pós-coloniais

Estudos Pós-Coloniais

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Em primeiro lugar, em Ulisses e no mais que fui ouvindo a gravação tem uma qualidade de indústria que faz sonhar com a Amália que a Valentim de Carvalho não gravasse. Em segundo lugar, e ao que deduzo das amostras (Corpo Iluminado), é possível um passo óbvio na renovação do fado, mas esse ovo de Colombo somente Cristina Branco e Custódio Castelo puderam equilibrá-lo: a electrificação do baixo.

Não que assim nos chegasse a compensação tardia do facto, para alguns desolador, de a influência negra na música popular portuguesa se haver traduzido na «canção nacional» e não em sambas, calispsos, blues, jazz e rock and roll.

Observações sobre o fado de Cristina Branco a partir de Ulisses e audições soltas.


Em primeiro lugar, em Ulisses e no mais que fui ouvindo a gravação tem uma qualidade de indústria que faz sonhar com a Amália que a Valentim de Carvalho não gravasse. Em segundo lugar, e ao que deduzo das amostras (Corpo Iluminado), é possível um passo óbvio na renovação do fado, mas esse ovo de Colombo somente Cristina Branco e Custódio Castelo puderam equilibrá-lo: a electrificação do baixo. Não que assim chegasse aos portugueses a compensação tardia do facto, para alguns desolador, de a influência negra na sua música popular se haver traduzido na «canção nacional» e não em sambas, calispsos, blues, jazz e rock and roll. Todavia, sem desprezar a possibilidade de outra efectividade rítmica, o fado ganharia talvez a presença corporal que tem menos desde que Amália, Oulman e Mourão-Ferreira o idealizaram. Cristina Branco prossegue de resto na trilha dessa idealização que ligou o género à presença mais ou menos inabalável de uma diva. A diva não é exactamente perfunctória neste trajecto e Carlos do Carmo et al. não são objecção suficiente. A prova estará em Paulo Bragança, e nos incómodos de género quando se usa o xale. A idealização é coextensiva da internacionalização do fado, que se tornou world music, Madredeus e sua diva (e já vi peças classificadas como new age). Para citar à peu près A Canção de Lisboa, o fado não tem já marceneiros e outros trabalhadores de artesania e ofício, a voz portentosa de Maria da Fé é dispensável, e os fidalgos e fidalgas de casta, no seu amadorismo que era presença intermitente do reconhecível (por não precisarem, supõe-se, de «ganhar o pão»), não representarão a legitimação desta arte senão intra muros. Nesta volta dos tempos, o fado parece, aliás, um sub-género poético, pelo muito que cada vez mais vai colher ao repertório de qualidade euro-fina. Diria que o fado é como a literatura cabo-verdiana: passou do telurismo que não raro cultivava o seu exotismo crioulo a um universalismo que acarinha uns módulos épicos; de Alcântara a Grave.
A diva em Ulisses não canta apenas os habituais e os clássicos (Camões, Mourão-Ferreira, O'Neil); é ibérica e canta «Alfonsina y el Mar», é portuguesa e assume José Afonso («Redondo Vocábulo») e Vitorino («Navio Triste»), é europeia e lá vem Éluard («Liberté»), é do mundo, enfim, e canta Joni Mitchell («A Case of You»). Tudo isto deve ser lançado à conta daquela cultura oficial portuguesa que tenta unir a diáspora lusa (de que Cristina Branco é uma das filhas) através da adulação que transforma a «emigração» em «universalismo português». Os resultados são bons e multidimensionáveis. Com Vitorino readquire-se porventura aquela matriz de músicas que Amália tornou fado com o «Barco Negro» e semelhantes, a qual pôde em tempos confinar-se aos repertórios populares da Beira-Baixa e do Alto-Alentejo; a «reabilitação» de José Afonso é sempre bem-vinda, que mais não seja pela dificuldade que os lusos têm em reconhecer (e ouvir) um músico que nas áreas em que se moveu tem tanto de genial como os Brassens e folk singers conhecidos, a quem as culturas respectivas vão transformando em património. A cantiga de Joni Mitchell, que se vem tornando standard (pode ouvir-se interpretada, v.g., por Diana Krall), é desempenhada muito junto à voz original, com os seus agudos nos limites da contenção e as pequenas erupções de papo. Cristina Branco é uma diva muito capaz (e a iconografia sustenta igualmente o projecto). O nome suspeito — Ulisses — convém afinal a estas demonstrações musicais de nostalgia, já que a música é inegável, e, mais do que perdoa, viabliza a fantasia do nostos: qualquer coisa como regressar a casa no mundo, pondo a uso a qualidade e a capacidade do ser-se português.
Duas observações finais.
Arrepia um tanto ouvir no que da voz ao entorno é puro cristal a cantora pronunciar d'zer; e mais numa arte de prolongar a frase. Existindo o Brasil, d'zer é o apoucamento de qualquer lusofonice.
«Corpo Iluminado» (se erro, corrija o leitor), apresenta-se com uns acordes introdutórios que nos dizem ser fado, posto a afinação seja quase tipicamente empertigada e coimbrã. O que se apresentou como fado é todavia fado sendo outra coisa; a canção assume a continuação típica da morna como B. Leza a fixou. É simpático. E se Portugal, a uma escala maior mas não tanto, e para já em lugares de folga e imaginação, pudesse ser o Cabo Verde que diminuíram nas Chelas lisboetas?