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Algemas
Sidónio Barreto, s. j.

Meias
Sidónio Barreto, s.j.

Mulher com filha ao colo em Dezembro
M. C. Alvarez

Metamorfoses
Artistas Congregagos ldª




                        


ALGEMAS

Sidónio Barreto, s. j.


Num filme de vampiros de um brat movie «menor» — John Landis, Innocent Blood — sou apanhado por uma ideia. A boa vampira (Anne Parillaud) e o polícia que arrasta teimosamente as suas debilidades físicas atrás da verdade de que não desiste (é o real atrás da verdade) cabem na cama juntos. Parece-me (não estou certo da lembrança) que estarão mesmo algemados por equívoco. Suponhamos que sim.

O grilho com que o polícia se previne contra a fuga do suspeito que não compreende representa o único elo que o liga à verdade. Em rigor, estabelece uma férrea relação indicial com a coisa (um corpo-a-corpo) que ferozmente acredita no grande inequívoco da verdade que seria algo como a exactidão. Mas a mesma ferropeia traz à cama as simulações eróticas da submissão que são esmeros do desejo — e que muito andaram já por filmes de vários tipos (Selvagem e Perigosa, por exemplo), mas também por aconselhamentos a couples em consultórios de sentimento, de espécies igualmente volúveis.
Não seremos aqui desenganados. Os ferros passam a ter serventia erótica. Chocam-se as vontades e copulam os corpos.
Sob as pálpebras da Parillaud, os olhos de vampiro acendem-se ominosos. Ocorre-nos que iremos presenciar um naco de «sexualidade obscura». Então, à sua maneira, os globos de fogo rolam nas órbitas, o clarão aumenta e diminui, contrai-se e derrama-se, as grandes pupilas veladas piscam — e apagam-se os olhos. A vampira teve um orgasmo.
Neste ponto, o filme arranca de si mesmo a «lógica» que o basta.

Cortina Rasgada. Depois de uma fuga acidentada e recheada de equívocos, repetidamente sobressaltada pelo suspense (que amaina para voltar de outro modo), o falso autocarro que faz o percurso Leipzig-Berlim chega ao seu destino por um triz. Debandada geral, tiros de metralhadora, e o par Newman/Andrews acha-se sem pontos de referência, à procura dos Correios e de Albert, não recordando do endereço mais do que «strasse»(!), que, a ser informação, não faz diferença. A sua situação é a dos corpos expropriados das rotinas do mundo por um mundo alheio, sem paredes nem cantos de refúgio; estão à mercê da sua identidade exposta, que todavia devem guardar.

Eis um arquétipo narrativo, dependente do da demanda, mas com omissão de endereço.
Em Le Magistrat Cambrioleur (O Rei dos Ladrões), Fantomas em fuga e acossado pela polícia apossa-se da identidade de alguém que assassina num comboio. Desconhece, porém, quem é esse alguém, de onde veio exactamente, e de fazer o quê; e igualmente ignora para onde vai exactamente, qual o mundo de que é, e o que esse mundo de si espera. Improvisa-se, até se livrar do equivalente de um estado de amnésia quase completo. Vai negociando gradualmente estares e respostas, adquirindo esposa, amante e profissão (juiz de instrução!); vai-se arraigando numa intriga que várias vezes o desconcerta, até ficar em estado de poder manipulá-la.
Sem poder pedir directamente informação, tacteia-a no que será por interpretação receosa de atenças alheias. O qui pro quo é difícil e fácil de manter: as expectativas dirigem-se a um ser imanente ao fazer; e tendem a satisfazer-se com o fazer que deixa pressuposto o ser. O monge faz o hábito e o hábito faz o monge, mas não de todo sem salto.

Andrews e Newman são ali mesmo agarrados pela Condessa Kushinska, polaca incoerente e «falsa», que começa a envelhecer, e às cores. Viu que Newman é o espião em fuga que a polícia de estado procura; e, como saberemos depois, ajudá-lo-á, se Newman e Andrews se assumirem como seus sponsors, quando solicitar autorização de emigração para a América.
Suficientemente ridícula para ser ignorada pela gente comum e pelos burocratas que não precisam sequer de maltratá‑la (cena dos Correios, em que solicita a presença de Albert ao balcão), a Condessa é pobre gente dostoiewskiana, exigente de estilo — e da ética que o acompanha — numa sociedade que o não tem, e a que não ocorreria que o da Condessa pudesse desejar-se e menos ainda intimidar. Aqui, na rua e depois no café, a solteirona da sociedade produz de seu a personagem burlesca, sentimental e patética, sobre-identificada, que não conta na ordem das coisas e que, enquanto «faz o seu polichinelo» e acaba a suplicar esmola (como o mendigo de Bernanos — L’Imposture —, a quem vou buscar a expressão), agarra toda a inconsistência, toda a inverosimilhança e todo o suspense do filme — todas as suas mutações de humor. É gota que faz a maionnese pegar.

Que maionnese? Junto a Cortina Rasgada com o filme de Landis e ainda com os 39 Degraus. A aventura e as peripécias dela, mais que muitas, são metáforas do couple à espera que o filme engrene.
O momento em que o filme pega é um deus in machina que viabiliza a auto-referência vazia do par que foi posto ali como em descampado escocês. Sem determinação à vista.

O argumento merece um instante mimético peculiar, embora se possa conceder que exista um uso extensivo de signos e etiquetas («paradas» em código analógico), e que homens e mulheres se cheirem de facto. No Ocidente em que se vê e faz cinema, os tempos de há muito não correm a favor de contratos de casamento entre famílias. O mundo foi desfamiliarizado (Parsons). Vínculos de sangue e relações de parentesco contam menos que o cinema e outros lugares de reunião e divertimento na constituição da marriage pool. Uma boa porção dos filmes e o lugar onde se vêem preenchem a carência mimética que resulta da falta de sangue e de parentela e vem desembocar no anonimato.  

A condessa Kushinska, solteirona de leva-e-traz, torna o filme decididamente casamenteiro; e os olhos da Parillaud alcovitam.
Na verdade, o emparelhamento dos seres que respondem a uma química qualquer, depois a uma alquimia, e que desse modo vão dizendo sim à divulgação da espécie, podia ser e podia não ser. Sem consenso legal-mimético prévio, quem estreia namoros atribui ao namorável um «livre arbítrio», e reciprocamente. O mesmo amor é ainda errado e suspeitável, pois tanto posso eu ser míope ou presbita, como pode o outro negar-se a saber o que de mim sabe, e é o único a saber — ou ter reservado para outrem toda aquela riqueza interior que chega em eflúvio de feromonas à pituitária neural. O n-amorável pode ser de outro modo possível na realidade (alargada a conter vampiros). Sem descompensações ao Édipo, o ser que se ama poderia ser ou ter sido um desconhecido, senão um qualquer; por compensação edipiana que se ignora, o outro do par pode permanecer um estranho e temível (tema, aliás, hitchcockiano)


Dois desconhecidos encontram-se e são obrigados a inventar-se um consenso legal-mimético; o filme inventa os olhos da Parillaud, e é ele mesmo esse consenso de gáudio e achado. Entretanto, é aventura. O lance e o risco — peripécia e proeza, façanha e cartada, arrojo e contingência — significam o recurso ao acaso e o melindre infinito de um ser susceptível à ocasião. O desejo viabiliza-se pelo ensejo, que é fonte de recursos.
Eventualmente, esta aventura da contingência do par reverterá à ventura do par contingente, por condessas polacas ou nem isso. Os adversos, com a sua mesma animadversão, são algemados para caras metades e conduzidos à cama onde devem ser íntimos. Nos anos trinta veremos Madeleine Carroll tirar as delgadas meias negras e mostrar a fina coxa.
As meias irão ser postas, com outra roupa, a secar à lareira, o que é doméstico; e, como fica claro, Madeleine era bem capaz de desvencilhar-se do ferro e regressar de motu proprio ao embaraço.
Os filmes de aventuras chegam ao fim, e muitas vezes como quem dá garantias (Silas Marner de George Eliot — que é romance — leva a distribuição das felicidades a um ponto tal que a personagem fica por benquista dos seus vizinhos penhorados). Todavia, a aventura, mesmo a que foi, não garante realmente coisa alguma. Do fim dos 39 Degraus pode então tirar-se uma moral, que talvez fosse grata a Chesterton: levar os bebés no carrinho passear ao parque é seguramente aventurar-se.





MEIAS
Sidónio Barreto, s. j.

Devaneio a propósito de meias, por ter lembrado a Carroll dos 39 Degraus, e, estou em crer, já nos arredores da Dietrich (O Anjo Azul).
O filme é americano, velho-clássico, e em vários episódios. Ocorre-me persistentemente que é do «mestre da elipse»; mas penso que não deve ser e explico-me por uma transferência de meias (a Garbo em Ninotchka) o erro em que talvez consentisse. Um milionário lega a cada um de uma meia dúzia de desconhecidos um milhão de dólares. Um dos beneficiários da lotaria é uma prostituta.
Iremos vê-la entrar no hotel ao fim do dia, como é seu hábito, e no quarto despir-se com os gestos profissionais do strip-tease meio informal (daí, as meias). Está cansada, mas não esgotada. É esta a sua rotina. Exultação não há nenhuma. Poupa-se atrás do corpo que é boi ou tem enxada, e muito ciente de que cabem 24 horas num dia. Descartada a terrível artilharia feminina, compreendemos que o quarto está vazio, e que, pela primeira vez desde há muito, vai dormir consigo mesma.
A fisionomia social do ofício significa a libertação do ofício, pela repetição fiel da sua mímica exacta. A repetição escrupulosa com o sentido ao contrário revela o gestus civil — a simplificação levantada ou a fórmula matemática que Brecht gostaria que integrasse a linguagem do teatro épico. Sem a repetição ignorar-se-ia. Ficaria escondido nas evidências da Grande Doxa. Qualquer coisa como a vida serviu de ensaio a esta estreia. Conforme os eventos e os auspícios, a natureza social é teatro social e mesmo Lubitsch touch.
O cinema e algumas outras artes podem ser deliberadamente agoiros, direcções e favores desse tipo?
Pude verificar algumas referências. O filme, de sketches, e cada um com seu realizador, é If I Had a Million, de 1932. O episódio de Lubitsch não é este.




MULHER COM FILHO AO COLO, EM DEZEMBRO
M. C. Alvarez


MULHER COM FILHO AO COLO, EM DEZEMBRO

Onde quer que esteja a mãe
debruçada sobre a filha,
o Natal pousa
e repousa.

Nos longos dedos da mãe
sobre os cabelos da filha,
o Natal mora
e demora.

Filha dormida na mãe.
repetição de Belém:
o Natal feito
e perfeito.

(A.M. Pires Cabral, O Livro dos Lugares e outros Poemas, Mirandela, João Azevedo Editor, p. 40)


Sin la énfasis declamatoria, muy típica de lo discursivismo de Algures a Nordeste (1974), pero apaciguados también los mecanismos de «abstracción» no miméticos (combinatoria y simplificación, elementales y fragmentos, yuxtaposición, colage y serialismo, exposición como que didáctica o lógica que va hasta la herejía de la paráfrasis, etc.) que ocurren sobremodo en Solo Arável (1976) y Trirreme (1978) — sin olvidar el léxico especial, que no es lírico sin haber sido lítico, o no es mundo sin haber sido léxico («tosca disciplina», «malha», «cidades minerais», «água assídua», etc.) —, este poema es uno de aquellos (y muchos son) que en Boleto em Constantim (1981), Os Cavalos da Noite (1982) y O Livro dos Lugares (1999) abandonan aquella retícula o cuadrícula formal modernista que unifica el espacio de «representación», y somete lo «representado» a condiciones no miméticas de exposición. «Mulher com filha ao colo, em Dezembro» hace confianza en la palabra gnómica, en la transmutación de la circunstancia real-visible en un símbolo, en la estrofa y en la rima. Sin embargo, y a juzgar desde luego por el raspante sonido, el maestro artesano coge su madera de la misma árbol: la secada y envejecida (convertida, es decir, en una madera durísima) se reconoce en la madera blanda y como que recién cortada. Indiferente a la frontera teórica entre mimese y procedimientos, la poesía de Pires Cabral permanece en «Mulher com filha ao colo» (título de pintor) fidelísima a la noción de que todas sus «cosas» se hacen con sustancias descastadas.
Este es un poema muy corto (tres cuadras o quizás tres dísticos), muy parco de palabras, las cuáles además se repiten — y, cuando se no repitan ellas, los procesamientos son reiterados, mezclando la forma más humana de la rima y de lo refrán con la forma, menos humana, de la repetición modular. Así es que ‘mãe’ surge como la palabra rima de los primeros versos de lo dístico y ‘filha’ la palabra rima de los segundos (todos con siete sílabas métricas), exceptuando la tercera estrofa, onde ‘mãe’ halla su eco rimático, normal, en ‘Belém’. Lo refrán es un verso más de siete sílabas, sometido a partición (4+3), lo cual comportaría, si el no fuera bipartido, una rima interna y derivada (pousa/repousa; mora/demora; feito/perfeito). Es necesario enfatizar que lo refrán lo es menos por lo sonido que pelo procedimiento que cabe dentro de una misma «conceptuación». La repetición literal (y vertical) abarca tan sólo lo sintagma ‘o Natal’, estableciendo por ese modo una concatenación entre las tres estrofas, que la lírica de los trovadores conoce como siendo de tipo capdenal. Lo tema o la simbólica (Navidad y Natividad) y los procedimientos trovadorescos (aún que aproximativos, evocando la cantiga de amor, la cantiga de amigo y lo villancete) significan naturaleza y traditio, o sea: mimesis, la cual es tanto como origen que (se) repite (y repetición [que] origina).
Sin los segmentos instructivos, ni tan poco los probatorios, cuáles se presentan aún en «Onze Meditações sobre a Ira» en este mismo libro, nuestro poema, porque es tripartido, sugiere non solo una totalidad, sino que esa sería un estado completo y sin fallas. La bipartición, cuja linea tajante pasa por la rima de lo «refrán», no acentúa ninguna tensión. Es más bien formal, como solamente formal es la affictio (‘pousa/repousa’, ‘mora/demora’, ‘feito/perfeito’) — como en la alteración orgánica de lo cuerpo de palabra, parece producir un significado alterado de palabra, aún que le sea aparentado. Se trata, antes, de una distinctio, en que la «alteración», siempre positiva, agota enfáticamente la primera palabra. La repetición perfecciona (y eso es abiertamente tematizado en la última elaboración) lo contenido de palabra de lo primero miembro; la plenitud de contenido de lo secundo hace un juicio retrospectivo de lo primero, que habría sido parco. Así, ‘pousa’ e ‘mora’ como que serian acciones puntuales delante de la superior duración de ‘repousa’ y ‘demora’ que los corrigen; así, ‘feito’ poco más significaría do que ‘acabado’ , en contraste con ‘perfeito’, que no solo es ‘concluído’, sino ‘realizado’, ‘pleno’ (perfectum). En verdad, lo «refrán» progresa en dirección de algo que es su telos y su escathon; y los cambios «formales» de la última estrofa lo enfatizan muy bien: dicho «refrán» se sigue de lo dístico como una frase expletiva que asume la fuerza de una evidentia — de una demonstratio ad oculos. La última estrofa evidencia una totalidad linear, o sea direccionada, pero, al mismo tiempo, las tria loca de esta totalidad linear (inicio, medio, fin) son ali mismo negadas en la totalidad circular argumentada por lo perfecto, por la madre y por la navidad: ninguna direccionalidad espacio-temporal, antes algo que reposa sobre si mismo, y como sistema. ‘Madre-hija’ es algo que completa ‘madre’, como perfeito es algo que completa ‘feito’. En madre-hija, la Navidad es una totalidad de relaciones interdependientes.
La Navidad no fue dividida, sino convertida en Natividad: una envolvente autotélica, autobastante, cual se goza entre madre y hija, como entes de lo mismo sexo, pero no sexados (cesados) — es decir, de una misma y de una sola naturaleza, creo bien que virginal. Los signos verbales que se aproximan de esta mimese que es fonte de orientaciones internas los veo actuantes a todos niveles: en la fórmula axiomática de lo incipit donde uno deduce que es siempre ‘Natal’ tan solo haya madre, en los procesos durativos, en las señales de atención, protección, cariño y complacencia total que brotan de la madre («debruçada», «longos dedos (…) sobre os cabelos da filha»). Una existencia — o más bien, la existencia — es consecuencia de lugar. Tiempo, mundo y carne (enemigos del alma) pasan a Madre, es decir, a Lugar. Que la hija sea presentada como «dormida na mãe» y nos apercibimos de una vida (de una desprotección), que sin temor puede dejar caer todas las defensas  — que puede abandonarse. La madre es nuestra habitación o nuestra patria verdadera, es decir «conforto moral».
El tema piadoso, su simbólica (madre/navidad) y su eufemi(ni)zación son unos almacenes de entropía nula, a la imagen (y como no?) de lo Poema aposentado en la «forma». Pero, y como corroborando que cualquier cosa que encierra y limita debe ser expuesta al «infinito», a este poema se sigue de inmediato en el libro un otro titulado «Mater Dolorosa», lo cual concluye con una resalga señalada por los paréntesis: «(Em resposta, a Mãe empresta o rosto)». La faz de la Madre, que por símbolos es toda faz, funciona como antifaz. Lo «perfecto» es un préstamo. Ser un préstamo significa que lo Rosto no es el himen de nuevo intacto, sino que es una máscara, o sea: un tropo; que la mimese se vuelve, diría Paul de Man, en el poder mortal que se figura en la figura. Basta que la hija sea sustituida por lo hijo, y, paradoja notable, la Navidad non será restituida a una normalidad teológico-política, sino que cesará de existir: ninguna suficiencia interna, necesaria y originaria, pero la diferencia: una herida que se profundiza, un alejarse mortal. Lo tiempo no es más el restituir de un ser a si mismo o a una plenitud, mas un proceso entrópico, es decir irreversible, por el cual uno pasa de la mañana al ocaso, y la calor se transforma en frío. «Mulher com filha ao colo» era como un sendero «lógico» desarrollado con detalle impecable; pero, esa «lógica» pronto se transforma en desastre personal:

Rasguei-te, Mãe, ao nascer?
Apostaste em mim debalde a tua aposta?
Fiz do teu coração a minha escada?
Sonhaste-me manhã — e sou sol-posto?
Suspeitaste-me brasa — e sou geada?

(Em resposta, a Mãe empresta o rosto.)




METAMORFOSES
Artistas Congregagos, ldª


Fica do tropel
um branco
enrugado
como um pé
sobre
os rochedos
& sobre coisas
que são leis
os céus
da sombra
escura

Ali
as lácteas
tetas
imitando
ali
o quadril
impressivo

Do relevo
& do recosto
uma perturbação
mínima
da morte
& da pompa
fria

Troféus
de quando
cederam as árvores
à passagem
de uma ofuscação
de carne
caídos
do seu mesmo
eclipse
com as estrelas

Fuscos os cristais
do arroio
na entre
passagem
de gente para coisa
& de eu para ele
& um rosto gentil
entre a sorte
& a formosura

Os mil olhos
naturais
como que
na flauta
adormecidos
& o cadáver
do gigante
em pequenos
& grandes
nacos esparzido

Alguma treva
sólidardida & as
ilhas brancas
Do branco
ilhado
da nudez
da ninfa
o desapego
de umas
pegadas

Uma boca mentida
pelo vidro
& com menos folhas

alguma
sombra
do raio

& o todo
peças
da grande
caça

Da velocidade
& do desmaio
arrebatado
que empurra
o desejo
para um corpo
da vista
que é
uma fereza

uma lisonja ficou sonhada

Uma quinta
de lágrimas
ou assim
& nas
bochechas

a língua
da poesia
& do escarmento

O junco
é verde
& fere-nos
a pata capra
ausente?
a caterva
montesinha
ausente

a muda jactância
ausente
de corpos
de cães

de cervos
de sede
de água

Aqui
neste mal
de um sol,
o quê?
o filete
da toalha

Olho
as baigneuses
& puxadas
as árvores
para cima
& uma
mulher
de matisse
recortada
& posta
sobre o lustro
de um papel
ultra-rapaz

Mas estão
no posto sol
da curva
de uma carne
de flechas
emplumada

Deusas
& deuses
que são
carne
tomados
de surpresa
pelo
instante
que é
nudez
mortal
& susceptível

Mas ao
jasmim
que neva
opõe-se
a barreira
genética
de um
código
de barras

Uma glória
não

o retrato
dela

Renda rota
rosa defunta
corais
& fios
de um naufrágio
ao natural

conchas
pedrinhas
pedacinhos
de ossos

déjeuner
sur l’herbe

Os bramidos
argumentos

o alento
derretido

os moldes
de um gozo

ou os restos
de um gozo
caídos

formas em tosco
chamadas
a reflexo
& logo
mudadas outras
no grande
alinho
onde saudosas
de si
se alegram
duplicadas
& quebradas
em ele
gâncias
de amor

Formas
despidas
para carne
alinhadas
alienadas
& sem cessar
levadas
na ronda
do ludíbrio

O desdém
de sentir
& o alarde
assomam
 
pelo postigo
subtil
de um rosto
mal fechado

& do livro
chamado
metamorfoses

                        
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