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Ora vejamos…
Torna-se pertinente, neste nosso trabalho, considerar a simplicidade aparente da obra A Subida ao Monte Carmelo, na medida em que podemos retirar dela mais do que nos possa, à primeira vista, parecer. Assim, não devemos compreender a noite de forma denotativa, ou seja, no seu primeiro sentido, tendo em conta que a noite escura encerra uma orientação espiritual do ser humano. O escuro é a metáfora da simplicidade do olhar sobre a verdade. É importante notar que esta simplicidade expressa o olhar de fé, desembaraçado, desprendido de todas as impurezas, não somente aquelas do pecado, mas do que é mácula e obstáculo. O “olhar” simples de São João da Cruz evidencia a sua inteligência, que não tendia a estar orientada senão para Deus. A noite, enquanto escura, significa não-ver, não-desejar, não-aspirar. Estes passos são os que sustentam a fé numa subida gloriosa ao Monte Carmelo. Esta viagem implica a obtenção do corpo iluminado se o olhar for simples, caso contrário, o corpo em oposição à luminosidade, ficará repleto de trevas, isto é, mais cego que aquele que não vê e mais ignorante do que aquele que não sabe. Neste sentido, a Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea tomou a obra de São João da Cruz como espaço, sendo nela implícitos traços da famosa subida. Devemos, por isso, reflectir sobre um caso essencial – Maria Gabriela Llansol. É importante notar que esta autora escreve os seus livros/textos de uma forma completamente inovadora quer ao nível estético, quer ao nível conceptual. A ausência assustadora de sentido provoca o caos no leitor e fá-lo perder-se no meio de textos entrópicos, escuros, carregados de signos aparentemente indecifráveis. São, portanto, textos edificados na noite escura e, por isso, é essencial compreender São João da Cruz no contexto da nossa literatura, nas últimas décadas.
Tal como sou acompanhada pelos
lagos – águas adormecidas naturais e duráveis Llansol, M.
G. – Um Falcão no Punho. p.7 . -, de igual modo
deve fazer parte da sombra, que se desloca comigo, inscrever os dias
estendidos por longo período de tempo Ib..
A dita sombra, que substitui o arquivo dos dias, funciona como desconcerto do próprio calendário; em vez do dia-a-dia, a autora remete-nos para uma noite-a-noite da escrita diarística: No seu
calendário deve impor-se imediatamente a noção de
noite – uma semana, um mês, um ano de noites Ib..
Esta substituição do dia pela noite indica um afastamento do paratexto diarístico em que se escreve a obra Um Falcão no Punho, implicando assim a anulação de hierarquia de entradas para que o calendário geralmente nos coloca. Este processo de substituição do dia pela noite torna todo o procedimento de escrita irreconhecível, por este se dar num outro espaço gráfico onde o leitor terá de abandonar o quotidiano para se movimentar livremente nos textos. Ao entrar na noite, o leitor liberta-se do empirismo da vida social, para que todos os mundos possíveis possam ter uma existência. Nesta entrada, o leitor despe-se não só do eu que ainda o assimila a um determinado estereótipo, como também perde a sua própria identidade como leitor ao aceitar o anonimato da escrita llansoliana, expondo-se a um grande risco perante o espaço que chega com a escuridão. A noite a que Llansol faz referência tem muitas semelhanças com a de S. João da Cruz. E de facto, à semelhança do autor de a Subida ao Monte Carmelo, o corpo que entra na noite vê-se privado de todas as coisas, porque, ao escurecer, os objectos e os apetites desaparecem e gera-se o vazio. Ao passar por este vazio a alma despe-se de qualquer mundanismo, conseguindo, desta forma, entrar num espaço de união Cruz, São João – A Subida do Monte Carmelo. Trad. P. Silvério de Santa Teresa. – Fátima: Carmelo de São José, 1948, p.19.: (...) os efeitos da
noite são a Casa, os animais, o Augusto, um entendimento claro e
imaginário com eles, sem alterações. Se agora
fizesse dia eu não me alegraria de tal modo
eu vivo,
nem me voltaria com igual acuidade para a obra suspensa que vai seguir-se Llansol, M. G. – Um Falcão no Punho. p.11.. (sublinhado da autora). E assim se segue a obra, num espaço privilegiado de união com as figuras que entram no anel textual, onde o ser se livra dos nós, para experimentar uma relação de amante com o texto: Quando
tomo consciência desta relação amante, reparo que
uma criança (...) se juntou a nós; empurra um arco e,
segundo a sequência narrativa de Engrácia, estimula-a a
escrever assim: os dias da noite, e os dias da noite. As três
concebemos nitidamente os dias com a
noite, e os dias com a sua noite. Atentas à razão,
partilhamos o que nos foi trazido: Engrácia fica com a escrita,
a criança
com eus, eu fico
aqui Ib.,
p.16 e 17..
O conceito de noite e o de relação de amante, usados por S. João da Cruz nas suas obras, adquirem um significado distinto, em Llansol, por perderem a sua natureza espiritual usada anteriormente pelo Santo. Em vez disso, na escrita da autora, estes conceitos adquirem uma relação com a própria grafia, relação essa que acolhe uma consistência de liberdade estética de encontro com o diverso. À ideia de noite e da relação de amante introduzidas pelo espaço de Jodoigne, na obra citada junta-se uma outra, a ideia de Pobre: A fase constante de não querer
senão olhar com atenção, e ler, passar dias e dias
a interrogar livros, Os Pobres na
Idade Média, O Homem
Espanhol, enfim, fazer falar com o tempo quem é menos
mudo, e alcançar uma coisa que se deseja Llansol,
M. G. – Um Falcão no Punho.
p. 7 e 8. (sublinhado
da autora).
Os Pobres na Idade Média, que a autora realça logo na primeira página do diário, aludem ao aspecto do bilinguismo e eremitismo da Época Medieval, onde o pensamento acompanha a escrita que se afigura como forma de não-poder. O Pobre, na Idade Média, é a própria atitude errante de viagem textual que sustém todo o desejo de escrever os caminhos que ficaram por dizer: O
uso do desejo parece-me preferível ao uso do poder. Se eu desejo
escrever é para assumir os sinais da vida à medida que
ela se metamorfoseia em poder Ib., p.48..
Pertencer a um grupo de Pobres ou perseguir o desejo de escrever são o mesmo modo de enfrentar a impostura da língua que enclausura no poder instituído pelo quotidiano, desatando os nós que prendem o leitor à sua identidade. Ao entrarmos na noite textual e enfrentarmos o anonimato pertencemos a uma união onde nascem os grupos de Pobres que combatem o Poder dos Príncipes na viagem textual llansoliana. O espaço de Jodoigne, evocado no diário Um Falcão no Punho, é a figura de uma implosão do texto que se volta para si, um diário nocturno onde o Pobre abandona qualquer estereótipo que sustenta o poder (limitador do pensamento), para desta forma surgir o vazio textual que possibilita a relação de amante com o mútuo que permite a união dos Pobres que viajam pelo texto. Entrar na noite é abandonar o corpo enclausurado pelo poder, e acolher a figura já aqui estudada do Pobre, não o do proletariado, mas antes o despojado de quaisquer bens sociais, o que ousou ultrapassar o próprio poder: Ele é pois o
primeiro em que (e não em quem) a faculdade de
criação do dentro se poderá exercer plenamente,
já que no fora, no espaço social considerado como
única realidade, ele é ninguém, uma coisa de nada Ib..
Podemos deste modo compreender que a realização do ser humano como um corpo despojado de poder é, sem dúvida alguma, um dos objectivos procurados na escrita llansoliana. Por isso, e mais propriamente nesta obra, apresenta-se como uma confissão de todas as outras, uma vez que é um diário e por evidenciar, claramente, a proposta da libertação do leitor que se precipita face à noite gerada pelo texto, desembaraçando-se do nome ao trespassar a escuridão do abismo e que é a noite de São João da Cruz, a que a autora faz constantemente alusão.
Aguiar e Silva, Vítor Manuel – Teoria da Literatura. Coimbra: Almedina, vol. I, 8ª ed., 1988. Abreu, Maria Fernanda – «Maria Gabriela Llansol e Juan de la Cruz, uma Rebeldia Partilhada». In: Vértice, 2ª série, Agosto de 1989. Coelho, Eduardo Prado – «Maria Gabriela Llansol: O Homem Desmultiplicado». In: Idem, O Cálculo das Sombras. Porto: Edições Asa, 1997. Cruz, São João – A Subida do Monte Carmelo. Trad. P. Silvério de Santa Teresa. – Fátima: Carmelo de São José, 1948. - A Noite Obscura. Trad. Teresa Antunes Cardoso. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Eiras, Pedro – «No Coração da Noite Obscura». In: Jornal de Letras, n.º 794, 7 a 20 de Março, 2001. Joaquim, Augusto – «Algumas Coisas». In: Llansol, M. G. – Um Falcão no Punho. Diário I. Lisboa: Relógio D´Água Editores, 2ªed., 1998. Lopes, Silvina Rodrigues – Teoria da des-possessão. Ensaio sobre textos de Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Black Sun Editores, 1988. Llansol, Maria Gabriela – Um Falcão no Punho. Diário I. Posfácio de Augusto Joaquim. Lisboa: Relógio D´Água Editores, 2ªed., 1998. Morão, Paula – «O Secreto e o Real – Caminhos Contemporâneos da Autobiografia e dos Escritos Intimistas». In: Românica. Lisboa: Edições Cosmos, n.º 3, 1994. Mourão, José Augusto – «Maria Gabriela Llansol – O Texto-Viagem-Comum». In: Idem, A Sedução do Real (Literatura e Semiótica). Lisboa: Vega, 1998. |
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