No. 01
Setembro 15, 2005

Opiniões De Alguém Que Não É Crítico Sobre Os King Crimson

Nos anos 90 do século passado, os King Crimson refundaram o rock com um duplo power trio: duas guitarras e dois conjuntos de baixo e bateria (Belew, Fripp, Gunn, Mastelotto, Levin, Brufford). Posto tal refundação passasse despercebida (tal ia e vai o rock), ela vem patente em Vrooom (ep, ou «cartão de convite», dixit Fripp) e em Thrak (álbum ou porventura a «carta de amor» que o primeiro não era). Uma boa parte das frippetronics, a julgar pelos concertos normais desta formação, foi deixada aos baixistas (que, de resto, também tocam stick e aplicam o arco sobre as cordas de alguma versão de contrabaixo — talvez um stick ainda); Belew traz não apenas a guitarra ao grupo, mas um renovado sentido de lyrics, que apenas tangencialmente estão próximas — e de quando em quando — quer dos delírios verbais (Lizard é o expoente desse surreal), quer da poética de qualidade, um tanto BBC ou French & Fine, dos inícios (cf. Night Watch); surgem modulações pop do rock que são muito Beatles (ou John Lennon, cuja voz Belew aliás emula); a base da música encontra‑se não raro em algum groove comum de todos, som gordo, pesado mas de passada larga, e não apenas, como o outro que diz, resiliente, porém ainda excepcionalmente rebondissant (como em «She’s So Heavy», de Lennon); reside também num ajustar (propriamente pop) às medidas da canção, sendo‑nos dada para prova uma daquelas grandes realizações do anelo e da pungência de que os KC têm o segredo — «One Time» —, agora todavia com o elemento inesperado de uma base rítmica latin, como hoje se diz. Quando se é os King Crimson, refundar o rock é também refazer os KC. Mantêm‑se, e exponenciados porque os bateristas são dois, aqueles jogos da batida nos limites e mesmo no exterior do tempo, os padrões rítmicos intrincados, que são muito pouco usuais no rock; e Vrooom e correlatos tornam novas todas aquelas composições extremamente análogas e excepcionalmente assertivas (Red, Lark’s Tongues…), que declaram o que é o rock através de uma assinatura: algum pesado negrume de existir um cosmos e de haver gente, que nenhuma forma de hard rock ou de trash rock conseguiu minimamente exprimir; em Vroom, todavia, dos acordes massivos desprende‑se uma cascata cristalina de notas (guitarra de Fripp), vertiginosa sucessão de ostinatti e arpégios, uma forma de lentidão encontrada na velocidade, a qual, se vem do alto, não acaba nunca de cair; e, indiferente ao drama icárico, o baixo vem a primeiro plano espreguiçar a elegância das suas notas prolongadas sobre o picado de Fripp. Refundar o rock, quando se é KC, é também certamente manter este logro de velocidade ou repetição minimal adquirida em caminho (cf. Indiscipline, se não erro) e fazer caber «Cage» num minuto e pouco (nos concertos que tenho gravados atingirá os três minutos padrão) — mas seria sobretudo praticar o equivalente da improvisação a que Fripp chama thraking e que em Vrooom assoma muito nua naquele «número» intitulado When I Say Stop, Continue e que temos de considerar aludida no título do álbum fundador; todavia, poucos fans do rock e dos KC seriam capazes de «atender» a tal festim, como se prova pela pouca estima que viria a obter THRaKaTTaK, registo de uma sessão de thraking ao vivo, exactamente com esta formação.

About the Author

Ensaísta Austríaco, autor de ensaios e rescenções sobre literatura portuguesa.