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INTRODUÇÃO
Júlio César Machado nasceu em Lisboa, em 1835, e em
Lisboa morreu, em 1890, suicidando‑se. Mesmo ultrapassando‑a
largamente, é um autor integrável na época
designada por António José Saraiva e Óscar Lopes
como do «Romantismo sob a Regeneração». (cf. História da Literatura Portuguesa)
Além de produzir folhetins e similares, Machado prefaciou obras
de outros, traduziu Scribe e aparentados para o Ginásio e para o
Trindade, escreveu os seus próprios dramas, comédias e
provérbios, e redigiu ainda biografias de actores.
Sem outros rendimentos, desta literatura distractiva viveria
César Machado. Maria Paula Alves dos Santos aproveita a
expressão dos camilianistas, por achá‑la em extremo
conveniente: também o nosso autor é um
«forçado das letras». (cf. Dicionário do Romantismo
Literário Português, pp. 297-8) Ora o galeriano
também escreveu romances, numa altura em que o país
travava conhecimento com o género, que lhe era servido como
literatura jovem por jovens que tendiam a considerá-lo
livre-passe de entrada nas galés.
Posto sem a coerência estética dos Contos ao Luar, o mais interessante
dos que Machado escreveu é A
Vida em Lisboa.
A Vida centra‑se em dois
personagens masculinos, o médico Luís de Lima, perto
já dos trinta anos, e o mancebo Guilherme da Cunha,
folhetinista. Ama Guilherme Sofia de Sousa, filha e única
herdeira do barão de Sousa, o qual é amigo e
correligionário do marquês de Vilar, a quem apoia as
ambições políticas com a bolsa. Faz amores
Luís de Lima com a marquesa de Vilar.
A marquesa e Lima manobrarão para que o segundo possa casar com
Sofia de Sousa. Julgando‑se traída por Guilherme com a marquesa,
Sofia desposará Lima, lançando o mancebo no desespero e
na revolta. Entretanto, prendem-se de amores o mesmo Lima e a
dançarina Ritinha, amante do barão de Sousa, para
fúria grande do barão e da marquesa; e o marquês de
Vilar abre a Guilherme brilhantes perspectivas de carreira, fazendo-o
editor responsável pela orientação política
do jornal do seu partido. Sabedora da verdade, Sofia reata com
Guilherme, mas não consente em tornar-se sua amante; Guilherme
ganha poder suficiente para se vingar da marquesa, a quem
denunciará ao marquês, e de Lima, que
ridicularizará na sociedade como marido complacente, ao mesmo
tempo que o ajudará a viciar-se no jogo. Ritinha foge para
Itália com um cantor, deixando o amante arruinado. Sofia
não suportará a maledicência e abandona Lisboa.
Tísica e moribunda, chamará enfim Guilherme para junto de
si, mas demasiado tarde. Está morta quando o mancebo chega.
Inconsolável, Guilherme parte para o Brasil.
A segunda parte do romance é atravessada por uma intriga
paralela. Lúcia Vidoeira, filha do agiota Militão
Vidoeira, e amiga íntima de Sofia, foge com José
Teixeira, sedutor que vive de expedientes, entre os quais a
cartomância. José Teixeira age a mando de um desconhecido,
colocando a rapariga numa casa de passe, onde por um triz não
é o próprio pai quem a adquire. Uma boa
porção desta segunda parte é dominada pelo
inquérito a que procede João Rodrigues, cocheiro de
Militão, o qual, na sua busca de Lúcia, nos conduz por
cenários lisboetas populares (hortas e teatro dos Condes), em
contraste com o que acontecera até aí. Machado
apresenta-nos jornalistas e políticos, agiotas, salões,
cafés, teatros, usando, como o próprio adverte, das
liberdades e recursos do folhetim. Trata‑se de um pitoresco urbano, ou
já do «pitoresco balzaquiano das novas
relações sociais». (Saraiva e Lopes, História, p. 766, eu
sublinho) Conclua‑se o ponto, ou adiante-se assim: o que, das
«novas relações sociais», têm este e
análogos romances muitas dificuldades em digerir, digere o
folhetim, e o seu público com ele, como pitoresco; no romance, a
confissão sentimental do herói passa por
oposição à prosa social, enquanto que o folhetim
se compraz, ao nível da prosa, com uma realidade onde as
«novas relações sociais» são
ocultadas, enquanto relações, pelo fragmentário,
pelo episódico e pelo pitoresco. Em contraste com Balzac
(invocável pelo muito que dele usa Machado), A Vida em Lisboa não
consegue de todo expor e dar a compreender o carácter complexo,
não evidente e até contra-intuitivo das
relações pessoais e sociais numa Lisboa que declara capitalista. Limita-se à
afirmação prévia do poder universal do dinheiro.
FONTISMO
E ESFERA PÚBLICA
Como folhetim (e como teatro), as letras acedem por então
às casas e aos salões das classes médias e da
nobreza recente, acompanhando a extensão progressiva de uma
«cultura burguesa» entre nós. Publicado em
rodapé de jornal, o folhetim combina a brevidade com a
heterogeneidade: crónica social ou de actualidade,
descrições da vida urbana, diários de viagem,
reais ou inventados, narrativas breves e contos. (cf. Buescu,
«Socio-Institucional Literary Practices», p. 96) E a
sociedade que se estabiliza com o fontismo, e nele encontra as
condições da sua reprodução expressiva como
sociedade burguesa, mira-se decerto no «locutório ou
rótula de jornal» onde a matéria pública
é pretexto de sociabilidade e prazer, e se apresenta com a
«volubilidade» do «soalheiro». (cf.
Nemésio, Ondas Curtas,
pp. 307‑8) Esta conversão acentuada da esfera pública a
um solipsismo social — notória quando se compare o autor com
Garrett e Herculano, mas também com Castilho e com Lopes de
Mendonça — marca a obra de Machado, que sobretudo guarda algum
impulso crítico para os seus «romances». Neste
«espaço literário», como «intelectual
orgânico» do fontismo, se moverá sempre o nosso
autor.
Tenho por muito sintomática a associação
metafórica destas letras ao grande símbolo da era de
Fontes: leitura para caminhos de ferro,
contos a vapor...Em
Apontamentos de um
Folhetinista, é mais do que simpática a
evocação do «governo da
regeneração», e da obra do «novo ministerio
do fomento», tendo como «gerente» Fontes Pereira de
Melo. São moços engenheiros quem inicia «entre
nós a revolução dos progressos materiais»; o
grande empreendimento descreve‑se do ponto de vista de técnicos
e directores e nos termos de uma comunidade carismática entregue
a uma «vida agitada, de
trabalho e de festas». (pp. 268 ss, eu sublinho)
Machado, que intimamente conviveu com os protagonistas desta epopeia
moderna, afirma ao longo de todo o trecho a existência de uma
relação orgânica entre trabalho e prazer, isto
é, entre as «armas» (técnicos e
políticos) e as «letras» (arte e boémia).
Assim, no fontismo quando jovem não seria descortinável
nenhum tipo de dissídio entre modernidade artística e
modernidade sociológica. Antes, muito solidárias,
destacariam ambas, ao estilo de «vanguarda» social,
ética e artística, de uma «insípida»
Lisboa (a qual, todavia, dir-se-ia parecer por então mais
admirá-las do que repudiá-las). Esta
historicização idealizante (esta construção
retrospectiva de uma origem) é rasurada, e mesmo contraditada,
em outros passos da obra de Machado. Em geral, o folhetim vem a aceitar
a Lisboa insípida como seu público, enquanto que o
romance, reminiscente de Garrett ou de Lopes de Mendonça, levou
a peito não só opor-se à insípida Lisboa,
como, por exemplo, a reassociar o caminho de ferro à figura do
barão. E (com algumas tergiversações assaz
inócuas) o que o folhetim aceita como uma Lisboa de sempre
não será mais do que o fontismo, depois da
rotinização do seu carisma.
A rigor, esta literatura acompanha bem o alargamento de um
público que lhe impõe imperativos de mercado. Como notam
António José Saraiva e Óscar Lopes, de Lopes de
Mendonça a César Machado o folhetim, tipo nuclear
daquelas letras, irá perdendo em crítica e em justeza,
ganhando em anedótico, em descritivo e em pitoresco. (cf. História, pp. 766-7) Sob
esta forma alargará os seus domínios de referência.
«Catequizará» realidades até aí
não dignas de menção — mencione‑se o fado e a
varina. (cf. Lisboa na Rua,
pp. 167 ss, pp. 157 ss) — e mesmo géneros literários mais
identificados com o livro. Beneficiando da proximidade no jornal, entra
pelo romance (como na Vida em Lisboa,
onde cumpre ainda com propósitos críticos), mas
expande-se também em literatura de impressões de viagens
e evocação de lugares — justamente, em leituras para
caminhos de ferro... Lançando mão de um título de
Machado, vai Do Chiado a Veneza.
«Leitura para caminhos de ferro» é justamente um
logográfico de colecção da Livraria de Campos
Junior, que interessa examinar. Entre os publicados, informa o editor,
estão os Contos a Vapor
e os Trechos de Folhetim, de
César Machado, uns Contos
Electricos, de Miguel Cobelos, uns Contos e Descripções,
de Pinheiro Chagas, umas Primaveras
de Cintra, de Leite Bastos. São, pelo geral, conjuntos de
trechos, episódios, contos, «fisiologias» e pequenos
«folhetins». Haverá mesmo, talvez,
«miniaturas» de um romance entendido como confissão
sentimental e céptica («Uma página da vida de
Elesbão da Mota», de Chagas ou «Leandro do
Carvalhal», de Leite Bastos). Dos títulos das
colectâneas e dos coligidos, deduz‑se que as obras se prezam de
modernidade sócio-tecnológica, e contratam um leitor
moderno, «natural» de Lisboa(-Sintra) e naturalmente
viajante, a quem não se pretende tomar toda a
atenção e a quem não é estranha a
inteligência do paradoxo.
A função-autor leva estas determinantes na obra de
Machado, e algumas lisonjeiras. Tenha-se presente que o romance
é género emergente, desconhecido de todos e até de
si com a excepção do «histórico»; que
se relaciona com géneros cultos e semi-cultos até
aí inertes em termos literários; e que no seu movimento
irresistível para a canonização arrasta consigo
uma reformulação imensa de toda a literatura.
Considere-se ainda que o folhetim é um dos tipos textuais que
«permitiu a emergência de formas literárias sem
lugar previamente determinado na hierarquia dos géneros»
(cf. «Socio-Institutional Literary Practices», p. 95) — as
quais «formas» pouco mais são do que o mesmo romance
e alguns satélites «romancizados» —,
inalienáveis da presença de
«conteúdos» específicos, por isso que, haja
ou não haja uma lógica nestas coisas puramente
literária, é meramente imaginação, e quase
sempre doutoral, que os estudos literários não tratam
senão em «formas»; porém, não
há romance sem varinas e quejandas, já não apenas
«pitorescas».
Teremos aqui umas guidelines
tanto para a compreensão da definição de A Vida e do romance pelo folhetim,
como para lidar com a incerteza notória dessa
definição.
E ESFERA
PÚBLICA
Com A Vida em Lisboa (1857), o
folhetinista Machado regressa com outras capacidades e
ambições ao romance contemporâneo. Tendo publicado
em 52 o muito incipiente Cláudio,
e em 53 um Estêvão
que o não será menos — são (é o
sub‑título) Páginas da
Última Noite de Vida, um pouco como quem dissesse romance
numa alma ou tempestade numa cabeça —, ele próprio
esquecerá essas realizações da adolescência
(pelos dezassete, dezoito anos, andaria o autor), substituindo‑a por
aquela, que, nas «Notas» que encerram o volume, apresenta
mesmo à benevolência da república das letras como
sua primeira obra. (cf. «Notas»)
Ao juízo da crítica de então, romance que
encenasse os regimes de sociabilidade que subtendem o género
não o haveria ainda; em contrapartida, como se diz no texto
anónimo mas castiliano do Português,
de O Monge de Cister a Um Ano na Corte, o romance
histórico achar-se-ia perfeitamente consolidado. (id.)
Como não lembrar o convite a fazer romance de actualidade,
endereçado por Herculano à mocidade letrada? O dito
romance parece tarefa destinada aos que nas letras se iniciam.
Não se conhecem ainda, deduz-se, as condições de
arte desse tipo estranho de literatura jovem, que é tanto o que
reivindicam moços, como tipo textual baldio e não
merecedor aos olhos das reputações que aqui e ali o
acham literatura meretrícia — e que aliás não
conseguem percepcionar qualquer diferença mencionável
entre Sue e Balzac, de Kock e Dikens (Herculano, Garrett). Ora, essas
condições são em muito as que não se lhe
reconhecem. O género parece de facto destinado aos
neófitos. Estes são os que podem estragar textos que
pouco importa tratar bem, como gente enfeudada ao «minotauro da
imprensa periódica», a que submetem a toda a pressa os
«seus escritos imperfeitos». (cf. Herculano, Opúsculos)
O nosso primeiro romance contemporâneo diz‑se ser As Memórias de um Doido, do
folhetinista-rei António Pedro Lopes de Mendonça (1849) —
na verdade, a primeira edição do romance de
Mendonça saiu de facto, apesar daquela data, em 1850. (cf.
Ernesto Rodrigues, Mágico
Folhetim, p. 314) —; e parece difícil ajuizar que
romances contemporâneos fossem os de um Camilo que
«só descreve nas suas excelentes obras os costumes, cenas
e caracteres do Porto e das províncias».
(«Notas») Os regimes de sociabilidade de que o romance
participa e que interessa ao romance contemporâneo descrever como
caracteres, cenas e costumes, seriam urbanos e lisboetas. Note‑se que
não considera Castilho (?) mencionáveis o Roberto Valença de Teixeira
de Vasconcelos — o primeiro romance português que Machado
terá lido, ainda em «fascículos», na Ilustração (cf. Lisboa de Hontem, p. 202) — e a Estátua de Nabuco de Mendes
Leal, que precederam de três anos as Memórias. Na verdade, nestas
obras começa aquela balzaquização do romance que
encontramos em A Vida em Lisboa.
Da consideração de todas elas, depreende‑se que o
balbuciante Balzac sobretudo serviu à configuração
do romance romântico como «confissão sentimental e
céptica». (cf. História
da Literatura, p. 766)
Registe‑se que, mais do que Guilherme, é o vilão
Luís de Lima quem, n’ A Vida
em Lisboa, toma a seu cargo a confissão
«céptica». Fá-lo com alguma incoerência
e muita garrulice.
No romance de César Machado, a relação com Lisboa
é pelo menos ambígua. No capítulo de abertura,
não só os nossos costumes (que podem ver-se como a
«matéria» da sociabilidade) entram pelo
domínio da caricatura, como Lisboa começa por designar
uma realidade aquém da aceleração propriamente
urbana e moderna do comerciamento desses costumes. A cidade é,
com efeito, caracterizada pela «índole pachorrenta»,
suspeitosa do progresso representado pelo gás, o caminho de
ferro e o telégrafo, e prezando‑se de ainda viver no
«reinado das cabeleiras» que condenavam o talento, a
invenção e a actividade. Esta
caracterização deve ver-se antes de mais como um topos do romance entendido como
«confissão sentimental e céptica»; no
folhetim pode sofrer a concorrência da tópica
antitética.
Modificando profundamente o carpe
diem, a sociabilidade aparece definida pela
produção de prazer (aspecto, decerto determinante, que
não encontramos propriamente contemplado naquele que é
ainda hoje o estudo de referência nestas matérias: O Espaço Público, de
Habermas). Há modernamente mais-prazer, mais compresença
de gentes e mais gentes em contacto; há um alargamento e um
aproveitamento das horas e das ocasiões de
aproximação (reside aqui alguma da pertinência
textual do aparecimento do gás como luz anunciadora). Neste
contexto, «telégrafo eléctrico» e
«caminho de ferro» acorrem em apoio desse princípio
social de prazer, derrubando os limites do espaço e do tempo, e
sobretudo derrogando a brevidade dos dias, os quais agora se prolongam
pelas noites.
A tudo isso se opõe a realidade designada por Lisboa, para a
qual, escreve Machado, «deitar‑se e dormir é um acto
simultâneo». Vivacidade, actividade, novidade,
invenção, contrapõem‑se à
«insipidez», à «mediocridade comercial»,
ao «carácter conservador», e, muito
significativamente, à «patriarcal nulidade». A
sociabilidade é uma dinâmica. Coincide com uma
noção difusa de juventude social, representada por
moços ou rapazes, uma «boémia
literária» que frequenta cafés,
redacções e teatros, mas cuja forma de vida pode, como
vimos, estender-se a outros moços em começos de carreira;
e o qualificativo ‘patriarcal’ manifesta desejos e propósitos de
emancipação individual da autoridade, reveladores
também do que nesta exigência social de prazer tem a ver
com uma mais livre aproximação entre os dois sexos.
Cite-se deste incipit:
Oh Lisboa! Para
que havia de vir o gás anunciar que a roda fatal do progresso
vinha roubar-te parte dos encantos da tua insipidez? Para que havia, oh
Lisboa, enviar‑te o destino esses inimigos da tua patriarcal nulidade
que tomaram os nomes de «Caminho de Ferro» e de
«Telégrafo Eléctrico» e que, debalde talvez,
se propõem a engrandecer-te e ilustrar-te?
Pois, dize, não fazias tu consistir a
tua glória na mediocridade do teu alcance comercial, e
não cuidaste sempre que havia de durar per soecula soeculorum o reinado
das cabeleiras, que condenavam as invenções,
execravam a actividade, e absolviam do cume da sua insuficiência
a terra que tinha paciência para os sofrer?
Quê! Todas estas tentativas de progresso,
que tendem a vencer o espaço e o tempo, e a aproveitar os breves
dias que o homem tem de passar sobre a terra, não escandalizam
porventura os teus brios de ociosa, nem despeitam a índole
pachorrenta do teu carácter conservador? (A Vida em Lisboa)
Lisboa designa, como se vê, o mundo burguês que se faz
herdeiro da pacatez passada e que ao domingo veste a
«histórica sobrecasaca preta», para, serena e
pausadamente, se ir aborrecer com gravidade (id.) — e há-de
continuar a designar algo de semelhante nas Prosas Bárbaras e na eciana
restante. Aliás assombra a permanência no Eça
maduro de um contraste estabelecido por Machado no primeiro
capítulo do seu romance contemporâneo: em Lisboa é
feio e ridículo tudo o que é obra dos homens — e é
o que Deus fez magnífico e grande. Machado quando moço
sentimental e céptico não vê, portanto,
descontinuidade nem semântica nem histórica entre o
«reinado das cabeleiras» e a civilização
burguesa (ou antes, a sua quotidianeidade (in)característica).
E, se nestes começos, a mítica Ulissipo se salva por uma
espécie de amor do narrador ao casticismo (atitude não
muito distante da do folhetinista maduro), o qual parece
contínuo com aqueles nossos costumes de que pretenderia dar
conta o romance contemporâneo, a verdade é que o reinado
das cabeleiras, ou já desta sobrecasaca histórica, nos
aparecerá por toda a obra triunfante.
Lisboa não atende muito ao prazer do herói (ou ao da
heroína). A autenticidade de Guilherme é representada
pela «linguagem da alma», caracteristicamente marcada pela
insociabilidade e pela misantropia. A «linguagem da alma»
é própria, todavia, do romance onde o herói
«céptico» faz a sua confissão sentimental;
já o folhetim é mais cauto, como género que
não pode dar-se ao luxo de desconhecer o seu público.
Nele se perspectiva o social como prazer, e ele mesmo se reconhece
integrado no movimento social que é transformação
do social em prazer, para se perspectivar, finalmente e ao jeito das
compensações, a única transformação
real do social em prazer:
Coisa singular! Este papel
de invenção moderna [o folhetinista] não
principiou a desenvolver-se entre nós senão desde que
Lisboa se tornou cada vez mais insipida.
(...)
[H]oje que tudo dorme, hoje que tudo ressona, ha de
todos os lados folhetinistas conscienciosos, que se esmeram a contar a
si proprios dia por dia esta vida mesquinha, como as mulheres que
quanto menos consoladora é a imagem que elle lhes mostra mais a
miúdo se miram ao espelho! (Trechos,
pp. 6‑8)
Parece poder dizer‑se que a reivindicação conjunta de
modernidade e prazer (resignada ao cepticismo), que abre A Vida com aquela prosopopeia de
Lisboa, é um adquirido do folhetim e, provavelmente, a mais
central das suas convenções. O prazer comanda este
género quer quando havia uma Lisboa moça e, então,
um só folhetinista (Lopes de Mendonça), quer quando teria
vindo a imperar a gravidade e o sensabor e os folhetinistas pululam. No
segundo caso («hoje que tudo dorme, hoje que tudo
ressona»), ou porque a modernidade é já prosa ou
porque não se teria afirmado, o prazer transmitido pelo
rodapé de jornal seria fidelidade à
convenção, ou seja, convenção
deveras. (Trechos, id.)
Ora na transposição para romance, Machado balança
menos. Começa por afirmar a incompatibilidade, de sempre e de
raiz, entre aqueles valores e a patriarcal Ulisseia, deixando ainda
assente que a conformidade ao objecto não poderá
encarar-se como fonte de prazer. É como se, na Lisboa de A Vida, nunca tivesse existido a
«Sociedade do Delirio», nem «o delirio da
sociedade» que o folhetim pode evocar com embevecida nostalgia
(id.), ao mesmo tempo que pinta quadros e miniaturas como a do
marquês de Nisa em Lisboa de
Hontem (pp. 155 ss). O romance, enfim, não pretenderia
comprazer Lisboa, ou embalá-la, enquanto espera um relustrar dos
tempos. (id.)
À ausência de prazer não escapa o Passeio
Público, instituição emblemática da
sociabilidade de Oitocentos. As referências do romance ao Passeio
não discrepam da sua notável encenação pelo
folhetim. (Trechos, pp. 69 ss;
mas veja‑se ainda Lisboa na Rua,
pp. 9 ss, onde repete Machado algumas notações e
anedotas). O rodapé é bem mais exacto — Machado assinala
hierarquias de posse e de gosto (exterior/interior, rua do centro/ruas
laterais, jovens/não jovens, pai de família/mulheres da
família, etc.) —, mas em ambos se insiste na trivialidade do
lugar. É o Passeio, significativamente, o sítio a que se
resignam os jovens no Verão, quando não há bailes
nem teatros. (id.) O folhetim denota, todavia, uma
atenção ao(s) ridículo(s), a qual desemboca nas
amenidades do cómico, que não tem contrapartida no
romance contemporâneo — porventura porque cómico e
ridículo não lhe servem, como serviriam a ferocidade
crítica ou moralista, mais próprias da sátira ao
«mundo burguês», ou, pelo menos, da confissão
«céptica».
A ambiguidade das perspectivas sobre Lisboa, em A Vida, quando a haja,
dependerá, pois, de um género composto entre romance e
folhetim. O que o primeiro faz questão de recusar como
«imoral» quer aceitar o segundo como pitoresco ou como
«ridículo», não raro
«enternecedor». No romance, são vários os
trechos folhetinescos (sobretudo, os que dizem respeito a
ambiências populares) em que uma descrispação da
escrita remete de facto para as liberdades do género; mas nunca
se chega a uma relação com o objecto onde o grau de
complacência é tão elevado como nesta
personificação da farsa:
Oh! a
farça! a farça! Essa impagavel burgueza, que nem fala
linguas nem dança!...Porque não toma ella a figura de uma
mulher, que eu quero-a ja para mim! Uma trigueirona alegre, que use
sapato de tapete, ponha pomada de lucia-lima no cabello, passeie aos
domingos de tarde no jardim da alfandega, visite a historia natural
ás quintas‑feiras, e conte sinceramente á visinha que
descobriu para prato do meio a combinação de lulas com
favas!... Creatura morigerada, que não vista na Lombré
nem conheça as luvas de Jouvin, saiba pregar um botão e
temperar uma sallada, e termine por dar a sua mão a um
negociante de melaço! (Trechos,
p. 61)
Como se vê, Machado tende a designar (ou antes: qualificar) como
«burguesa» quer toda uma sociedade caracterizada pela
«patriarcal nulidade», quer os estratos sociais urbanos
pertencentes às classes médias baixas, entre nós o
seu tanto «populares». O folhetinista confessará que
faz serviço sobretudo a um público que vai do
funcionário à «burguezia infima, de logistas mal
estabelecidos» (expressão que cito de Trechos, p. 70). Curiosamente (e
regresso ao acordo com o meio), quando o material de romance
(casamentos, amores, paz doméstica...) é tratado por
Machado a um nível realização estética bem
superior ao que acontece com A Vida
em Lisboa, vemos como abnegadíssimas condessas e filhas
de condessas se exprimem nos termos de uma moral idealizada (i. e., de
um moralismo) perfeitamente pequeno-burguês. É o caso
paradigmático de «Os Noivos», primeiro dos Contos ao Luar. Tal moralismo (e
já a restrição da matéria romanesca a estes
assuntos) dá bem a medida do acordo do escritor com o meio (e
não se esqueça o sucesso imenso dos Contos). A Carminha e Amélia
convém, pois, o qualificativo cesariano de «burguesinhas
do catolicismo». Na verdade, são o catolicismo como um
comum senso social de «burguesinhas».
Voltando à farsa, notar-se-á que ela designa
metaforicamente uma realidade social «esteticamente não
motivada», ou seja: diz a ausência de uma classe
superior que exercesse jurisidição sobre os gostos e as
vergonhas daquelas outras a que serviria de modelo. É uma
percepção que passa a Eça, inegavelmente, e que
encontramos ainda no rei de todos os folhetinistas, Vasco Pulido
Valente. Como esquecer o rodapé fantástico, em que de
farsante para farsante (de lixo a lixo), Vasco se nos apresenta no
domingo imenso da reforma, por que supostamente anelaria, não
mais vestindo que o pijama, realizado plenamente no desleixo, vendo
passar a nação benfiquista rumo ao estádio da Luz
— e cuspindo e largando livremente a cinza do cigarro para a rua? A
abdicação a favor do «meio» é
obviamente de natureza textual; e nessa realidade de texto
reconhecem‑se alguns elementos que nestes têm o seu oposto: algo
entre a verve e o pedantismo onde uma superioridade social exibe a sua
evidência heráldica.
Neste desejo de um completo ajustamento mimético ao meio (em
rigor, um «casamento»), concede-se toda a razão a
uma vida inconsiderada, a uma doxa
que a palavra ‘Lisboa’ é, em geral, chamada a designar. Os
registos do folhetim, tão marcados pela desenvoltura e pelo
paradoxo verbais, sancionam assim (insista-se que não sem alguma
oblíqua derrogação) o substancial acordo do
folhetinista com o meio. De resto, sendo ele, metade por metade,
«moralista» e «cortesão», trataria
apenas «dos assumptos que o publico acceitou». (id., p. 5,
eu sublinho)
Sou sensível aqui à relação estabelecida
por Machado entre o folhetim e uma
«proletarização» (intelectual e não
só) da Esfera Pública. Essa
«proletarização» acompanha, de resto, um
marcado «envelhecimento» da literatura jovem, que se quer
em contiguidade representativa com essa rotinização da
vida designada por Lisboa. Aprecie-se:
Não é [o
folhetim] um sacerdocio nem uma missão, como se dizia outr’ora
da poesia e do jornal [ para Herculano, exemplarmente, jornal e poesia
eram missão e sacerdócio], é um empregosinho
honesto que quadra lindamente a um homem de boa fé. (id., p. 6,
sublinho)
Tal «proletarização», parceira de uma geral
dessacralização das Letras, ou de um acentuado
crepúsculo das Luzes, seria emblematizada pelo triunfo um tanto
pirrónico do folhetim (ou, em versão mais
«ontológica», pelo triunfo de Lisboa). Veja‑se o incipt de Trechos de Folhetim: «O
folhetinista portuguez é talvez o primeiro escriptor do
seculo».
Finalmente, na obra de Machado romance e folhetim começam por
ser literatura jovem, sendo o primeiro género, na esteira das Memórias de um Doido, o
lugar onde a «mocidade» muito agressivamente apresenta as
suas reivindicações de «prazer». Desaparecido
o romance regido pelo herói que tem por lema «em tudo
só» (cf. A Vida,
p. 35) — ou seja, perdidas as ilusões —, fica o honesto
empregozinho. Fica, o mesmo é dizer, o folhetim que responde ao
triunfo da inércia social com a evocação
longinquamente normativa do que «lhe» falta: mocidade e
prazer.
De qualquer modo, tendo em atenção estes e outros textos
da época, e uma vez que de proletarização se fala,
parece-me de assinalar não apenas a existência lisboeta de
uma verdadeira esfera pública popular mais ou menos
autónoma, e da sua continuidade razoável com a esfera
pública burguesa, mas constatar ainda que as nossas classes
médias (certamente porque não necessitadas de
mão-de-obra industrial disciplinada) não chegam a sequer
«inquietar-se» com a (i)moralidade dos divertimentos
populares.
É contemporâneo o romance (e «realista») pela
intersecção dos seus regimes ficcionais com os da
crónica de actualidades (e com a «fisiologia»).
Poderia falar‑se de um composto pragmo-semântico;
destacaríamos, então, a quase sinonímia entre
‘actualidades’ e ‘contemporâneo’ e a quase antítese entre
‘romance’ e ‘crónica’.
Servirá Lopes de Mendonça como modelo do
«género contemporâneo», ou seja, como norma de
arte dele? A resposta seria para o Português negativa. Viveriam
as Memórias
literariamente pela «elegância da linguagem», mas
seriam falsas enquanto aos quadros e às figuras, arrancadas a
livros franceses. («Notas»)
As condições de arte, que se inferem daqui, subtendem o
ajuizar dos méritos e deméritos da obra de Machado (em
rigor, o primeiro volume dela), cujo título anunciaria, de
resto, o que um romance de actualidade deve ser: A Vida em Lisboa. Aceita-se a
verdade social e artística (a fidelidade e o bom desenho) dos
tipos em geral; e destaca-se o valor romanesco de alguns outros em
particular. Se seria bem português o tipo do barão de
Sousa, e português ainda o da Ritinha (e se, como produto
exemplar das forças de uniformização moderna, no
de Lima Lisboa se perspectiva civilizada), o tipo da Ritinha
beneficiaria ainda de um desenho original, e o de Guilherme prenderia a
atenção do leitor, etc. (id.)
Quanto à linguagem, assinalam-se progressos ao folhetinista e
opõem-se-lhe algumas reservas. Como talento simpático, o
folhetinista Machado acusara até aí «poucos
conhecimentos literários e muita negligência no
estilo». Com A Vida em Lisboa,
denotaria já «cultivação aturada do
estilo». (id.) O crítico objecta, todavia, a «certa
novidade de expressão», que reconhece propositada. Essa
novidade consiste basicamente em trazer para livros termos que
são da fala e que a esta devem ficar confinados. Dá o
exemplo de cavaqueação. Aconselha ainda cuidado na
construção da frase, a qual deve sempre ser de sabor
português; e recomenda, em consequência, a leitura dos
nossos clássicos.
Nota-se na resposta de Júlio César que se passa nesta
literatura emergente uma luta pela classificação. Para o
autor, texto e linguagem não se apoiam apenas na
«realidade» a que o crítico recorre, quer seja
ela um social concretizado em tipos, ou umas feições
irredutíveis da língua nacional concretizadas em norma
pelos clássicos. A Vida em
Lisboa mede-se com (outras) classes de textos personificadas em
autores, e aparece-nos como um texto em demanda de classe e da sua
classe. Na ocasião, sem antecedentes invocáveis em
Mendonça, pelo muito francês que este seria, Machado apela
ao exemplo de Garrett e das Viagens.
Neste e nestas encontra o estilo do seu assunto, ou seja, a
justificação literária da sua obra. Graças
às Viagens, de que
gostaria de descender, A Vida em
Lisboa evitaria dois tipos de dissociação que
afectam o seu género demandado: entre a «elegância
da linguagem» e a matéria contemporânea que
apareceria apenas como um pretexto daquela (o caso de Mendonça)
— e entre aquela mesma matéria e a língua dos
clássicos, que o Português lhe aconselharia como norma.
Norma, invocável portanto porém nunca inteiramente
concretizável (mas apenas porque cabe ao autor ser modesto),
será «o estilo que chamam natural [em que se escrevem] as
coisas de modo que pareçam estar acudindo aos bicos da pena e
não haverem sofrido a mais leve correcção».
(«Notas») Esta norma estilística seria
orgânica com o romance contemporâneo, que, ao mesmo tempo,
é o romance da cavaqueação, e o romance onde se
utilizam termos como cavaqueação, como se fossem eles
acepções justificadas.
Notar-se-á a muito importante ressalva de Machado: como saberiam
os entendidos, é muito «difícil» o estilo a
que chamam natural, e dá muito «trabalho» escrever
desse modo. O que Machado, o seu tanto infamado como folhetinista, cala
aqui, mas é para nós evidente, é que o seu estilo
natural nasce dos jornais e do folhetim (como em grande parte nasceu o
de Garrett ou o de Eça). Isto dito, deve sublinhar‑se que a Vida em Lisboa não abandona
de todo a «elegância da linguagem», a qual,
além do mais, não é apenas falada pelas
«grandes almas» (que continuam a exigir as pompas
líricas) O romance acusa por aí uma grande
descontinuidade em relação ao folhetim. Tal
«elegância» ordena, de resto, outras
divergências. Por exemplo, o «sistema» de formas de
tratamento é algo diferenciado nos dois géneros.
Apesar de que o romance se exceptua um tanto do cumprimento da sua
teoria, tudo isto denota um certo acordo com a narrativa auerbachiana
da instituição ocidental do realismo da mimese por
mediocratização normal do estilo. (cf. Auerbach, Mimésis) Um certo
«faceto», uma certa informalidade, um certo pitoresco,
tornar-se-iam normas que a vida impõe à linguagem no
romance qualificado como contemporâneo. Acha-se César
Machado compensado da falta de autoridade, de que Garrett não
sofrera ao pôr em curso na república literária os
seus flanares, flartares e desapontados. E se o autor se defende pela
adequação dos usos a situações muito
circunscritas de «prazer» (diálogos de rapazes,
ceias com dançarinas e almoços entre amigos no Marrare ou na Floresta Egípcia, onde a
«eloquência não costuma elevar-se às pompas
de um estilo quase lírico»), certo é que
abandonará adiante tais precauções, propondo-se
generalizar deste modo a norma do seu género:
Fazer que o
romance contemporâneo seja dialogado no estilo em que a vida se
conversa, foi a ideia do autor; ideia talvez boa, e que, se um nome
mais autorizado a sancionasse, em vez de acusada como um erro seria
porventura reconhecida como um serviço [noção esta
importante para a definição do escritor público,
mesmo considerando o como este nos aparece em A Vida em Lisboa].
(«Notas»)
Por relação ao modelo garrettiano, deve contudo
estabelecer‑se que, se César Machado prossegue aquela
«política cultural» de simplificação
linguística que serve à unificação pela
sociabilidade das classes médias como um público (na
acepção habermasiana já exemplar), ao encontrar
nas Viagens a unidade
orgânica da forma com o conteúdo contemporâneo, a
este último não o encontra, todavia, em
transcrição romanesca. A dimensão conversada do
livro — «inorgânico», quando avaliado pelo modelo
balzaquiano não presente ao tempo das Viagens — não
abrange, como se sabe, a parte de
«imaginação». É de sublinhar que
Machado tem para apresentar aos críticos um verdadeiro programa
romanesco (e, já agora, um verdadeiro programa balzaquiano).
Embora a realização não corresponda ao
desígnio, o facto é tanto mais importante quanto, como
vimos, a resposta da crítica tem como normas do género
meramente a língua e os personagens (ainda que designados estes
por tipos). Aprecie-se:
Procurar as
mais salientes feições da nossa terra, estudar os
costumes e a índole dos lisbonenses, ligar a
descrição dos tipos à descrição dos
lugares que em Lisboa têm mais distinta feição:
inventar uma acção em que os elementos se combinem todos
a auxiliar a pintura empreendida dos lugares e dos tipos, amenizando‑a
pelo interesse e movimento de um enredo em harmonia com os caracteres
que se pretende observar, e com os usos que se procura descrever — eis
o plano desta obra, plano de uma seriedade extrema, que inevitavelmente
devia tornar pesado este trabalho a um pulso literário
tão pouco experimentado como o do autor». («À
Crítica»)
Por estas e por outras, a «boa ideia» surge assim, como vai
escrevendo o próprio autor dela, não sancionada como
arte. Em contrapartida, percebe-se agora que o romance histórico
possa ser completamente arte e inteiramente romance. Não sofre,
em primeiro lugar das objecções que a actualidade em
todos os planos faz à «arte»; e, em segundo lugar,
denota o trabalho e o cuidado a que se evade o
«folhetinista»: ao estudo da época podem
acrescentar-se não apenas o cuidado com a boa linguagem, e
não apenas as pompas de um estilo quase lírico, mas ainda
a idealização que acompanha as restrições
impostas por uma moral pública sempre muito sensível
à actualidade do representado. De facto, a actualidade
forçaria a escrever «sob o poder de impressões
verdadeiras» («À Crítica»). O autor de
romances contemporâneos escreve o que lhe dita a realidade (os
leitores podem «verificar-lhe» os enunciados); não
pode recorrer à imaginação (ao
«romanesco»). Ressalve‑se, contudo, que a
conformação do romance à «cor local»
(id.) — como se esta expressão fosse correlativa de
‘impressões verdadeiras’ — vem porventura denotar
específicos limites culturais ao «realismo
fisiológico». De facto, quem lê o romance pode ver
esta «cor local» nos termos de uma convenção
«realista» da ópera romântica, precisamente
naqueles termos designada.
Em rigor, a primazia do romance histórico, ainda a
legitimação romântica das literaturas nacionais,
acha-se fundada por dois modos: (i) a noção de que as
invenções «póeticas» modernas
têm como matéria já não a mitologia mas a
história (com privilégio para a Idade Média e o
sistema de crenças cristãs) e (ii) que nessa
história, a que o «poeta» restitui paixões e
sentimentos, reside a identidade popular de uma nação.
Tal como Machado o perspectiva, o romance contemporâneo
justificar-se-ia pela descrição realista ou
«fisiológica» dessa identidade, ao tomar para
matéria os costumes que brotariam organicamente dessa
índole. (Ao mesmo tempo, pode tematizar a arte como as
não satisfeitas exigências que a mesma arte — ou a
«mocidade» — faz à sociedade actual).
Na verdade, a Vida em Lisboa
manifestará, como já se viu, uma
dissociação acentuada entre romance e
contemporâneo, idêntica à das Viagens entre narrativa
conversacional e novela. Sintomática é a
concordância (e reiterando o adiantado por Machado no
prolóquio intitulado «À Crítica») dos
artigos transcritos nas «Notas», quer da Nação quer do Português, quanto ao facto de
haver «vocação literária nos três últimos capítulos
do primeiro volume» (Nação,
meu sublinhado), ou serem os últimos capítulos
«realmente notáveis pelo estilo e pelo interesse que
despertam» (Português).
Autor e críticos discorrem segundo as linhas de uma muito forte
suposição: a de que o longuíssimo início,
dedicado em modo balzaquiano tanto ao levantamento de ambientes, como
à ambientação do leitor, não é de
todo literário — não pertence, vale dizer, ao romance
propriamente dito. Em verdade, sabendo nós já, embora
não exactamente, o que o romance seja, saímos desta
controvérsia com a certeza de que nem autor nem críticos
lhe conhecem o tipo ou os tipos.
De facto, o último capítulo dessa primeira parte, e
não apenas por vénia ao Garrett digressivo, ao justamente
intitular‑se «Em que verdadeiramente principia o romance»,
aparta o género dos quatorze capítulos anteriores (apesar
de alguns interessarem ao plot).
O livro adquire as razões de Guilherme que o tornarão
muito efectivamente uma «confissão sentimental e
céptica». Fica assim bem marcada uma diferença
genológica. Antes que o último capítulo da
primeira parte transmute o livro em romance, fora ele outra coisa —
precisamente aquilo que, no primeiro capítulo, ao fazer o que,
muito adiante, e por interposto José de Ataíde, se
poderá ironizar como profissão de fé, nos disse o
autor que o livro era: «um verdadeiro folhetim em quatrocentas
páginas», apesar de um romance. (A Vida)
A designação ‘folhetim’ virá a ser
substituída pela mais nobre (e única utilizada no
prólogo) ‘fisiologia’, subgénero daquele e, às
vezes, sinónimo seu. Mais exactamente, o romance seria um
«estudo fisiológico». («À
Crítica») O estudo, extremamente valorizador de letras
públicas, opõe-se a tudo o que no folhetim tem a ver com
a «liberdade», a «desenvoltura», a
«ligeireza» ou o «improviso». Não
obstante, permanecerá a separação entre o romance
e o que assim se designou. A fisiologia nunca cobrirá o
designado por romance, muito embora na resposta à crítica
que nas «Notas» aparece se insinue a existência
material de uma só obra que seria ao mesmo tempo romance e
fisiologia, (id.) e, sobretudo, que, ao arrepio do leitor o seu tanto
necrófilo, a obra poderia existir como fisiologia e já
não como romance — de facto, como romanesco:
(…) gostam eles muito [os
leitores] de assistir no funeral dos personagens que mais interesse
lhes despertaram na leitura do livro, e apenas descansa a
romântica curiosidade do seu espírito, quando chegam ao
ponto de os ver meter na cova e deitar-se-lhe terra em cima! Mas se
não fiz morrer o herói do meu livro por um duelo ou por
um suicídio, o que seria de grande efeito num romance, é
porque preferi apresentá-lo, no momento de abandonar Lisboa,
perdido e sem recursos, e indo tentar fortuna ao Brasil, sujeitando-se
a uma existência nova; e se isto não é tão
bom como romance, é muito melhor como fisiologia.
(«Notas»)
Como se vai vendo, fisiologia e romance são
designações oponíveis, e de ambas as partes
noções e usos são incertos. Da
consideração do que neste par se joga, facilmente se
infere ser ainda romance contemporâneo uma espécie de contradictio in adiectu, com a qual
César Machado compõe o melhor que pode. Deve, de resto,
lembrar‑se que se o autor não suicida o herói do livro,
apesar da primeira vontade deste, em contrapartida nos fez assistir com
ele no funeral da heroína. Sobretudo, convém notar como
romance — no trecho, uma citação do que se entenderia
comummente por romance — se revela uma expressão enfeudada a
romântico (cf. a romântica curiosidade do espírito
que distingue o leitor). César Machado faz-nos encontrados aqui
com um facto de «lexicografia», qual seja a persistente
associação do romântico ao romance, ou antes, ao
romanesco (já à fisiologia seria cometida a
função de evocar um «realismo»,
especificamente o da matéria da actualidade). Note-se que
partindo o herói «céptico», mas com
princípios de fisiologia, para o Brasil, não é por
isso o livro menos romance. Basta lembrar que, num quadro referencial
de doença, morte e enterro de filha, o pai de Sofia deixa pura e
simplesmente de existir. Isto, que é irrealista, é no
romanesco que faz o romance um esquecimento natural.
Sumarie-se. Por um lado, César Machado depara-se com uma
situação em que contemporâneo desqualifica romance;
por outro lado, pretenda embora habilitar um romance
contemporâneo, o género resulta-lhe ser aquilo que, em
grande parte e de um modo ou outro, é deixado incólume
pela actualidade.
Ressalvando que César Machado é já, por esta
altura, o príncipe herdeiro dos folhetinistas (e, logo depois,
rei de facto), esta tensão deve porventura ainda ajuizar-se em
função da relação hierárquica
estabelecida entre folhetinista e romancista, a qual em termos de
carreira, mas não necessariamente em termos de
«arte» — reveja-se a crítica do Português —, parece
favorável ao primeiro. Aliás, a realização
de um romance, ou de outros específicos, pode mesmo aparecer
como uma prestação de provas — «um caminho para o
meu destino» —, que habilita ou não habilita o
estabelecer-se alguém como folhetinista. O folhetim é uma
carreira, qual o romance não é. (cf. Cláudio, p. 171; Rodrigues, Mágico Folhetim, p. 217,
onde me surge a expressão «demonstração de
provas dadas») De facto, teria sido o sucesso de A Vida em Lisboa o
responsável pelo grande avanço material e
simbólico da carreira de Machado — entrada na Revolução de Setembro,
para substituir Lopes de Mendonça como folhetinista. É,
pelo menos, o que, em Apontamentos
de um Folhetinista, inculca a narração:
Publicou-se a obra [A Vida], esgotaram-se rapidamente
os dois volumes, ocuparam-se d’ella os jornaes, e, logo depois, Ricardo
Guimarães enviou-me um bilhete com estas simples palavras: “Esta
noite, no salão do S. Carlos, vaes ser apresentado a José
Estevam, e entras como folhetinista na Revolução de Setembro.”
(Apontamentos, p. 311, sublinhado meu).
Interessa decerto saber que, mais de uma década depois de A Vida, Machado tem o romance
(português) como categoria imprecisa, e quase que só
nominalmente existente, apesar de o considerar, com a poesia, o
jornalismo e o teatro, uma das quatro partes do mundo literário.
À pergunta «E o romance?», responde-se: «Paiz,
cujos limites não estão ainda definidos. Falle-me antes
do jornalismo, reino do pensamento, cujas principaes cidades são
a Revolução de Setembro,
o Commercio do Porto, a Gazeta de Portugal, e Jornal do Commercio», etc. (Trechos, pp. 78‑9) O jornalismo
é um tópico (quando não um género)
substituto do romance, muito embora este — graças a Camilo, o
único romancista mencionado — se mantenha digno e popular, ao
contrário do que aconteceria com a poesia e com o teatro:
«O romance, ao menos, conserva-se digno, graças à
dominação do rei Camillo, que habituou o publico a
expulsar do templo os vendilhões, e a pagar-lhes o pregão
com o desdem da turba!» (Trechos,
p. 81) Duas observações apenas. Machado terá
contribuído para a indefinição das fronteiras do
romance; o romance histórico não exemplifica o
género. Parece ter deixado de existir.
Em qualquer caso, folhetim, fisiologia ou fisiologias, enquanto
repertório e investigação de tipos e costumes,
dificilmente se fundem organicamente com os personagens e com o plot. As quatrocentas
páginas de «folhetim» ou de «fisiologia»
funcionam antes como um panorama — um fundo do qual destacam os seus
variados pitorescos, ou as suas curiosidades humanas. Lisboa é
um panorama muito vasto, afirma o autor no início do
prólogo. («À Crítica»). Essas
matérias surgem de resto como o que são quando
explicitamente destinadas à leitora e ao «leitor das
províncias», que bem poderiam ser gentes curiosas do que
ignoram e tenderão a achar exótico. Por outro lado, aos
olhos citadinos que contudo ainda vêm das «hortas»,
é como se, e usando em meu benefício de um dos termos
derrogatórios do livro, marquesas ou publicistas,
«mulheres de gesso» ou cocheiros, bucolizassem, tendo por
pano de fundo o mundo urbano. (cf. Benjamin, Poésie et Révolution)
Como se disse já, A Vida
não consegue realizar o programa anunciado no prolóquio.
«Faltam [à Vida em
Lisboa] sobretudo as personagens suficientemente caracterizadas,
os ambientes e aquele sentimento do tempo que corre, inaugurado no
nosso país, sob a influência da novela inglesa, por outro
contemporâneo de Júlio César Machado, Júlio
Dinis». (Saraiva e Lopes, História
da Literatura Portuguesa, p. 767)
As personagens do livro são gente que animadamente fala (ou
mesmo grita) nos cenários da fisiologia atravessados e
constituídos por práticas de sociabilidade generalizada a
todas as classes (e, na verdade, como se fossem ociosas todas elas);
mas são também gente que perora e escreve com todas as
pompas de um estilo quase lírico nos capítulos de
romance. Todavia, e justamente como sinal distintivo da
«vocação literária» que a Nação assinala bem,
este estilo conhece uma disponibilidade única. É
acessível ao narrador e às personagens letradas e menos
letradas (como a Ritinha), as quais podem usá-lo tanto
séria como parodicamente, e assaz independentemente da bondade
delas ou das suas intenções. Estamos dispostos a perceber
que no folhetinista este «mecanismo» é apenas um dos
seus recursos de linguagem, e surpreender-nos-á um pouco que a
ele recorra quer quando a «nobreza» se lhe impõe,
quer quando deva assumir uma crítica radical do status quo. Não é
já um recurso histriónico nessas ocasiões, mas a
linguagem da alma. Notar-se-á, então, como não
dispõem de outra língua, além da pompa
lírica, as personagens reservadas para ideal. Como não
sujeitas ao percurso social que conduz da fé à
descrença (ao «cepticismo»), aparecem-nos Sofia de
Sousa e aquele bom padre que lhe assiste na morte e consola Guilherme.
Não são actores, porque de todo não são
actores sociais.
A mulher e o padre não necessitariam de grandes recursos
sócio-linguísticos ou não sentiriam a falta deles.
Bastam-lhes as «ficções divinas». Dentro das
convenções do «romântico», a
diferença é muito bem dita pelo
«vilão» da obra, Luís de Lima. Este é
aqui o porta-voz do autor. É como sendo sua (não
há autor sem precauções) que na Vida nos aparece a
percepção do abismo social entre os dois sexos como
especulando o abismo entre os valores da arte (o poético ideal
de que a mulher é fiel depositária) e os valores sociais
(realismo do dinheiro e cepticismo por ausência de quaisquer
crenças).
Se para as mulheres, assim
como para os homens, fosse um inevitável resultado do tempo e da
vida arrancar do coração as mais doces esperanças
e as mais divinas ficções, se as senhoras estivessem,
como nós, sujeitas a este natural desencanto, quando um dia a
sua experiência tivesse enchido o abismo que nos separa hoje,
é provável que então não me condenasse nem
desprezasse, como agora fará decerto! (A Vida)
Noutro plano, os «personagens das hortas», Procópio,
José Teixeira, e, sobretudo, o cocheiro João Rodrigues,
limitam-se a uma linguagem popular, que adentra pelo calão ou
pela gíria, e que por vezes nos toca pela exactidão
já camiliana ou realista. Não obstante a
caracterização configurar no patife o janota, e no
cocheiro uma espécie de dândi popular (dir-se-ia o
fadista), a linguagem do segundo (a única perfeitamente
autonomizada), sendo embora contínua com os sinais daquele
dandismo, aparece ainda como a linguagem da sua condição,
e de uma espécie de auto-satisfação corporal com
ela.
É, pois, muitíssimo impressivo o contraste com Guilherme,
no qual a linguagem da alma, que o tornaria superior à sua
condição, todavia realmente denota ser a expressão
do seu insuperável condicionamento por aquela
condição. A realização verbal é
característica, ocorrendo muitas vezes com o
«nervoso» e o «frenético», e, em geral,
não dispensando o solecismo que alastra em pleonasmos e
perífrases e prolixidade. Capítulos como «Sonho de
uma noite de verão» abundam nesse vício. Assim:
«O mancebo, sufocado em lágrimas, abriu os braços
à namorada, e conchegou-a ao peito, num delírio
frenético de entusiasmo afectuoso»; ou, e aqui fazendo
assistir ao que sente Guilherme o leitor simpático: «Mas a
atmosfera abrasada como que lhe era agora de assustador
presságio, e a luz melancólica das estrelas parecia
convidá-lo, ainda mais, a reconhecer-se perdido e isolado no
mundo e na vida, desde que o amor de Sofia deixara de dar ânimo àquele coração
aflito!» (sublinho) A «linguagem da alma»,
indistinguível já do cepticismo confessional, é ao
mesmo tempo a do romance e a daquele romântico que, no
espírito do senhor Niggins (e, apesar da Arte, também no
da articulista da Nação),
se relaciona «com uma série de coisas abomináveis,
como a lepra, o ateísmo e o hipnotismo criminoso». (Ray, A Rua da Cabeça Perdida)
A preservação do «romance» pela pulsão
fisiológica parece-me assim que obedece a uma lógica
própria do «hipnotismo criminoso»: a de um certo
desacordo na literatura emergente entre o mais público dos
autores e o próprio público que aquele autor ajuda a
constituir. Paralelamente, a crítica que se preza de bom
português cede à voracidade juvenil, aceitando como arte,
não raro «imoral», a alma que se dá ao
solecismo e à cincada.
A «vida em Lisboa» e logo a «Lisboa» dessa vida
funcionam como explicação por depreciação.
A depreciação apoia-se em várias formas de
«lepra» e «ateísmo» (anti-)sociais: a
linguagem da alma, o nervoso, o frenético, a tísica de
que morre Sofia de Sousa, a poesia de uma noite de verão, a
necrofilia final e denegada que é a matéria da noite de
S. João (último capítulo), o «magnetismo
sexual», o repúdio quer nobre, quer cínico, das
«convenções sociais» — justamente ditas
lisboetas —, o próprio cinismo com que (não) choram
rapazes e que me parece outra face da linguagem da alma, etc.
Chegados aqui facilmente nos apercebemos que a associação
entre romance e fisiologia resulta num mecanismo textual que
incorpora e aprofunda o dissídio suposto entre romance e
actualidade. No romance a briga traduz-se na
dissociação intrínseca da confissão
sentimental e céptica. Tal tipo de confissão é
certamente auto-censura; o «sentimento» relativiza o
cepticismo aos olhos do leitor, e serve a reivindicação
de grandeza do herói, porta-voz do autor, poeta, e em tudo um
álibi. A sociedade má desloca-se para a personagem, que
é uma vítima; a personagem acha-se por seu turno
deslocada em tempos que lhe não estão de
feição. Todavia, o jovem que escreve não abre
mão por inteiro do que o «cepticismo» terá de
mais crítico: a marcha inexorável, à maneira de
uma lei social, da crença para o oposto, que fará
não apenas Guilhermes mas Limas — como quem diga que não
somente Rubemprés mas Rastignacs que poderiam ser
simpáticos (ou seja: heróis de romances) ao leitor mais
dado a ideais.
Convém agora fazer notar que o abandono da fisiologia é
justamente algo como a «lei social-formal» do folhetim — a
componente que o rodapé deixa cair no decurso da sua
definição optimizada, que será acordo prazenteiro
com o meio — ou, como escreverá Machado, «anedocta».
Também o folhetim vai a seu modo de literatura
«jovem» a literatura «velha».
Esses desacordos têm alguma expressão no campo do
literário emergente em Lisboa, ao tempo não autonomizado
do político e do salão e não percebido como
autónomo deles. Tal heteronomia, ou os fantasmas dela, percorre
todo o material de A Vida em Lisboa.
Sintomática é assim a não presença no mundo
de um romancista que seja. Os «homens de letras» de A Vida em Lisboa são
folhetinistas, noticiaristas, um médico que poderia sê‑lo,
uns poetas que, como não especialistas, são a
extensão ideal ou idealizada da literatura de jornal (é o
caso de Guilherme com o seu folhetim de versos), e, obviamente, um
dramaturgo. O romance não é representativo desta
«escrita pública», cujos géneros são
subsumíveis todos no jornal. Lembre-se que o romance pode ser
apenas prestação de provas. E, quanto ao resto,
precisemos. Em rigor, estamos perante o conjunto jornal-salão.
Lê-se o naco lírico que sai no jornal; e, tal como se
canta ao piano uma ária de Donizetti, recita‑se uma poesia com o
mesmo indispensável acompanhamento. Quanto a esta dramaturgia, a
própria Vida em Lisboa
se encarregará de mostrar que os teatros são um
prolongamento do salão; e, em que pese a Hugos e Garretts, a
presente definição dos seus textos é aquela mesma
que o sistema autónomo literário virá a desprezar
como o exemplo mais notório de «literatura
mercatória».
A congenialidade entre folhetim-romance e drama foi, de resto,
argumentada pelo próprio Machado, que, sob certas
condições, admitiria pertencerem ambos à mesma
família literária. As condições mencionadas
abrangeriam, aliás, a meu ver, o próprio
folhetim-crónica. E não faltam estudiosos a propor-se
classificar o folhetim-romance no género dramático. (cf. Mágico Folhetim, pp. 213 ss)
Na verdade — recorde-se o que do romance escreverá Machado em Trechos de Folhetim —, face ao
Ideal cujo bom exemplo é a poesia, vai carecendo o
género, no tipo contemporâneo, de existência e de
legitimação, ao mesmo tempo que tende ainda a ser
considerado como uma parte mínima das letras. Somente o
realismo-naturalismo assumirá para o romance programas de
representação global da matéria pública.
Não espanta deste modo que o folhetinista Guilherme surja em A Vida em Lisboa caracterizado como
poeta, posto não tenha propriamente obra lírica
publicada. Poeta é sinónimo de jovem. Sendo uma
acepção justificada pelos conglomerados de sentido que
assistem à reversão constante do cepticismo em
confissão e vice-versa, poeta é também muito
justamente a designação que convém ao homem dos
jornais enquanto moço letrado. Como quem não possui nem
rendimentos nem capital de relações, o dito moço
vive «dramas de íntima poesia», compreendido apenas
por «inteligências superiores». Poeta é, pois,
o nome cifrado do seu «desterro» irrazoável «a
uma posição obscura e inferior à sua
ambição e ao seu talento». (cf. Lopes de
Mendonça, Memórias de
um Doido, p. 66) Por tudo isto, não admira que seja ao
moço que enderece Herculano o seu recado: compete ao moço
fazer romance de actualidade. Quando responda o moço,
chamar-se-á ele poeta. O caso deste Júlio César
Machado, como o de Lopes de Mendonça, é tipicamente o do
garrettiano poeta em anos de prosa. «Os poetas são
creanças perdidas na sociedade moderna», escreverá
Machado em Lisboa de Hontem
(p. 98) (ocupado sobretudo com a caracterização
literária da figura do poeta, num corpus que vai do romantismo sob a
Regeneração até ao último Eça,
convém ainda assim ler o artigo de Jorge Fazenda Lourenço
«Poetas de Romance. Alguns Casos e o Caso de Tomás de
Alencar»).
O jornal, sempre alinhado pela política de um partido,
aparece-nos deste modo como o lugar dos muito balzaquianos
começos de vida; minotauro consumidor de talentos, é,
todavia, apetecível pela capacidade que teria de, arrancando-o
à poesia ou ao desterro, transformar um jovem escritor
público num homem público, ou seja: num político.
Lembre-se, por exemplo, que Machado acede a folhetinista da Revolução de Setembro
porque Lopes de Mendonça abandona, para se dedicar à
política. (cf. Apontamentos,
p. 312) Note-se, porém, que Machado, aconselhando-lhe
intempestivamente o confinamento a poeta, data a «queda» de
Mendonça dessa metamorfose. (Trechos,
p. 124) Trata-se de uma tradução bem notória do
«cepticismo» para «sentimento».
Guilherme (que deixou incompleto o curso superior de Matemática)
descobre que a sua condição de jovem folhetinista o
habilita especialmente para redactor responsável pela linha
política do jornal vilarista, aí emparceirando, de resto,
com Vítor Marrocos, uma espécie de Garibaldi oportunista.
Íntima e hierárquica é, aliás, a
relação entre os dois planos. Quem
«apadrinha» (e, informalmente, no salão do S.
Carlos) a entrada de Machado para a Revolução
de Setembro é José Estêvão, que
sugere ao folhetinista o primeiro tema (a Ristori) e altera o dia de
saída do rodapé (de sábado para
terça-feira).
A política tribunícia confia mesmo às letras
neófitas o segredo do folhetim, o qual, e não
forçando em excesso a metáfora, seria meramente uma
posição que há que sustentar. Eis os conselhos de
Estêvão, que fazem de Júlio César Machado um
moço principiante a quem se oferece a carreira esplêndida,
e o meio seguro de progessão nela, através do bon mot que cativa a
imaginação. Aprecie-se a definição
poético-pragmática do género (tão
cómica, como — se ouso dizê-lo — heideggeriana):
O folhetim
é um genero levado do diabo; aguental-o é tudo.
Vossê sabe como o cabo de esquadra explicava ao soldado o modo de
fazer uma espingarda? — Arranja-se um buraco — dizia-lhe elle —
põe-se-lhe ferro á roda, e prega-se-lhe um cabo. O meu
amigo tem um buraco, que é o folhetim, ponha-lhe á roda o
trabalho, a applicação e a vontade, que são o
melhor ferro e a melhor baioneta, e segure, firme.» (Apontamentos, pp. 315-6)
Queimado pelo intempestivo «garibaldismo», Marrocos espera
voltar à política activa, cumprindo um estágio no
jornal; Guilherme espera entrar nela, escrevendo artigos de
oposição sistemática ao governo. Esta actividade,
visando um percurso social ascendente, é acompanhada pela
relação electiva (e socialmente impedida) com Sofia de
Sousa, herdeira tão rica quanto Guilherme é pobre. Estes
dois planos convêm a duas linguagens: de um lado a do
«cinismo» e do outro a da «alma», que
são a mesma, todavia, dependendo dos instantes e conforme se
olhe da «direita» para a «esquerda» e da
«esquerda» para a «direita». Para concluir,
pode dizer-se que César Machado renunciaria à poesia, ou
seja, e neste caso, ao romance. Com efeito, depressa encerra este
episódio. Chega a 1888 como oficiante da anedota (e seguro do
que vale a época). Aprecie-se como nos apresenta as suas Mil e Uma Historias: «Tudo
é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas;
deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e
á sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas
oraçõezinhas, perante o altar da anedocta!» (Mil e Uma Historias)
Como foi dito, A Vida em Lisboa
abre não apenas com uma «anatomia» de Lisboa, a qual
de imediato engrena com uma fisiologia sumária do Marrare, mas
também com a simpática declaração do seu
género. O romance seria um folhetim de quatrocentas
páginas. Não deve entender-se, insista-se, este folhetim
de «quatrocentas páginas» como designando o romance
publicado em série no jornal ou na revista — em
«folhetins» —, mas justamente o chamado folhetim
literário, esse tipo de texto jornalístico que funcionava
sobretudo no registo da crónica de actualidades.
Cláudio, a
estreia romanesca do autor (1852) virá a apresentar como segunda
parte um longuíssimo folhetim literário, Aquele Tempo (1875), do ponto de
vista estrutural bastante alheio à trama romanesca. Dir-se-ia um
jogo metatextual, em que Machado, ao identificar-se, pelo fim do
«acrescento», e perante as tias, como o autor de Cláudio, transforma as suas
primícias romanescas em pitoresco de folhetim. O romance seria
resgatado da ingenuidade como folhetim, ou seria o «buraco»
ao redor do qual pôs Machado ferro e cabo, segurando firme.
Não exactamente assim A Vida
em Lisboa, que, tomada pelas suas «quatrocentas
páginas», e com algum fundamento, se afirma toda ela um
folhetim e um romance. Num caso e noutro, a continuidade entre os dois
géneros acentua‑se ainda na capacidade que, nas mãos de
Machado, revela o folhetim para passar da dimensão do
rodapé de jornal à do livro: se partilha
«quatrocentas páginas» com o romance em A Vida em Lisboa, tem Aquele Tempo o dobro das de Cláudio.
Tanto a relativa integração dos dois géneros em A Vida, como a sua
justaposição em Cláudio,
parecem naturais num autor que viveu quase exclusivamente das
crónicas que fazia (e chegou a ser o responsável pelos
folhetins de três periódicos ao mesmo tempo); por outro
lado, no jornal donde provém o autor, romance e crónica
igualam-se nas condições de produção e nas
estratégias de captação do leitor. (cf. Lima dos
Santos, «Folhetim literário», Dicionário do Romantismo
Português)
Deverá ter-se por significativo, creio, que A Vida em Lisboa abra com a
qualificação compósita e com a
apresentação de quatro designados jornalistas num local
que é um dos emblemas do folhetim. O Marrare não teria
existência real mencionável, mas a que derivasse de um
acto institucional, expresso em artigos e parágrafos
únicos, decorrente do poder de homens ainda
«únicos»:
O Marrare
é para Lisboa uma espécie de monumento histórico
que ela suporta, porque o hábito lho tornou necessário.
É o rendez‑vous dos
janotas e dos jornalistas, dos párias e dos homens de
pensamento: é um sítio onde nem todos têm direito
de entrar, apesar de ser público. Adquire-se esse direito pelos
seguintes títulos:
Artigo 1º. É necessário para
ser admitido a frequentador do Marrare ser um homem fora do comum.
§ Único. Consideram-se homens fora
do comum os homens de talento, os janotas, os ociosos puros, e todos os
exceptuados da sociedade constituída, que descobriram modo de
gastar dinheiro sem ter dinheiro, ir ao teatro sem comprar bilhete, ter
fato sem o pagar, andar de sege sem saber a conta. (A Vida)
Também Cláudio
abre no café, aí o «Suísso». Em ambos
os casos, o autor propõe-se sublinhar a existência quase
somente simbólica do lugar. Mostra-nos um valor gostosamente
às avessas de qualquer justificação
empírica: dos cafés lisboetas o Marrare seria «o pior, o mais
mal servido, o que tem bebidas menos gostosas, e comodidades mais
insuficientes». Versão, que há-de ser
literária, do aforisma: quanto menos real mais simbólico
(mais legítimo).
A redacção da lei orgânica do Marrare traz consigo a
Boémia. Posta em destaque pela desenvoltura do paradoxo verbal,
pretende o autor acentuar aquele paradoxo social que pertence de
direito à proto-história do Artista em sociedade burguesa
— à «primeira» definição
heróica da sua imagem.
Outro emblema do folhetim e da Boémia artística é,
sem dúvida, o lugar que nos aparece no segundo capítulo:
a Floresta Egípcia,
significativamente alumiada a giorno,
a qual já de si denota o gosto das classes urbanas por
cenários evocativos da «fantasia oriental»
(não andará muito longe o ‘topos da Babilónia’, que, na
descrição da urbe cosmopolita do ocidente, se
tornará assaz habitual).
Não é difícil, todavia, remeter todo o
capítulo — estamos no carnaval e há máscaras —
para uma teatralidade recorrente, próxima, de resto, do modelo
operático. E é num espaço social imaginado ou
construído como teatro — e construído ou imaginado pelo
folhetim — que se movem todas as razões do romance, ou seja,
todas as razões dos personagens.
O «teatro» é uma espécie de réplica
pública do salão; e mesmo o domínio mais reservado
da esfera íntima tem a sua duplicata «exterior» (ou
seja: teatral), que nos aparece como uma «metáfora»
sem autor da subjectividade publicamente orientada. O folhetinista vive
aí por algumas metáforas significativas: do aforismo
encadernado, exibido como um fetiche que heraldiza uma
relação triunfal com o mundo (com o belo mundo,
entenda-se) até a sequências argumentativas muito
saturadas. Assim, a associação do mundo e da
boémia será vista como um jornal, em que as
relações de hierarquia entre o editor e o folhetinista
aparecem invertidas em geral por mediação da mulher, que
é signo sócio-semiótico a calhar: o rodapé
pago pelos negócios sérios permite ao imaginado predador
apoderar-se da mulher que é também paga por aqueles — ou,
o que é mais «céptico», adquirir os direitos
à posse que os factos negam (mas não se cuide que
é Machado incapaz de humor, ou vítima assaz basbaque do
primeiríssimo grau. Em Trechos de Folhetim, os aforismos
são desencadernados — ou reencadernados — como «frases de
tarifa» (p. 57) que o autor faz passar pela alegoria de um
leilão: uma delas é precisamente «Lisboa
dorme!»). Essa orientação tão
imaginariamente felicitada— essa publicidade — é todavia
governada pelo teatro (assinale-se que a mesma Vida em Lisboa seria adaptada ao
palco por Machado e Alfredo Hogan, transformando-a ambos muito
significativamente em comédia, ou seja, fornecendo-lhe uma
intriga que começa em dores e acaba bem: Guilherme recupera
Sofia e pode ser feliz). Assim se configura o boudoir da modista, com os seus
dois sofás e a causeuse
excelente, tutelado o todo pelos quadros de Amor e Psyché,
Maleck-Adel e Matilde, Rosina e Almaviva; assim, a própria
modista entre o reggista e o
gracioso, responsável pela encenação e cujo
comentário, dirigido ao espectador, transcreve a cena para um
saber público. A modista, que, aliás, fala
extremamente bem, seria, como o romancista, um notável mediador:
Amor e
Psyché! Oh! Como elas falam desse quadro! Como elas falam do
amor, essas deliciosas modistas que sabem de cor e de salteado em que
escaninhos do coração brotam o amor-paixão, o
amor-capricho! Como elas descrevem os casos do coração,
essas modistas que têm durante a sua vida presenciado maior
número de aventuras, do que um tambor de oitenta anos tem tocado
de alvoradas! (A Vida)
Neste teatro também chamado ‘Lisboa’, o folhetinista, e
não sem as denegações do ideal ou da
boémia, que, todavia, são convenções
intrínsecas a esse espaço, aparece como um predador sem
meios, condenado a ficar pelo ideal, ou seja, pelo apetite.
Descobrirá a pobreza com que se não conforma: que Lisboa
só dá aos ricos, (id.) que com escreveu Balzac e Bourdieu
repetiu, o capital vai ao capital. A existência ideal do
folhetinista sem meios reais de existência exige que seja
distinguido por três dons: a palavra, o entusiasmo e a
própria juventude. Seriam esses reconhecidos pela mulher, na
verdade o seu público natural, que é todavia
legítima pertença do editor; e a palavra venceria o
dinheiro. É o que se demonstra logo no início, quando
Luís de Lima arrebatará Ritinha ao barão de Sousa.
A demonstração peca, contudo, pela qualidade da mulher
envolvida.
De facto, nesta guerra entre a palavra e o porta-moedas, chama‑se um
verosímil que acode à chamada. É ele a fisiologia
da actriz. As mulheres do teatro reconhecem o dom e o homem
único, como deveriam as do mundo, que de todo o não
fazem, ou o não fazem suficientemente. Aqui poderá o
barão de Sousa sentir-se pequeno, e nem tanto diante do talento,
como dos seus «prestígios» (somente o brilho do eu
aos olhos do outro feminino acanhará o barão).
Confrontam-se duas formas de ostentação do eu (palavra e
dinheiro), chamadas ambas ‘eloquência’. O apelo ao reconhecimento
feminino, outra constante balzaquiana, é conduzido pelo facto de
serem as mulheres o público privilegiado dos detentores do dom
da palavra como César Machado. Mas o mesmo barão de Sousa
será sempre capaz de negar a sua filha aos entusiasmos de
Guilherme, que considera sem peso.
Juventude e entusiasmo — rigorosamente, a ausência de nome a
acrescentar à de posição — aparecem como uma
vantagem, quer aos olhos do autor especialista (César Machado),
quer do empregador. Este estranho acordo entre a oferta e a procura
reaparecerá em força quando o marquês de Vilar
convidar Guilherme para seu colunista. O folhetinista traria ao editor
um dom incontaminado pelo cepticismo, útil, é de crer,
desde logo na medida em que o sangue jovem regeneraria projectos de
poder, retardando o envelhecimento social que atinge os agentes.
Além do mais, o editor considera sempre que é
possível pagar o entusiasmo com ideal: o marquês de Vilar
com a perspectiva de uma carreira política; o comendador
João Seco com a apresentação de umas condessas.
Esta atribuição a Guilherme daquele snobismo —
notoriamente, um caso de ideal — que permite pagar folhetins com o
(re)conhecimento não só das damas, como das condessas,
não é de todo despropositado. As mulheres do folhetinista
(e do que faz romances) são uma transferência de
reconhecimento bem figurável em condessas.
A juventude e o entusiasmo com que o folhetinista se coroa, todavia,
não parecem muito mais do que uma idealização da
pressa, da não especialização e do não
estudo a que o condenam os imperativos de sobrevivência. O
folhetinista que não seja outra coisa é rigorosamente
incapaz de acumular tempo como capital. E, não por acaso,
Guilherme dir-nos-á que só uma revolução,
ou seja: um «salto evolucionário», abriria caminho
às suas aspirações. No mesmo caso, está o
amor, ou já o que inconsideradamente esse amor designa.
Perspectivado como o que vence tempo e distâncias, puro
reconhecimento do dom, corresponde perfeitamente a uma
idealização do poder destas letras públicas. O
amor vale pelo reconhecimento de um mérito absoluto à
absoluta ausência de capital. O reconhecimento da mulher — o qual
oscila entre a mulher do mundo (Sofia ou marquesa de Vilar) e a mulher
pela profissão colocada diante dos olhares públicos —
substitui o reconhecimento que não acontece. Não serve de
pedra filosofal.
Nesta perspectiva, a fisiologia das hortas tem para nos oferecer uma
como que «metaficção» de A Vida em Lisboa na
descrição, que por aí acontece, da feira da Ladra.
A feira da Ladra constitui-se em limite da
auto-(re)produção da sociedade; e o folhetinista seria
aquele trapeiro que trabalha com os desperdícios e os restos da
actividade social, sobre eles exercendo não já tanto uma
alquimia como uma «filosofia» — notável, como todas,
pela ausência de «dinheiro». Nas traseiras do
salão, ou nos bastidores do «teatro», depara o
folhetinista com a crónica social ao vivo (?): nem a
concessão de um prestígio e de um posicionamento
hierárquico aos objectos de investimento social, nem a
substituição revolucionária do tempo por um
evento, mas o desperdício, a indiferenciação, o
fim de todos os eventos, o fim do «prazer», a entropia.
Esta orfandade não parece possível de assumir. O tom do
discurso é ligeiro e razoavelmente ciente não da
ausência do «dinheiro», mas da
«filosofia» que, preenchendo essa ausência,
não escapa à alegoria profana.
Uma palavra mais, para dar algum destaque aos modelos balzaquianos que,
ao tempo, a crítica amável não parece ter
encontrado nesta edição elegante e nítida, o que
é espantoso ou obedece a um pressuposto benemérito de
originalidade. Examinando A Vida em
Lisboa, A. Pinto de Castro constata que dos nossos oitocentistas
é Machado, «à excepção de Camilo,
aquele em que são mais profundos os vestígios da
Comédia Humana». (Castro, Balzac em Portugal, p. 50).
Praticando uma espécie de contaminatio,
Machado distribui as suas figuras entre o Père Goriot, as Ilusões Perdidas e Esplendores e Misérias das
Cortesãs. Desde logo com a sua marquesa e com a sua
Ester, Luís de Lima oscila entre Lucien e Rastignac, um pouco
como Guilherme, todavia bem mais Rubempré (num como que arremedo
de composição cíclica, reminiscente da Comédia, o nome emigra de
Cláudio, onde Luís de Lima é o poeta apaixonado
por Maria, a mulher casada; o médico como que concluirá
na Vida o seu percurso
paradigmático do social: vai da poesia à prosa); Sousa e
Vidoeira são ambos Nucingen; durante largas páginas da
obra, Ritinha consegue ser Ester; e o mundo de Vautrin aparece o seu
tanto com José Teixeira e com o cocheiro de Vidoeira. A
chantagem através das cartas é uma situação
com a sua contrapartida nas
Misérias; e o mundo dos jornais não escapa a
lembrar-nos as Ilusões
(pelo exame desta tópica, e não só, convém
ler o estudo notável de Maria Manuela Carvalho de Almeida, A Literatura entre o Sacerdócio e o
Mercado).
Finalmente, dê-se conta de algum inconsciente selvagem,
impossível de considerar à parte da teatralidade social,
e mesmo de formações genológicas do tipo da
comédia e afins. (Frye, Anatomia)
Quero apontar como mais saliente o par Pai-Filha (os donzéis
tendem a emparelhar com as mães, situação que pode
referir‑se à biografia de César Machado). No caso de
Militão Vidoeira e de Maria Lúcia é-nos oferecida
uma situação de melodrama que muito explicitamente se
abeira do incesto, havendo ainda a considerar uma
situação paralela, mas mais regular, entre Sofia e o
barão de Sousa — e, finalmente, aquele caso
extraordinário, se o quisermos com ressonâncias
freudianas de interesse, do par formado pelo futuro prior de Santa
Eulália e a sua filha de doze anos, que, paralisada pelo medo,
perece nas chamas. Sem outro objecto de desejo, este pai torna-se
religioso e ermita, buscando consolação na tristeza e
aridez daqueles montes onde
sopra um vento gelado e fúnebre «que ainda acarreta os
últimos sons da agonia das cidades…» Dado que o
episódio vem a propósito do encerramento da narrativa com
«a linguagem da alma», distraindo-a desse modo do seu
género reclamado, constatamos, e também na morte e no
desterro com que a obra encerra, o triunfo auditivo do
«poeta» sobre o visualismo do romance — e da
«misantropia» sobre o prazer.
I
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Lisboa, Empreza Litteraria de Lisboa.
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Antonio Maria Pereira.
(1853) Amigos...Amigos....Proverbio
em um acto, Lisboa, Typ. na Rua da Condessa.
(1853) Estevam. Paginas da Ultima
Noite de Vida, Lisboa, Francisco Xavier de Sousa.
(1854) A Hespanhola. Poesia,
Lisboa, Francisco Xavier de Sousa.
(1859) Biographia do Actor Izidoro,
Lisboa, Aristides Abranches.
(1859) Biographia do Actor Sargedas,
Lisboa, Joaquim Germano de Sousa Neves.
(1860) Biographia da Actriz
Solér, Lisboa, Joaquim Germano de Sousa Neves.
(1862) Scenas da Minha Terra,
Lisboa, José Maria Correa Seabra.
(1863) Recordações de Paris e Londres, Lisboa,
José Maria Correa Seabra.
(1863) Contos a Vapor,
«Leitura para Caminhos de Ferro», Lisboa, Campos Junior.
(1865) Em Hespanha. Scenas de Viagem,
Lisboa, Antonio Maria Pereira.
(1867) Do Chiado a Veneza,
Lisboa, Sousa Neves.
(1873) Manhãs e Noites,
Lisboa, Liv. Moderna.
(18732) Da Loucura e das Manias em Portugal.
Estudos Humoristicos, Lisboa, Antonio Maria Pereira.
(1874) O Recrutamento,
Lisboa, Typographia Universal.
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«Primeira Série», Lisboa, Empreza Horas Romanticas
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(18752) Claudio. Romance, Lisboa, Carvalho
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II
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