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UM

De todas as singularidades em que abundam as escolas portuguesas de Letras, ou instituições equivalentes, a mais singular é porventura a Teoria da Literatura.

Numa área onde nem faltam os anarquistas de direita (honoris causa), a Teoria é carreira e hierarquias. A Teoria é um operador de competências por inerência, pois quem é docente de Teoria sabe logo que é catedrático e gestor. Quem é docente de Teoria certo é que está na carreira pelo topo. A Teoria é galões nos docentes de Letras que falharam em ser médicos como os pais. Quando se reestruturam os cursos, ninguém quer ensinar línguas ou literaturas, se não alguma forma de Teoria.

Todos os docentes de literaturas se prezam de Teoria como outrora de boa latinidade, e outrossim as bestas. A Teoria é uma disciplina autónoma e a Teoria ajuda a ler. A Teoria é a grande fonte do impensado, do tal-qual e do opinativo das letras. A Teoria fundamenta a atitude crítica, capaz, como diria Said, de dizer a verdade ao poder. Toda a calúnia sincera e bácora não se vê logo ser impossível, porque a Teoria está na carreira e no manual.

Quando chega a crise, não há informação nem pensamento, porém a pleonexia e o tacho — e as boçalidades de sacristia que são também Teoria. Não há alunos para letras? «É cíclico».

Um pouco mais de esforço…

UM+UM

É seguro que um Departamento se acha fundado em Teoria quando decreta que a ordenção das literaturas segue o preceito de que a «lógica é cronológica» e se estriba na crença na Literatura de sempre, que existe e subsiste à parte. A «Literatura Medieval» passará ao 1º ano e a História da Língua permanecerá no último, por isso que logo se vê que mia amiga velida é a minha garina bué da fixe.

DOIS+UM

O que é que as gentes das literaturas 1,2,3 devem recusar da Teoria da Literatura, enquanto campo de especialização académica — enquanto teoria fundamental?

Vamos primeiro pelas relações entre teoria e prática: as relações da teoria com a instanciação prática da mesma teoria; as da teoria com a interpretação dos textos literários.

No primeiro caso, devo dizer que não tenho visto uma só teoria reflexiva. Carecem todas de algum envolvimento  que não seja acrítico com a sua situação: a sócio-histórica, e, mais próxima, a escolar. Não se examinam como construção. Dão-se-nos como acabadas, e não como algo que se vai alargando e complexificando, porque lhes falta aquele envolvimento. Sabem o que a literatura é — e sabem sempre o que a literatura é. Parecem por vezes os equivalentes de uma poética prescritiva.

No segundo caso, dificilmente se lhes vêem implicações interpretativas. Aliás, elas mesmas se defendem, minorando as suas consequências hermenêuticas desde pelo menos Wellek e Warren.

Darendhorf procede a uma diferenciação entre perguntas e problemas que pode interessar-nos aqui. Uma situação traz uma pergunta: caso ou não caso? A resposta teórica consistiria em transformar a pergunta em problema: invoca-se a sobrepopulação, a bomba atómica, o problema da usurpação demiúrgica da responsabilidade (como me posso atrever a trazer a este mundo mau uma nova criatura), etc.

A teoria que nos ocupa define-se por um contencioso, que é um problema: o que é a literatura? Questão insolúvel e argumento interminável que todavia asseguram a permanência da teoria e a sua transmissão. Quanto a nós, temos um texto; o texto faz perguntas; se respondermos com, v.g., narrador, discurso, grotesco, dialógico não raro apaziguamos a pergunta com palavras, com super-palavras. Tive há pouco notícia de uma pessoa teórica de literatura que desbancou Thomas Khun com uma  super-palavra: metaparadigma. Diga-se que o faz em parte porque o teórico ou a teórica da literatura é, por imputação institucional, aquele ou aquela que sabe mais.

A teoria não é apenas super-palavras; também os enunciados são super, e levam chumbo de saberes. «O distanciamento ideológico relativamente aos alicerces socioeconómicos dos conflitos em causa» e «a atenção sistemática relativamente aos recursos técnico-formais que servem a mensagem literária, atenção essa justamente patenteada de modo exuberante em X» são enunciados onde se reconhece a super-assertividade teórica, posto os tenha mondado para exemplo de uma interpretação de X que nem sequer sonha que se possa interpretar por uma forma que não seja relatório.

O segundo valida-se pelo contencioso, que em visão de Túndalo semiótico passa a chamar-se «mensagem literária». «Mensagem literária», noutros autores «literatura», é a bandeira de que somos patriotas calados e compenetrados. É cores, escudo, quinas e castelos.

O primeiro resolve um problema por esmagamento.

E ambos são relatório, v.g., «atenção essa». Curioso é que ninguém tenha visto que em ambos fala Acácio e Pacheco.

Não é que andemos desapontados com uma teoria que deveria responder a todas as perguntas e não o faz. A  questão é outra e cabe na boutade de Einstein: teoria é quando se sabe tudo e nada funciona; prática é quando tudo funciona e ninguém sabe porquê; unimos a teoria à prática quando nada funciona e ninguém sabe porquê. Comento, tirando-lhe hipérbole e sabor: os textos literários não são super-funcionais; frequente é até que disfuncionem; tem de  levar-se alguma forma de ignorância até alguma forma de saber; tem de levar-se alguma forma de saber até alguma forma de ignorância. De outro modo, Eça será sempre o mesmo Eça, como Dâmaso Salcede seria sempre o mesmo  Dâmaso.

TRÊS+UM

Não sou teórico de literatura; teorizo quando leio, e em geral uma porção da teoria que faço parte da teoria que fazem os textos que leio. O homem é um animal teórico, e também o sapateiro. Outra parte vem das teorias literárias (e não só), que me são recursos. A minha teoria é uma caixa de ferramentas aqui e ali colhidas.

As formas literárias são complementos de mundo, diz algures Umberto Eco: participam no alargamento deste mundo. Quantos artistas de letras não se queixaram do pouco da realidade existente e fomentaram outras realidades, que em geral, não aparecem completas e traçadas com prumo e esquadria. Se as obras não batem certo com o que há, e  algumas querem mais, parece-me que lê-las seja correr o risco da interpretação.

Invoco o Derrida do performativo:

a interpretação faz o que diz, embora pretenda sempre mostrar e ensinar

faz passar o dizer que faz o evento por um dizer o evento, «atenção essa»

excede a informação e a comunicação, mas não é obscurantismo; antes toca em algo que é heterogéneo ao saber. Produzo o que não sei e o que não posso envolver, nem a priori nem a posteriori (nem a rortiori) por um acto puramente mental.

QUATRO+UM

As segundas objecções que a teoria me suscita são as do teoreticismo e as do metodologismo. Vamos por um exemplo. Segundo a Teoria da Literatura do prof. Vítor Aguiar e Silva um texto tem três propriedades formais: expressividade, delimitação, estruturalidade. A primeira é à imagem do teoreticismo, as outras duas à imagem do metodologismo.

Segundo a primeira, os produtos derivam de um modelo por execução pontual de uma regra. O modelo tem precedência ontológica e a ontologia é lógica. É isto o teoreticismo. De acordo com as duas outras, um texto é boa forma e delimitada, como convém a ideias claras e distintas.

Isto tem somente por um legalismo teórico; os produtos e as actividades relacionadas são constantemente chamados à norma: v.g., a definição da literatura concede-se em aberto [porque o produto não é afinal execução de uma regra]; concedem-se as margens de interpretação [porque o texto não é uma definição], concede-se a abertura histórica do conjunto dos textos literários [porque da obediência ao modelo nunca sai um ergonómico irrefragável] — mas logo se diz que a codificação múltipla não autoriza a que se faça com os textos quanto se queira, etc.

De resto — e não vá  pensar-se que eu pense que a história é passageiros de passagem e não também estações e apeadeiros —, dir-se-ia que a condição histórica daquele conjunto é posterior ao conjunto; que ele foi definido nalgum «indício» fora da história por aqueles que nele permanecem desde sempre, e que haveriam sido talvez a pura execução de uma regra.

O metodologismo não é apenas quanto disse. O seu papel mais importante nesta teoria [e então há urgências e prioridades metodológicas] consiste no encontro inaugural da teoria com o seu objecto; acontece que este seria um óbvio social e desestruturado; o instante em que a teoria o encontra corresponde à auto-definição [à auto-posição] silenciosa da própria teoria, que por esse modo nos aparece ali, inquestionada e, o que é mais, inquestionável.

Em rigor, o que faz a teoria não é da minha conta, pois o que nela me interessa são recursos e ferramentas; mas devo dizer que esta teoria é injusta para com ela própria. A literatura não é um óbvio social que o tempo [substituto da história] trouxe até ao académico para que este possa simplesmente dizê-lo. Vem já estruturado mil e uma vezes pelas categorias da «percepção nativa» [como dizem os etnólogos]. A teoria submete tudo isso a uma reestruturação; ainda me lembro de como a «percepção nativa» foi em mim abalada pela noção de que a literatura é um sistema modelizante secundário e o mais que se sabe.

CINCO+UM

Outra objecção tem a ver com a permanência de certos textos como textos literários. Não há notícia, escreve-se na Teoria, que certas obras de certos autores hajam alguma vez deixado de serem consideradas literárias. [É a definição da literatura pelo cânone, que desempenha no livro uma função de suplemento].

O argumento é análogo do ontológico. A deve existir [temos de pensar que exista], porque B é assim e é assado. É uma dedução retrospectiva de existência. A literatura não é, porém, tão de mistério como o Deus. Demonstra-se [ponham aspas] que a literatura existe; continuam a ignorar-se-lhe as propriedades [Deus, como se sabe, pode até dispensá-las; haja teologia negativa, e escapa até a esse antropomorfismo, pois não é, não é e não é]. Que a literatura exista não precisa a Teoria de dizê-lo. [Já agora, não faço gala de ignorar as diferenças entre textos literários e textos que o não são; em geral, sei quando um texto é literário].

O argumento permitiria igualmente deduzir a permanência de uma atenção concedida a certos textos. Emendava-se a Teoria neste passo, e ficava assim: não há notícia de que x, y, e z tivessem deixado alguma vez de ser estudados nas escolas.

A questão não é que a literatura exista, mas onde e como. O velhinho Curtius explica: desde o séc VI ac a literatura tem sido um objecto escolar e a continuidade da literatura europeia é solidária das escolas. Os mistérios explica-os ele pela diferença entre os gregos e povos com castas sacerdotais. A tradição ficou a ser para eles Homero e não o Pentateuco. Os romanos seguiram os gregos, e daí a gramática de Quintiliano: recta loquendi  scientiam et poetarum enarrationem.

Como sabemos, esta gramática não tem duas partes. Quintiliano dá por coimplicada a ciência do bem falar e a interpretação dos poetas. Os nossos cursos são ainda esta gramática: línguas e literaturas; esta gramática está hoje em dia muito em crise, precisamente porque nos faltam as escolas. Curtius diz mais: que se a educação se torna o medium da tradição literária, o facto é europeu; não está na ordem das coisas. O argumento do prof. Vítor Aguiar e Silva implica, pelo contrário, que a literatura esteja na ordem das coisas. Creio que a Teoria sabe isto por sintoma: é o que vejo no tema da unitary word e depois no português como língua de Camões.

SEIS+UM

Outra objecção poderia ser a de que a Teoria segue a lógica da viciação cultural, tipo a primeira dose não satisfaz e é preciso aumentá-la. Que é o sistema, modelizante e secundário e o mais? É uma super-estrutura; e a literariedade recusada (mesmo na versão Jakobson) é reavida como super-literariedade: é a mensagem de codificação múltipla.

Talvez esta Teoria adiante pouco em relação às anteriores. Pelo menos, o sistema é tão pouco criterioso como a literariedade e afins. De facto, esta teoria implica que textos historicamente literários quando introduzidos num sistema modelizante primário perderão para nós a codificação múltipla; e que textos historicamente não literários quando introduzidos num sistema modelizante secundário resultam multiplamente codificados, e logo, como diz o outro, literários.

Se o primeiro exemplo é sobretudo pensável, não faltam os casos subsumíveis no segundo. De resto, a mera leitura faz isto. Pude ler A Inglaterra de Hoje de Oliveira Martins mais ou menos como li o último Eça.

A meu ver [e as ferramentas, que foram Bourdieu, Curtius, etc., são agora wittgensteinianas], é preciso lembrar

1) Em que pese a Tinjanov e aos formalistas russos, não há leis literárias ou literaturológicas propriamente.
2) Em que pese aos sistemas modelizantes, às estruturas, à codificação múltipla, à semiose, etc., a teoria literária não dispõe de supercoisas e dos seus superlativos, tipo 'alavanca geométrica' e 'infinito'. Não prevê, não calcula, não controla experimentações, não traz adstrita alguma tecnologia. A este nível de exigência só podemos dar explicações: encadeamentos argumentados de ocorrências, pelo melhor produzidos entre um princípio e um fim, que são descrições, que não estão conformes a alguma experiência ou a algum empírico, mas que buscam aceitação.

Quando estimulado por Kant resolvi que a contemplação da máquina do mundo por Jacinto e Zé Fernandes em Tormes era uma experiência estética, necessitada como todas de um expressão genérica de tempo [que não seja foco do discurso, que se use irreflectida e sem se saber], vim a descobrir que esse tempo estava lá: era o tempo do "ao mesmo tempo", o  tempo sincrónico nacional. Em rigor, não estava lá; não esteve lá todo este tempo à espera de que eu o descobrisse — e se estivera, nunca teria a redondeza empírica que permitisse inferências de causalidade. Mas quando, v.g., vejo em Casas Pardas idêntica contemplação, a pretexto da chegada do homem à lua, e ainda aquele tempo tautocrónico nacional, então reforço a aceitabilidade da explicação, e tenho, sobretudo, o único empírico que posso ter neste campo de estudos: a comparação, a analogia, a relacionação. Isto para  dar notícia do meu método: é o da literatura comparada. É um empírico às vezes traiçoeiro, empírrico, transviador — porque  menos validado por super-palavras. 

SETE+UM

Outro motivo de dissenso é o do "Wittgenstein às avessas". A declaração de obras permanecentes surge com a recomendação de seguirmos a lição de Wittgenstein, derrogadora da crença metafísica em essências qual se exprime no lema «unum nomen, unum designatum, unum denotatum». Olhemos e vejamos: mas não para descobrirmos que não há uma essência comum a x, y e z, apesar de lhes atribuirmos o mesmo nome, porém o contrário precisamente.

O que eu acho mais significativo não é todavia o "Wittgenstein às avessas", mas que a escapatória já fora antes utilizada quando o tema inicial do livro seria o da descoberta do objecto 'literatura' com a adopção ou não do nome 'literatura'. O objecto demandado ficaria defronte da acribia teórica determinado pela sua acepção mais abrangente — que há-de ser uma palavra, antes que duas, um sintagma unitário antes do que um composto, um enunciado ou uma frase. Há-de ser uma unitary word.

Que é a unitary word senão uma versão de «unum nomen, unum designatum, unum denotatum», que uma sombra de história torna plausível? Em suma, o que depois não se faz sem custos de retórica [a demonstração passa deveras a demonstratio e lá temos Wittgenstein às avessas] já fora antes decidido; justamente naquele ponto inicial [que, não empiricamente, é o dos primeiros princípios] em que a Teoria procede à sua auto-definição silenciosa. E, com o que acontece depois a Wittgenstein, ficámos a saber que essa auto-definição pela calada pôs a teoria como teoria essencialista.

Já agora, a demanda do objecto uno e unitariamente designado — objecto de um nome só —, pode considerar-se uma demanda falsa. Pressupõe que a teoria pudesse escolher; como se nalgum ponto da demanda tivesse podido optar por quark, spin ou positrão. Não pode. Tal como não podemos chamar positrões aos alentejanos a pretexto de que lhes estamos fazendo a etnologia científica, não podemos chamar quark à literatura quando lhe fazemos a teoria científica. Temos de ficar com o nome que tem, e parece até pueril certificá-lo.

OITO+UM

Para o fim, deixo uma diferença metafísica que encontro em Giorgio Agamben. Diferença metafísica chama Cavell a toda aquela que leva as pessoas a entrincheirarem-se em posições de dissídio inexpugnáveis, que as impedem de comunicar e trocar ideias. Como diz Basto a Bieito, e cito à peu près: comes túberas da terra  / eu não nas posso comer / P'ra que é sobre isto guerra? / Come o que bem te souber.

A Teoria da Literatura pode veicular a ideia, rejeitável de resto pelo autor que não perdeu de vista as matérias afins, os labirintos e os fascínios, que a cultura é uma espécie de imitação de um gérmen natural capaz de transmitir valores imortais e codificados.

DEZ

Estou com Agamben: há nomes, há infância, há linguagem... tudo o que faz do falente uma abertura sem destinação específica, não geneticamente condicionada. Por isso a cultura tem de confiar-se a uma memória exossomática, que não imita a somática, e à tradição, ou seja, ao esquecimento. Acho menos natural a imitação do natural; acho mais natural que o poema de Apolinaire passent les jours passent les semaines venha parar esquecido, cómico, porventura insinuando um obsceno, naquele inteiro poema de Adília Lopes, que é dois versos: os dias vão-se / eu não. Não consigo imaginar que Os Passos da Cruz são a prova de que a cultura é uma imitação super-funcional de um condicionamento genético.

CODA. O tipo de Teoria de que a Teoria da Literatura de Vítor Aguiar e Silva é o melhor exemplar entre nós coincide com os tipos de existência institucional das Letras e dos seus cursos. A Teoria da imitação do gérmen natural será motivada pela perenidade putativa das instituições e das carreiras.
Acompanhe agora Sidónio Barreto nos seus estudos de caso:

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