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Há uma ideia quantitativa de lusofonia que corresponde a uma certa noção de uniformidade. «No contexto linguístico internacional, a língua portuguesa ocupa hoje um lugar privilegiado e honroso, pois situa-se, quanto ao número de falantes, imediatamente a seguir ao chinês, inglês, russo e espanhol. Isto é, numa sétima parte da superfície do globo (1O 686148 km2, dos quais 8 916 037 km2 correspondem ao Brasil) fala-se português, com um total de mais de 160 milhões de pessoas espalhadas por todos os continentes, esperando-se que no ano 2000 atinja os 210 milhões, ultrapassando em cerca de 30 milhões os falantes do francês. Este numero é impressionante (...)» (Azevedo Ferreira, 1987: 31).
Originalmente publicado em Temas de O ENSINO, Nº 14-20. A Lusofonia, unificacação ortográfica e política linguisticocultural, Vol. IV-V, 1989, pp. 91-98.
Lusofonia.
por Américo António Lindeza Diogo
1. Há uma ideia quantitativa de lusofonia que corresponde a
uma certa noção de uniformidade:
«No contexto linguístico internacional,
a língua portuguesa ocupa hoje um lugar privilegiado e honroso, pois situa-se,
quanto ao número de falantes, imediatamente a seguir ao chinês, inglês,
russo e espanhol. Isto é, numa sétima parte da superfície do globo (1O
686148 km2, dos quais 8 916 037 km2 correspondem ao Brasil) fala-se português,
com um total de mais de 160 milhões de pessoas espalhadas por todos os
continentes, esperando-se que no ano 2000 atinja os 210 milhões, ultrapassando
em cerca de 30 milhões os falantes do francês. Este numero é impressionante
(...)» (Azevedo Ferreira, 1987: 31) (1).
Há uma noção qualitativa dessa uniformidade, graças à qual a lusofonia, em contexto informal,
se torna uma emanação espontânea e inegavelmente nebulosa de todas as manifestações do fonologocentrismo ocidental.
Veja-se o professor Lindley Cintra:
Sinto uma espécie de orgulho linguístico em relação ao português. Mais do que
uma afeição, é o orgulho de ser um falante dessa língua que nasceu num
território tão pequenino como era a Galiza, no Noroeste de Portugal,
e que hoje falam 150 milhões de pessoas. O seu orgulho está também ligado
ao surgimento dos creoulos (sic). É um caso raro. Uma língua que teve
uma espécie de filhos, como o latim. Somos filhos do latim, como o creoulo
de Cabo Verde é de Portugal.
É curiosa a sensação que a língua portuguesa parece produzir em ouvidos estrangeiros. Há quem diga que ela é feia por ter, por exemplo, o ditongo «ão». Mas um dos encantos da língua portuguesa é ter essa raridade, essa suavidade dos tons masais. Creio que era o imperador Maximiniano do México que dizia: «Se queres saber a língua com que o Diabo fala com a avó, vai ouvir o português». Outra opinião é a do professor Hernâni Cidade que dizia que língua portuguesa tinha nascido, por assim dizer, quando se diziam segredos num pinhal.
Pensando ainda na literatura, o próprio facto de a primeira poesia lírica de toda a Península Ibérica ser escrita em galaico-português, é significativo: a escolha do português como língua da lírica (Cintra, 1988: 21).
É notável a dimensão dos lapsos, dimensão não menos imperiosa que imperial;
deslize da língua para a nação («somos filhos do latim, como
creoulo é de Portugal»), deslize geográfico, anexionista («a
Galiza, no Noroeste de Portugal»). Mas bem mais motável é que no discurso
da lusofonia se nota um como projecto metafísico de proximidade. Estamos
com esta lusofonia na dimensão ocidental da verdade: basicamente da verdade
como proximidade a si no ouvir-se falar (cf. Derrida, 1972a: 13 e passim).
O amor informal da língua propõe a (i) a intimidade da fala na lírica
e no murmúrio, (ii) a origem com o privilégio da origem no nascer, na
filiação e ainda na lírica e (iii) a dimensão órfica, encantatória, da
lusofonia, que comparece na anedota do imperador Maximiniano. Aí, a melíflua lusofala
do diabo seduz a avó sem ilusões e intratável. O
«ão» português secaria o riso de Baubô; e anunciaria, digo eu, qualquer coisa como a paz universal do Império Quinto.
2. Talvez seja altura de experimentar
a lusofonia como diferença, diferimento da presença e diferendo. Talvez
se saiba, então, de algum modo, dos factos de lusofonia como heterogeneidade
a todos os níveis. Porque
a língua é uma acumulação aluvial de argúcias.
(...) A língua não é, de modo algum, o que se tentou fazer com o esperanto.
O esperanto baseia-se na ideia de que a linguagem se apoia em uma correlação
unívoca entre o significante e o significado. Por isso é uma língua que
ninguém tem vontade de falar» (Miller, 1987: 31).
É uma noção de lusofonia equivalente da de esperanto, fantasia conforme às fantasias de Lindley Cintra (e do seu entrevistador como também dos leitores) que começamos por
encontrar nos actuais projectos de reforma escolar — e que em conformidade
faz da língua uma matéria-prima em que devemos investir. O projecto de
reforma justifica-se um tanto tortuosamente com a criação de riqueza,
e simula, como sempre, subordinar à autonomia e criatividade humanas (à
matéria-prima humana) as novas tecnologias que, talvez porque imaginadamente
«imateriais», pensamos poder «puxar» para nós, e fazer nossas (no limite
do software, elas seriam directamente a nossa massa cinzenta).
Em fundo uma outra riqueza, uma outra matéria-prima abundante e natural,
um sol de que se tem o monopólio: a língua portuguesa falada por muitos
milhões, «factor de diferenciação no espaço europeu e de união no contexto
atlântico, abrangendo o Brasil e os países africanos de expressão portuguesa»
(Fraústo da Silva, 1987: 176) — o que só pode corresponder, em negativo
e em definitivo, à vergonha de termos tantos iletrados nas escolas, e
isso tanto no corpo discente, como no corpo docente. Artefacto reencontrado
na época dos imateriais, ei-la, a língua portuguesa, um bem escolarmente
administrável no âmbito de uma educação universal e gratuita.
A escola não admite a infelicidade linguística. Não se pensa na existência real
da língua como obstáculo na escola à transmissão dos saberes, como à transmissão
dela mesma. Oculta-se, em suma, a dimensão de heterogeneidade da língua
por respeito aos falantes dela. Ora, nos usuários, produtos ou não
da escolaridade mais ou menos obrigatória, permanece uma passividade
fundamental — que faz com que, por exemplo, o futebolista Futre, depois
de um ano em Madrid, não possa falar a portugueses sem abundantemente
castelhanizar.
2.1. A língua é também um objecto homogéneo e sem espessura
para Graça Machel. Afirma a ministra moçambicana ter-se feito (com promessas
de continuar fazendo) do português um tecnolecto da administração estatal
de um território plurilingue e plurinacional. A língua portuguesa é absorvida,
para começar, pelo manual, onde, numa pacífica neutralidade de instrumentação,
não destaca:
Todos os manuais são elaborados em Português: trata-se de
uma opção que a Frelimo tomou ainda durante a luta armada de libertação
nacional. O Português é, para nós, a língua de unidade nacional. As línguas
moçambicanas têm um papel importante, mas a única língua através da qual
podíamos comunicar de Rovuma ao Maputo era a língua portuguesa. Por outro
lado, era a que estava minimamente organizada e estruturada para ser utilizada
como instrumento de ensino. As línguas moçambicanas ainda hoje não estão
codificadas» (Machel, 1988: 51-52).
A coerência deste texto assenta na série metafórica organizado /estruturado
/ codificado. O português vem organizar, estruturar e «codificar» as línguas
moçambicanas, como a Frelimo vem organizar, estruturar e «codificar» as
nações moçambicanas. A coerência textual existe somente na confusão entre
a organização, estruturação e codificação, que se supõe serem os inapreciáveis
valores de que o Partido (estalinista) é o único e privilegiado portador
e a «codificação» (2), a estruturação e a organização, que são, como o
político pretende não saber, imanentes à existência de qualquer língua
— moçambicana ou não. A Frelimo faz do português uma estrutura isomorfa
da sua «vontade de administrar» do Rovuma a Maputo. E se não concebe a
unidade nacional senão sob a forma de uma nação uma língua,
ainda que esta se imagine neutralmente veicular, é porque tem sido, por
história e formação, incapaz de conceber alternativas a uma existência
nacional que não passe pela afirmação de uma organização estatal monolítica,
para a qual e na qual o partido único se transvazou. O discurso da ministra
moçambicana é um reflexo invertido da realidade: o português não é em
Moçambique uma realidade neutra e meramente instrumental, desafectada
dos domínios da existência, para se assim tornar apto para administrar.
O português é, antes, um bem criado e recriado por formas de poder e
que, por seu turno, as cria e recria — e continua a ser solidário do despojamento
de alguns milhões de pessoas às mãos de poucas. O português
é, pois, um dos instrumentos dessa peculiar forma de desorganização que
a Frelimo introduziu nas sociedade moçambicanas.
E é indubitável que, em muitos casos, a sobrevivência dos povos moçambicanos se acha comprometida numa e por uma alfabetização que recusa as línguas maternas para se fazer nessa língua estranha que é a nossa.
2.2. No que diz respeito à Galiza, a restauração do idioma parece ter
sido reflexo de uma como que veleidade romântica, de emancipação geral:
são elementos das classes possidentes, em geral de origem não galega,
que se tornam arautos de uma política cultural galeguista. O
povo sente a língua que fala como a língua da sua condição servil, de
tal modo que gostaria de nunca a ter falado, tão logo se possa dizer no
caminho da sua particular e específica emancipação (emancipação não abstracta,
mas perfeitamente determinada pela ascensão cultural, social, económica
e política). Em suma, enquanto os «ricos» se empenham em emancipar o idioma,
os «pobres» tratam de emancipar-se do idioma, estigma da sua inferioridade.
A atitude dos galeguistas parece «de fidalgo rural», como diz
o professor Rodrigues Lapa a propósito de uma figura tão importante como
Otero Pedrayo, em quem aquele romantismo perviveu — e nela confluem duas
realidades sociais em vias de anacronização, como são a aristocracia e
a ruralidade. Daí que possa o prof. Rodrigues Lapa afirmar que «muito
admirado, e talvez até escandalizado, ficaria Otero Pedrayo, se lhe dissessem
que ele escrevia não uma língua de civilização mas um dialecto rural,
que era enfim mais um 'esquirtor' do que um 'escritor'» (Lapa, 1979: 85).
E o que é certo é que, com a expansão das classes médias (ou da nova pequena burguesia), os galegos adoptam o castelhano como
língua da sua mediania urbana e não sei se áurea; e o galego, ou o que
por ele passa, é, por um lado, a «língua» da Oposição (3) e, por outro
lado, uma pluralidade de falas com dimensões muito circunscritas, cada
qual achegada a campanário seu. Erradicado das cidades e da nova dimensão
urbana da realidade por uma língua castelhana que não consegue esconder
o desejo de obsessiva presença, que, por razões históricas, por demais
sabidas, tem vindo a ser o seu, não sobrará nos campos muito galego com
quem fidalgos rurais possam conversar e conviver.
A direcção tomada por Otero Pedrayo de constituição de uma língua literária
já não é possível — e a justificação maior que ele dava para a ter tomado
cremos que terá desaparecido com esse povo próximo que a suportava («teño
fe no noso galego, ten custado bágoas e sangue, non o podemos deixar sen
ritmo, sen acento, sen vida, botado no meio da rua, pra nos acoller ó
brillante pazo onde sóio poderían entrar os literatos» (apud
Lapa, 1979: 83). Enfim, se «o galego passou a ser sociologicamente unha
forma rústica do castelam, em Galiza» (Carvallo Callero, 1981: 67), hoje
em dia, segundo nos parece, essa forma do castelã está condenada
no seu próprio suporte rústico — ou, para melhor dizer, no seu suporte
labrego. Concomitantemente, o interesse que uma organização como
As Irmandades da Fala vem demonstrando pelo último acordo ortográfico
(que, com o Japão, é a única a cumprir), releva de uma interessantíssima
estratégia «recuperacionista». Como se sabe, na medievalidade europeia,
a heterogeneidade linguística, que era obstáculo à identificação de unidades
políticas de consciência nacional, foi superada (onde as fracturas não
eram ou não se tornaram irremediáveis) por tradições de língua comum,
anteriores em grande parte dos casos às obras literárias que conhecemos.
A essas tradições é habitual chamar-se scriptae, e «a base dialectal
(...) obedece sempre a uma série de convencionalismos que procedem de
uma tradição de língua scripta» (Vàrvaro, 1983: 10). Com a adopção da
ortografia portuguesa (e, extremamente, com a adopção do novo (des)aoordo),
não se pretenderá potenciar as possibilidades que a scripta oferece
no sentido de se dar uma solução à heterogeneidade linguística, antecipando
a coincidência da «unidade política» com a «consciência nacional»? E não
será esta uma estratégia duplamente anacrónica no universo mediático que
é o nosso — em que para os galegos a presença do castelhano-língua não
será, por assim dizer, linguística, mas imposta por fluxos de imagens,
modos de comportamento e de consumo?
2.3. A língua brasileira de Alencar não é, expressão de um Roland Barthes
(Barfhes, 1971: 9) a «língua» de um logoteta, como é a língua de um Guimarães
Rosa, onde, aliás, se deixa entrever uma aurora de linguagem, que, para
nós, dificilmente poderá deixar de ser histórica e, consequentemente,
para galegos, ser o galego (cf. Paz Andrade, 1986: 219/234). Do mesmo modo,
a «língua» de Luandino Vieira não é a língua angolana. Mas se a especificidade
da língua brasileira de Alencar era quase só construída sobre o léxico
(e quase só sobre a dimensão tupi-guarani dele), há outras pretensões
de existência de uma língua brasileira, ou de uma qualquer língua que
se pretenda emancipada da dimensão «dialectal», sobre cujo bem ou mal
fundado a linguística não está em condições de decidir (Paiva Raposo,
1984: 587).
«Tá craude brô você e tu lhe amo / Quê queu te faço, nego?»
(Veloso, 1985).
Quê queu te faço? Questão interessante, para quem, como eu e muitos mais,
tenha sido educado na convicção «científica» da unidade superior da língua,
e para quem havia até o oxímoro conclusivo, capaz de fazer corar de orgulho
o cientista que o cunhou: «unidade na diversidade». Ora, a terceira norma
brasileira, variante popular, de carácter em absoluto oral, que é previsível
venha a agir profundamente sobre a segunda e a primeira, deriva para realidades
«perfeitamente opostas às realidades do português europeu» (Paiva Raposo,
1984: 591). Essas realidades configuram-se, por exemplo, como regras estranhas
e novas — e, assim, a regra sintáctica responsával por ocorrências do
tipo isto é para mim comer, que «torna esta variante brasileira
num sistema linguístico mais parecido com o inglês» (id.).
Esta questão da unidade foi posta pela linguística histórica e
herdada pela linguística diacrónica. É ovo de cuco em ninho alheio. A
unidade supra-dialectal não pode provar-se na intercompreensão dos falantes,
e, ironicamente, é bem possível que venha a ser o léxico a suportar o
sentimento de comunidade linguística onde for possível reconhecê-lo. Deve
acrescentar-se que esse sentimento não é dado necessariamente com a língua
aos utentes de formas dela. Da questão da primeira norma, literária e
ligada à escrita, falaremos depois. Em conclusão, dispersa a lusofonia,
ou um tanto luxado o ouvido lusófono, poderíamos dizer que dos fenómenos
a que chamamos 'língua portuguesa' não podemos especificar isso que «têm
em comum, em virtude do qual utilizamos a mesma palavra para todos» (Wittgenstein,
1957: 227). Se olharmos para esses fenómenos veremos «parecenças, parentescos,
e em grande quantidade» (id.). E o «resultado desta investigação [seria]
o seguinte: vemos uma rede complicada de parecenças que se cruzam e sobrepõem
uma às outras. Parecenças de conjunto e de pormenor» (id.: 228). A situação
pode mostrar-se-nos, a nós portugueses, como indo de um complexo luso-galego-castelhano
a um crioulo cabo-verdiano; a «unidade superior» far-se-á em certos casos
acima do léxico, no interior de mais estritas estruturas (fonológicas,
morfológicas, sintácticas e semânticas) e, noutros casos, não poderá dispensá-lo.
Não podemos delimitar o conceito de 'língua portuguesa'. «Mas isto não
é ignorância. Não conhecemos as fronteiras porque não traçámos nenhumas.
Como se disse: nós podemos — para uma finalidade especial — traçar uma
linha de fronteira» (id.; 23), que pode ser de vários tipos e suportar
vários interesses.
3. É evidente que é Fernando Pessoa o responsável pelo
orgulho patriótico e imperial que pessoas bem formadas, como o professor
Luís Felipe Lindley Cintra, se autorizam a sentir quando entrevistadas.
Examinaremos então o mais célebre dos textos pessoanos pertinentes ao assunto e derivaremos, depois, para a questão
da norma literária.
3.1. «Não tenho sentimento nenhum politico ou social.
Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria
é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal,
desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro,
com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não
sabe syntaxe, não quem escreve em ortographia simplificada, mas a pagina
mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que
se bata, a ortographia sem ipsilon, como o escarro directo que me enoja
independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortographia também
é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da translitteração
greco-romana veste-m'a do seu vero manto regio, pelo qual é senhora e
rainha» (Soares, 1982: 17).
Aqui a pessoana instanciação textual da lusofonia
não parece muito congruente com a do Quinto Império (em que os responsáveis
políticos pelas nossas solidariedades usam subsumir a citação célebre);
é como a proposta de um Campos «vadio e pedinte», e situa-se, assim, à
margem da Humanidade comum e do comm da Humanidade: (i) elimina o sentimento
pessoal (em cujo âmbito, banal ou menor, aparece incluído o patriotismo),
(ii) propõe a gramática como pessoa, e promove, no contraste, a dessolidarização
com as «gentes».
3.1. É óbvio que da «língua» a que Caetano Veloso tende
o poeta-cantor recebe uma expansividade eufórica, imaginária, porque com
ela alude (segundo creio, por intermédio dos irmãos Campos, Haroldo e
Augusto) a uma noção afim do geno-texto kristeviano: a «um latim em pó»,
que vem relevar a «flor do Lácio» de Olavo Bilac e, não menos inculto,
abrir ao que uma grande escritora portuguesa, Maria Velho da Costa, chamará
de «crioulo galáctico». Que lusofonia é esta, que poderemos dela dizer,
senão que é politicamente imprestável, e nem sequer serve Afrânio
Coutinho? Porque a solidariedade, com Caetano, não só entende dever fazer-se
na língua como se entende em modo imperial, ou de grandeza, pretendendo englobar «a sintaxe
dos paulistas / e o falso inglês relax dos surfistas» (id.). Tratar-se-ia
de uma língua como lugar da paródia das linguagens, o lugar em que as
linguagens, os registos e as normas, na sua pluralidade, poderiam ser
directamente assimilados a «poesia concreta» — e finalmente, o lugar por
excelência, o lugar imperial, da tradução e da transcodificação: «Blitz
quer dizer corisco / Hollywood quer dizer Azevêdo» (id.). Este tipo de
lusofonia tem de ignorar, evidentemente, mas não como no texto pessoano,
as pessoas dos países (a que, naturalmente, o nosso serve de modelo de pequenezas):
«E deixa os portugais morrerem à míngua» (id.).
Ora, porque não esposar uma língua assim, literária assim — mais a caminho
do destino da literatura, que, segundo Blanchot, é a sua perdição? Porque
é evidente que a língua literária hoje não tem a ver com aquele lugar
privilegiado da unidade linguística que Gladstone Chaves de Melo a seu
tempo nos propôs (Melo, 19814: 189 e ss). A língua literária não existe
a; a literatura também não. Mas, sobretudo, a literatura de
Chaves de Melo é notoriamente a força «espiritual» da «minoria esclarecida»
que governa a «maioria anarquizante». Não existe e por muito que melifluamente lusofale não escapa a ser tolice.
3.2. A nossa «proposta» é de uma lusofonia como heteronímia. De uma lusofonia que não se limite
a transferir para um espaço transnacional a ideia «de identidade saudável
de uma nação», de que fala Amadeu Torres, e que deixe cair essas ideias que fazem da «saúde» um bem identitário (e do identitário um bem):
Ora as funções de selecção e síntese mantenedoras da identidade saudável de uma nação ou de um povo
propina-as a sua história e enriquece-as a própria língua em que se expressa,
domínios escolares que nos últimos lustros ou foram atrabiliarmente desbancados
ou padeceram inegável degenerescência entre as classes discentes e docentes,
agravada esta pela intervenção, a nível subterraneamente complementador,
dos alucinógenos» (Torres, 1987: 58).
Toda a vida social que a hermenêutica pensa como razão em acto é, efectivamente,
um logos dado «antes de mais, na língua natural de uma determinada
comunidade histórica» (Vattimo, 1988: 1), mas os limites dessa razão não
só não são rigidamente definíveis, como é condição pós-moderna que «as
línguas naturais e as comunidades que as falam e são por elas faladas
tend[a]m a perder qualquer limite estával e toda a identidade fixa» (id.:
2). Aqui devem considerar-se (i) a nossa mesma diversidade, que nossa
será enquanto nossa a quisermos, e que nenhuma hermenêutica clássica alguma
vez previu, (ii) os media e o universo mediático e (iii) a presença
determinante do inglês.
4. Em conclusão: Pema, Lota, Tchépa, Fronha, Quinha,
Têtcha, Bombena, Teca. Eufémia, Isabel, Josefa, Luísa, Maria, Teresa,
Ana, Catarina.
Braga, 4 de Novembro de 1988.
Notas
(1) Cf. Cuesta, Pilar V. e Mendes da Luz, M. A., 1983: 39/45 e Mateus, M. H. Mira et al., 1983:
19/20.
(2) Que aqui se confunde notoriamente com o código escrito.
(3) Trata-se de uma atitude que é brilhantemente caracterizada por Ricardo
Carballo Calero: «A realidade é que para muitos, em diversos graus, o
galego é só um instrumento de propaganda colectiva ou individual, umha
plataforma de actuaçom social que non hai que tratar com esmero. É o galego
de consumo. Nom o galego de consumo das nossas gentes trabalhadoras, que,
inservível em bloco para a expressem literária, é, apesar disto, a base
desta. Agora se trata dum galego de consumo que nom se queima, como o
galego vulgar, na funçom económica do seu uso. Um galego de consumo para
umha funçom artificiosa, a funçom de fingir que os seus usuários escrevem
em galego: de modo que esse galego é um pseudogalego, que, polo tanto,
supom, nom já ignorância, senom desprezo do galego verdadeiro, o galego
que nom se quer aprender» (Carballo Calero, 19S1: 75/76).
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