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PARTE I
CAPÍTULO I
ADÍLIA LOPES OBRA
A
Poesia, dizem, é o rebordo negativo da
comunicação. A poesia de
Adília Lopes é pelo menos mais complexa e mais simples do
que isso.
Talvez tenha conseguido tratar a poesia considerada linguagem
restritíssima como informação ou publicidade
universal. A última Adília
escreve axiomas e legendas. Os conceitos submetem a
informação poética
à redução que economiza a Arte.
(Gunvald Wahlöö)
Se a maioria dos
poetas em existência parece não gerar grandes
incompatibilidades de juízo «estético»
(alguns poderiam ser outros
quaisquer), a poesia de Adília não emparelha facilmente
com outras; mas
também não diverge delas propriamente em questões
de Arte. É-lhes
indiferente.
Numa poesia que se prezou de inovação, dir-se-ia que uma
grande porção
de poetas existe em regime de plebiscito que protege quer dos mestres
quer da sua contestação — da
«autodestruição» da arte —, enquanto
Adília Lopes elimina mestres, «vanguarda» e
plebiscito na «pessoa».
(cf. Diogo, 1998: 78 e ss)
Adília não conduz a poesia à qualidade, i. e., ao
juízo de gosto
universal, consensual ou plebiscitado (não me refiro ao gosto
vulgar e
comum em forma de multidão, mas ao dominante no campo
literário dito
autónomo, que é grosso
modo bom gosto e classe média)1.
1
«A alegre pequena equipa, na sua totalidade,
volta portanto a
interpretar em farsa a tragédia da matança das formas
artísticas,
explorando-a com uma parcimónia de gente com rendimentos a
prazo.»
(Internacional Situacionista, 1997: 122-3)
CAPÍTULO II
AUTORIA E AUTORIDADE
‘Adília Lopes’
é o que permite passar da «mente» ao modus
vivendi».
(Rita Minardi)
Enquanto os nomes dos
poetas se tornam citações cum auctoritate, o nom de plume
‘Adília Lopes’ é seguramente mais o da
criada e menos o da
autora. A insignificância do nome próprio pode
também estender-se aos
títulos de poemas, comprometendo do mesmo modo o autor e a
dignidade
dos autores.
Um bom exemplo parece ser o que se passa com «Monumenta
Henricina». Em
O Clube da Poetisa Morta é porventura o único texto
«poético», por
lição de 70. Em Sete rios entre campos o enigma do seu
sentido é
elucidável de dois modos incongruentes. O esburgar do poema
original
limpa-o de implicações e ressonâncias de arte
(existentes como tal
porque signées Fernandes Jorge):
Monumenta Henricina
Tu tens o cargo de receber
as coisas que são apartadas
por minha alma
pois a ti foi dada de sesmaria
certa terra minha
para fazer em ela çumagral
porque tu meu servidor
és o meu contador
dou-te pois o recebimento
dos dez reais
que são para Ceuta
assim tens tu o cargo do recebimento
do nosso tesouro
em a dita cidade
e seu termo
(Clube 27)
Americano gigolo? Monumenta
Henricina?
Toma os dez reais
que são para Ceuta
não me quero esquecer
de nada
atrás de mim
em a dita cidade
e seu termo
(Sete rios 48)
Banalidade de um
contrato em torno de terra e dinheiros, tornada
pompa por uma língua velha, velhos costumes, uma
enunciação muito
segura das posses e dona porventura da alma com que as tem. A suposta
impermeabilidade poética ao contexto, que reconhece o seu igual
num
entorno morto e o adopta; permeabilidade do texto descontextualizado a
todos os contextos, significada na possibilidade, que se oferece, de
uma leitura «obscena» e, pelo cinema, muito moderna e
leiga. Um poema
como o primeiro — não me refiro a ele, mas ao
«original» — reclama uma
autoridade para a poesia que repete a definição da poesia
(ou já da
literatura) efectivamente existente e fundada em autoridade: linguagem
diferente, discriminativa e de preferência vetusta, que
está nas
escolas como um análogo da nação anosa onde cabem
as classes sem
discriminação.
Adília faz com a sua poesia o que faz com a poesia dos outros.
Num certo sentido, ela é poesia de outros.
CAPÍTULO III
A NOSSA PRISÃO É UM REINO
A lógica é a
noiva; a «batata» e a «pessoa» seus solteiros.
(Adinilson L. Martins)
É nesta
situação «impura» que Adília Lopes nos
propõe, também ela, a
sua Obra. Como quem coloca a sua Cruz na Rosa do Presente — e
Adília
assina cada vez mais de cruz —, permite-nos apreciar cerca de duas
décadas de produção própria e pôr em
perspectiva uma poesia
contemporânea muito menos definível enquanto tal, e que,
no entanto, em
termos portugueses, foi constituindo maiorias ao centro, e às
avessas
de Álvaro de Campos: nenhum poema em linha recta, poeta
heróico-elegíaco e supondo-se «dissidente»,
integração do «real» nas
boas formas da linguagem e do sentimento, suplementação
da metafísica,
liturgia. Quem, se não Adília, foi capaz de
começar um poema assim, e
com palavras de outro: «Eu que já fui do pequeno
almoço à loucura» (O
Decote da Dama de Espadas 42)1?
Num certo sentido, os poemas de Adília são completos.
Não nascem como
fragmentos para serem destacados, separados, circunscritos pelo que
falta. Em geral, não comportam ainda nem objectos nem
símbolos dados à
contemplação estética. (cf. Silvestre, 1999)
Alguma coisa lhes consente
a concisão — o humor? —, enquanto outros, por contraste,
demandam
«sentido» e «sentimento» que antecipam a
aprovação que o Poeta de
Pondichéry busca coitado. Usam de uma linguagem que
constrói, que se
especializa, e que, por isso mesmo, e não exceptuando os poetas
mais
enxutos e que praticam a vigilância sobre a forma, não
escapa ao juízo
de prolixidade — uma vez que, face à profundidade do
«objecto», a
linguagem seria sempre redundante. Não há aqui um
poeta-padre que
dirigisse a Deus directamente, e só a Deus, o ofício da
missa santa. A
poesia de Adília não é vestalizada e desconhece os
páramos da Musa. Nos
poemas de Adília a linguagem não alcança um
«objecto» e um «símbolo»
através de alguma desadequação linguageira.
Não parece nunca um
artefacto auto-sustentado, parco em símbolos, e estes
«correlatos
objectivos», apontando oblíqua, paradoxal ou ironicamente
para uma
verdade essencial, sem estes recursos inapontável. A
última Adília é
como os balineses; não tem arte; faz tudo o melhor que sabe.
Esta poesia indigna não tem a presença que
«toda» a nossa poesia
recente presume ter. O comentário ao Almoço do Trolha salta sobre
o
momento de graça que transcende a representação em
presença; não lhe
acha um espírito santo. O mesmo valeria para toda a obra que por
sua
conta apostasse nessa transcendência contra a
representação (cf. o
sublime à Rothko). Os comentários de
«Adília» acrescentam à obra que
comentam e reduzem uma «ideia exterior» que nega a
transformação da
suficiência formal em (boa) consciência. A este movimento
não escapa
ainda a anti-Arte. Leia-se em Irmã Barata, Irmã Batata:
«Instalação de
Christo: cobrir por completo o chão da praça de Tiananmen
com ketchup.
Ketchup é um molho chinês e uma palavra chinesa».
(Irmã Barata 20) A
arte enquanto pública e coerência local não
alcança ser a realidade,
porventura melhorando-a. Repare-se na natureza filológica do
comentário, que mima o conceptual em forma de
instrução (o infinitivo
regente). Pedestre e patuda, a «filologia» demove as
pretensões da
«metafísica» ou da «teologia» em pontas
estéticas. Nenhum
sentimentalismo engordado pela indignação. Recusada, a
arte não chega a
serviço (ao) público, nem pelo consenso sentimental, nem
pela
heroicização admirável do Autor self-made self.
1 O poema
A Elisabeth foi-se embora é um dos poucos na poesia
portuguesa à altura da brutalidade metafísica de coisas
como as de
Campos, e, entre todas elas, o poema sobre a dobrada à moda do
Porto,
servida fria pelos missionários da cozinha. Veja-se tudo o que
Adília
faz com o «túnel».
CAPÍTULO IV
A AMA E AS FORMAS
Aqui está a
beleza, aqui tu consomes.
(Internacional Situacionista, 1997: 143)
A forma de
Adília não é de resto o «poema», mas o
«livro». No
«livro» os poemas são completos; não abrem a
um ponto de fuga estético
que é sempre um acordo com esse público que, mesmo
restrito, dispõe dos
temas grandes e dos temas maiores. (Kraus, 1998: 66) O
«livro» — a ama
e as formas — é uma «estrutura» de acolhimento em
que a relação entre
«sujeito» e «objecto» não se situa
além da linguagem, e não é
purificada por sentimentos transcendentais ou por formas vigiadas,
equivalentes do conceito. A lógica é uma
função do humor que não
revoca, a forma é mistificada, a «pessoa» é
datada, o sujeito cogital,
restituído pelo poético, não se desprende da
sensualidade, da
animalidade, da infância, da experiência e do apetite1. No «livro»,
onde a lógica é mergulhada na língua como
«lógica da batata»,
(Silvestre, 1999) tornam-se elásticas as quatro formas do
princípio
suficiente: a causa destaca-se do efeito, o fundamento da
crença, a
premissa da conclusão, o motivo da acção. Tudo
isto que dotaria a obra
de uma afinidade com o camp,
(Diogo, 1998) na medida em que aí se dava
figura a uma História emancipada de causas e visões do
mundo, e por
isso percebível esteticamente, a arbítrio2, acaba finalmente (i) num
deixar do sentido ao «acaso», como quem se regesse pela
«lógica da
batata», ou como quem, em questões de sentido da vida,
pelos dedos
contasse («meu menino / seu vizinho / pai de todos / fura bolos /
mata
piolhos», Florbela Espanca espanca 30) e (ii) nos saltos da
fé: «acção
/ não é / a vida / a vida é / a
acção / de graças». (Florbela Espanca
espanca 20-1)
Quando o poema, porque cultura e melancolia (superioridade de
professores que herdaram a acedia
e um mundo com ela), supõe um «eu»
muito puro e alheio à convenção social, um
«eu» que estaria «lá» mas
fora do foco do leigo presbita, o discurso de Adília no seu
melhor
mostra o «eu» como pedra de fecho da abóbada
conceptual e brinca com o
«eu».
É certo que a interrupção do monólogo
transcendental não se processava
longe dos moldes do «moi haïssable», quer como o belo
que foi «eu» —
disso que encontra consenso e retribui aprovação —, quer
como a
«pessoa» pungentemente cómica e apanhável em
faltas de gosto —
reprovável e corcunda infinitamente susceptível, que
é um corpo
estranho nas rotinas do belo: «já fui bela uma vez agora
sou eu» (O
Decote da Dama de Espadas 43); «e o chantagista publicava um
postal
ilustrado / que eu escrevi a Diderot de Pondichéry» (O
Poeta de
Pondichéry 23). Como se pode ler na primeira obra de
Adília:
agora já nem consigo
dizer nada de mim para mim
o de mim para mim acabou
não há lugar para mim
num quadro de Rubens
(Um Jogo Bastante Perigoso 23)
Um quadro de Rubens
é um mundo pleno, esteticamente justificado (um
«monólogo transcendental»). Enquanto forma
«eu» é uma ratio
estética
transposta como mundo para o mundo que a admira: poder, egoísmo,
destreza de espírito. (cf. Diogo, id.: 85) A questão
é muito
precisamente estética, ou seja, da especialidade e sob a
autoridade
social de doutores esteticistas e cabeleireiros (todos nós):
não posso passar sem
a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth?
eu só gosto que seja a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
(…)
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu antiséptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth era a princesa das raposas
porque me roubou a Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida
(O Decote da Dama de Espadas 43)
Que corpo subjaz
à maior parte do consenso poético contemporâneo —
à
sua violência simbólica? Que corpo corresponde à
linguagem poética
corrente? O corpo neutro, mas não obstante centrado, senhoril e
com a
autoridade advinda da inacção expectante de quem se
apresenta modelo e
mesura. É o corpo da auto-apresentação do autor,
acarinhado pela
«filosofia», e, sob o polido narcísico, muito
redondo assaz.
Body Art?
Com os remédios
engordo 30 kg
o carteiro pergunta-me
para quando
é o menino
nos transportes públicos
as pessoas levantam-se
para me dar o lugar
sento-me sempre
Emagreço 21 kg
as colegas
da Faculdade de Letras
perguntam-me
se é menino
ou menina
No metro um rapaz
e um velho
discutem
se eu estou grávida
o rapaz quer-me
dar o lugar
Detesto
o sofrimento
(Sete Rios 42-3)
A poesia parece ter
voltado a ser questão de alguns discursos que
são afirmados através do «eu». Esse
«eu» antecede «afirmações», esse
«eu» equilibra o ovo afirmativo de «ideias» e
«ideais» os mais
«elevados» e convenientemente personalizados.
O «eu» na obra de Adília parece antes
subsumível no modus vivendi.
Se o
«eu» — incapaz de de ser reles e de praticar uma baixeza —
é
basicamente uma distância da «mente» em
relação ao mau gosto e à
inabilidade para o trágico, que é uma distância de
«poesia», em Adília
toda a poesia acaba a ser mais um discurso social, i.e, um forma de
condicionamento empírico do «eu» e da
«mente» e do «gosto». É o que se
pode deduzir também da transformação da
criatividade incondicionada (a
«melancolia» sem objectos no mundo é uma sua
figuração — que de resto
calha bem às meias competências protegidas dos
provincianos de umas
galáxias apartadas) em cómico, jogo de palavras, dito de
espírito e
«boçalidade».
Toda a obra de Adília se dirige contra a suficiência
estética,
resumível na forma «eu»; todo o cómico, todo
o absurdo, toda a
incongruência (e alguns traços inegavelmente
«idiotas») se dirigem
contra isso que na poesia, na arte e na vida é incondicional
«publicidade em favor da existência». (Adorno, 1984:
435) Obras tão
notáveis como O Poeta de
Pondichéry — que é de uso resgatar da
insignificância, por isso, é de suspeitar, que o
«drama» é artístico e
mesmo angústia da influência — e Maria Cristina Martins são
os cumes de
um «processo cómico feito ao cómico» e
«ao humor satisfeito». (id.:
ibid.) O que da obra mais ressalta é «a inanidade
manifesta da
pretensão da subjectividade a ser trágica». (id.:
ibid.) Ou mesmo,
porque o que está em pauta não é Beckett mas
lirismo, heroicamente
elegíaca. E não é irrelevante que a
transformação da subjectividade em
cómico de «pessoa» tenha como seu contexto a arte e
a estética
invadidas por «psicologias da vulgaridade». Que dizer a
isto, muito já
sem o álibi Adília Lopes: «Tenho uma doença
mental, tenho uma doença de
pele. A pele é exterior, o cérebro é interior.
Tenho um eczema, tenho
uma psicose. Às vezes penso que a pele é interior e que
os meus miolos
estão à mostra como a mioleira da vaca no balcão
do talho». (Irmã
Barata, Irmã Batata 23)?
1
Partindo do princípio que os exemplos devem ser bons exemplifico
com
um poeta infinitamente superior ao comum (Carlos Poças
Falcão) o
desprendimento cogital alcançado via poesia, o monólogo
transcendental,
a ausência de «pessoa», a transcendência
rothkiana de toda a
representação em amigos que orbitam sobre
«nuvens», eles mesmos
«nuvens», assim tornadas homeomorfas do
«lugar». Não tocando no sentido
óbvio, que se quer sentido simples (as nuvens empanam a
amizade), as
«nuvens» dão o «lugar» e o
«lugar» é o «sagrado». A amizade
é
apre(e)ndida através da vocação manifesta da arte
modernista para o
espaço, onde se guardaria do tempo e demais vicissitudes. Esta
dicção
simples e muito comunicativa apoia-se no poético de Helder usado
com
parcimónia e como sinais de esperanto e língua franca:
«cintura
magnética», «orbitação diurna».
Transcreve-se:
HINO
(Falcão, 1999: 66)
Dar
espaço, ver ao longe as amizades a brilhar
estelarmente. Movem-se, enlaçam-se os seus ritmos
e em gravitação vão abrindo um firmamento.
Dar
espaço, para visitação e crescimento.
Deixarmo-nos levar pela cintura magnética
às noites uns dos outros.
É
por contentamento que os sinais são emitidos
por vezes de tão longe, mas logo tão presentes
que a densidade aumenta e despertam novos sóis.
Porque
é muito espaçosa esta arte dos amigos:
não tocam no rebordo de uma natureza frágil
senão para curar e afagar.
Se
há um turbilhão eles não se distanciam
conhecem que é o tempo a querer desmanchar o espaço
e por isso dão-se espaço e apuram-se mais tempo.
Se
há nuvens, deixam-nas passar.
Rodam bem por cima em orbitação diruna
e quando as nuvens passam estão onde amam estar.
2
«Almoço do trolha //
Pobríssimos / as cabeças cortadas / mas tão
felizes / homem mulher e bebé / de um tijolo / do patrão
/ fizeram
assento / o Estado Novo impede-os / de tirar os sapatos / o Partido
Comunista também / desce sobre eles / o Espírito Santo /
do almoço /
vão comer língua?» (Clube da Poetisa Morta 19) Face
a um regime a que
repugnava o pé descalço e que escondia a mendicidade, o
Partido
Comunista, supondo-se não hipócrita, reivindicava como
seus os valores
da «dignidade» que o Estado Novo policiava como
«compostura».
Tratava-se de dar a uma questão política um consenso de
«arte», pois «é
preciso ter boas maneiras / em toda a parte / especialmente / em
questões de Arte.» (Sete rios 60) A arte é um
análogo das boas
maneiras, e se calhar tanto mais quanto essa arte for questões
de Arte.
CAPÍTULO V
FIGURAS DA EXPERIÊNCIA
O mundo é uma casa
de passe
com as paredes salpicadas de framboesa
O mundo é um matadouro
disfarçado
com as paredes forradas de cetim
(Adília Lopes, Sete rios entre campos 44)
As inexactidões
da «pessoa» destoam da chamada
«perfeição» para que
tende o mundo. Assim como o Sr. de La Palice será vítima
da «entropia»,
há quem seja vítima de Beethoven (Para Elisa!), ou de uma
observação de
Pessoa sobre Milton. No caso do Para
Elisa, uns dias a peça era tocada
pior e outros menos bem do que quando se merecera os cumprimentos de
uma pessoa que se estimava — depois do cumprimento, o intérprete
nunca
acertava com aquele seu dia triunfal (O Decote da Dama de Espadas 52-3)
Os desastres de Sophia do eu — que começam por decorrer dos
exageros da
espontaneidade, mas também dos excessos do zelo e do são
desejar, que
tudo deitam a perder porque justamente comprometem a mesma
espontaneidade — são postos na perspectiva da
«pessoa» colocada sob a
expectativa da aprovação do outro. Este, todavia, ou tem
mais em que
pense, ou é incapaz de significar o que quer por
inequívocos sinais.
Atina-se por acaso e depois é hoje e é eu; é-se
susceptível a uma
palavra casual, «indiferente», que se torna oracular e cai
num «eu» com
uma força de destino que o transforma em saco roto. No caso da
observação pessoana tornada observação
pessoal por uma atenção
delirante (por um delírio de deferência e de respeito),
também a vida
escapa à excelência, impondo a «pessoa»
à autora, que acaba a «dar
erros de ortografia» e a «esfregar o chão numa casa
de passe» onde «os
clientes e as prostitutas» são «mais afáveis
do que Milton». (Idem
54-5) Retoma-se O Poeta de
Pondichéry (1986), vítima como
«pessoa» de
Diderot; e antecipa-se o bordel de Maria
Cristina Martins (1992),
talvez com um estado anterior no armazém de A Pão e Água de
Colónia
(1987) que não restitui a avó e a mãe originais. A
última casa antes do
nada parece uma forma cómica de salvar o optimismo quanto ao
mundo
concebido como melhor mundo possível. O desastre dá
origem a uma
resposta estética não apósita; a vítima
indicia a mesma estética como
inadequada, ou já o monólogo transcendental.
As vantagens estranhas de se viver no melhor mundo possível
descobrem-se na substituição dos «originais»
por «falsos» ou
«derivados»: a casa pelo armazém, mãe e
avó por aproximações, a nursery
pelo bordel, Milton por prostitutas e fregueses; o Para Elisa por
chocolate quente e comprimidos para dormir, um vestido infeliz por uns
botões mais inexpressivos, uns brincos por uns anéis. Nos
dois últimos
casos, e o procedimento é muito corrente na obra de
Adília, as
«pessoas» que se regozijam com o mundo enunciam uma doxa anterior ao
presente estado do mundo. Invoca-se a Providência, sabido que
é que
escreve Deus direito por linhas tortas:
as duas meninas acederam de boa vontade
ficou cada uma com o seu anel
e não se cansaram de espantar
com o destino que tudo encadeia e concerta
se tivéssemos as orelhas furadas
só podíamos usar o par de brincos à vez.
(O Decote da Dama de Espadas 68)
para chegar a estes botões
foi preciso comprar aquele vestido infeliz
não há acasos
no encontro e desencontro
das pessoas com os vestidos
(Idem 69)
Tudo isto se joga no
desajuste entre a satisfação esperada e a
satisfação obtida. Em torno desse desatado configuram-se
ficções
diversas. Fica-se com o pouco que se transforma em grandeza do destino;
a «pessoa conclui-se numa história de clara
derivação infantil-popular,
esquivando-se a qualquer estado de saciedade imaginária: o
completo que
a deixa para trás na larga romaria das pequenas e grandes
histórias,
que são consequência e causalidade, não cessa de
espantá-la. A história
acaba para que não cesse a «pessoa»; a
história tem uma moral e ter uma
moral é ser «pessoa» que se contenta com
«pouco». Ao invés, uma «moral»
torna uma história conclusiva, limpando-a de todas as
aderências do
acaso; a «pessoa» é agarrada pelo
«pouco»; e o âmbito de aplicação da
moral da história é restrito e é nulo — diz apenas
respeito ao domínio
de objectos da história, ou seja, aos encontros e desencontros
das
pessoas… com os vestidos (ir)respectivos. Aplicando às
ocorrências uns
óculos «estruturais», muito parecerá que a
pessoa é um si que,
buscando-se a si destinado, adopta algum desirmanado como seu objecto
de concretização e de favor. Conforme se perspective o
desemparelhamento (conforme domine ou não a história),
assim as subtis
variações do humor e do cómico que todavia tendem
a rodar em torno da
inabilitação do «eu» como
«pessoa», que ou é ressalvada pela (moral da)
história ou passa ao lado da história. Aliás,
também aqui as variações
são muitas e todas com interesse. A pessoa é o que volta
a si pela
nenhuma diferença com as pessoas, o que é talvez uma
variante sobre a
presença positiva e «nula» do eu da
enunciação; a falta de jeito da
«pessoa» sobrepõe-se nolens volens ao indiferente
contar-se das
histórias, que antecede a «pessoa» para ser
«mundo»; a «pessoa»
encontra-se em histórias que não são suas e muito
como não pode deixar
de dizer «eu»; a «pessoa» é
vítima obstinada e inocente das histórias
alheias, que extraem da inocência da «pessoa» —
muitas vezes social, e
logo doxa — uma
experiência que em rigor a «pessoa» não tem. A
«pessoa»
está em algum «livro», tal como está em algum
«eu», em alguma
«história», em algum «mundo» — nalgum
completo que o é, dir-se-ia,
porque nele não há um lugar para si. Como a
história não pode deixar de
ser história e logo chegar a fim como quem a uma moral chegasse,
consegue-se ser uma personagem de Berthe Bernage (a quem ainda por cima
foram restituídas características e episódios
postos sob tabu como a
menarca ou o assédio sexual infantil) numa história
eticamente
avançada: é o caso da Continuação
do Fim do Mundo. A «pessoa» é uma
Sofia que não aprende com os desastres, não adquire
experiência, antes
se acha adquirida por esta e desde sempre. Esta estranhíssima
sabedoria
da «pessoa», que é um D. Quixote de espécie
nova, decorre de não se dar
por achada numa história para onde ninguém a convidou.
O «romance» dos brincos é submetido a
«bifurcação sucessiva»
(divergência e aumento de incerteza), finda a qual fica a
«(outra)
pessoa» — um diferencial de satisfação
esperada/conseguida que impõe
(i) a exclusão da «pessoa» a partir da identidade da
«pessoa» com
qualquer outra «pessoa» e (ii) o sucedâneo ou o
derivado. Este é tal no
«romance» que a «pessoa», posta na
história dos outros, deve
contentar-se com a (boa) intenção alheia. A
operação é lógica e fundada
em binários, ou seja, é uma moral inamovível,
graças ao que o evento
recupera, na própria intenção, da
disjunção entre intenção e evento. A
«pessoa» adopta o que a faz «pessoa»: a
transformação da experiência em
comunicação que torna a doxa
um paradoxo.
Divido a minha vida
em duas partes
uma em que tinha orelhas
e não tinha brincos
uma em que já não tinha orelhas
e toda a gente me dava brincos
para me consolar de duas coisas
de não ter orelhas
e de não ter tido brincos
quando tinha orelhas
de todos nós assim era eu só
porque orelhas tinha duas
(A Pão e Água de Colónia, sublinho)
Na forma exemplar de
um desastre de Sophia, em todos os casos gera-se
uma figura da experiência que, no momento em que surge, surge
para
anteceder toda a «juventude moral». A meu ver, o qui pro quo tem as
ocorrências mais notáveis em três textos: no
encontro com a «cena
primitiva» transcrita para cães rafeiros, em O Decote da Dama de
Espadas; no último poema de Um Jogo Bastante Perigoso; e num
aforismo
de Irmã Barata, Irmã
Batata. A inocência comunicada é pervertida a
latere, transformando-se em cinema sem banda sonora; o que
não
aconteceu existe como comunicação e maximamente; a
diferença entre
esperado e obtido, intenção e evento pode ser apenas uma
diferença de
ênfase — decorrer «logicamente». Em várias
modalidades, um conhecimento
vem negar a inocência e quase sem contacto. A inocência
é experiência,
e logo continuação de algo. A «pessoa» posta
no mundo dá a ver que o
mesmo «mundo» é desde sempre o fim do mundo
«continuado» —
descontinuado, vale dizer de um Éden ou de uma Origem. Afirma-se
uma
incerteza no aparentemente mais certo (ou no mais expectável);
dispensam-se factos e existência. A «pessoa»
está no mundo e o mundo é
experiência, mesmo quando ainda não se experimentou. Ser
«pessoa» é
ser-se antecedido pelo mundo. Começa-se por se ser violado e
todo o
início é a posteriori.
(A Continuação 90) A «pessoa» é uma
função da
entropia, na medida em que ser-se «pessoa» é ser-se
expelido da
Presença para a incerteza. A experiência é aquela
mácula original que
justamente nega a existência de uma Origem. Ser-se
«pessoa», enfim, é
ver desmentido o monólogo transcendental pelo mundo
provável. O poema
de Carlos Poças Falcão pode servir como
exemplificação de uma negação
do mundo provável pelo monólogo transcendental. Cito os
textos:
A menina, aflita, gritou à mãe:
— O outro vai matá-lo!
Mas a mãe, embaraçada, calou-a:
— Não. É um cão e uma cadela. Não olhes
para lá.
Então a menina tapou os ouvidos.
(O Decote 26)
O que me custou
foi tudo ter acabado
como tinha começado
como se nada se tivesse passado
durante
ora o que se passou durante
ainda hoje me incomoda
e portanto deve ter acontecido
(Um Jogo Bastante Perigoso 59)
Roubei uma vez um livro de uma biblioteca
pequeníssima. Foi a
tradução inglesa do Frei Luís de Sousa feita por
Edgar Prestage no
princípio do século. Fui ver se o
«Ninguém!» tinha sido traduzido por
«Nobody!» ou «No one!». Foi traduzido por
«No one». (Irmã Barata, Irmã
Batata 7)
A experiência é um erro sobrevivente
(e logo, num certo sentido, a inocência).
CAPÍTULO VI
JUSTIÇA POÉTICA, PSICOLOGIA
E REPRESENTAÇÃO DE FAVOR
O meu sentido de humor
é o meu sentido de amor sem ironia.
(Adília Lopes, «A Minha Filha» 81)
Considerar a
sobrevivência do erro como futilidade, e transformar a poesia em
filosofia no bordel.
(Nathan McWilliams)
À conta do seu
desprendimento «cómico», a linguagem de O Poeta de
Pondichéry, de Maria
Cristina Martins e de A
Continuação do Fim do
Mundo adquire a densidade e a complexidade da vida
própria. Defendo
agora a sua «literariedade». Torna-se não apenas
«apropriada» a
situações imediatas, mas também ao projecto
abrangente, que, sendo
«romanesco» ou mesmo «dramático», tem
também a ver com o «mundo». As
«pessoas» seguem um «prestígio»
(Diderot, M. le Prince, o Amor) que as
conduz à «tuerie» com a obstinação
«quixotesca» de uma doxa
não muito
longe da etiqueta ou das boas maneiras (e também dos bons
sentimentos),
e que atropela o princípio da realidade. Aqui não importa
que a
história, por condição, decorra e se afaste da
Origem através de um
encadeamento de «consequência» e de
«lógica»:
O lar da terceira idade
que se seguiu
às doenças
que se seguiram
aos maus empregos
que se seguiram
ao desemprego
que se seguiu
ao suicídio
que se seguiu à sida
que se seguiu
à droga
que se seguiu
à violação
não aflige Túlio
nem Maria Andrade
que começaram
por ser violados
mas que em todo o lugar
têm espaço para sonhar
mesmo no não lugar
dentro da cabeça
e do cu
que a violação foi
nos consultórios
do Dr. Figueiredo Nunes
e da Dra. Malheiros
a posteriori
com a cama de casal
com o pinheiro bravo
quase entrando
pela janela
de permeio.
(A Continuação 90)
A imagem
instantânea e estilisticamente não tratada reaparece,
modificada em si ou notoriamente pelo contexto — caso do pinheiro de
fálica presença que antes fora árvore de Natal —,
e em geral impondo
uma nova possibilidade da «história» em mais um
começo a posteriori.
Amplifica a relação entre eventos e personagens, ou
antes, o
desencontro entre «pessoas», como focos de
intenções — e
acontecimentos, como objectos de intenções, a que,
todavia, são
indiferentes. Desprende-os de uma estrita causalidade e concede-lhes
significações mais abstractas. As imagens funcionam por
toda a obra
independentemente da intriga — por um efeito de
construção, em Maria
Cristina Martins a história não cessa de
começar —, solicitando ao
leitor respostas motivadas pela situação romanesca ou
dramática mas não
de todo a ela acorrentadas. Enfim, a diferença entre o
conhecimento da
personagem e o conhecimento do leitor não é do tipo
habitual nas
ironias. O que o leitor sabe não é a verdade avessa do
que sabe (ou, em
rigor, ignora) a personagem. Não é difícil
perceber que o contexto onde
se move a personagem é contínuo ou construído com
algum saber do
leitor, que é uma superioridade sobre a «pessoa».
Mas o ethos da
personagem é impossível naquele contexto que é ao
leitor tão
complacente. A personagem move-se como um clown trágico num ambiente
que lhe é hostil. As palavras que a «a dor» lhe
arranca não comovem
penedos com a dignidade humana nem elucidam os Fados, que são
surdos:
«Guilherme chamava-se Hipólito»; (Maria Cristina
Martins 62) não há
acasos nos encontros e desencontros das pessoas com os vestidos.
A personagem não é No
one!, porém No one.
Constantemente violada (e
também pelo leitor), a personagem vive em todo o lugar: casa de
fazendas, bordel, prisão onde escreve com as unhas —
indiferentemente
dentro «da cabeça / e do cu». Lembremos a
bifurcação sucessiva, que é a
continuidade por consequência, e que penso eu que seja
também utilizada
como uma figura do afastamento irreversível da fonte e da
origem, tal
que não há conservação de
«energia», estabilidade da «figura», pureza
da identidade ou do sentido que se suporiam dados à partida, e
adequação do ser ao mundo. Às quebras da
necessidade na suposta
perfeição daquele — que são por si só
«experiência» e por si só
antecedem e impossibilitam uma qualquer nudez edénica, seja ela
estética ou moral — corresponde a figura de Babel a que, mais
tarde, se
irão opor o «Pentecostes» e a
«linguística histórica». E, já agora,
a
«lógica da batata», nunca longe do humor.
Descrevo a emergência de uma segunda fase na obra de
Adília a que, suponho eu, serve a primeira de fundamento.
O humor que adopta uma perspectiva contrária ao
«humano» — humano
definido por «Kant», por «Comte» e pelas
gramáticas normalizadas de
todas as boas linguagens e boas formas — assume por isso (i) a
superfície abstracta das coisas, então manejáveis
por uma aritmética
simples ou por um método e noções claras:
dispõe «as complexidades da
vida humana numa ‘forma tabular’». (Nussbaum, 1995: 1) Em
seguida, o
«cálculo» que circunscreve a superfície das
vidas para colar o plano
delas numa página sem profundidade (ii) confronta-se com um
peculiar
contar pelos dedos (coisa corporal, analógica,
«didáctica») que exibe a
desadequação da contagem ao modus vivendi. O que os dedos
contam é o
que as «noções» julgam infinitamente
fútil; e contar pelos dedos deixa
a vida no seu andar para cá e para lá. A lógica
não é o árbitro do
diverso. Não há um árbitro do diverso. Na forma da
lógica, o conceito é
desviado para clown a cuja
muda e inexpressiva causticidade —
proveniente da sua mobilidade e da sua insensibilidade ao contexto —
nenhum jurídico nem nenhum costume podem opor reserva e
seriedade. Há
costumes, há pessoas; pessoas e costumes improvisam
jurisdições. A
indiferença da forma ao conteúdo torna-se, como quem diz,
justiça
poética exercida sobre os encadeados mecânicos do
«mundo» — e sobre o
sujeito que se presumiu autofundado e, que, em boa verdade, se refugiou
na poesia que lhe acenava, talvez, com a sua condição de
coisa lírica.
Representações segundas em Adília (pastiches, paródias,
citações com
autoridade, sem autoridade e desautorizadas, redução do
ícone ao
grafito, tradução da obra de referência num poema
que se fica pela
epígrafe, o poema como comentário
«filológico», etc.) não envolvem
nostalgia. A nostalgia como recurso
«meta-psicológico» de onde se
extrai uma arte (um ideal) não acontece em Adília. A
«pessoa» evita a
melancolia que alucina um todo (orgânico) onde antes estivera
(mas já
não está) ou uma tradição ou a
composição racional. Põe em causa a
subjectividade excepcional e não empírica que funciona
como uma Causa
Transcendental. Nem centro de uma intimidade onde se originam formas
únicas, tão orbiculares e rematadas como ela, nem o
«eu» distinto
produzido pela elegia manhosamente magoada.
O estado segundo das representações invadidas pelo
pormenor
impertinente contraria a lógica da representação
enquanto representação
da lógica. A poesia não é aqui a
encenação manicurada sobre o «eu» da
apropositação, da proximidade e da Voz, dos pares
conceituais
(forma-matéria, sujeito-objecto…) que são o nocional
imaculado e
colocam ao dispor do monólogo «uma mecânica
conceptual, à qual nada
pode resistir.» (Heidegger, 1991: 20)
CAPÍTULO VII
ALÓGICA DA BATATA
É extraordinária a persistência do
reconhecimento impensado da
poesia como estética — forma, bom gestalt e boa forma — , que
permite a
sua utilização como transdutor estético das outras
artes (cf. os tropos
ekphrásticos em torno do Museu Imaginário), e muito
à margem de
transformações ocorridas nessas outras artes. No seu
reduto estético,
as mais das vezes é transcendência e graça; tanto a
construção verbal
como a oração elegíaca rodeiam uma Ideia, um
Logos. São o Som do
Sentido, his master’s voice.
(Marta Pulgar)
Em A Pão e
Água de Colónia, livro que abre com o détournement de
Chomsky (da sua gramática lógica) que
«bifurca» a diferença entre uma
arma verdadeira e uma arma de sabão (O Inimigo Público nº 1
de Woody
Allen?), o «cogital» e o seu «conceito»
são desfeitos e refeitos,
jogados entre palavras. Em vez do «ego» que seria o fecho
de abóbada do
conceito, o conceito como um «brinquedo», uma
paranomásia
insignificativa (l-egos/egos), a que me proponho acrescentar o
topónimo
Selfridge. Consente-se que a personalidade exista por
condições de
matéria, sem «egos», examinável como um
conceito decomponível em peças
(cientificamente) e não como um pleno nocional imaculável
(filosoficamente). Assim, sete rios entre campos mais tarde:
A Classificação Colon
foi inventada por Ranganathan
nos anos 20
ao ver um mecano
nos armazéns Selfridge
em Londres
assim um conceito
é um brinquedo
decomponível em peças Legos
personalidade matéria energia espaço e tempo
(não consta que Raganathan
tivesse problemas de egos)
(Sete rios entre campos 62)1
Como se sabe — o que até torna a
datação pertinente —, problemas de egos estão
no centro das poéticas modernistas, a título de piedade
«orgânica». À redução
científica do conceptual acrescenta-se, aliás,
uma lição ainda científica. O que a ciência,
esse inimigo jurado da
«poesia», submete a decomposição no
domínio dos conceitos apresenta-se
na vida como mistura; a mesma pureza não se obteria, se alguma
vez se
obtivesse, sem custos de entropia. O «eu» e o
«tu» tinham afinal a
forma impura «outra pessoa», que somente o
«livro» poderia acolher na
sua nursery, de resto
não muito longe de uma casa de passe recorrente
(capaz de acolher, porque as gentes são clientes e
provisórias, e o
mundo um vale de lágrimas que é um vale de risos). O puro
conceptual
não guarda nenhuma coisa consigo, e num invólucro de
brancura; por mais
que amavioso e baixinho chore, um «eu» não
introjecta uma perfeição tal
que lhe permita idealizar-se redondo mesmo. Tudo é diverso entre
diversos e a posse (o egoísmo) uma realidade que se aprende
partilhada:
depois ouvimos falar na entropia
aprendemos que não se separa de graça
o doce de framboesa do remédio misturados
é assim nos livros
é assim nas infâncias
e os livros são como as infâncias
que são como as pombinhas da Catrina
uma é minha
outra é tua
outra é doutra pessoa.
(O Decote da Dama de Espadas 12)
A «entropia» é de resto uma das
figuras da obra de Adília Lopes.
Dir-se-ia que num primeiro momento a «entropia» transforma
o «eu» em
(outra) «pessoa», ou o vitimiza em
«bifurcação sucessiva» — no caso de A Pão e
Água de Colónia, em Sr. de la Palice. A fatuidade
do ego é
derrotada pela inanidade máxima do conceito:
o Sr. de la Palice foi uma vítima
da entropia
por isso mesmo
quanto a mim
as suas máximas são as mais radicais.
(A Pão e Água de Colónia)
A Adília cristã virá a afirmar
juntamente com a entropia a
neg-entropia, adequadamente contextualizada com a
redefinição do ego
cogital em termos de desejo, trocando ainda ou mudando de
condição
«pessoa» e «história», inocência e
experiência, verdade e autoridade, e
a apetência do conceito pelo ser. «Histórias»
terão o fim que é agora a
sua lei de consequência, seta de tempo e lei leteia; pelo desejo,
«pessoas» são eus que não cessam de ser;
ainda que mais experiente do
que «logicamente» poderá ser, a «pessoa»
será sempre verde (é sua
condição ressuscitar); a frágil sageza comum
consiste em máximas de
ocasião que são coeficientes erráticos de
correcção de acções e que, em
princípio, autorizam qualquer boca; não há ser sem
estar:
A segunda lei da Termodinâmica
a lei leteia
a seta do tempo
a serpente do Paraíso
a entropia
existe
mas também
o Novo Testamento
e as sete artes
existem
para a contrariar
(desejo, logo sou
e eu não acabo
de ser)
(Florbela Espanca espanca 10, sublinho)
Mais afirmativamente:
Estou verde como o mar ao meio-dia. Estou contente. O
mundo não
acaba. A entropia não aumenta sempre porque o mundo não
é um sistema
isolado. Acho que do outro lado está Deus. O mundo e Deus
comunicam.
(Irmã Barata, Irmã Batata 19)
Sagrado e vulgar como a vida, o «eu»
é afirmação e negação e não
um protesto de candura:
Sou e estou. Eu sou eu e a minha circunstância,
como disse Júlio
Iglésias. Eu não sou eu. Eu sou aquela que não
sou. Não, que disparate,
eu sou eu. Já morremos todos e já ressuscitámos
todos. Agora há que
viver a vida.
O Diabo é aquele
que diz «Eu sou aquele que não sou». Sou eu
às vezes. (Irmã Barata 22)
Na primeira Adília, por um lado, a clausura
conceptual era
transformada em insanidade conceptual, adstrita a duas figuras da
«entropia» — «pessoa» e opinião (Sr. de
La Palice, «quanto a mim») —
que não consentem que se diga «eu» sem que eo ipso a mesma
«entropia»
seja corroborada; e, por outro lado, em «mistura», que,
não consentindo
a pureza e obrigando à «infância» experiente e
ao «livro», não podia
resgatar-se de graça. Na segunda Adília, por obra das
«sete graças» e
da graça, o «eu» que é desejo rompe a
clausura conceptual. Mas esse
«eu» é agora marcado pelo género sexual. O
«eu» que não é pretexto
conceituoso é feminino; Adão é a figura
narcísica do conceito, o
sujeito cogital que diz não a Eva, e não sem analogia com
o diabo:
os homens
que escreveram
o Génesis
não pensaram
que Adão
em vez de saudar
Eva
com um grito de júbilo
a mandasse embora
com sete pedras na mão.
(Clube da Poetisa Morta 24);
Adão também se reconheceu no espelho. Mas
Adão era Narciso e sabia
que era Narciso. Achou imediatamente que no Paraíso fazia falta
a
Fundação Adão. (Irmã Barata, Irmã
Batata 18)
A obra é muito sensível a uma
incongruência não remível nem pelo
«eu» nem pelo «conceito». Parece ser
possível e conveniente substituir
o rigor pelo à peu près.
Recorro a uma história ultrajante, da primeira
fase:
Minha avó e minha mãe
perdia-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim
uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
mas não eram bem as minhas
ficámos porém umas com as outras
para não arranjarmos complicações.
(A Pão e Água de Colónia, sublinho)
A fábula tem inegavelmente um sabor
kafkiano, e
logo pelo pequeno
funcionário cumpridor que existe pela organização
e se obstina numa
espécie de greve de zelo que presume o sentido no sem-sentido e
por
isso mesmo o compromete «subjectivamente». Nas costas do
conceito que
manda contar até Um, aparece uma avó como figura do
excesso — como nos
diz o texto, Mãe há só uma (e quando é uma,
não é a Mãe) —, e aparece a
empresa que se torna a casa burocrático-metafísica do
sujeito,
cumprindo aproximativamente os prazos de garantia do Um.
A ideia geral parece ser que o mundo transborda de
«observáveis». Em A
Pão e Água de Colónia, o que excede
é da ordem do pormenor que por
norma sobra à definição do todo pelo conceito, e
que, quanto mais mínimo
e incongruente, mais contesta no mundo a noção de todo.
Há uma
«exactidão» no pormenor, dispensável na
transcrição de um conjunto em
«forma tabular», que é exactamente sem sentido e sem
conceito (mas não
inefável); e, dado que o pormenor é solidário de
outros pormenores, tão
indefinidamente «parafraseável» como uma
metáfora. O pormenor é
contingência e introduz um desarranjo na consequência das
histórias. É
uma versão menor e desviada da questão filosófica
«porque é que há ser
em vez de nada?». A epígrafe do Poeta de Pondichéry:
Porque é que o mau poeta deve ir para
Pondichéry e não para outro
lugar? Porque é que os seus pais são joalheiros? Porque
é que juntou
100 000 francos? E porque é que passou doze anos em
Pondichéry? Não sei
explicar. O que me atrai é precisamente isto: Pondichéry,
pais
joalheiros, 100 000 francos, doze anos (O Poeta de Pondichéry
11)
Veja-se também as
«Microbiografias», e esta por todas:
Um quadro de Ensor
que tinha sido roubado
estava enterrado a 30 cm de profundidade
na praia belga de Mariakerke.
O que
teríamos no «mundo» seria da
ordem de um excesso nada
enfático: efeito sem causa, crença sem fundamento,
conclusão sem
premissa, acção sem motivo. Na melhor Adília,
disjunção e incerteza
regem o sentido da vida, sem restrições à presteza
enunciadora. Em «La
Boîte à Tokyo», a demanda conclui-se com a
integração do título no
poema pela rima e não pela razão. O que o título
promete salda-se numa
decepção sage do sentido. A moral da história
coincide com uma história
que falha à conclusividade:
LA BOÎTE À TOKYO
Aquele que a procura
ainda não voltou
ou porque ainda a procura
ou porque já a encontrou.
Esta caixa, se caixa é, pode ser a que
(re)aparece em Irmã Barata,
Irmã Batata. Aqui, a simplificação pela
«lógica» evidencia a ausência
de certeza (e por isso, em certo sentido, torna evidente a entropia, na
medida em que esta seja uma incerteza que não decresce):
Há uma caixa em Paris que tem uma pulga dentro. A
caixa é
rectangular e está dividida ao meio por uma divisória.
Pode-se separar
a caixa nas duas metades sem abrir a caixa. A caixa é opaca. A
pulga ou
está numa metade da caixa ou está na outra. Separa-se a
caixa nas duas
metades. Leva-se uma metade para Tóquio, deixa-se a outra metade
em
Paris. Agora a pulga ou está em Paris ou está em
Tóquio. Há 50% de
probabilidades de a pulga estar e Paris e há 50% de
probabilidades de a
pulga estar em Tóquio até se abrir uma das metades da
caixa. Mas,
quando se abre uma das metades da caixa, não há a certeza
de a pulga
estar em Paris ou em Tóquio. (Irmã, 17-8)
Para a segunda Adília, a
«lógica da batata» funciona, porém, como o
fizeram os enunciados pirrónicos do cepticismo ante Descartes.
Como
igualmente supunham uma relação de consequência
entre mundo e Deus, ao
invalidarem o mundo validavam Deus. Continuando a permitir o
começo
abrupto que significa a primazia da acção ou do evento
sobre a
explicação («A minha tia Graça atirou-se de
um 60 andar abaixo.
Morreu.», Irmã Barata 7), antes de Deus a batata da
lógica permitia
validar a ausência de conclusão face aos eventos do mundo
(a
dissociação entre intenção inábil e
o objecto irregular) ou a conclusão
fraca e o silogismo menor que por norma debilitavam toda a moral, e
logo a das histórias que seguem lépidas e não
esperam por ninguém. Os
eventos e objectos eram objectos e eventos fingidos por linguagens; sem
grande sentido os cuidados de precisão; e fátua ou tola
(inabilidade
trágica, se há personagem) a conclusão para que se
precipitam
linguagens e histórias. Ana Bela
é nome de guerra; a guerra que se
prepara é uma marca de impermeáveis, os quais, e tanto
pior para as
seguranças da virtude, podem fazer a felicidade de alguns:
a Ana Bela é que já deve ter descoberto
que os impermeáveis Parabellum
não fazem a a felicidade de toda a gente.
(Um Jogo 21, sublinho)
Antes de Deus, mas, em boa verdade, nunca muito
longe dele, a
«lógica da batata» transformaria num
«tabique» aquilo que «separa o
horror / do resto» (O Peixe na Água 18); e, expondo
à vida, sublinharia
a «ouro» a fractura do «espelho». Aí,
crer depende de viver; vem depois
de um arte de viver em desastre e sem estro:
Reconciliada com as memórias
«C’o largo Mar de tua Graça
imensa?»
D. Francisco Manuel de Melo
«Antes da confissão»
Eu no espelho
colada com cola
mais bela
do que dantes
como o prato Zen
que tem as fracturas
sublinhadas
com ouro
obra da fortuna
boa e má
obra da falta de afecto
e do afecto
Narciso e anti-Narciso
viver para crer
(O Peixe 27)
A vida, Augusto Comte, é um mar de miosótis
a vida é andar para cá e para lá.
(Clube da Poetisa 11)
Nada na vida dá a garantia de ser limpo nu liso
inteiro. Nem aquele
quartinho em que está o eu, um quartinho que seja seu, porque
mesmo o
eu é o outro.
(Irmã Barata 14)
Não se reconhece no que a vida não garante
os termos e condições por
que passou entre nós a glorificação
estética do poema: «limpo nu liso
inteiro»? Não é essa definição
repraticada pela ausência de vírgulas, a
mimar a superação virtuosa do enunciado (do lego) pela enunciação
transcendente (do ego)?
A reconciliação do pensamento com a vida (mar de miosótis)
começa pelo
reconhecimento da vida como errância sem sentido,
deambulação alheia ao
conceito directivo e ao ego
«director de consciência» (andar para cá e
para lá). Faz-se também pela aceitação do
«eu» como «espelho»
fracturado (obra da fortuna má e boa). Num mundo agora
reconhecido
barroco, não há lugar para a pureza conceitual e para
imagens de
favor3.
Está saturado de «pessoas». A vida é um ter a
ver do cu com as
cuecas:
A vida é barroca
coisa entre moléculas
é claro que o cu
tem a ver com as cuecas
(«Nota da Autora» a O Regresso de Chamilly)
Um espelho limpo liso nu inteiro é o que separa
Eva e Adão:
Deus acabou com Adão, com Eva e com a treva.
Partiu o espelho ao
meio e pôs as duas metades em frente uma da outra, paralelas uma
à
outra. E assim deixou o Paraíso num Inferno. (Irmã Barata
18)
Figura da
resistência ao sentido e à antropomorfização
do sentido
como «eu» e «conceito» é a
«irmã barata». A barata integra o livro nursery, e como
irmã (salto extraordinário sobre a inexpressividade e o
não afim, de que beneficia igualmente a batata), justamente
porque não
é uma forma «eu». O que a barata é, é
o que da barata se ignora.
Escapa-se para um à parte todo ele non sense: «(era uma vez uma
barata
que fazia operações: tirava da barriga das pessoas
tostões)» (Irmã 16)
Está já nos romances de A
Dama de Espadas; foi resgatada, note-se, da Autobiografia
Sumária de Adília Lopes, que consistia nestes
três versos:
Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas
(A Pão e Água de Colónia)
Na Autobiografia
sumária de Adília Lopes 2, escreve-se esta
correcção que é atenção ao
território, ausência de idolatria do natural
e de ingenuidade quietista:
Não deixo a gata do rés-de-chão
brincar com as minhas baratas porque
acho que as minhas baratas não gostam de brincar com ela.
(Irmã Barata
12)
Adiante acrescenta-se uma chegada à
maturidade (e é a Autobiografia
sumária de Adília Lopes 3):
Os meus gatos já deixaram há muito tempo
de brincar com as minhas
baratas. A Ofélia tem 12 anos, seis meses e sete dias. O Guizos,
segundo o Dr. Morais, tem 9 anos. Entretanto gatos morreram, gatos
desapareceram. Estou a escrever isto no computador e não sei do
Guizos
há três dias. (Irmã Barata 21)
A barata, digo eu — que gosto de dizer coisas —, por
inexpressividade refractária a línguas e
histórias, apresenta-se
equipada para recomeçar o Éden, na ausência de bem
e mal, de perigo e
de pureza:
Depois do holocausto, a barata Eva e a barata
Adão comerão da maçã.
Mas isso não será pecado. E uma humanidade de baratas
viverá feliz para
sempre num Paraíso sujo de restos de pessoas que não
será sujo para
ninguém. (Irmã 16)
1É
preciso transformar a lógica em irmã e batata: «A
lógica é uma
batata. A gramática é lógica aplicada. a=a
não interessa nem ao Menino
Jesus. a=b só tem interesse porque a não é bem b.
Uma rosa não é uma
rosa não é uma rosa. Partir de a=b para chegar a a?a.
Reduzir ao
absurdo. Cante Kant. Conte Comte. O verbo ser não é igual
a ser igual.»
(Irmã Barata 16)
2
Esta poesia é materialista, e tanto mais quanto o seu
materialismo
não se resgata por um determinismo. A aproximação
à certeza «pela
metade» mostra-nos vivendo num universo material,
estatístico,
descontínuo, a que lançamos remendos de continuidade:
Adão e Eva,
cadela e cão, o mar verde ao meio-dia, e o Deus que está
do outro lado.
Vive-se no mais (im)provável dos mundos, onde se chega à
máxima do Sr.
de La Palice e os sistemas ordenados custam informação e
energia.
«O quem me importa
mais
é viver
passar
os meus dias
na rua
nos cafés de Madrid
a dizer
tolices» (Lorca)
(Florbela Espanca 34)
CAPÍTULO
VIII
POP E CONCEITO, POESIA E FILOLOGIA
A poesia de Adília definir-se-á por alguma
negatividade? Talvez, mas
mais institucional que «ontológica». Possivelmente,
poesia para Adília
é desadjectivação. Possivelmente, a
desadjectivação rima com um
alhear-se da «qualidade».
(Nathan McWilliams)
Ao circunscrever-se a especificidade desta obra, como
pode
convocar-se ao mesmo tempo a pop
e a arte conceptual, (Silvestre, id.)
a agilidade eufórica de Pierrot
le Fou, não embaraçada pela moderna
floresta de signos, e a filologia pedestre? O maior problema parece
residir na aproximação entre representações
que afectam a nenhuma
distância (o nenhum desdém conceptual) para com a doxa, as imagens, o Kitsch, a
indústria, as artes ou a cultura low brow e a distância
conceptual que tanto age na rasura da felicidade
«retiniana» por
proposições como na crítica das imagens (já
protótipos sociais ou
institucionais) pela letra redonda dos
«comentários». Na verdade, pop e
conceptual convizinham em Adília por um processo de
demoção das
modulações estéticas implícitas e
explícitas dos «objectos» de Arte
(poemas ou outros) e pela eliminação das
impressões digitais do estilo.
O esburgar de poemas e práticas alheias, como se o que se lhes
retira
fosse a imagem (presença, graça e qualidade) vai na
última Adília até à
desmaterialização conceptual do poema. Pese a Kosuth,
não se confunda,
neste ponto, «conceito», que é lego de proposições,
com Ideia, que tem ego e
personalidade; nem se afaste este «conceitualismo» da
«filologia»
e da máxima do Sr. de La Palice, dependente da opinião e
da «pessoa»
(«J. Pinto Peixoto», professor de Adília):
Segundo J. Pinto Peixoto
o Sr. de La Palice foi uma vítima
da entropia
(A Pão e Água de Colónia)
A entropia
fala-nos de obstáculos a todo o
princípio antrópico, ao
autor criador, ao seu «eu» e à sua
criação1:
«pessoa» empírica com nome
de Hipólito ou de J. Pinto Peixoto, doxa, axiomas
«radicais», mistura
impurificável de gostos e noções e sua
reequilibração pelo «zero»,
desvios do todo para o pormenor irremível,
substituição «ilógica» do
puro pelo à peu près,
e «lógica» tolhida pela excepção
vulgar e
vulgarizada — ou por microbiografias como esta que, se forem haikai a
desatenderem o ego,
são incríveis porque com humanos e urbanos:
What?
Sidney Rome2
preocupa-se mais
em salvar o diário
do que as cuecas.
(Sete rios entre campos 29)
Correlativamente, a poesia de Adília
assume-se como uma muito
curiosa inquirição filológica, de que faz parte a
«linguística
histórica».
Num aparente propósito de desbabelização, a
última Adília — «Babel foi
resgatada / pelo Pentecostes / e pela linguística
histórica» (O Peixe
na Água 38) — recorre à mais humilde das ciências
humanas, e a mais
científica, não obstante: a filologia. É
obviamente também uma
filologia de recurso, apesar de marcada pelo Pentecostes, que
estabelece afinidades com a proposição, ela mesma
atarantada pelo
rigor, ou com a mais estranha sabedoria das nações,
não raro emendada
ou simplesmente mimada: o cu tem a ver com as cuecas; para escrever /
é
preciso / dinheiro; quando a vida / é madrasta / a arte
não basta; uma
mosca / é ascese / sete não / é legião;
não há / siso / sem riso;
quanto a comentários / a poesia e a menarca / são
parecidas, etc.,
etc., etc.
A linguística é unilateral.
Enunciados são enunciados, frases são
frases, palavras são palavras; o que anda pelo mundo como
sentido
confessa a sua natureza primeira de sentido. A infatigável
unilateralidade que não interpõe diferença — ou
seja: arte e
transcendência — entre a «poesia» e o
«facto» acerta o passo não apenas
com a redução da poesia ao poema e do poema a enunciados
«universais»
(sujeito/complemento/verbo), mas ainda com uma
autodeprecação da arte,
que é bem ostensiva. Não supridos pela
exclamação ou pela interrogação,
e carenciados de superioridade sobre o «mundo», os
enunciados não podem
fazer menção de o adquirir pelo gosto ou de o merecer
nobremente pelo
trágico, se não por muitos epicédios. A mesma rima
rica é mais um índice
de pobreza. A proposição bronca consegue, todavia, entrar
num dos
lugares literários mais restritos e de maior autoridade:
a minha cara
é uma caraça
que o tempo-traça
traça
(Sete rios entre campos 81)
Extraordinário
logo ou grafito
que se sentou, cruzando a perna,
sobre duas figuras etimológicas (cara / caraça;
tempo-traça / traça),
uma das quais é uma metáfora e uma palavra-mala (ou
maleta, em bom
rigor). O som (rima emparelhada em a, b, c e d,
aliteração e
paranomásia) não faria aqui, parece-me, as alegrias de um
Jakobson; é
um palhaço pobre que comete indignidades sobre o Sentido,
palhaço rico,
devendo ainda responsabilizar-se por um final de lengalenga: «o
tempo
traça traça».
A «linguística histórica» lida com a entropia
que afecta a língua. A
sua compaginação com o Pentecostes faz destacar os
limites muito
«humanos» e muito «empíricos» deste
campo de saberes. Quando restitua a
origem dos usos que face a esta aparecem como «erros»,
não pode
eliminar os resultados: acrescentam-se a todos os outros que
configuram o nosso estado de «confusão». Os usos
são como restos da
Etimologia — do Etymos Logos
—, que escaparam a um qualquer Sentido
Primordial. Todavia, se não são informação
pura ou puro sentido
cogital, se as suas lacunas não são remíveis pela
Lógica ou pela Poesia
Especial, se não fazem nada de semelhante a um todo estruturado,
são em
contrapartida muito seus o «anacronismo», o
«surrealismo», o ter a ver
do cu com as cuecas, e também, embora possa não
parecê-lo, a
funcionalidade das peças lego.
São eminentemente aproveitáveis e
sentido imanente. Veja-se a tradução errada do
«liber» por livro, num
verso de Virgílio:
Seca-se o livro
no alto do ulmeiro
o anacronismo
produziu o surrealismo
mas não é só
uma má tradução
(…)
acham que um verso
é pouco?
quem não o aproveita
é mouco
(Sete rios 71)
Aproveitar um verso
é a expressão pertinente. A própria Adília
não
apenas aproveita um verso; ir-nos-á dizendo também que
dessas coisas
chamadas poemas não se aproveita mais do que um verso; que o
poema é
aquilo de que se aproveita um verso. Ela reduz o poema, e isso nota-se
muito bem na apropriação dos versos de outrem, a algo
como étimos que
são agora indiscerníveis do resíduo.
No grande empreendimento de desadjectivação de
Adília (sobretudo, da
última) podem detectar-se dois modelos, frequentemente
interconexos: o
da redução do ícone ao logo e o da microbiografia.
No primeiro caso, aproveitar-se-ia da forma ‘resumo’ a
lição da
evidência e da necessidade a que se chega por um processo de
desbaste.
As mesmas necessidade e evidência dotam o resultado, descarnado,
de uma
imagem de irreversibilidade.
No caso da microbiografia, o resultado é uma olhadela
lançada sobre o
aleatório produzido por um «mundo» que não
necessita de uma causa, um
motivo, uma crença ou uma premissa para produzir resultados. Uma
«sucessão estocástica» produziu uma
regularidade sem Necessidade
interna nem externa; eventualmente estabilizou-se, mas não como
enviada
a um destino por uma vocação de valor. Não sendo
achados, por isso que
foram achadas e readymades,
as microbiografias parecem responder por
este efeito zen: o Autor
troca os dons do génio (e mesmo os da loucura)
da criação e do métier
pela moeda de pataco da «pessoa», da
irracionalidade sem profundidade estética, e da
«mania» incurável ou
irreversível. Os dois casos revelam muita afeição
pelo banal, que,
porque em poesia estamos, não me parece poderem ser
transfigurados
facilmente por um ambiente de arte e teoria. Tenham-se presentes os
poemas exemplares. Em rigor incomentáveis, sem pernas para
andar, nem
asas para voar (esta poesia é das mais materialistas que
conheço, e
nada icárica), os poemas resultam de movimentos de acaso que
viriam já
na esteira da desordem.
Se considerarmos que um resumo da «Pont Mirabeau»
não é nada de
adventício, pertencendo antes, como querem van Dijk e outros
gramáticos
textuais, à estrutura profunda de onde o texto se gera, o poema
de
Apollinaire é centralmente o resumo que dele nos dá
Adília; se
considerarmos o leitor comum (todos nós, em princípio),
conviremos que
na sua retentiva o poema vive como informação
«degradada», banalidade
muito igual à da impaciente tradução de
Adília, e que é todavia o seu
caroço duro, posto convide ao erro de gramática e logo ao
equívoco
obsceno: «os dias vão-se / eu não». Deste
modo, o texto com suas
modulações e implícitos artísticos revela
uma absoluta descontinuidade
com o poema que existe por esse caroço que passa a ser
também o resto e
o lixo quotidiano que a entropia nos dá hoje. Em suma, a
passagem ao
muito provável mundo onde em vez de Milton se tem a casa da
passe, em
vez do Poema o seu logo, em
vez da transfiguração o banal, funciona
como uma crítica doméstica de todo o jogo estético
onde uma libido
reconhece o melhor dos mundos possíveis: um mundo
ilusório de
continuidade e de reversibilidade que Adília reserva a Cristo e
a Deus.
Adília produz resíduos, logos
e étimos, como filha do tempo; e
aproxima-se de Deus e de Cristo através do exercício
filológico-poético
do remendo ou da recuperação de desperdícios.
Em geral afectadas à citação sem autoridade, as
microbiografias dão
muitas vezes conta da obstinação da «pessoa»,
definida pelo que faz de
forma mais ou menos maníaca e rigorosamente inútil. Eis
duas numa só:
Dois casos citados por Christian Lacroix
Uma freira
passou a vida
a passajar
tom sobre tom
o mesmo avental
azul escuro
Um funcionário público
coleccionou
a vida inteira
a publicidade
que lhe metiam
na caixa do correio.
(Sete rios 63)
Estas peças
que colocam a «microbiografia» nas imediações
do «humor
em quotidiano negro» (Helder, 1979: 94 e ss) mostram o que sem
elas
dificilmente transpareceria nas restantes e apesar dos eventos
encontrados a descoberto de um sentido e de um porquê: a resposta
ao
Sentido por uma greve de zelo «metafísica», a
interrupção associal da
biografia, efeitos de assinatura (de mudez tão radical como a
das
baratas) que suspendem o império da «terceira pessoa do
pacto social».
(id.: 13)
O que aconteceu não marca encontro consigo mesmo, aí onde
haja alguma
fala e alguma lei; em rigor, não aconteceu. O trabalho da freira
é
trabalho negativo. Por uma vez, o original (o avental) é
indiscernível
do — é coberto pelo — aproximativo (o passajado). Pode
suspeitar-se que
há-de chegar a ser o que é quando inteiramente
substituído. Por um
milagre de filologia, o triunfo da entropia restitui o original. Na
microbiografia e no logo, a
«pessoa» antecedida pela experiência que a
desloca na ordem dos actos simbólicos assume-se inércia
do inerte e
comete algo como o crime que consiste em ser «o contrário
do nome»;
(id.: 87) já nos romances cómicos «usa o
contrário do nome».
Estes dois alquimistas (que eu proponho equivalentes dos
«mongolóides»
de que Adília diz gostar) são o poeta, que não
é portanto o Ego
Transcendental mas a própria «pessoa» como
«desperdício pessoal».
Aquele que no Sistema Grande dos Discursos se identifica ao
déchet
irrelevante, irrelevável, insimbolizável, santo,
santhomem-sintoma,
objecto pequeno a. (cf.
Aubert, 1987; Lacan, 1994)
1
Contrario um tanto a autora e a sua fé nas sete artes.
2
Actriz de cinema que nunca subiu muito acima do estatuto de starlette.
CAPÍTULO
IX
NOVA CRÍTICA DOMÉSTICA DOS
PARALELEPÍPEDOS
Na segunda fase sobretudo, esta poesia é como
música que fosse como mobília (John Cage)
(Kathleen Gómez)
[Encurtar as formas de escrever] ensinou-me duas coisas.
Primeiro, a
formular ideias de maneira aforística, que não requeriam
continuações
assentes em razões formais; segundo, a ligar ideias sem usar
conectivos
formais, meramente por justaposição.
(Schoenberg)
O pacto social é um esquema de
transferência de pagamentos: brincos
pelas orelhas, bordel pela nursery,
emprego pela mãe, ouvidos pelos
olhos, lego pelo ego. Por isso, bodas não
rima com fodas.
Há na obra de Adília um
regresso contínuo a Adão e Eva,
continuamente frustrado. O Par distrai-se e trai-se por
histórias, a
não ser que a história seja de fadas (ou de baratas).
Aí, o Par
multiplica-se como Éden, tomando a gramática à
letra e ultrapassando a
diversidade: «a princesa e o chinês casaram-se e tiveram
muitos filhos
e muitas filhas, muitos animais e muitas plantas.» (A Bela
Acordada 17)
Mas, em geral, o que acontece é deste tipo:
O homem e a mulher
deixarão pai e mãe
para serem
uma só carne
mas por causa
do assado queimado
descompõem-se
cospem um no outro.
(O Regresso de Chamilly 4)
O falso começo do Regresso de Chamilly é
mesmo uma paródia sacrílega
da criação da mulher. Chamilly encontra Mariana a dormir
debaixo de uma
alfarrobeira e:
arranca-lhe uma costela
e faz com ela
uma flauta
e do crânio de Mariana
faz uma cabaça
com que bebe água
do poço
que há no meio
do claustro
Chamilly transforma-se
num sapo
(O Regresso 6)
O par acabado de
reunir-se não é apenas separado pelo narcisismo de
Adão. É sobretudo separado por histórias. Torna-se
histórias e é
parasitado por elas, como se a relação se achasse
já na Origem
socializada. Uma vez mais, toda a «juventude moral»
é antecedida pela
«experiência»; no que diz respeito às
histórias em que estão, as
«pessoas» equivocam-se, como se postas num jardim de
caminhos que se
bifurcam.
Adoptando uma certa atenção pessoana à
contingência, dir-se-ia que as
histórias são mais do que o mundo em que existem. As
«pessoas» não
cessam de fazer histórias, tal como as histórias
não cessam de fazer
«pessoas». Nas histórias a consequência
enlouquece, entra em roda
livre, e cada história é mil e uma. Quem diz
histórias, dirá
associações de ideias. As «pessoas» nunca
estão na situação em que
estão, i.e., nunca estão consigo mesmas. O fim da
história não é o
lugar delas. Assim, não só «Mariana atravessa / o
pomar / a sonhar /
Chamilly voltou / e é tão bom / tê-lo de volta /
que não pode estar /
muito tempo / ao pé dele» (O Regresso 8), como
«há uma passagem /
subterrânea / como nos romances / que liga / castelo e
convento.» (O
Regresso 22) Uma vez que Chamilly é ternamente Milly, o par
é assediado
por Milly Possoz, e apesar da Presença: «Mais que / todas
as cartas /
como nenhuma / carta / és tu Milly / em carne e osso / ao
pé de mim /
(Milly Possoz também / está muito comovida)» (O
Regresso 19) Um sonho
de Mariana mostrar-nos-á, enfim, a dessacração do
Par por outro par
igualmente com muita história: Pedro e Inês
que dez anos de cavaquismo
deixaram sentados
de cócoras
à beira dos túmulos abertos
a comer deliciosas
passas de Boliqueime.
(O Regresso 20)
Este peculiar regresso ao Paraíso, que reescreve
por garatuja ou
grafito a generalização proporcional que arranca a
sociedade da família
e a nação do par, e por isso se entretém com
emblemas da história
nacional (e talvez parodiando A
Margem da Alegria), falha mais do que
uma apoteose. Enquanto consenso estético — quadro final de
revista —, o
par auxilia-se com a bandeira e com uma arte da
ilustração anterior ou
marginal à Arte. Como é diferente o amor em Portugal:
Milly Possoz
pinta-lhes
o retrato
ela debaixo da alfarrobeira
a responder-lhe Milly
ele debaixo da alfarrobeira
a perguntar-lhe Merci
o fato de Chamilly
é verde
o hábito de Mariana
é encarnado
e sobre os dois
cai nupcial
o céu
as cinco quinas
mais abaixo
o dossel
que é a copa da alfarrobeira
da cama que é o chão
onde se dão
Eva e Adão
cadela e cão.
(Idem 21)
O envelhecimento da
representação do par originativo a quem foi dado
um mundo para criar participa decerto do envelhecimento a que a obra de
Adília submete o estético, (cf. Diogo, id.) em geral substituído
por ou
posto em continuidade com figuras de um consenso social ultrapassado.
Assim se mostra o mundo desprendido da chamada História e
inteiramente
complacente face a desígnios estéticos que tanto
serão como
«histórias»; não sem alguma reversão,
acontece ainda que projectos
ético-políticos são transformados nos
propósitos estéticos que afinal
seriam, e postos a ridículo, decriados e descridos. Estes
deslocamentos
assistidos pelo clown
também não poupam os emparelhamentos de Adília,
muito susceptíveis à «associação de
ideias». Em qualquer caso, é agora
cada vez mais visível que estas figuras tornavam muito
peculiares as
utopias de sessenta, que nas gentes eticamente avançadas falham
à letra
por que deveriam ser tomadas.
Exemplar no processo é A
Continuação do Fim do Mundo, pois se trata de
uma utopia doméstica — «fodas e bodas» —, assente no
par antecedido
pela «experiência» e ainda assim invulnerável
a todo o qui pro quo. Sem
vestidos, a fim de que não haja agora «acasos / no
encontro e
desencontro / das pessoas» (Continuação 79), o par
persevera na utopia
apesar dos erros que são, e do mundo que também é
erros. Apodera-se da
consequência de uma história surda a
«realidade» e a «razão»,
desviando-a do mundo para a família tão irregularmente
constituída.
Posto tudo comece a posteriori,
vá em consequência e de mal a pior, o
casal afirma pela sua própria existência a bondade do
mundo,
envergonhando Pangloss. A perspectiva estabelece com certeza algum
acordo com a noção de sessenta que antepunha a
transformação interior à
exterior e como condição desta — «a
revolução ou é / de trazer / por
casa / ou não é» (idem 78) —; mas vive ainda de uma
noção mítica de
exogamia radical, tal que a nova sagrada família, por assim
dizer, não
se constitui na família, mas no mundo (o que porventura vale
pelo
expelir de si, como de uma abundância, um mundo renovado).
Adília
emparelha com Jena, a princesa com o chinês; os filhos
serão de todas
as cores e etnias, e irmãos de plantas e cachorrinhos. Nenhum
sobrevivente, e apesar das provações, porém
«viventes» todos (idem 93):
«Hércules e Íficles / Amra Fiama e Elisabeth / e o
sexto filho
irmãozinho / por conceber» (idem, ibidem). Marginando tudo
isto pelas
figuras do compromisso, o par acasalado dá a norma a uma
generalização
que vai de uma arte de ajustes à apoteose teonacional, em
sucessão
agora providenciada. Muito nitidamente, isto que não deixa de
ser uma
hipérbole cómica configura-se como um processo de
assimilação das
«ideias» opostas ou diversas que teimavam em
«associar-se», fazendo da
semântica centrada no par uma semiose dissociativa (como se viu
com O
Regresso de Chamilly). Se aos «píncaros» se
agarra, e por suspeita, o
«orgasmo» (a arte é vida por figuração
de cumes), encontra-se para este
um par (uma paranomásia) no «organigrama» que o mete
na ordem dos
ajustes, e logo por conotação. O processo suporta a
hipérbole e suporta
o cómico, que se tornam metáforas apósitas do
ajuste. Mas o mesmo
ajuste cede por seu turno à hipérbole e ao cómico
a sua noção — a
ligação das partes pelos cantos, que as asssemelha no
interior de uma
continuidade, transforma-se na disponibilidade do acolhimento que pode
figurar-se num dos temas deste livro: a gravidez. A gravidez torna o
livro uma singularidade (a qual fortemente se especula no monstruoso) —
«Excuse me! That’s my book» (id. 86) — e as
deslocações do autor
enquanto «pessoa» definem não só os cantos do
«ajuste» mas a origem e o telos,
o centro
das proporções: «onde me sento / é que
é / a cabeceira
/ disse D. Quixote» (idem 95, sublinho).
Tudo é acolhível na a(l)ma que é o livro —
aliás, um livro na infância,
e decerto mongolóide. A deficiência torna-se
eficiência profunda,
merecedora da (pro)criação:
A obra de arte
não é um ajuste
de contas
é um ajuste
de cantos
de cantos de pedra
de madeira
peças de puzzle
de cantos gregorianos
peças de píncaros
orgasmo
e organigrama
Fátima
e Aljubarrota
a abóbada não cairá
a abóbada não caiu
(idem 85-6)
O espaço cuja abóbada não
cairá e não caiu — uma engraçada inversão
do grand mot do conto de
Herculano, como se o salto indutivo fosse
reescrito à la Popper — pode ser o útero que abre o envoi que fecha o
livro. A árvore da vida, «nua e integral», dispensa
«dez séculos / de
história», que é de crer que não sejam menos
do que lixo (idem 95).
Este lixo que se deixa em casa (id.: ibid) com a
aprovação da autora,
pede-me, todavia, uma visita à casa onde se deixa o lixo.
Lá iremos.
Estamos, portanto, com os sessenta e as utopias, que os vários détournements
de Adília atacam pela sua raiz social-estética, adoptando
por exemplo a crítica da dessublimação regressiva,
mas não sem
ambiguidades. O progresso objectivo não tem
correspondência num
progresso subjectivo; conduz mesmo, exemplarmente, às
tergiversações da
«pessoa» e da «opinião». A
«pessoa» acha-se quixote inconsequente numa
história de consequências: é essa a moral da
história, que, de outro
modo, não tem moral. Assim, na evolução dos meios
de transporte do tarentass
para o
automóvel Éclair,
para a furgoneta Dum Dum e
para os
patins Bic (e esta
história foge já comicamente ao progresso, obrigado
à restituição sucessiva do particular — do muito
particular —, e por
isso como «lixo»), teria deixado de haver
«distância» entre o «desejo
de sobremesa» e a «degustação da
sobremesa». Perdida a sobremesa, que
não é já preciso desejar:
(…) as refeições
continuaram a ser repressivas
e não sabendo o nome
do que comem
as crianças não se podem defender
da repressão chamando nomes
que não me tomem no entanto
por uma apologista do tarentass
(Um Jogo 36)
Se os nomes de
marcas são histórias que não levam a lugar nenhum,
o
chamado progresso parece ter condenado à inconsequência os
seus
opositores, deixados sem regresso, e por naquele acreditarem. Desejar
em abstracto regredir, é desejar em concreto o tarentass. Não há
mundos
sem mobília. O apologista dos bons tempos idos, e nolens volens do tarentass,
é como as crianças que perderam a sobremesa por faltas de
vocabulário. Não tem o indez defesas contra o objecto que
é todo
concreto e imediato, e logo totalmente abstracto, como abstracta a
garantia de felicidade (e, como vemos, infantil). Mas a moral que
estaria no passado está onde está o tarentass, e tantas coisas mais.
Analogamente, a obrigação contemporânea de ter
prazer é posta na
perspectiva de um ridículo trágico, por hipérbole:
«o massacre
quotidiano que é a foda obrigatória, o perder a
virgindade obrigatório
antes dos 17 anos, o orgasmo, os super-bebés» («Nota
da Autora» ao
Regresso de Chamilly) justifica a defesa da vida com
mongolóides, do
pai pródigo e da mãe pródiga, que não
são sem serem todos tarentass
ou
patins Bic. Patins Bic e tarentass são moralmente
inconclusivos.
A equação de ‘fodas’ com ‘bodas’ (e sem prejuízos
de prodigalidade)
surge assim no centro de umas propostas de vida que não se podem
pensar
sem ela; é insistente a sua presença nas axiologias
contrárias, que
devem, então, considerar-se «reactivas». De facto, o
repúdio do Regresso de
Chamilly,
considerado «marialva», mostra que as utopias de
sessenta continuam a dar a norma ao Bem — são elas que permitem
divisar
o sentido delas como sendo afinal o seu contrário (foram elas
que
identificaram como marialva um ethos
para repúdio)1. Elas são a
mobília
(ou o lixo) do mundo e logo o seu Mal e o seu Bem; e se a
«cabeceira» é
determinada pela posição da «pessoa», a norma
da posição implica os
deslocamentos. A autora que é «pessoa» — «e
faz e faz-lhe / muito bem»
(id. 95) — não só acha vários lugares para
cabeceira, como se senta à
cabeceira em várias posições: de frente, de lado
ou de costas. A mesma
cabeceira é por vezes determinada por uma pirueta. Sem
explicação, mas
com patins Bic ou camionetas Dum Dum; menos em ajuste e mais em
livro(s). A cabeceira pode ser inexpressiva e mesmo boçal. D.
Quixote
faz cró. O livro acolhe, é a unidade, mas não
é o Um.
Daí que inferir Deus das linhas tortas seja sempre inferir Deus
por
linhas tortas; daí que os mongolóides (onde incluo
heróis de
microbiografias, cães, baratas, batatas e osgas) sejam
abordáveis não
pela «poesia» que preza Deus para Cabeceira, mas pela
«linguística
histórica»:
Gekko (holandês e alemão), gecko
(inglês e francês) é uma
onomatopeia malais. As osgas vinham nos barcos da Malásia para a
Holanda. O João Dionísio diz que o grito da osga é
parecido com o ruído
do computador a engolir a disquete. Há dialectos portugueses em
que a
osga se diz cró. Segundo a Manuela Barros, é o grito da
osga em
português. (Irmã Barata 21)
Quase obviamente, a osga é posta em
sequência com um «eu» (o meu eu)
cujo «corpo» não está colocado num fundo
brilhante e fresco de céus e
montes, e que decididamente não parece ser cogital:
As osgas têm um eu? As plantas têm um eu
apesar de não terem
cérebro? E as pedras? O eu, um eu, o meu eu, precisa de luz e de
escuridão. (Idem 17)
Da primeira para a
segunda Adília, é muito sensível uma
diminuição
radical de «abatage». Perdem-se, por um lado, a ligeireza,
a agilidade,
a vivacidade, que permitiam «abattre du texte» sem o
sacrificar, e por
outro lado os dons «físicos» de
representação (a «abatage») da grande
«cómica» ou da grande «fantasista», que
conduz as figuras improváveis
da inocência doxástica e da tragédia com movimento,
presteza,
elegância, pitoresco, facilidade vocal, vivacidade e brio. (cf.
Souriau, 1999: 1) Os textos da segunda denotam a falta de qualidade que
é própria do «rombo» e mesmo do
«boçal». Esta diferença é
empiricamente
corroborável. Adília, diz quem viu, massacra agora a
poesia que recita,
debitando-a a uma velocidade inverosímil. (cf. Silvestre, 2000)
Esta poesia é agora capaz de fugir à excelência
praticando a mais
herética das paráfrases: o resumo, que é a norma
da própria produção
autónoma, dado que os poemas atribuíveis a Adília
sem plágio nem cópia
são também eles resumidos. Não sem afinidade com o
truque muito pop da
redução do ícone ao logo, com remoção de
todas as conotações,
modulações e traços de arte, Baudelaire
(«à une passante», e topos
moderno estudado por Reckert) resulta assim:
Ela passa
no boulevard
cor de Pele de Burro
quando foge
(Florbela Espanca 12)
Com Apollinaire (e talvez com a qualidade francesa
da chanson) acontece isto:
Os dias vão-se
eu não
(Sete rios entre campos 86)
Com dois títulos da Condessa de Ségur
consegue-se esta legenda
axiomática, atrapalhada por uma equívoco estranho — a
«pessoa»
determina duas cabeceiras, uma na «realidade» e outra na
«literatura»
(o prazer pode ser o da leitura, dado que ‘férias’ e ‘desastres’
são
«férias» e «desastres» — títulos
de livros):
Só goza
as férias
quem sofreu
os desastres
(Sete rios 69)2
O tropo culturalista da visitação
(«A Porta da Casa de Eneias, em Viena») é submetido
a idêntica dieta:
Dido no Inferno
cumprimenta Eneias
é preciso ter boas maneiras
em toda a parte
especialmente
em questões de Arte (idem 60)
Uma cabeceira, se a há, é duas. O
tema é esse mesmo: tem de ficar a
parte pelo todo, como se ela o houvera resumido. Dois poemas
materialmente indiscerníveis diferem pelo contexto que vai no
título
(«Emily Dickinson» e «S. João da Cruz»):
Mesmo que pudesse
dizer tudo
não podia dizer tudo
e é bom assim
(Idem 67-8)
E, em suma:
Acham que um verso
é pouco?
quem não o aproveita
é mouco
(Idem 71)
O processo
aparentemente não é alheio ao fatum de toda a arte
moderna que despreze o exterior sensível (e por isso
contingente),
buscando antes a Ideia no interior necessário, através de
processos de
desbaste. Todavia, o obstinado esburgar até ao osso, menos
trabalho de
ajuste do que labor do bicho-da-madeira, da traça ou de outras
«setas
de tempo», suporta bem a noção contrária a
toda a cabeceira que não
seja definida pela posição da «pessoa»: o
nó ou o osso, a trave ou o
fecho, não são. O resultado de tal trabalho é
vestígios, indícios e
restos de expressão alheia e externa3. Donde,
removida a forma que
seria a substância de um consenso, até não ficar
mais do que a
garatuja, a autonomia vestalizada da «poesia» pode
perspectivar-se como
sentimentos que evitam ter consequências em acções
e não as heresias
sociais que tantas vezes presumem ser. Tal perspectiva não
depende da
forma ‘resumo’ — não é preciso levar a filologia a tais
excessos —,
como se nota na primeira Adília, onde vigilância e
desadjectivação
fazem o serviço. O ‘resumo’ acompanha uma fase em que a
citação, a
colagem, a microbiografia e afins se autonomizaram em pequenos textos e
perderam as maneiras (não apresentam os seus respeitos à
arte). Não são
intertexto dado à reciclagem do passado, nem tornam
significativa a
paródia por uma abundância inteligente. Foram-se os
romances. Definição
contra-intuitiva da poesia, e anestética, esta fase da obra
define o
expurgo do «sentimental» pela remoção da
«forma»; implica a realidade
no sentido, como se os resumos fossem metaficções.
Assim, os consensos estéticos — as boas maneiras que se devem
ter em
toda a parte — podem ser equacionados como sentimentos
«calorosos»,
que, como o heróico-elegíaco, nascem, em modo dos grandes
temas de
outrora, da e para a aprovação do público. Mas
não é apenas «o almoço
do trolha» que nos aparece esteticamente sentimentalizado. O
sentimentalismo que rege os acordos, módulo presente em toda a
estética
ou extrapolável para estética, mesmo a de sublimes (que,
também ela,
há-de ter um público antes e depois, e logo
«pessoas»), não está
ausente da obra de Adília. De certo modo, é a sua
matéria mais
conspícua. Hidra de muitas cabeças, assoma olhos de Bambi
em toda a
parte. O omnipresente Walt Disney seria reconhecidamente capaz de dar
sentido e consenso a contas e hieróglifos obscenos. Nunca se
é osga ou
barata quanto seria necessário. As mesmas baratas e osgas podem
ser uma
«nobreza», porque o «humano» não aliena
o «humano»:
Não vejo uma águia a fazer contas e
hieróglifos obscenos
nos filhos de uma coruja
talvez Walt Disney visse
(O Poeta de Pondichéry 16)
Walt Disney
não veria. As garatujas obscenas do amor seriam remidas pelo
Bambi, que é belo e bom, sensível e desprotegido.
O recente «Big Brother» demonstra como,
sob a aprovação do público (de
um consenso pré-existente ou chantageado para que exista),
é possível
vestir a mais obscena das garatujas com «amor», pena e
simpatia; como
se pode fazer passar a competição mais mesquinha por
solidariedade
grupal (ela é a solidariedade grupal). E como é
possível atribuir à
«hipocrisia social», que seria exterior e não
«humana» (e mesmo uma
estátua de grandeza que o consenso prevê que se possa
cuspir) — assim o
fez a primeira candidata eliminada — a desaprovação das
garatujas. Em
toda a obra de Adília, a nobreza e a compostura estéticas
equivalem ao
sentimento melífluo e à dor falsa: «A dor falsa /
cheira-me a valsa»
(Sete rios 58). Assim, as deformações da
«perfeição enunciativa» vinham
acompanhadas de sentimentos vulgares, que, por isso que ninguém
aprova
ou admira, não podem ser açucarados: inveja, furor
mimético, depressão,
«rusgas» à «vida privada»,
«não à das afeições, mas à do
amor próprio»
(O Decote 34)4.
A reprimenda da felicidade como valsa e facilidade belamente expressiva
vai tornando esta poesia extremamente contígua do
desperdício pessoal:
«Tenho mais pena do meu filme, dos meus diários, da minha
juvenilia que
deitei fora no contentor do lixo do meu prédio do que dos livros
ardidos da biblioteca de Alexandria.» (Irmã Barata 22)
Substituem-se os
recintos e precintos sagrados da Musa masculinista pelos esconsos do
ambiente familiar onde a «barata» é encerrada no
armário (!) pelas
criadas até morrer a «pessoa» que convidava gente
para lanchar:
e a barata saiu de lá
muito magra
a caminhar a custo
(O Decote 56)
As baratas, que serão o sujo alheio à
noção de sujo, circunscrevem o kit básico
da sobrevivência humana — todos os objectos e actividades
que corporizam as rotinas domésticas, mundanos e não
sagrados, sujos e
não «lisos nus inteiros», banais e quantas vezes sem
decoro, que se
destinam a manter existências e aparências, e que, como
forma
seleccionada pela história, ultrapassam o âmbito da vida
individual e
do corpo individual. Neste círculo de familiaridade em que
brincam
gatos com varatojas, a «barata» que é um milagre de
sobrevivência
representa a continuidade, humana e contudo não humana, do
banal, do
baixo, e do sujo que os acompanha5. Nenhum ser humano,
ainda quando
poeta, escapa à rotina dos apetites e da aparência,
assistida por
brincos, anéis, botões, alfinetes, bonecas, selhas,
ferros de passar,
lancheiras, marmitas, termos, livros, estampas, bonecos de chiar e de
cochicho, banheiras, camas, mantas, gôndolas em miniatura,
rádio,
pratos, vestidos, lixívia, juvenilia, poemas esburgados. Porque
sobrevivem ao corpo pessoal como forma e o rodeiam como matéria
perecível, configuram um espaço moral e estético,
entrópico, onde se
geram «pessoas» e desperdício, e que só
parece poder ser
contra-intuitivamente igualado por baratas e outros estranhos
alquimistas:
O mongolóide (…)
(…)
e o atrasado mental (…)
(…)
duas penas vivas para os outros
pobres de espírito ricos de espírito
lixo biológico da luta pela vida
ganhadores
alquimistas
(O Peixe na Água 19)
Neste círculo doméstico, o monólogo
transcendental do herói da
elegia fica assoberbado com detritos e juvenilia |