pós-coloniais

Estudos Pós-Coloniais

Artistas CongreGagos © 2005

«Só os Estudos Pós-coloniais podem impedir a unidireccionalidade implícita na ‘démarche’ pós-estruturalista e no esvaziamento discursivo pós-moderno, na medida em que vêm inevitavelmente relançar a questão política sobre as hesitações discursivas de teor ideológico, e colocar o problema da culpabilidade do filho tanto como da culpabilidade do pai, se conseguirmos escapar aos maniqueísmos de suposição do paternalismo cultural «inocente» e da piedade filial «incólume», de modo a que, na redistribuição da moralidade, todos efectivamente «comam», diferenciando-se devidamente, já se vê, os vários tipos de «antropofagia» cultural, tanto como o do grau «viajante» das respectivas teorias e modalidades de leitura».

A presente entrevista foi realizada por escrito, sendo as perguntas de Américo António Lindeza Diogo.

A Paróquia e o Mundo.

Ciberkiosk— Contrariamente à Teoria, a Literatura Comparada ocupa uma posição no currículo bastante marginal. Entre faculdades e escolas similares, o frequente é que exista como opção ou não exista de todo. Face à abrangência da Teoria, que envolve, ou a tal pretende, todas as literaturas que ensina uma Fac., não se vê que a Literatura Comparada possa sequer ser uma prática com amplitude equivalente como matéria lectiva. Em contrapartida, existe uma associação de comparatistas como a de teóricos não existe, cujos congressos mobilizam "todos" os professores de literatura e de teoria. Como comentaria esta discrepância? Poderá fazer o historial da fundação das duas disciplinas entre nós? Recordaria que a Literatura comparada existia nos USA com a função de abrangência que a chamada Teoria depois lhe contestou e nalguns casos usurpou (ironicamente, para a comparada regressar vencedora, em alguns casos, sob o nome de Estudos Culturais).

Maria Alzira Seixo — Não penso que exista tal discrepância. Existe uma história diferente dos dois campos disciplinares na universidade e na prática ensaística nacionais, que obviamente conduz a situações de facto diferenciadas, que além do mais se devem ao facto de que a Teoria da Literatura (suponho que é a esta que a questão se refere) se encontra já radicada curricularmente (tendo sido introduzida no final dos anos cinquenta), e que a Literatura Comparada, receada pelo ensino salazarista pela sua abertura à permeabilidade diversificada das outras literaturas e, sobretudo, pela perspectiva internacional adoptada no trabalho de reflexão, só recentemente nele penetrou. A Teoria da Literatura contou com a capacidade de difusão lectiva que lhe soube imprimir David Mourão-Ferreira na Universidade de Lisboa, a partir de 1957, e que, juntamente com Monteiro Grilo (o poeta Tomaz Kim), assumiu o ensino da disciplina, apoiado por Jacinto do Prado Coelho; mas parece-me evidente que, nos dias de hoje, a Teoria (sem genitivo em aposição) se defronta com inúmeros problemas de afirmação e de aceitação académica, e que o que aqui se considera como a sua abrangência se deve afinal de contas à sobreposição que se pratica entre Teoria e Teoria da Literatura, sendo esta a disciplina nominalmente existente em curricula e programas, e a Teoria a que de facto é praticada em alguns casos, mas de modo preferencialmente ligado a determinadas personalidades de docentes, que não de existência oficial. A questão da abrangência mútua de uma disciplina pela outra (no caso, da relação entre a Literatura Comparada e a Teoria da Literatura) é actualmente cultivada, pelo menos no campo do trabalho associativo, sem relações de precedências hierárquicas nem dramatismos de competição. Que Wellek imprimiu uma dinâmica nova à Literatura Comparada, integrando nela a Teoria da Literatura, é um facto incontornável, que até os sucedâneos mais inflexíveis da escola francesa não se atrevem hoje a pôr em causa; que por vezes certas perspectivas do trabalho de investigação, ou algumas personalidades teóricas, incluem a Literatura Comparada no âmbito dos estudos de Teoria, é também evidente, e poucos universitários com papel associativo definido no comparatismo internacional pensam em o questionar, por aceitarem tacitamente a reciprocidade das respectivas inclusões. Não se trata de determinar um continente de trabalhos que englobe o outro, mas de pensar a sua permeabilização recíproca, quando ela se pode tornar útil e reveladora. A questão da usurpação recíproca pode de facto fazer-se em alguns casos de modo polémico, mais ou menos fecundo ou mais ou menos histerizante, mas não é de uma maneira geral considerada negativa, distinguindo-se cada vez mais a personalidade do investigador do problema da hierarquização das áreas; e, se é certo que os Estudos Culturais vieram dar nova dinâmica aos Estudos Literários pelo choque de parâmetros que envolviam, o que se verifica é que, também neste caso, a zona de permeabilidade se está a evidenciar cada vez mais, e que, embora com objectivos de especificidade e de questionamento distintos, as três áreas não podem, em meu entender, considerar-se estanques, nem (e sobretudo) a especialização numa delas invalida a necessidade de informação e pensamento em relação às duas restantes. No fundo, a relação entre Literatura Comparada, Teoria e Estudos Culturais, embora com o respeito devido às respectivas dominâncias (e até com a diferenciação inclusiva que os vários caminhos no interior de cada área implicam), diz-nos apenas, mas muito intensamente, que o ensino e o estudo da Literatura: 1º - não podem mais praticar-se como se praticavam há dez ou vinte anos (e muito menos como se praticavam há trinta, o que EFECTIVAMENTE ainda acontece); 2º - que os Estudos Literários, ao contrário do que se pensa e receia, não estão a apagar-se, mas a desenvolver-se e a cobrir fenómenos de expressão e de comunicação cada vez alargados.

Ciberkiosk — Notoriamente, teoriza-se modicamente em Literatura Comparada, e, entre nós, exceptuando Machado-Pangeaux, abaixo disso. Na disciplina, produzem-se mais artigos e actas de Congresso do que teorias ou manuais. Trocando as voltas a uma citação de Geertz, as coisas parecem da ordem da tarefa artesanal da descoberta de princípios paroquiais em factos por demais gerais. Como vê esta "sabedoria que vem de um monte de formigas"? E, se o diagnóstico é possível (ainda quando errado), como se poderá ver a sua remissão, enquanto comparatista (mas não apenas), para as teorias ditas empíricas da literatura? Como relacionaria a teoria, e, sobretudo, as espécies empíricas, com a Literatura Comparada? Necessidade? Desejo?

Maria Alzira Seixo — Penso ter já respondido a parte da questão quando comentei a pergunta anterior, mas quereria sublinhar que de facto concordo com o facto de que não se teoriza em Literatura Comparada entre nós (a excepção a que se refere, desconheço-a, apenas conhecendo um livro dos autores mencionados que em nenhum lugar do mundo será considerado como teorização), assim como concordo com essa sugestiva observação que refere o «monte de formigas» e os «princípios paroquiais», lamentando, ao invés, que a tarefa artesanal também não seja ainda muito vultuosa, porque em meu entender, é dela que poderá surgir o resto. Parece-me, no entanto, que há artigos e actas de congressos que são de facto importantes, ao contrário do que está implícito no seu raciocínio, e como tal não devem ser desconsiderados; e quanto a teorias e manuais, do modo como o exprime, não é do que pessoalmente mais sinto a falta ou desejo entre nós, isto é, penso que não nos faz falta nenhuma e considero-o mesmo um sinal de maturidade e de consideração adulta da questão. Além do mais, tenho em grande conta as formigas, embora sinta particular atracção pelas abelhas e lamente a falta delas na paisagem, mas se mel por enquanto não temos, dispomos pelo menos já de viveiros bem providos, e, à falta de abelhas, pelo menos as cigarras abundam, como é visível e audível, para enfeitar o ambiente do literário. Repare em tudo o que se fez no âmbito da Literatura Comparada de há doze anos a esta parte em Portugal. Passou-se nada menos do que do zero a uma plenitude de trabalho, insatisfeita e em intenso afã de complementação, que não permite, a meu ver, nem críticas de rejeição nem de falta de lucidez: a criação e actividade regular da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, que já esteve sediada em quatro universidades do país, e integrou membros directivos de várias outras, tendo já organizado três congressos, com actas publicadas; a participação contínua de universitários portugueses no Conselho Executivo e em Comités de Investigação da Associação Internacional de Literatura Comparada; a participação de universitários portugueses nos encontros da FILLM; a criação de Centros de Estudos Comparatistas em universidades de Lisboa e do Porto; a publicação regular da revista Dedalus; a criação de um «site» para o CEC de Lisboa; um projecto em curso para a criação da revista «on line» Campo Grande; a organização muito frequente de jornadas de estudos e de colóquios de índole comparatista, por universitários portugueses, em Portugal e no estrangeiro. Numa dúzia de anos, há-de confessar que não é mau, e que, se falta a teoria (… mas ele haverá mister de teorias locais? não será isso também uma consequência das carências mais clamorosas de certas fases, de certas ostentações lacunares?), certas modalidades da prática abundam. Remissão ao empirismo? Não vejo por onde ele anda, entre nós, e a verdade é que quanto a mim ele faz bastante falta, sem lugar a que parte da gente do facto se remeta. Teoria, Literatura Comparada e Estudos Empíricos são bons vizinhos, em certos quarteirões do pensamento, embora rejeitados por outros, por elitismo ou abjeccionismo, mas, em minha opinião, mal vai aos Estudos Culturais que completamente se abstenham dos estudos empíricos, abstenção essa que, pelo que decorre da minha resposta anterior, se virá a sentir de forma negativa no saldo progressivo em formação dos Estudos Literários, teóricos e críticos, nacionais ou comparatistas.

Ciberkiosk - Como encara os Estudos Culturais, quer enquanto teoria crítica, quer enquanto desejo de relevância por parte dos estudos literários (vamos falar com os alunos da cultura que eles têm, etc.)? Ter-se-á transformado a Literatura Comparada em Estudos Culturais (ou estará em vias disso?)

Maria Alzira Seixo - Não penso que haja qualquer hipótese de transformação, nem sequer de «enriquecimento» no sentido em que o termo é entendido pelo senso comum, enquanto aquisição de espécie dispersiva ou indiscriminada. Mas o «formigueiro» aludido, se trabalhar como o vigor que a fabulação clássica exemplarmente lhe atribui, até que pode efectuar diligências construtivas que eventualmente constituiram a tal paisagem onde a abelha pode encontrar sua colmeia e a cigarra seu ambiente, em canto. Os Estudos Culturais, a meu ver, não são exactamente uma teoria crítica, mas uma crítica da teoria, na medida em que lhe impõem (também) o empírico e o adjacente, fazendo com que toda a Literatura (com Teoria ou sem ela) e toda a Teoria (com Literatura ou sem ela) se reconsiderem, e ajustem contas consigo mesmas. Não falo de exames de consciência, mas de uma ciência do conjunto, da comunidade, do saber e da reflexão com-partilhados por «niveis» culturais diferenciados e por «interdisciplinaridades» efectivas (contra o multidisciplinar, pelo saber integrativo contra o adjuntivo), de uma Literatura que se reparte LUCIDAMENTE (isto é, sabendo-o, e espalhando, e porque não com brilho, essa saber) entre a textualidade e a reflexão, que as mistura sabendo que são diferentes!!! A questão dos Estudos Culturais parece-me central num momento em que o estudo das Humanidades deixou de interessar a quem quer que seja apenas enquanto tal, porque a actividade humana é múltipla e híbrida, contextual e formal, erudita e de forma «naïve» inovadora, individual e colectiva, solitária e comunitária - e como é que isso se ensina e investiga sem indagar do modo como a comunidade o vive e faz, seja de forma especulativa, seja doutrinário-crítica, seja mesmo basista, ou pelo menos com dados empíricos que dessa forma dêem conta? Mas a universidade (porque eu falo do ensino académico, embora não esteja especificado nas perguntas) é uma instituição determinada e com características próprias, que se transformam não de fora para dentro mas de dentro para fora (no caso contrário, então não existe, é feita existir pelo exterior) e, nessa medida, não anda a reboque dos ambientes culturais externos, antes os estuda, dialoga com eles e tenta entendê-los e explicitá-los reflexivamente, sem forçosamente os aceitar. Nesta medida, os Estudos Culturais são uma actividade comparatista importantíssima, e mesmo indispensável, se queremos que as Letras e os Textos funcionem socialmente, assim como o nosso saber sobre eles.

Ciberkiosk - Como situaria a disciplina no grande debate epistemológico Universalismo-Relativismo? E, se tivesse de colocar, colocaria a literatura mais no Universal e a Comparação mais no Particular? Matizaria? E como? Razão ou Comparazão? Razão e Comparazão?

Maria Alzira Seixo — Quanto à primeira questão, não sei. O que de mim sei, é que ando em mudança, mas desconheço ainda para onde - talvez para o silêncio. Quanto às outras questões da pergunta, não consigo separar «literatura» de «comparação», porque muito saussurianamente acho que escrever é comparar, isto é, sintagmatizar hipóteses de paradigmas (que Bakhtine conformará mais tarde com felicidade na formulação do intertexto), e, sobretudo, rejeito qualquer entendimento da Literatura Comparada como uma comparação de literaturas, e mesmo de leituras (abomino as imensas bibliografias decorativas de teor acumulativo). Literatura Comparada é uma designação infeliz e inapropriada, como muito bem se sabe, e como acontece de uma maneira geral com todas as designações, que são nomes para entidades mutáveis e em potência de desenvolvimento e de preenchimentos diversificados. Nunca acabaremos de discutir a pertinência ou impertinência de designações como «pós-moderno» ou «pós-colonial», se tivermos tempo ou interesse para isso, já que ele nos não sobra muito para estudar o fenómeno, que é o que nos diz respeito, e, ainda hoje, mesmo as designações de «clássico» ou «romântico» (não sei se os especialistas de Literatura Portuguesa, depois de se ter bem averiguado o intensíssimo grau de rejeição de Garrett ou de Camilo pela etiqueta de «romântico», já deixaram de incluir estes autores no Romantismo…). Essa história da Comparação lembra-me a do chocolate «Comacompão», que instituíu um desejo latente na miudagem do meu tempo, que era o de comer chocolate com pão, e assim as mães passaram a autorizar-nos a que tal fizéssemos, uma vez que a isso aquela barra de chocolate mais propriamente se destinava. Porque elas, as mães, ficaram sem saber qual era, de facto, o alimento primeiro, se era o pão, que elas nos queriam dar, ou se era o chocolate, que nós primariamente parecíamos pretender. E ninguém se preocupava em entender que nós gostávamos era da mistura, da passagem constante, em prática gustativa de alternância e simultaneidade misturadas, de um ao outro. Quer que eu lhe responda de modo a que imediatamente me conteste? Então tome lá: relativizo a literatura, sim, embora não seja stanleyfishiana; universalizo constantes, sim (tópicos de sentido, géneros, modos prosódicos, isso mesmo, e sem qualquer pavor de acusações terroristas de essencialismo - que, como muito bem sabe, estende a sua sombra por toda a parte e sobre toda a posição…), embora não parta deles para a crítica e para a leitura, mas ao contrário. Como chocolate com pão, mas deixe que lhe diga que muitas vezes como pão sem me lembrar que o chocolate existe, e que o meu melhor sabor do chocolate é no absoluto da sua racional (bem estudada e preparada, selectivíssima!) receita, sem sequer me lembrar de Álvaro de Campos. A alternativa «e/ou» lembra-me sempre o dilema «a bolsa ou a vida», ou então, no nosso paradigma literário, «Rodrigue, qui l’eut crû? Chimène, qui l’eut dit?», e parece-me invalidar qualquer procedimento epistemológico que pretenda, não comprovar uma verdade previamente admitida - via epistemológica infelizmente bastante frequentadas -, mas indagar da sua possibilidade de suposição.

Ciberkiosk — Aceitaria subscrever o contraste entre a dimensão planetária que a literatura assume enquanto objecto de estudo e ensino da Comparatística e a irrelevância social que aquela vem adquirindo de facto em todas as classes (incluindo as escolares)?

Maria Alzira Seixo — Não subscrevo esse contraste enquanto se me não manifestar com clareza a emergência empírica dessa irrelevância.

Ciberkiosk — A prática da dedução de factos paroquiais (tendência que, porventura, exagerei) terá sido afectada pelos Estudos Pós-Coloniais, ou terão estes a virtualidade de afectar decisivamente a literatura comparada (e, por via disso, todos os estudos literários)? Se sim, porquê e como? Se não, como e porquê?

Maria Alzira Seixo — Não creio que tenha exagerado quando aponta essa tal dedução a partir dos factos paroquiais. Em contrapartida, penso que os Estudos Pós-coloniais, sim, afectarão decisivamente TODOS os Estudos Literários. Dizer como e porquê corresponderia a escrever um ensaio que não tenho agora oportunidade para redigir. Ficar-me-ei, portanto, por duas ou três alusões. A primeira corresponde ao facto de que, em termos de globalização, é inevitável que a relação sócio-político-económico-cultural entre colonizador e colonizado, assim como qualquer relação de dominação e opressão (económica, social, sexual, afectiva), afecte sensivelmente a totalidade do mundo contemporâneo, em termos de comunidades e de indivíduos, não apenas enquanto prática e vigência, mas também de suturação e de condução marginal de disfarce, no exercício da «doxa» e de formas diferenciadas de suborno e corrupção; ora o sector de estudos correlacionado com as letras, e não só com os Estudos Culturais, que centralmente o exprime e questiona é, de facto, o dos Estudos Pós-coloniais. A segunda reporta a relação de dominação ao próprio campo do exercício da teoria, e aí é que talvez possamos começar a entender-nos e a considerar discriminadamente quem domina quem, e quem pode sobre quem, analisando criticamente as várias «doxas» na sua correlação com os vários tipos de cânone utilizados e com a dominância de discursos textualmente (na produção e na leitura) empreendida. As ansiedades de «influência» talvez sejam, de facto, outras, e uma ética do discurso começa a tornar-se de inspiração sensível que só a análise da questão do poder e da exclusão podem em rigor determinar. A terceira (e, por agora, talvez já chegue) é que só os Estudos Pós-coloniais podem impedir a unidireccionalidade implícita na ‘démarche’ pós-estruturalista e no esvaziamento discursivo pós-moderno, na medida em que vêm inevitavelmente relançar a questão política sobre as hesitações discursivas de teor ideológico, e colocar o problema da culpabilidade do filho tanto como da culpabilidade do pai, se conseguirmos escapar aos maniqueísmos de suposição do paternalismo cultural «inocente» e da piedade filial «incólume», de modo a que, na redistribuição da moralidade, todos efectivamente «comam», diferenciando-se devidamente, já se vê, os vários tipos de «antropofagia» cultural, tanto como o do grau «viajante» das respectivas teorias e modalidades de leitura.

Ciberkiosk — Pode, da e na Literatura Comparada (é-lhe coisa intrínseca enquanto produção de "sabedoria", de "sageza"), perceber-se que, como diria Gumbrecht, não faltam conhecimentos no campo dos estudos literários (que temos aí disponíveis todos quantos nos faltariam) e que o que é preciso fazer é coisas novas? Retomemos o título de Lenine (por ele mesmo retomado): Que Fazer? — Como comparatista, que sente poder e dever fazer?

Maria Alzira Seixo — Apenas citar o conhecidíssimo e inultrapassado excerto de Backett: «il faut continuer, je ne peux pas continuer, il faut continuer, je vais donc continuer, il faut dire des mots, tant qu’il y en a, il faut les dire, jusqu’à ce qu’ils me trouvent, jusqu’à ce qu’ils me disent, étrange peine, étrange faute, il faut continuer, c’est peut-être déjà fait, ils m’ont peut-être déjà dit, ils m’ont peut-être porté jusqu’au seuil de mon histoire, devant la porte qui s’ouvre sur mon histoire, ça m’étonnerait, si elle s’ouvre, ça va être moi, ça va être le silence, là où je suis, je ne sais pas, je ne le saurai jamais, dans le silence on ne sait pas, il faut continuer, je ne peux pas continuer, je vais continuer».

Ciberkiosk — Veria Fradique Mendes como seu antepassado comparatista?

Maria Alzira Seixo — Não.

Ciberkiosk — Presidente recentemente eleita da FILLM, como encara o facto?

Maria Alzira Seixo — Qual facto?

(*) Maria Alzira Seixo é Professora Catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A sua produção académica é vasta. Para além de estudos sobre Garrett, Camilo, Antero, Pessoa, José Marmelo e Silva, Carlos de Oliveira, Vergílio Ferreira, José Saramago ou Mia Couto, deve lembrar-se o importante papel que desempenhou e continua a desempenhar na reestruturação dos estudos literários entre nós, de resto acompanhando uma notável capacidade de fazer, que se exprime de forma apaixonada e militante. Ela foi quem apresentou de forma mais continuada e sistemática ao público português Benveniste, Barthes, Balibar, Genette e alguma outra narratologia, produzindo por conta própria e já um tanto nos limites da vaga estruturalista dois importantes estudos: A Palavra do Romance — ensaios de genologia e análise (1986), e a republicação da sua tese de doutoramento em filologia românica, Para um Estudo da Expressão do Tempo no Romance Português (1987). Dirigiu as revistas Ariane. Revue d’ études littéraires françaises, e a Dedalus, revista da Associação Portuguesa de Literatura Comparada. Foi, aliás, a alma mater da Associação. É dos territórios dificilmente demarcáveis da Literatura Comparada que evolui para posições críticas e teóricas que situam no exterior do estruturalismo: afirma a necessidade das chamadas Teorias Empíricas da Literatura, tenta repensar as relações entre estudos literários e didácticas da literatura como relações entre as instituições académicas e as instituições sociais, produz algumas notáveis reflexões sobre o pós-modernismo (cf. PostModernism in Portugal, in International PostModernism: Theory and Literary Practice, 1997), e devem-se-lhe, sem dúvida, entre nós, as primeiras demonstrações da operatividade analítica dos Estudos Pós-Coloniais. Na década final do século XX, o trabalho da investigadora não pode dissociar-se do seminário «A Viagem na Literatura», que criou com o patrocínio da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e que conseguiu integrar nos comités de investigação da ICLA (Associação Internacional de Literatura Comparada). Do que no âmbito desse Seminário foi sendo produzido, destaque-se o seu Poéticas da Viagem na Literatura (1998). É presidente em exercício da FILLM.