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«Só os Estudos Pós-coloniais podem impedir a unidireccionalidade implícita na ‘démarche’ pós-estruturalista e no esvaziamento discursivo pós-moderno, na medida em que vêm inevitavelmente relançar a questão política sobre as hesitações discursivas de teor ideológico, e colocar o problema da culpabilidade do filho tanto como da culpabilidade do pai, se conseguirmos escapar aos maniqueísmos de suposição do paternalismo cultural «inocente» e da piedade filial «incólume», de modo a que, na redistribuição da moralidade, todos efectivamente «comam», diferenciando-se devidamente, já se vê, os vários tipos de «antropofagia» cultural, tanto como o do grau «viajante» das respectivas teorias e modalidades de leitura».
A presente entrevista foi realizada por escrito, sendo as perguntas de Américo António Lindeza Diogo.
A Paróquia e o Mundo.
por Maria Alzira Seixo
Ciberkiosk— Contrariamente à Teoria, a Literatura Comparada ocupa uma posição
no currículo bastante marginal. Entre faculdades e escolas similares,
o frequente é que exista como opção ou não exista de todo. Face à abrangência
da Teoria, que envolve, ou a tal pretende, todas as literaturas que ensina
uma Fac., não se vê que a Literatura Comparada possa sequer ser uma prática
com amplitude equivalente como matéria lectiva. Em contrapartida, existe
uma associação de comparatistas como a de teóricos não existe, cujos congressos
mobilizam "todos" os professores de literatura e de teoria. Como comentaria
esta discrepância? Poderá fazer o historial da fundação das duas disciplinas
entre nós? Recordaria que a Literatura comparada existia nos USA com a
função de abrangência que a chamada Teoria depois lhe contestou e nalguns
casos usurpou (ironicamente, para a comparada regressar vencedora, em
alguns casos, sob o nome de Estudos Culturais).
Maria Alzira Seixo — Não penso que exista tal discrepância. Existe uma
história diferente dos dois campos disciplinares na universidade e na
prática ensaística nacionais, que obviamente conduz a situações de facto
diferenciadas, que além do mais se devem ao facto de que a Teoria da Literatura
(suponho que é a esta que a questão se refere) se encontra já radicada
curricularmente (tendo sido introduzida no final dos anos cinquenta),
e que a Literatura Comparada, receada pelo ensino salazarista pela sua
abertura à permeabilidade diversificada das outras literaturas e, sobretudo,
pela perspectiva internacional adoptada no trabalho de reflexão, só recentemente
nele penetrou. A Teoria da Literatura contou com a capacidade de difusão
lectiva que lhe soube imprimir David Mourão-Ferreira na Universidade de
Lisboa, a partir de 1957, e que, juntamente com Monteiro Grilo (o poeta
Tomaz Kim), assumiu o ensino da disciplina, apoiado por Jacinto do Prado
Coelho; mas parece-me evidente que, nos dias de hoje, a Teoria (sem genitivo
em aposição) se defronta com inúmeros problemas de afirmação e de aceitação
académica, e que o que aqui se considera como a sua abrangência se deve
afinal de contas à sobreposição que se pratica entre Teoria e Teoria da
Literatura, sendo esta a disciplina nominalmente existente em curricula
e programas, e a Teoria a que de facto é praticada em alguns casos, mas
de modo preferencialmente ligado a determinadas personalidades de docentes,
que não de existência oficial. A questão da abrangência mútua de uma disciplina
pela outra (no caso, da relação entre a Literatura Comparada e a Teoria
da Literatura) é actualmente cultivada, pelo menos no campo do trabalho
associativo, sem relações de precedências hierárquicas nem dramatismos
de competição. Que Wellek imprimiu uma dinâmica nova à Literatura Comparada,
integrando nela a Teoria da Literatura, é um facto incontornável, que
até os sucedâneos mais inflexíveis da escola francesa não se atrevem hoje
a pôr em causa; que por vezes certas perspectivas do trabalho de investigação,
ou algumas personalidades teóricas, incluem a Literatura Comparada no
âmbito dos estudos de Teoria, é também evidente, e poucos universitários
com papel associativo definido no comparatismo internacional pensam em
o questionar, por aceitarem tacitamente a reciprocidade das respectivas
inclusões. Não se trata de determinar um continente de trabalhos que englobe
o outro, mas de pensar a sua permeabilização recíproca, quando ela se
pode tornar útil e reveladora. A questão da usurpação recíproca pode de
facto fazer-se em alguns casos de modo polémico, mais ou menos fecundo
ou mais ou menos histerizante, mas não é de uma maneira geral considerada
negativa, distinguindo-se cada vez mais a personalidade do investigador
do problema da hierarquização das áreas; e, se é certo que os Estudos
Culturais vieram dar nova dinâmica aos Estudos Literários pelo choque
de parâmetros que envolviam, o que se verifica é que, também neste caso,
a zona de permeabilidade se está a evidenciar cada vez mais, e que, embora
com objectivos de especificidade e de questionamento distintos, as três
áreas não podem, em meu entender, considerar-se estanques, nem (e sobretudo)
a especialização numa delas invalida a necessidade de informação e pensamento
em relação às duas restantes. No fundo, a relação entre Literatura Comparada,
Teoria e Estudos Culturais, embora com o respeito devido às respectivas
dominâncias (e até com a diferenciação inclusiva que os vários caminhos
no interior de cada área implicam), diz-nos apenas, mas muito intensamente,
que o ensino e o estudo da Literatura: 1º - não podem mais praticar-se
como se praticavam há dez ou vinte anos (e muito menos como se praticavam
há trinta, o que EFECTIVAMENTE ainda acontece); 2º - que os Estudos Literários,
ao contrário do que se pensa e receia, não estão a apagar-se, mas a desenvolver-se
e a cobrir fenómenos de expressão e de comunicação cada vez alargados.
Ciberkiosk — Notoriamente, teoriza-se modicamente em Literatura Comparada,
e, entre nós, exceptuando Machado-Pangeaux, abaixo disso. Na disciplina,
produzem-se mais artigos e actas de Congresso do que teorias ou manuais.
Trocando as voltas a uma citação de Geertz, as coisas parecem da ordem
da tarefa artesanal da descoberta de princípios paroquiais em factos por
demais gerais. Como vê esta "sabedoria que vem de um monte de formigas"?
E, se o diagnóstico é possível (ainda quando errado), como se poderá ver
a sua remissão, enquanto comparatista (mas não apenas), para as teorias
ditas empíricas da literatura? Como relacionaria a teoria, e, sobretudo,
as espécies empíricas, com a Literatura Comparada? Necessidade? Desejo?
Maria Alzira Seixo — Penso ter já respondido a parte da questão quando
comentei a pergunta anterior, mas quereria sublinhar que de facto concordo
com o facto de que não se teoriza em Literatura Comparada entre nós (a
excepção a que se refere, desconheço-a, apenas conhecendo um livro dos
autores mencionados que em nenhum lugar do mundo será considerado como
teorização), assim como concordo com essa sugestiva observação que refere
o «monte de formigas» e os «princípios paroquiais», lamentando, ao invés,
que a tarefa artesanal também não seja ainda muito vultuosa, porque em
meu entender, é dela que poderá surgir o resto. Parece-me, no entanto,
que há artigos e actas de congressos que são de facto importantes, ao
contrário do que está implícito no seu raciocínio, e como tal não devem
ser desconsiderados; e quanto a teorias e manuais, do modo como o exprime,
não é do que pessoalmente mais sinto a falta ou desejo entre nós, isto
é, penso que não nos faz falta nenhuma e considero-o mesmo um sinal de
maturidade e de consideração adulta da questão. Além do mais, tenho em
grande conta as formigas, embora sinta particular atracção pelas abelhas
e lamente a falta delas na paisagem, mas se mel por enquanto não temos,
dispomos pelo menos já de viveiros bem providos, e, à falta de abelhas,
pelo menos as cigarras abundam, como é visível e audível, para enfeitar
o ambiente do literário. Repare em tudo o que se fez no âmbito da Literatura
Comparada de há doze anos a esta parte em Portugal. Passou-se nada menos
do que do zero a uma plenitude de trabalho, insatisfeita e em intenso
afã de complementação, que não permite, a meu ver, nem críticas de rejeição
nem de falta de lucidez: a criação e actividade regular da Associação
Portuguesa de Literatura Comparada, que já esteve sediada em quatro universidades
do país, e integrou membros directivos de várias outras, tendo já organizado
três congressos, com actas publicadas; a participação contínua de universitários
portugueses no Conselho Executivo e em Comités de Investigação da Associação
Internacional de Literatura Comparada; a participação de universitários
portugueses nos encontros da FILLM; a criação de Centros de Estudos Comparatistas
em universidades de Lisboa e do Porto; a publicação regular da revista
Dedalus; a criação de um «site» para o CEC de Lisboa; um projecto
em curso para a criação da revista «on line» Campo Grande; a organização
muito frequente de jornadas de estudos e de colóquios de índole comparatista,
por universitários portugueses, em Portugal e no estrangeiro. Numa dúzia
de anos, há-de confessar que não é mau, e que, se falta a teoria (… mas
ele haverá mister de teorias locais? não será isso também uma consequência
das carências mais clamorosas de certas fases, de certas ostentações lacunares?),
certas modalidades da prática abundam. Remissão ao empirismo? Não vejo
por onde ele anda, entre nós, e a verdade é que quanto a mim ele faz bastante
falta, sem lugar a que parte da gente do facto se remeta. Teoria, Literatura
Comparada e Estudos Empíricos são bons vizinhos, em certos quarteirões
do pensamento, embora rejeitados por outros, por elitismo ou abjeccionismo,
mas, em minha opinião, mal vai aos Estudos Culturais que completamente
se abstenham dos estudos empíricos, abstenção essa que, pelo que decorre
da minha resposta anterior, se virá a sentir de forma negativa no saldo
progressivo em formação dos Estudos Literários, teóricos e críticos, nacionais
ou comparatistas.
Ciberkiosk - Como encara os Estudos Culturais, quer
enquanto teoria crítica, quer enquanto desejo de relevância por parte
dos estudos literários (vamos falar com os alunos da cultura que eles
têm, etc.)? Ter-se-á transformado a Literatura Comparada em Estudos Culturais
(ou estará em vias disso?)
Maria Alzira Seixo - Não penso que haja qualquer
hipótese de transformação, nem sequer de «enriquecimento» no sentido em
que o termo é entendido pelo senso comum, enquanto aquisição de espécie
dispersiva ou indiscriminada. Mas o «formigueiro» aludido, se trabalhar
como o vigor que a fabulação clássica exemplarmente lhe atribui, até que
pode efectuar diligências construtivas que eventualmente constituiram
a tal paisagem onde a abelha pode encontrar sua colmeia e a cigarra seu
ambiente, em canto. Os Estudos Culturais, a meu ver, não são exactamente
uma teoria crítica, mas uma crítica da teoria, na medida em que lhe impõem
(também) o empírico e o adjacente, fazendo com que toda a Literatura (com
Teoria ou sem ela) e toda a Teoria (com Literatura ou sem ela) se reconsiderem,
e ajustem contas consigo mesmas. Não falo de exames de consciência, mas
de uma ciência do conjunto, da comunidade, do saber e da reflexão com-partilhados
por «niveis» culturais diferenciados e por «interdisciplinaridades» efectivas
(contra o multidisciplinar, pelo saber integrativo contra o adjuntivo),
de uma Literatura que se reparte LUCIDAMENTE (isto é, sabendo-o, e espalhando,
e porque não com brilho, essa saber) entre a textualidade e a reflexão,
que as mistura sabendo que são diferentes!!! A questão dos Estudos Culturais
parece-me central num momento em que o estudo das Humanidades deixou de
interessar a quem quer que seja apenas enquanto tal, porque a actividade
humana é múltipla e híbrida, contextual e formal, erudita e de forma «naïve»
inovadora, individual e colectiva, solitária e comunitária - e como é
que isso se ensina e investiga sem indagar do modo como a comunidade o
vive e faz, seja de forma especulativa, seja doutrinário-crítica, seja
mesmo basista, ou pelo menos com dados empíricos que dessa forma dêem
conta? Mas a universidade (porque eu falo do ensino académico, embora
não esteja especificado nas perguntas) é uma instituição determinada e
com características próprias, que se transformam não de fora para dentro
mas de dentro para fora (no caso contrário, então não existe, é feita
existir pelo exterior) e, nessa medida, não anda a reboque dos ambientes
culturais externos, antes os estuda, dialoga com eles e tenta entendê-los
e explicitá-los reflexivamente, sem forçosamente os aceitar. Nesta medida,
os Estudos Culturais são uma actividade comparatista importantíssima,
e mesmo indispensável, se queremos que as Letras e os Textos funcionem
socialmente, assim como o nosso saber sobre eles.
Ciberkiosk - Como situaria
a disciplina no grande debate epistemológico Universalismo-Relativismo?
E, se tivesse de colocar, colocaria a literatura mais no Universal e a
Comparação mais no Particular? Matizaria? E como? Razão ou Comparazão?
Razão e Comparazão?
Maria Alzira Seixo — Quanto à primeira questão, não
sei. O que de mim sei, é que ando em mudança, mas desconheço ainda para
onde - talvez para o silêncio. Quanto às outras questões da pergunta,
não consigo separar «literatura» de «comparação», porque muito saussurianamente
acho que escrever é comparar, isto é, sintagmatizar hipóteses de paradigmas
(que Bakhtine conformará mais tarde com felicidade na formulação do intertexto),
e, sobretudo, rejeito qualquer entendimento da Literatura Comparada como
uma comparação de literaturas, e mesmo de leituras (abomino as imensas
bibliografias decorativas de teor acumulativo). Literatura Comparada é
uma designação infeliz e inapropriada, como muito bem se sabe, e como
acontece de uma maneira geral com todas as designações, que são nomes
para entidades mutáveis e em potência de desenvolvimento e de preenchimentos
diversificados. Nunca acabaremos de discutir a pertinência ou impertinência
de designações como «pós-moderno» ou «pós-colonial», se tivermos tempo
ou interesse para isso, já que ele nos não sobra muito para estudar o
fenómeno, que é o que nos diz respeito, e, ainda hoje, mesmo as designações
de «clássico» ou «romântico» (não sei se os especialistas de Literatura
Portuguesa, depois de se ter bem averiguado o intensíssimo grau de rejeição
de Garrett ou de Camilo pela etiqueta de «romântico», já deixaram de incluir
estes autores no Romantismo…). Essa história da Comparação lembra-me a
do chocolate «Comacompão», que instituíu um desejo latente na miudagem
do meu tempo, que era o de comer chocolate com pão, e assim as mães passaram
a autorizar-nos a que tal fizéssemos, uma vez que a isso aquela barra
de chocolate mais propriamente se destinava. Porque elas, as mães, ficaram
sem saber qual era, de facto, o alimento primeiro, se era o pão, que elas
nos queriam dar, ou se era o chocolate, que nós primariamente parecíamos
pretender. E ninguém se preocupava em entender que nós gostávamos era
da mistura, da passagem constante, em prática gustativa de alternância
e simultaneidade misturadas, de um ao outro. Quer que eu lhe responda
de modo a que imediatamente me conteste? Então tome lá: relativizo a literatura,
sim, embora não seja stanleyfishiana; universalizo constantes, sim (tópicos
de sentido, géneros, modos prosódicos, isso mesmo, e sem qualquer pavor
de acusações terroristas de essencialismo - que, como muito bem sabe,
estende a sua sombra por toda a parte e sobre toda a posição…), embora
não parta deles para a crítica e para a leitura, mas ao contrário. Como
chocolate com pão, mas deixe que lhe diga que muitas vezes como pão sem
me lembrar que o chocolate existe, e que o meu melhor sabor do chocolate
é no absoluto da sua racional (bem estudada e preparada, selectivíssima!)
receita, sem sequer me lembrar de Álvaro de Campos. A alternativa «e/ou»
lembra-me sempre o dilema «a bolsa ou a vida», ou então, no nosso paradigma
literário, «Rodrigue, qui l’eut crû? Chimène, qui l’eut dit?», e parece-me
invalidar qualquer procedimento epistemológico que pretenda, não comprovar
uma verdade previamente admitida - via epistemológica infelizmente bastante
frequentadas -, mas indagar da sua possibilidade de suposição.
Ciberkiosk
— Aceitaria subscrever o contraste entre a dimensão planetária que a literatura
assume enquanto objecto de estudo e ensino da Comparatística e a irrelevância
social que aquela vem adquirindo de facto em todas as classes (incluindo
as escolares)?
Maria Alzira Seixo — Não subscrevo esse contraste enquanto
se me não manifestar com clareza a emergência empírica dessa irrelevância.
Ciberkiosk — A prática da dedução de factos paroquiais (tendência que,
porventura, exagerei) terá sido afectada pelos Estudos Pós-Coloniais,
ou terão estes a virtualidade de afectar decisivamente a literatura comparada
(e, por via disso, todos os estudos literários)? Se sim, porquê e como?
Se não, como e porquê?
Maria Alzira Seixo — Não creio que tenha exagerado
quando aponta essa tal dedução a partir dos factos paroquiais. Em contrapartida,
penso que os Estudos Pós-coloniais, sim, afectarão decisivamente TODOS
os Estudos Literários. Dizer como e porquê corresponderia a escrever um
ensaio que não tenho agora oportunidade para redigir. Ficar-me-ei, portanto,
por duas ou três alusões. A primeira corresponde ao facto de que, em termos
de globalização, é inevitável que a relação sócio-político-económico-cultural
entre colonizador e colonizado, assim como qualquer relação de dominação
e opressão (económica, social, sexual, afectiva), afecte sensivelmente
a totalidade do mundo contemporâneo, em termos de comunidades e de indivíduos,
não apenas enquanto prática e vigência, mas também de suturação e de condução
marginal de disfarce, no exercício da «doxa» e de formas diferenciadas
de suborno e corrupção; ora o sector de estudos correlacionado com as
letras, e não só com os Estudos Culturais, que centralmente o exprime
e questiona é, de facto, o dos Estudos Pós-coloniais. A segunda reporta
a relação de dominação ao próprio campo do exercício da teoria, e aí é
que talvez possamos começar a entender-nos e a considerar discriminadamente
quem domina quem, e quem pode sobre quem, analisando criticamente as várias
«doxas» na sua correlação com os vários tipos de cânone utilizados e com
a dominância de discursos textualmente (na produção e na leitura) empreendida.
As ansiedades de «influência» talvez sejam, de facto, outras, e uma ética
do discurso começa a tornar-se de inspiração sensível que só a análise
da questão do poder e da exclusão podem em rigor determinar. A terceira
(e, por agora, talvez já chegue) é que só os Estudos Pós-coloniais podem
impedir a unidireccionalidade implícita na ‘démarche’ pós-estruturalista
e no esvaziamento discursivo pós-moderno, na medida em que vêm inevitavelmente
relançar a questão política sobre as hesitações discursivas de teor ideológico,
e colocar o problema da culpabilidade do filho tanto como da culpabilidade
do pai, se conseguirmos escapar aos maniqueísmos de suposição do paternalismo
cultural «inocente» e da piedade filial «incólume», de modo a que, na
redistribuição da moralidade, todos efectivamente «comam», diferenciando-se
devidamente, já se vê, os vários tipos de «antropofagia» cultural, tanto
como o do grau «viajante» das respectivas teorias e modalidades de leitura.
Ciberkiosk — Pode, da e na Literatura Comparada (é-lhe coisa intrínseca
enquanto produção de "sabedoria", de "sageza"), perceber-se que, como
diria Gumbrecht, não faltam conhecimentos no campo dos estudos literários
(que temos aí disponíveis todos quantos nos faltariam) e que o que é preciso
fazer é coisas novas? Retomemos o título de Lenine (por ele mesmo retomado):
Que Fazer? — Como comparatista, que sente poder e dever fazer?
Maria Alzira
Seixo — Apenas citar o conhecidíssimo e inultrapassado excerto de Backett:
«il faut continuer, je ne peux pas continuer, il faut continuer, je vais
donc continuer, il faut dire des mots, tant qu’il y en a, il faut les
dire, jusqu’à ce qu’ils me trouvent, jusqu’à ce qu’ils me disent, étrange
peine, étrange faute, il faut continuer, c’est peut-être déjà fait, ils
m’ont peut-être déjà dit, ils m’ont peut-être porté jusqu’au seuil de
mon histoire, devant la porte qui s’ouvre sur mon histoire, ça m’étonnerait,
si elle s’ouvre, ça va être moi, ça va être le silence, là où je suis,
je ne sais pas, je ne le saurai jamais, dans le silence on ne sait pas,
il faut continuer, je ne peux pas continuer, je vais continuer».
Ciberkiosk
— Veria Fradique Mendes como seu antepassado comparatista?
Maria Alzira
Seixo — Não.
Ciberkiosk — Presidente recentemente eleita da FILLM, como
encara o facto?
Maria Alzira Seixo — Qual facto?
(*) Maria Alzira Seixo é Professora Catedrática da Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa. A sua produção académica é vasta. Para além
de estudos sobre Garrett, Camilo, Antero, Pessoa, José Marmelo e Silva,
Carlos de Oliveira, Vergílio Ferreira, José Saramago ou Mia Couto, deve
lembrar-se o importante papel que desempenhou e continua a desempenhar
na reestruturação dos estudos literários entre nós, de resto acompanhando
uma notável capacidade de fazer, que se exprime de forma apaixonada e
militante. Ela foi quem apresentou de forma mais continuada e sistemática
ao público português Benveniste, Barthes, Balibar, Genette e alguma outra
narratologia, produzindo por conta própria e já um tanto nos limites da
vaga estruturalista dois importantes estudos: A Palavra do Romance
— ensaios de genologia e análise (1986), e a republicação da sua
tese de doutoramento em filologia românica, Para um Estudo da Expressão
do Tempo no Romance Português (1987). Dirigiu as revistas Ariane.
Revue d’ études littéraires françaises, e a Dedalus, revista
da Associação Portuguesa de Literatura Comparada. Foi, aliás, a alma
mater da Associação. É dos territórios dificilmente demarcáveis da
Literatura Comparada que evolui para posições críticas e teóricas que
situam no exterior do estruturalismo: afirma a necessidade das chamadas
Teorias Empíricas da Literatura, tenta repensar as relações entre estudos
literários e didácticas da literatura como relações entre as instituições
académicas e as instituições sociais, produz algumas notáveis reflexões
sobre o pós-modernismo (cf. PostModernism in Portugal, in International
PostModernism: Theory and Literary Practice, 1997), e devem-se-lhe,
sem dúvida, entre nós, as primeiras demonstrações da operatividade analítica
dos Estudos Pós-Coloniais. Na década final do século XX, o trabalho da
investigadora não pode dissociar-se do seminário «A Viagem na Literatura»,
que criou com o patrocínio da Comissão Nacional para as Comemorações dos
Descobrimentos Portugueses e que conseguiu integrar nos comités de investigação
da ICLA (Associação Internacional de Literatura Comparada). Do que no
âmbito desse Seminário foi sendo produzido, destaque-se o seu Poéticas
da Viagem na Literatura (1998). É presidente em exercício da FILLM.