pode
alcançar. Então, o texto é o “ […] ganho correspondente em capital simbólico”
(idem: XXXII). O texto é moralizante e pedagógico: cantar a perda permite
superá-la, mantendo coesa a classe nobre. Continuando no poema Ora
faz a mim mia senhor de Fernam Rodrigues de Calheiros, verificamos
que o trovador não vê correspondido o seu amor pela senhor: “E averei
coit'a sentir”. Desamparado, fica sujeito ao Amor: “ Ei dereit' e em me
temer/D'Amor […] ”. Segundo Tavani (2002: 168): “ […] Amor e Deus podem
mesmo ser considerados o braço punitivo da senhor, que se vale da activa
colaboração de um e da supina (e até um tanto maliciosa) aquiescência
do outro”. É natural, porque Deus o quis, a coita do trovador: “Nostro
Senhor mi o sabe bem”. É o preço a pagar pela sua ousadia, por se deixar
amar. A segunda cobla revela que o trovador exerce auto-coacção: “Ca eu
o mereci mui bem”. O desprezo da senhor é merecido porque ao trovador
não é legítimo sentir (sinceramente). O que se veicula é um estoicismo
rígido ao serviço da ordem social. Inventa-se um sentimento para que se
assimile os princípios júridico-políticos que comandam a acção do trovador.
Negar ousar, aceitar a ordem bio-política da comunidade: este é o seu
papel. Toda a transgressão é punida. Os trovadores são os filhos bastardos
e os segundos filhos dos nobres que, no regímen patriarcal, não possuíam
capital. Para além da aquisição de capital simbólico o trovador transforma
“ […] o capital da classe em capital simbólico, isto é: legítimo - isto
é: reconhecido como natural e desconhecido como capital” (Diogo, idem: XLIII).
No final da cantiga, sente-se o trovador numa encruzilhada: depois de
sujeito à senhor e ao Amor, bastante oprimido por ambos, comparando a
sua situação à morte: “U me nom jaz se morte nom”.
No texto Sweet Jane dos Velvet Underground também se
pretende veicular um ideal de sociedade, que, porém, assenta numa doutrina
epicurista: “ […] life is just to die”. Existe uma apropriação de um axioma
de Mark Twain que atribuía uma qualidade peculiar aos homens, inexistente
nos outros animais: corar. Ironicamente, despreza-se o homem que se perspectiva
na maioridade, sem nada a aprender. Os Velvet Underground apelam
para a quebra dos hábitos quotidianos, para a superação de uma espécie
de Kitsch kunderiano. Pretende-se redefinir o papel existencial
do homem. Tal como os trovadores, os Velvet Underground têm a
“visão profunda”, ao negarem o papel que a sociedade lhes atribui e que
muitos hipocritamente aceitam: “Oh wouldn't turn around and hate it!”.
Há um papel que se torna estandardizado e que o artista não aceita. O
artista tem um papel diferente do papel do Jack e da Jane: “ […] I'm in
a rock'n'roll band Hah!”. Porém, apesar de se distanciar um pouco, no
início da canção, daquele modo de vida, a entidade que assume a voz do
texto reconhece que “ […] everyone who ever had a heart” não deixará de
o cumprir, de o negar. Há uma aceitação de um papel, legítimo ou não,
com o qual se concorda ou não, mas que se adopta e se vive e que, por
se consubstanciar com a existência, parece inviabilizar a sua negação: “Oh wouldn't
turn around and break it”. Deste modo, também os trovadores têm de aceitar
a sua condição e vivê-la. Por isso escrevem. Ainda que os sentimentos
manifestados não sejam sinceros, a escrita é. Se o é, há acordo entre
o trovador e o papel a desempenhar.
A tenção de Pero Velho de Taveirós e de seu irmão, Vi eu donas em
celado, é um meta-texto, reflecte sobre o que é trovar, sobre a identidade
do trovador. Na primeira cobla descreve-se o momento em que o trovador
vê as donas que, na razo, eram donzelas. A razo tem
uma feição empírica, explica o que, naquele preciso momento em que vislumbrou
as moças, o trovador sentiu e pensou (ou só sentiu). Descreve, no fundo,
a impressão que apreendeu. A cantiga clarifica o que de errado a impressão
suscitou. As meninas afinal eram donas, senhoras comprometidas, causa
das “empuxadas”. Ver mal tem destas coisas. A escrita desta cantiga manifesta
que se aprendeu alguma coisa com a incontinência dos instintos: “Assi
me am lá castigado”. O seu excesso (a entrada de sospeita) transforma-se
em fin'amors: “Pero volas nom direi”; o trovador, subitamente escrupuloso,
escusa-se a descrever as donas. A segunda cobla reflecte sobre a missão
do trovador. Este deve conhecer a senhor através da linguagem do trovar:
“ […] este objecto, que se designa por senhor, e com que o trovador
contactaria na perspectiva de uma solidariedade de classe, é um nome de
que teria a exclusiva posse graças a essa solidariedade de classe que,
afinal, mais não concede do que o usufruto do nome.” (idem: XLIV).
Paai Soares, que dialoga com Pero Velho de Taveirós, seu irmão, alerta-o
para a sua falha: “Nom fostes conhecedor, /Quando as depar[ti]stes”. Então,
o trovador não conhece pela experiência mas na e pela linguagem, tornando
o amor - que diz sentir, “ando namorado”, - de papel, fictício. A descrição
das donas, por conseguinte, não irá longe: “eram-nas melhores”, “brancas
eram como flores”, “bõas sen[h]ores”. É impossível moldar um ser que se
desconhece. Por outro lado, o código trovadoresco impedia que a senhor
fosse descrita. Paai Soares, na última cobla, descreve o Amor como uma
doença que afecta os sentidos: “fali[u]-vos i o viso”. O Amor entra pelos
olhos obnubilando a faculdade estimativa.São evocados argumentos que sensibilizam
o espírito do trovador ao fin'amors.
Os trovadores, os Velvet Underground e os Cowboy Junkies
têm o dom da literacia, conseguem vislumbrar o que o comum mortal não
enxerga, o que é difícil departir. Há maneiras que se aprendem
nas cantigas e que outros aprendem pelas cantigas e outros ainda nelas
vêem simbolizado o seu poder (as linhagens): “esses textos são
saber-fazer, esses textos dão à comunidade um passado, esses textos estruturam
os comportamentos dos membros e provêem solidariedade contra o exterior”
(idem: XLII). Expressam a ordem e são modelos
“[…] fora dos quais nenhuma experiência pode potencialmente interpretar-se;
tornam-se filtros conceptuais, gramáticas do mundo mental e externo,
dotados do potencial de criar um modo de vida metódico (no caso, dominado
pela mesura), baseado em postulados éticos consistentes (como
é o caso da fin'amors) […] (idem: XLII).
A lírica trovadoresca concede princípios à sociedade nobre para que esta
se regule sem sobressaltos, exercendo um controlo implícito (ou explícito),
mental principalmente, sobre os elementos da ordo juvenes.
OS TEXTOS
Texto 1
Ora faz a mim mia senhor
Como senhor pode fazer
A vassalo que defender
Nom se pode, nem á u lh' ir,
E faz-mi a mercee viir
D' Amor, com'
ome preso vem.
Nostro Senhor mi o sabe bem.
Muit' [em estar] a gram pavor
Ei dereit' e em me temer
D' Amor, on[de] cuid' a dizer
Mal, e onde quero partir,
E averei coita a sentir.
E nom concerto nulha rem,
Ca eu o mereci mui bem
Se
me mal ou coita veer
Com guisado eu mi o busquei
Muit' end[e] e mi o lazerei.
Mais mia senhor faz seu prazer,
Pois mi tem em seu poder,
Que [me] faz entrar
em prisom
U me nom jaz se morte nom.
(Fernam Rodrigues de Calheiros, B 58, Michaëlis,
Ajuda)
Texto 2
Standing on the corner,suitcase in my hand
Jack is in his corset,
and Jane is her vest,
And me I'm in a rock'n'roll band Hah!
Ridin' in a Stutz
Bear Cat, Jim You know, those were different times!
Oh, all the poets they studied
rules of verse
And those ladies, they rolled their eyes
Sweet Jane! Whoa! Sweet
Jane, oh-oh-a! Sweet Jane!
I'll tell you something
Jack, he is a banker
And
Jane, she is a clerkbr>
Both of them save their monies, ha
And when, when they
come home from work
Oh, Sittin' down by the fire, oh!
The radio does play The
classical music there, Jim
"The March of the Wooden Soldiers"
All you protest
kids
You can hear Jack say, get ready, ah
Sweet Jane! Come on baby! Sweet Jane!
Oh-oh-a! Sweet Jane!
Some people, they like to go out dancing
And other peoples,
they have to work,
Just watch me now!
And there's even some evil mothers
Well
they're gonna tell you that everything is just dirt
Y'know that, women, never
really faint
And that villains always blink their eyes, woo!
And that, y'know,
children are the only ones who blush!
And that, life is just to die!
And, everyone
who ever had a heart
They wouldn't turn around and break it
And anyone who ever
played a part
Oh wouldn't turn around and hate it!
Sweet Jane! Whoa-oh-oh! Sweet
Jane! Sweet Jane!
Heavenly wine and roses
Seems to whisper to her when he smiles
Heavenly wine and roses
Seems to whisper to her when she smiles
La lala lala
la, la lala lala la
Sweet Jane Sweet Jane Sweet Jane
(Velvet Undergound)
Texto
3
Anyone who's ever had a heart
Wouldn't turn around and break it
and anyone
who's ever played a part
Wouldn't turn around and hate it
Sweet Jane, sweet
Jane_Sweet, sweet Jane
You're waiting for Jimmy down in the alley
Waiting there
for him to come back home
Waiting down on the corner
and thinking of ways to
get back home
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane
Anyone who's ever had
a dream
Anyone who's ever played a part
Anyone who's ever been lonely
and anyone
who's ever split apart
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane
Heavenly widened
roses
seem to whisper to me when you smile
Heavenly widened roses
seem to whisper
to me when you smile
La la la la, la la la, etc...
Sweet Jane
Sweet, sweet Jane
(Cowboy Junkies)
Texto 4
Esta cantiga fez Pero Velho de Taveiroos e Paai soares,
seu irmãao, a duas donzelas mui fremosas e filhas d'algo as[s]az que andavam
em cas Dona Maior, molher de Dom Rodrigo Gomes de Trastamar. E diz que se semelhava
ua a outra tanto que adur poderia home estremar ua da outra. E seendo ambas
uu dia folgando per ua sesta em uu pomar, entrou Pero Velho de sospeita falando
com elas. Chego o porteiro e levantou-o end'a grandes empuxadas e trouve-o mui
mal.
Vi eu donas em celado
Que ja sempre servirei,
Por que ando namorado,
Pero
nom volas direi
Com pavor que d'elas ei.
Assim me ham lá castigado.
Vós, que
essas donas vistes,
Disserom-vos rem d'amor?
Dizede se as co[nho]cistes,
Qual
delas é a melhor?
Nom fostes conhocedor,
Quando as nom depar[ti]stes.
Ambas
eram-nas melhores
Que omem pode cousir.
Brancas eram come flores.
Mais, por
vos eu nom mentir,
Nom nas púdi departir,
Tanto som boas sen[h]ores.
Ali perdeste-lo
siso
Quando as fostes veer,
Ca no falar e no riso
Podérades conhoc[er]
Qual
á melhor parecer.
Mais fail[u]-vos i o viso.
(Pero Velho e Pai Soares de Taveirós,
B 142, Michaëlis, Ajuda)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DIOGO, Américo António Lindeza e MONTEIRO, Maria Rosa Sil (1995): Um
Medo por Demais Inteligente. Autobiografias Pessoanas. Braga: Angelus
Novus Editora.
DIOGO, Américo António Lindeza (1998): Lírica Galego-Portuguesa. Antologia.
Organização e Prefácio de Américo António Lindeza Diogo. Braga: Angelus
Novus Editora.
KUNDERA, Milan (2004): A Insustentável Leveza do
Ser. Tradução de Joana Varela. Lisboa: Dom Quixote. [1988].
SENA, Jorge de (1968): Arte de Música. Lisboa: Moraes Editores.
TAVANI, Giuseppe (2002): Trovadores e Jograis. Introdução à Poesia
Medieval Galego-Portuguesa. Lisboa: Caminho.