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INTRODUÇÃO

No presente trabalho procuraremos estudar a transversalidade de conceitos basilares de S. João da Cruz em Maria Gabriela Llansol, mais propriamente os conceitos de noite, viagem, bem como a figura do pobre. Para o propósito que nos propomos atingir, tomaremos em consideração duas obras fundamentais – Subida ao Monte Carmelo e o diário Um Falcão no Punho. Estando longe de esgotar estes conceitos, face à dimensão do trabalho, tentaremos compreender, neste contexto, as principais influências encontradas ao longo do diário que agora nos propomos estudar.
Ora vejamos…


I

Torna-se pertinente, neste nosso trabalho, considerar a simplicidade aparente da obra A Subida ao Monte Carmelo, na medida em que podemos retirar dela mais do que nos possa, à primeira vista, parecer. Assim, não devemos compreender a noite de forma denotativa, ou seja, no seu primeiro sentido, tendo em conta que a noite escura encerra uma orientação espiritual do ser humano. O escuro é a metáfora da simplicidade do olhar sobre a verdade. É importante notar que esta simplicidade expressa o olhar de fé, desembaraçado, desprendido de todas as impurezas, não somente aquelas do pecado, mas do que é mácula e obstáculo. O “olhar” simples de São João da Cruz evidencia a sua inteligência, que não tendia a estar orientada senão para Deus.
A noite, enquanto escura, significa não-ver, não-desejar, não-aspirar. Estes passos são os que sustentam a fé numa subida gloriosa ao Monte Carmelo. Esta viagem implica a obtenção do corpo iluminado se o olhar for simples, caso contrário, o corpo em oposição à luminosidade, ficará repleto de trevas, isto é, mais cego que aquele que não vê e mais ignorante do que aquele que não sabe.
Neste sentido, a Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea tomou a obra de São João da Cruz como espaço, sendo nela implícitos traços da famosa subida. Devemos, por isso, reflectir sobre um caso essencial – Maria Gabriela Llansol. É importante notar que esta autora escreve os seus livros/textos de uma forma completamente inovadora quer ao nível estético, quer ao nível conceptual. A ausência assustadora de sentido provoca o caos no leitor e fá-lo perder-se no meio de textos entrópicos, escuros, carregados de signos aparentemente indecifráveis. São, portanto, textos edificados na noite escura e, por isso, é essencial compreender São João da Cruz no contexto da nossa literatura, nas últimas décadas.


II

Atrás falávamos do escuro como figura do olhar simples. Ora, poderá parecer-nos um pouco contraditória esta imagem, na medida em que a palavra nos sugere de imediato o preto, o pardo, o obscuro. Contudo, se entendermos a palavra ao som dos passos da Subida ao Monte Carmelo, percebemos que apela ao despojamento de tudo, essencialmente, o que nos confere segurança. O caso da Literatura Contemporânea não está muito longe deste conceito, pelo contrário, o leitor como que é convidado a fazer uma caminhada pelo escuro dos textos, à primeira vista, distraídos de qualquer sentido. Assim, ser-lhe-á extremamente difícil agarrar-se ao texto, uma vez que não vai lá encontrar qualquer fio condutor ou sinal de entendimento. O leitor é convidado a fazer parte da obra, a escrevê-la com o autor. Esta última entidade deixa de ser o centro de uma obra literária, pois o leitor caminha com ele, constrói com ele. Neste sentido, aquele-que-lê assim como os que desejavam atingir o cume refulgente do Monte Carmelo devem subir penosamente as encostas das frases, praticar a renúncia e reduzir-se a um estado de pobreza espiritual rigorosíssimo. Para esse efeito, deverá mortificar as paixões que atormentam a alma, a enfraquecem e a impedem de alcançar o não-sentido das coisas. Reflectiremos sobre o exemplo de Maria Gabriela Llansol, mais propriamente o do seu primeiro diário, Um Falcão no Punho. Esta obra, à semelhança das restantes, inicia-se com a desagregação do quotidiano textual identificado pelo paratexto, Diário I. Desta forma, em vez de lermos, na calendarização com que a autora introduz cada um dos textos, o tradicional e esperado arquivo próprio da escrita diarística, a autora aclama um outro espaço gráfico a que denomina de sombra:

Tal como sou acompanhada pelos lagos – águas adormecidas naturais e duráveis Llansol, M. G. – Um Falcão no Punho. p.7 . -, de igual modo deve fazer parte da sombra, que se desloca comigo, inscrever os dias estendidos por longo período de tempo Ib..

A dita sombra, que substitui o arquivo dos dias, funciona como desconcerto do próprio calendário; em vez do dia-a-dia, a autora remete-nos para uma noite-a-noite da escrita diarística:

No seu calendário deve impor-se imediatamente a noção de noite – uma semana, um mês, um ano de noites Ib..

Esta substituição do dia pela noite indica um afastamento do paratexto diarístico em que se escreve a obra Um Falcão no Punho, implicando assim a anulação de hierarquia de entradas para que o calendário geralmente nos coloca. Este processo de substituição do dia pela noite torna todo o procedimento de escrita irreconhecível, por este se dar num outro espaço gráfico onde o leitor terá de abandonar o quotidiano para se movimentar livremente nos textos. Ao entrar na noite, o leitor liberta-se do empirismo da vida social, para que todos os mundos possíveis possam ter uma existência. Nesta entrada, o leitor despe-se não só do eu que ainda o assimila a um determinado estereótipo, como também perde a sua própria identidade como leitor ao aceitar o anonimato da escrita llansoliana, expondo-se a um grande risco perante o espaço que chega com a escuridão.
A noite a que Llansol faz referência tem muitas semelhanças com a de S. João da Cruz. E de facto, à semelhança do autor de a Subida ao Monte Carmelo, o corpo que entra na noite vê-se privado de todas as coisas, porque, ao escurecer, os objectos e os apetites desaparecem e gera-se o vazio. Ao passar por este vazio a alma despe-se de qualquer mundanismo, conseguindo, desta forma, entrar num espaço de união Cruz, São João – A Subida do Monte Carmelo. Trad. P. Silvério de Santa Teresa. – Fátima: Carmelo de São José, 1948, p.19.
:

(...) os efeitos da noite são a Casa, os animais, o Augusto, um entendimento claro e imaginário com eles, sem alterações. Se agora fizesse dia eu não me alegraria de tal modo
eu vivo,
nem me voltaria com igual acuidade para a obra suspensa que vai seguir-se Llansol, M. G. – Um Falcão no Punho. p.11.. (sublinhado da autora).

E assim se segue a obra, num espaço privilegiado de união com as figuras que entram no anel textual, onde o ser se livra dos nós, para experimentar uma relação de amante com o texto:

    Quando tomo consciência desta relação amante, reparo que uma criança (...) se juntou a nós; empurra um arco e, segundo a sequência narrativa de Engrácia, estimula-a a escrever assim: os dias da noite, e os dias da noite. As três concebemos nitidamente      os dias com a noite, e os dias com a sua noite. Atentas à razão, partilhamos o que nos foi trazido: Engrácia fica com a escrita, a criança com          eus, eu fico aqui Ib., p.16 e 17..
   
O conceito de noite e o de relação de amante, usados por S. João da Cruz nas suas obras, adquirem um significado distinto, em Llansol, por perderem a sua natureza espiritual usada anteriormente pelo Santo. Em vez disso, na escrita da autora, estes conceitos adquirem uma relação com a própria grafia, relação essa que acolhe uma consistência de liberdade estética de encontro com o diverso.
À ideia de noite e da relação de amante introduzidas pelo espaço de Jodoigne, na obra citada junta-se uma outra, a ideia de Pobre:

    A fase constante de não querer senão olhar com atenção, e ler, passar dias e dias a interrogar livros, Os Pobres na Idade Média, O Homem Espanhol, enfim, fazer falar com o tempo quem é menos mudo, e alcançar uma coisa que se deseja Llansol, M. G. – Um Falcão no Punho. p. 7 e 8. (sublinhado da autora).

Os Pobres na Idade Média, que a autora realça logo na primeira página do diário, aludem ao aspecto do bilinguismo e eremitismo da Época Medieval, onde o pensamento acompanha a escrita que se afigura como forma de não-poder. O Pobre, na Idade Média, é a própria atitude errante de viagem textual que sustém todo o desejo de escrever os caminhos que ficaram por dizer:

    O uso do desejo parece-me preferível ao uso do poder. Se eu desejo escrever é para assumir os sinais da vida à medida que ela se metamorfoseia em poder Ib., p.48..

    Pertencer a um grupo de Pobres ou perseguir o desejo de escrever são o mesmo modo de enfrentar a impostura da língua que enclausura no poder instituído pelo quotidiano, desatando os nós que prendem o leitor à sua identidade. Ao entrarmos na noite textual e enfrentarmos o anonimato pertencemos a uma união onde nascem os grupos de Pobres que combatem o Poder dos Príncipes na viagem textual llansoliana.
O espaço de Jodoigne, evocado no diário Um Falcão no Punho, é a figura de uma implosão do texto que se volta para si, um diário nocturno onde o Pobre abandona qualquer estereótipo que sustenta o poder (limitador do pensamento), para desta forma surgir o vazio textual que possibilita a relação de amante com o mútuo que permite a união dos Pobres que viajam pelo texto.
Entrar na noite é abandonar o corpo enclausurado pelo poder, e acolher a figura já aqui estudada do Pobre, não o do proletariado, mas antes o despojado de quaisquer bens sociais, o que ousou ultrapassar o próprio poder:

Ele é pois o primeiro em que (e não em quem) a faculdade de criação do dentro se poderá exercer plenamente, já que no fora, no espaço social considerado como única realidade, ele é ninguém, uma coisa de nada Ib..

Podemos deste modo compreender que a realização do ser humano como um corpo despojado de poder é, sem dúvida alguma, um dos objectivos procurados na escrita llansoliana. Por isso, e mais propriamente nesta obra, apresenta-se como uma confissão de todas as outras, uma vez que é um diário e por evidenciar, claramente, a proposta da libertação do leitor que se precipita face à noite gerada pelo texto, desembaraçando-se do nome ao trespassar a escuridão do abismo e que é a noite de São João da Cruz, a que a autora faz constantemente alusão.


CONCLUSÃO

Apesar da noite, poderemos fortemente afirmar que a obra de São João da Cruz é essencialmente uma obra de luz. Contudo, para o Homem chegar a esta luz tem que percorrer um caminho doloroso pelo escuro que a noite impõe, para que sua alma seja iluminada e dirigida por um olhar simples. Maria Gabriela Llansol não ficou indiferente a este olhar, imprimindo-o inclusive na sua obra. Ler o diário Um Falcão no Punho no seu todo é descobrir como o corpo textual, em vez de estar orientado pela cronologia que lhe é habitual, ganha uma outra forma fragmentária que constrói um percurso de eremita e de andarilho, corrompendo todo o espaço-tempo e construindo, em sua vez, o texto nómada em constante viagem solitária através do labirinto gráfico que torna imperceptíveis todas as referências que temos do quotidiano e até da própria história. No diário, a vida revela um carisma de jornada. Daí que neste texto, o quotidiano, o sujeito, em suma, toda a escrita, é um espaço em viagem pela noite, capaz de promover o encontro daquilo que se acha separado pelo quotidiano em que o ser humano se vê constantemente envolvido.


BIBLIOGRAFIA

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Cruz, São João – A Subida do Monte Carmelo. Trad. P. Silvério de Santa Teresa. – Fátima: Carmelo de São José, 1948.

- A Noite Obscura. Trad. Teresa Antunes Cardoso. Lisboa: Editorial Estampa, 1993.


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Llansol, Maria Gabriela – Um Falcão no Punho. Diário I. Posfácio de Augusto Joaquim. Lisboa: Relógio D´Água Editores, 2ªed., 1998.


Morão, Paula – «O Secreto e o Real – Caminhos Contemporâneos da Autobiografia e dos Escritos Intimistas». In: Românica. Lisboa: Edições Cosmos, n.º 3, 1994.


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