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Recensões, sem pretensão de canonizar. Daí a predominância da publicação única, do excêntrico, do bissexto. Parte de CongreGagos um sítio multiplex.

Aldeias e Fragmentos. Sobre Bellis Azorica de João Miguel Fernandes Jorge

Os Açores são na obra de Jorge o território de eleição. Dedicou-lhes dois livros de poesia, este que é de factura excepcional e Terra Nostra (1992) que o não é. Os Açores não são todavia o local, se não como optados e preferidos. A eleição do termo é uma adopção de pai, de mãe e de pertença, que vai do núcleo para a periferia ou do centro para as margens, num movimento acaso desdobrável na biografia.

Carnaval e Versalhes. Sobre Gótico de Fernando Guerreiro

Vi há dias num dos canais de televisão por cabo, e pela primeira vez, Scott Walker (?) quando jovem. Cantava «Unchained Melody». Surpreendeu-me não a timidez, que esperava de ter lido algures, nem a desprotecção que buscava defesas na vontade de agradar, o que é comum, mas que não fosse corporal o que até aí me parecera que fosse, e dos graves aos agudos: o micro sempre à mesma distância da boca, o corpo parado, a face limpa de esgares. A víscera era representada pela voz, e com decoro.

Cais de Merendas. Sobre Imagens de Ana Luísa Amaral

Imagens começa por uma epígrafe que é um cânone de «objectos». Possuem estes parentesco com os volumes gnómicos com que alguma poesia de 70 se tornou «ontológica» para se ter a si mesma como fito, sem deixar de ser sintaxe (e.g. Ramos Rosa e O Ciclo do Cavalo). A epígrafe, que é uma frase incompleta, antecipa que Imagens comporta ‘cavalos’, ‘cortinas’, ‘bastidores’ e ‘navios’, e que ‘navios’, ‘bastidores’, ‘cortinas’ e ‘cavalos’ são o «material» relevante com que são feitos os seus textos. Adianta ainda, parece, um princípio de composição.

Re|Senhas juntará um número de recensões tal que nelas se possam descobrir senhas. Grandes são os tempos!

Destaque

Transformações Infoliterárias. Sobre Teoria do Homem Sentado de Pedro Barbosa

Passou, e há muito tempo já, a fase heróica da «Poesia Experimental», embora pais, filhos e filhos dos filhos continuem a recorrer ao seu ethos. O desafio à instituição literária, a inovação, a revolução, o cientismo, os mass media supostamente tomados para modelo, contrastam porém com a institucionalização de práticas circunscritas ao «mundo da arte», à Academia e a Institutos de Pesquisa. Já se argumenta apenas que o Experimentalismo tem direito a partilhar o espaço e os bens do campo literário com a Poesia Tradicional. De facto, como o não teria? Quando muito frequentemente se pensou (e pensa ainda) a herdeira legítima de toda a tradição poética universal, à qual ela apenas estaria em condições de contemporaneamente dar sentido, a «Poesia Experimental» é já meramente uma presença que entre outras se constata. Consequências pós-modernas.
A «Poesia Experimental» (aspo o que uso numa acepção genérica) é desde os inícios um conjunto de práticas neovanguardistas cujos produtos se podem relacionar em termos de semelhanças de família, sendo que alguns não parecem ter nada de comum entre si.