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MAIS
CEDO
A
scholar levantou-se
à hora em que a rês estremunha, mais cedo do que o dia.
É feminista de humanísticas, e, tendo sido quase
ágrafa, desde há pouco capaz. O seu feminismo é
uma peça num puzzle
que vai da vida à carreira.
Supõe logo o bom-senso reivindicável pela mulher, que
chega à scholar como
um poder de representação. Os
Reis Magos ofereceram a Jesus ouro, incenso e mirra; fossem Rainhas e
teriam pensado em dar à família santa uma boa sopa
reparadora — que é coisa que mulheres fazem, e logo a
scholar.
A carreira da scholar andou sempre mais depressa do que a scholar. A carreira já existia, ainda a scholar não era. Explico o facto pelo princípio da sopa. A scholar assegura a quem tem poder nas carreiras que só de pão vive o homem (e a mulher), o que é, para quem nas carreiras pode, compreensivelmente tranquilizador. Murmuram ineptos e ineptas que
terá usado de algum poder de sedução sobre quem
pode. Posto isso seja físico, real, corporal e sopa, não
o creio. A scholar foi
promovida antes de ser pela amostragem simples
(nem mirra, nem incenso, nem ouro) de uma sã e sincera vontade
de comer, o que é simpático. A teoria da scholar não é, como se diz, especulativa, pois consiste na supressão de protocolos. Não há personagens e narradores num romance, mas o facto muito sopa que o romance foi escrito por um homem, ou por uma mulher. A scholar feminista quer na teoria a sopa vestida de consommé e, como não?, o topo da mesa, que são ambos reconforto. A scholar acredita no grande saber, e como em piças, que merecem crédito. Não é caridade supor que também ela tenha um inconsciente. A scholar existe por consenso — pela violência simbólica que veio de um crédito. Até há pouco pensei que a scholar era útil, e se achava justificada como incentivo à profissão, tipo ‘se ela, porque não eu?’. Hoje não tanto, com os lugares ocupados e a profissão a ir-se. Ainda a scholar não era e já faria uns dicionários divulgativos. A especialidade da scholar virá porventura a ser esta: reunir esforços conjuntos, departamentais e mesmo interdepartamentais, em livrinhos de que será o editor. Lá dentro a pequena doxa de um saber, toda sopa e deglutível, o que é metodologia por ser boa metodologia. Este centro de relações humanas terá sido mestra canónica antes de saber os cânones. Quando surge uma questão momentosa que envolve hierarquias e tomadas de posição, a scholar está indisposta, e aliás não criaria indisposições. Outrossim, quando pode decidir de pretensões legítimas, que envolverão compromissos, a scholar antevê problemas. Há uma solução que lhe agrada: convencer o pretendente a deixar de pretender. A scholar que recorre ao senso-comum sabe que exerce cargos por delegação, ainda quando os lugares sejam seus. Vai a scholar a negociações pela sua escola (o que é raro), e regressa com más notícias. Nunca se saberá o que propôs, o que defendeu e como defendeu; nunca se conhecerá a posição nem os argumentos da outra parte, que simplesmente foi um facto de antipatia. A scholar feminista, que a carreira fez scholar, sabe que errare humanum est, mas não se esquece de ser mulher por deferência a quem pode, que usa ser homem. É sempre muito feminina e erro perseverante. Vai aqui uma inocência, pois não erra no que faz (aliás, guarda-se bem, quanto pode, de fazer). É o estereótipo genuíno e rentável do ser frágil que precisa protecção. A scholar feminista depende da kindness of strangers. O princípio da sopa aplicado à incapacidade de decidir não desmente a fantástica alquimia: torna-a digna de ser rainha nestes tempos que são tempos constitucionais (Stendhal). A scholar, todavia, prefere ser princesinha, pelos mesmos motivos que a levam a preferir o andrógino. Fazem parte, com o ser inequivocamente feminina, do seu pitoresco social, que o campus pede. Quando a scholar fala como scholar, e deve portanto conduzir a sua educação em público, recorre a uma linguagem de sinais, tal que essa educação não se distinga da especialização em relações humanas avançadas, as quais inculcam o mérito absoluto daquela que bem nasceu. Seja palestra, ensaio ou cerimónia, a fala desliza sobre um pressuposto, que evidentemente não se aplica: «dar-vos-ia a passarinha, se fôsseis a banda rock “Rimbaud & The Rose Pricks”». A scholar dá sopa, exactamente como nada faz. É um facto indesmentível. Já vi uns brutos feios e pesados abrirem um sorriso cativante diante de uma chefia, e por nada, ou de nada para nada. A scholar,
que é a Teoria como Kitsch,
é airosa, mas feia em baixo. Não tem tornozelos. É
uma tanagra que assenta em pés de porco. Emblema notável,
etimologia de prodígio, protótipo fabuloso: a carreira
prefigurada pelo físico. ELVIS
COSTELLO
À saída do
laboratório, a noviça com perspectivas de carreira e o
homem de carreira, mas sem perspectivas. A criatura imperita pergunta
ao principal considerável, que anda eriçado, e é
todo puas morais — se ele não poderia escrever um manual leve da
profissão, assim compêndio e ritual, porém
sumário, que pudesse subscrever como co-autora, fazendo ela nada
e ele coisa pouca? A pergunta, leviana duas vezes, é inocência, não apenas prática, mas praticável. Passa por transcrito da adulação no desaforo, e do descaro na subserviência, em última instância retirável, e como coisa que vem de um riso. Pragmáticas perdidas, todavia, no esperto sem tacto, que se queixou logo — à uma pelo senso moral avexado, à outra pelo pouco caso que de si fazia a trapaceira, e pela carreira que ela assumia, como todos, encalhada. O aproveitável para negro, tão perito e tão versado, porém sem mitra, levantou mãos de bradar aos céus. Não recuperou ainda. Anda cosido aos corredores, tonto da astúcia, e de se ver assim reflexionado. Pensa despir — simbolicamente — o uniforme, aliás a bata, pela qual se terá a donzela apaixonado. Disse-lhe eu uma vez que era questão de ambiente. Num convento beneditino a ninguém ocorreria uma ideia dessas para um sorriso desses. Batas que são, que não as lobas do homem? A nobreza de toga é deveras singular. Nem falo já dos teólogos da cultura, que fazem das mães peixeiras, e que por ali vão acamando para caspas sociais. Nesses a predisposição para a cultura é tão notória que se não distingue da chamada cultura institucional. A glória do múnus vai toda nos actos administrativos, que é quando chega a ocasião para catar-se. No topo, a excelência científica é também administrativa e moral, e o crédito imenso: não ocorre que o catedrático minta e com mais oitavas que um dentista. Um dizer de cátedra é ainda instant karma; tem a força do boato, que, no caso, não precisa começar incerto pela base, e amortecido aí pelas acusações de bruxaria, que são mútuas ou podem sê-lo. Como a coisa anda «democrática», cercada a cátedra pelo maior número, é logo aproveitado. Sem espinhas. Sobe um desprevenido do andar das humanidades ao das ciências humanas, e apercebe-se das duas sociologias que rendem: a dos marginais, cujo objecto paradigmático pode ser os paneleiros, e é ideal de ciência; a das instituições cujo corpo ou causa pode ser as putas, e é ciência e realidades (de gestão). Recua o observador um passo, e pode ser que veja tudo cercado e assediado por uns padres pelos quais realidades subsistem, e como batas e batinas que são a pura duração: aparelhos da mente e tecido do karma. A cozinha dos actos
é por norma desoladora. A realidade da
ciência feita ou ensinada exibe-se na sacristia onde se
justificam avaliações, benefícios e
prejuízos. Realidades de especulação — da
matemática e da física a saberes por preconceito e a
preconceitos de saber —, que há minutos foram sesquipedalia
verba, são reformadas para coisas de andar seguramente.
Vigora o
bom-senso, que certamente agrada à companhia reunida, pela
desproporção entre a realidade das coisas, que é
chã, e a ciência delas, que é grandeza. Esta,
porém, não se aplica aqui. Entendamo-nos. Não
se escolhe necessariamente a mediocridade
contra a excelência. A modéstia serve antes a coroar e
hissopar a excelência, quando a haja. E a companhia condescende
em ser criado de quarto não apenas dos grandes, mas igualmente
dos pequenos. A reunião pós-actos é o instante em
que os académicos são humanos. Agora que a ciência
é testar colheres e as humanidades
produzir agentes culturais e professores, agora que o rigor é
antes de tudo maltusiano e a universidade é à partida
gestão socialmente co-optada de factos demográficos, os
rituais que extraem o peixe assado das espinhas, e os
pós-rituais que reduzem às espinhas o peixe vão
sendo menos e menos a miraculação capaz de encerrar-se em
círculos de complacência. Já circula toda uma
geração de humanos entre o
laboratório e o corredor, e quotidianamente. A neófita
que toma o peixe pela espinha, e acha dispensável ser pupila,
é o sinal revelador de que o segredo das sacristias é
já o de polichinelo nos corredores. É um facto de
bovarismo. O que não deveria tomar-se à letra passou a
norma das realidades. Hurry down,
doomsday / the bugs are
takin’ over. |
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