| ALMA, PREDAÇÃO E BODAS A SOBREVIVÊNCIA DOS MAIS FRACOS AMÉRICO ANTÓNIO LINDEZA DIOGO |
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The wall on which the
prophets wrote is cracking at the seams
(King Crimson, «Epitaph») A evocação da Febre e do Cólera por que começa «Nós» — a primeira designando um genérico, «popular», e o segundo um específico, «especializado», apesar de que aquela admite este em sua companhia — corre sobre um prosopopeia tão habitual que dificilmente se perceberá como um ornatus, e menos ainda um favor que se faça à chamada riqueza expressiva. As próprias maiúsculas são rotineiras, ou pelo menos é assaz habitual a ênfase que costuma acompanhar aquela transformação tropológica. A supor um respeito primeiro pela claridade formal, unidade de registos, etc. — que de resto é imagem de marca do poeta dos «alexandrinos exactos» —, não se sabe que expressão se tornou com estes usos mais precisa; tudo parece já muito próprio, muito unívoco ou inequívoco; e, claro, em rigor não podem avocar‑se conveniências pragmáticas explicativas. A figura não é decerto invisível a um entomólogo dos tropos, avezado aos trabalhos taxionómicos; mas não parece que satisfaça requisitos de relevância. Como coisa que vai de si, é quase imperceptível. O mais que seja ou possa ser terá de obter‑se numa leitura retroactiva, pelo «sentido», e decorrido um número de versos suficiente (como o começo está implicado no lugar de onde se regressa, a leitura a contrapelo parecerá sempre restituição): Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre E o Cólera também andaram na cidade, Que esta população, com um terror de lebre, Fugiu da capital como da tempestade. (80) E todavia, a figuração da epidemia é muito «humana»: Febre e Cólera são nome de (a)gentes, os quais se somam aos espécimes citadinos que não são somente pessoas senão uma «população» («também andaram na cidade»). Ao jeito dos abusões catacréticos, o acrescento é caracteristicamente «tropológico». Não se afigura brusco (ou casual) ao leitor que nos estudos e manuais de retórica deseja precisamente o inesperado; mas decerto que estes teillards du chagrin não se acham previstos na «evolução composta» (Spenser) nem na «selecção natural» de onde se originaram as «espécies» (Darwin). Outro aspecto que conta é o do interesse pessoal por figuração de solidariedade extraível do díctico, que é todo proximidade ética do objecto a quem «fala»: «esta população» (sendo que ‘população’ não é irreferível ao jargão darwinista nem aos todos da estética). Finalmente, envolve tudo isto uma história de antagonismo ao humano e àquele interesse: na cidade civilizada — é mais dramático que seja «capital» — entraram dois predadores de configuração humana, ao caso, o que é urbano, deambulatória («também andaram»); e escondidos na multidão, ou já na população, vão‑na dizimando e forçam-na à debandada. O homem citadino é presa — lebre que foge como fogem lebres de tópica —, a epidemia é uma mortandade e permanece uma ameaça («tempestade»). Alguma astúcia estrutural, que é rotina das práticas já desde algum formalismo russo, e já desde o new criticism, permitir‑nos‑á alinhar e articular oposições e correlatos curiosos, ao arrepio das distribuições de superfície, que passam então por camadas de decepção estilística (litóticas). (cf. Greimas, 1970) ‘Comércio’ e ‘baptizados’ acabarão assim em sinónimos, sendo o segundo termo usado como um tropo do primeiro (e a operação indistinguível da impropriedade contextual): (cf Lausberg, 19823) Na parte mercantil, foco da epidemia, Um pânico! Nem um navio entrava a barra, A alfândega parou, nenhuma loja abria, E os turbulentos cais cessaram a algazarra. Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados, Rodavam sem cessar as seges dos enterros. Que triste a sucessão dos armazéns fechados! Como um domingo inglês na city, que desterros! (81) Digamos que ‘baptizado’ e ‘comércio’, como a generalidade dos termos, admitem cada qual uma série de sinónimos, mas que nem todos os de uma série são por sua vez sinónimos dos da outra série; não sem alguma impropriedade (e sem forçar excessivamente a gama, de forma a que essa fosse encadeamento), ‘comerciar’ e ‘baptizar’ são «sinónimos» de ‘vida’. A norma desta, que é urbana, empresta-a o ‘comércio’ que é ‘troca’, ‘permuta’ ou ‘permutação’, ‘trato’, ‘tráfico’, ‘negócio’ ou ‘negociação’, e desde o mercado aos costumes. Costuma chamar‑se metalepse tanto a esta comparticipação ou transposição de registos, como a estas (que o são) significações de uma coisa pelos anexos ou circunstâncias de outra coisa. (cf. Quintiliano, 19792, Fontanier, 1977) O erro, que se é moral não é poético, parece acautelado, todavia, por isso que se processaria num local que se imagina a congruência superior — humana — de todo o local: a cidade, que o comércio, dos costumes ao negócio, permite pensar como uma realidade centrada, regulada e estável. As transposições teriam o seu foco no comércio — muito embora se venha a dizer, e explicitamente, que a epidemia tem o seu âmago nesse centro. É certo que uma parte dos sinónimos em causa não são comparticipáveis, ou antes, não são trocáveis; as fiadas de permutantes são menos homeomorfos à partida ou à chegada e mais diferenciais contínuos, dedicados a acautelar uma argumentação contra a inadvertência e o inexpressivo. (cf. Perelman & Olbrechts-Tyteca, 1989: §36‑7) Contudo, a sinonímia como forma de um arrazoar de dados segundo linhas de alguma riqueza expressiva não se acha defendida contra a sinonímia das transposições metalépticas; caracteristicamente, a argumentação assumirá a forma do álibi — ou seja, do que passa por argumento por parecer que não está no lugar que o define (ou inculpa). Para já, o centro (mesmo o das epidemias) não escapa a ser uma lisonja antropomórfica. A «vida» que é «comércio» e «baptizados» não subsiste sem prosopopeia. A favor do contraste, «vida» dá‑se a perceber como agitação comercial, turbulência e algazarra; os armazéns são agora tristes por sucessão e encerramento; e o paradigma do comércio (que nos educa) é a city, centro do mundo e também de Portugal, ao domingo. À ausência de convívio chama‑se desterro — algo que, em juízo urbano, denota a falta de companhia humana. Como se vê, a riqueza expressiva parece agora inegável — embora tenhamos razões para crer que não coincida com aquele inesperado que à época o leitor de «retóricas» esperaria. Não é que se acredite que na realidade a vida, mesmo a dos negócios, se passe toda em baptizados (é bem mais crível que em tempo de febre e de cólera as seges dos enterros possam desfilar ininterruptamente); mas conceda‑se a estranheza de uns textos metrificados em que a morte é city domingueira que é desterro — ou sucessivos armazéns fechados; e, sobretudo, em que a vida é algazarra de cais, lojas que vendem ao público — e, finalmente, baptizados que passam em trens. A riqueza expressiva, recuperada até à primeira quadra, não passa sem desajustes metalépticos; e, ainda quando a metalepse não seja mais que um espaço ou um momento inespecíficos de transições verbais (aqui, ela não seria sem personificações e prosopopeias), não chega inequivocamente à forma do balanço que tanto é uma das figuras da «evolução composta» (cf. Spenser, 19766) como dos livros comerciais. E o balanço do argumento (ou a clareza da forma e a coerência dos registos, que a riqueza expressiva não deixaria se perdessem) vem comprometer‑se com o deslocamento do álibi (ou com a transposição do tropo). Tenho em mente, obviamente, a compensação da morte pela vida estuante, que é o ponto deste prólogo: Porém, lá fora, à solta, exageradamente, Enquanto acontecia essa calamidade, Toda a vegetação pletórica, potente, Ganhava imenso com a enorme mortandade! (82) O equilíbrio que ajusta os débitos e os créditos é dito de um modo suspeitamente desequilibrado: passa-se das carnes, que perecem, para os lenhificados, que são renovos; se o que acontece à carne é «calamidade» a pôr à distância («essa»), e uma «enorme mortandade», o contexto discursivo impõe que o advérbio de modo ‘exageradamente’ leve canceladas as conotações de juízo e de valor: o prosperar da vegetação não é avaliado negativamente face a uma limite ideal que deveria ser inultrapassável; antes, eticamente neutralizado, não seria mais do que um facto — de medida. Estamos diante de uma metalepse (!), tal como a define e exemplifica o Tratado da Argumentação de Perelman e Olbrechts-Tyteca: a transformação de um juízo de valor na constatação de um facto, (id.: §43) que, tanto quanto posso saber neste momento, propende à aceitação filosófica. Em contraste, na «enorme mortandade» o «facto» vem avaliado, e logo pela ênfase característica do epíteto anteposto, que é redundante: uma mortandade, quando em ideia o espírito da época não é guerreiro, mas depende do comércio que figura a paz universal, é algo como um horror, e essencialmente «enorme». Finalmente, os ímpetos de seiva dos «arvoredos fartos» passam‑se «lá fora» e «à solta» (82). Eis a deslocação, e eis o álibi. A estabilidade da diferenciação urbana típica dos «superorganismos» (Spenser), que fora lesada pelos bacilos, é deslocada «para fora» e beyond: se à liberdade daqueles ímpetos («à solta») são decerto confiadas coisas como a continuidade do movimento e a indestrutibilidade da matéria (cf. Spenser, id.) a «opulenta fúria das novidades» (82) situa‑se «lá fora», como perdida de vista quando o braço a aponta. Aliás, a percepção referida ao «chefe antigo e bom da nossa casa» não deixa dúvidas. Dir-se-ia que nenhuma filosofia obnubila com balanços a mente do patriarca prático: campo e cidade designam situações antitéticas que orientam a escolha do campo, «salutar» como «refúgio» e como «lucro», contra a cidade onde reina a «moléstia horrenda» (82). O que é humano e morre não revive de todo no furor germinativo; a explosão vegetal é antes uma revisão brutal — uma anulação — dos «organismos» urbanos antropomorfos que coroariam evolutivamente um mundo naturalmente seleccionado. A «universal celebração de bodas» e os «soberbos partos» passam-se deveras em algum exterior, e continuarão a passar-se mesmo quando poeta e família se tornarem «provincianos» de Maio a Novembro; apesar da retórica e da indestrutibilidade da matéria, entre os homens e a vegetação humanizada afirma‑se um salto ou uma ruptura que se diria, por exemplo, da ordem da «mutação»; e, ao contrário do que até aqui parecera (e voltará a parecer), a prosopopeia das plantas assinala já irredutível e abertamente uma expropriação do humano que se afigura «concomitante» da plétora vegetal. A indestrutibilidade da matéria não traz consigo compensação alguma, a não ser, como se diz, filosófica (mas mesmo «Spenser» há‑de permanecer «lá fora», irredutível ao «momento subjectivo»). Os próprios ímpetos da seiva, canalizados para frutas e primores, irão ainda significar a subordinação do capital português ao de uma city sem domingos. Os propósitos de integração dos First Principles (que é uma «filosofia» da continuidade entre a matéria e o social, e em todos os pontos organicista, tal que o comércio poderia de algum modo inferir‑se dos «soberbos partos») parecem destinados a chocar sempre com a metáfora darwinista do próprio Spenser, segundo a qual a «vida» é a todos os níveis uma luta de aptidões, e «incapazes» os que não sobrevivem: o próprio explicará que a «survival of the fittest» (fórmula do darwinismo social que Darwin adoptaria) pretende ser uma tradução literal daquilo que o biólogo nomeara como «selecção natural ou preservação das raças favorecidas na luta pela vida». E todavia, a outro nível embora, as vegetações darão em acrescentos de cultura que remendam quer o todo pressuposto das «populações», quer o evolutivo; representarão uma aceitação humana da expropriação de humanos que é mais própria da cultura do que de primeiros princípios filosóficos. Todos estes ajustes e desajustes não se vão cerzindo (e descosendo) por linhas espaciais apenas. Desde o equivalente inicial ao era uma vez do conto («foi quando») que se vão mostrando uns propósitos de calendarização desejosos de tempo regular: baptizados, enterros, os dois anos do cólera, a partida da cidade que o «lívido flagelo» desencadeou, o eterno retorno das estações e o particular ciclo citadino que divide o ano pelo período das «grandes chuvas». Estruturalmente (mais uma vez), todos os eventos temporais relevantes tendem para a festa ou para a celebração em data fixa, que de resto propicia e alimenta a evocação — e que não seriam sem a mesma evocação quer alegre, quer melancólica. Ainda aqui avultam a prosopopeia e a disjunção metaléptica, interna e externa. O que mais fere a atenção parece-me que seja a conversão da morte em bodas e partos, que não decorreria já das distribuições estruturais regidas pelo comércio (efeito extremo de «evolução composta», mais argumentável que perceptível), mas da natureza ou da «selecção natural» e em processos observáveis (na verdade, eles são obstinadamente «fúria opulenta», formas «diluviais» — e outras grandezas que entram pelos olhos dentro). Porém, todo o gerador de «populações», como se bodas e partos, não deixa para trás a morte (de que se haveria deslocado, a relegá‑la para facto natural); na evocação, o fasto que motiva a festa alimenta também o retorno desse recalcado que desconhece o emprazamento e a data certa. Volta a ser morte, não apenas sem restrições de calendário, mas de forma casual ainda, contingente, alheia e alienante. Segundo o que ela implica, o laranjal não desce «uma escadaria de gigantes» (83), mas socalcos de pedra; e «os pólipos enormes, diluviais» (82) não parecem tanto de uma «fauna surpreendente» (id.) como denotam alguma natureza (des)apropriadamente lapidar — talvez como um muro inamovível (situação que se infere da optimização ateleológica das pequenas variações chamada «selecção natural», mas que a evolução «epigenética» não permite reconhecer). Consoante a perspectiva, baptizados e enterros, bodas e partos — configuradores de «populações» —, ora são os agentes não suspeitáveis do belo (e tão pouco intencionais como a Febre e o Cólera), ora os papéis que betumam as rachas de algum gesso proporcionado. «Nós» começa assim por uma morte que não é a morte. Transfigura-a no inimigo público que conduz à debandada e ao encerramento dos negócios que são baptizados. Vem a contrastar, e muito, com a morte em privado, da irmã primeiro e do irmão depois. Quando comum, é assunto que justifica o conto e é por este justificada; não é a inexpressividade do muro (e mesmo do verso onde se inscreve o muro): «Viu o seu fim chegar como um medonho muro, / E, sem querer, aflito e atónito, morreu!…» (102) Fora da ordem das «populações», qual vem articulada em partos, baptizados e enterros que todos são bodas, justifica antes «o desdém» sentido pela «literatura», ou o «desprezo» pelos «versos» (103). Tem pouco do «aniversário», pese à transferência inicial para o comum; e decerto não suporta a inversão que conduz à «fúria opulenta» e ao sumptuoso banquetear‑se da vegetação humanizada na «enorme mortandade» que afligiu os homens — nem sequer pela noção, aproximadamente bíblica, de um sacrifício anual. Posto fôssemos gulosos de «filosofia», como assentiríamos ao celebrar das vegetações a expensas nossas? Citando pelo capítulo I da Origem das Espécies, e com desvio cesariano, as plantas limitam‑se a devorar a comida que há e desconhecem instituições de prudência controladoras daquela «vitalidade equatorial» que as leva a amarem‑se «numa opulenta fúria» (84, 82). Esta boda não parece ainda aproveitável para uma transformação em consciência capaz de revisão e revivescência, de fortalecer e perpetuar algo como a «evolução composta» que, por uma torção subreptícia chamada «agnosticismo», se pôs de acordo com o Incognoscível Infinito. (cf. Spenser, id.) E todavia as bodas da vegetação hão-de ser graça e cultura. Embora assediada pela suposição de rotina e calendário, esta boda que não calha no mesmo dia do ano, mais do que uma festa movível, é afinal a Novemdiale de que algures fala Tito Lívio: a festa que se celebraria quando as pedras caem do céu. Pedras que do céu caem como excepções, acasos e obstinação de factos são as vegetações que beneficiam da enorme mortandade para celebrar suas bodas — esse exagero de seiva que se repetirá nos «pólipos enormes, diluviais». E a morte como condição de melhoramentos (que em rigor não precisariam do pletórico) é ela mesma uma pedra que cai do céu. Mas essa figuração assoma no verso por lapsos (e de retórica também); não pode ser inequivocamente aceite e não pode ficar dita. A própria morte do irmão pede notoriamente alguma coisa humana (ao menos que dela se inferissem versos, ao jeito das sociedades humanas que haveriam «começado» em algum existente invital); e a «morte comum» que é conduzida a ideias de selecção natural, para que esse «mecanismo» se vá afigurando como humano, de tal modo entra na ordem dos trabalhos e dos dias, das estações e das bodas que não deixa intocada a irmã que morre; justamente porque morre, mas também pela complacência cultural do feminino, não escapa a parecer concretizada em alguma transcendência substituta, objecto de apropriação subjectiva, posto esta seja ainda explicável pelo «atavismo» que todavia excentra o ser humano (o absorto ou lírico, dir-se-ia), desterrando-o assim do seu lugar e do seu tempo — «(…) Nós absortos, / Temos ainda o culto pelos Mortos, / Esses ausentes que não voltam nunca.» (101, eu sublinho) —: E enquanto a mim, és tu que substituis Todo o mistério, toda a santidade, Quando em busca do reino da verdade Eu ergo o meu olhar aos céus azuis! (102) Diga‑se agora que embora à época Spenser e Darwin tendessem a andar tão associados na mente do público como se fossem um só, (cf. Young, 1987: 185 passim) as diferenças entre ambos são imensas. A teoria evolucionária do primeiro pretende fundar o progresso ilimitado como uma «necessidade benemérita» tal que lhe legitimasse a crença nas bondades do não-intervencionismo do estado e do mercado livre. A evolução spenseriana assenta na «lei do progresso orgânico» (transformação continuista que abrange tanto a matéria como os «superorganismos» sociais, a qual consiste na transformação da homogeneidade em heterogeneidade — diferenciação, complexificação e especialização); na divisão fisiológica do trabalho; na tradução da selecção natural em sobrevivência dos mais bem apetrechados, com (o que é lamarckismo e não darwinismo, posto esta tenha sido uma questão embaraçosa para Darwin) transmissão à descendência das características adquiridas. A história da terra (e do universo) e a história da vida para Spenser são deveras uniformes e ambas direccionadas em termos de progresso indefinido. O meliorismo de Darwin (crença num progresso para a perfeição, à medida da selecção natural que trabalharia somente para o bem de cada espécie… favorecida) é sensivelmente diferente. Importa-lhe mais a evolução direccionada da história da vida, tal que a terra se vem a apresentar no fim da Origem das Espécies reduzida ao entretanto de um relógio natural. Segura da complacência terrena, suporte de toda a aleatoriedade, a fervilhante história da vida passa‑se num instante geoestacionário (enquanto o planeta gira obediente à lei da gravitação universal): da guerra da natureza, da fome e da morte seguir-se-ia directamente o conteúdo das nossas mais exaltadas concepções: a produção dos animais superiores. Uma vida que teria começado em uma ou poucas formas parece adequada a visões de grandeza; e a evolução das mais belas e maravilhosas formas a partir de um começo tão simples ter-se-ia processado e processar-se-ia ainda enquanto este planeta vai girando de acordo com as leis imutáveis da gravidade. (Darwin, 1996: 439) O homem não é o resultado de uma necessidade perfectibilista; é apenas a espécie que pode regozijar-se com o resultado. Já «Nós» vai reivindicando até ao muro final (e mesmo beyond) direitos humanos sobre o «mutado». Quer que esse seja mutuado. Várias vezes no poema quem fala é o atónito que desse modo exprime compreensão e anuência (ao belo, ou já a tudo o que fazendo populações faria estética). Não assim, ou nunca de forma tão positiva e ricamente expressiva, o aflito e atónito que morreu sem querer. Posto produza populações médias e estabilizadas, a «selecção natural» chega a uma espécie de impasse que a desabilita para justiça poética. Mede-se por um dizer justo, e este arrisca-se ao desdém votado aos versos que continuam a dizê-la (benemerente) tão-só por a haverem dito. Consideremos as bodas com a morte da irmã (ou as bodas da morte da irmã), tanto sobre o pano de fundo passavelmente spenseriano de uma complexificação da lírica a partir de funções primitivas onde esplendesse alguma homogeneidade simples, como dos exemplos de parada sexual das aves, referidos no Capítulo IV da Origem das Espécies intitulado «Natural Selection». Os «amados versos» desprezados não retomam o canto. Modernamente os poemas só são música por metáfora, condição de que nem sequer os versos de Pessanha estão isentos. A morte da irmã coloca estes versos à mercê de uma confusão de teoria quanto ao que na teoria sobrevive como «fittest» — se o indivíduo, se a espécie (especificamente, se o rico capitalista britânico, se o senhor Verde português, dúvida que parece respondível) — e de um problema (o da hereditariedade) que a teoria, antes do monge das ervilhas, não tinha como abordar decentemente: Porque, parece, ou fortes ou velhacos Serão apenas os sobreviventes; E há pessoas sinceras e clementes, E troncos grossos com seus ramos fracos! (101) A quadra passou Darwin a darwinismo social (que não decide muito bem entre a qualidade da sobrevivência — individualização ou especiação?). Basta a «observação estrutural», atenta à isotopia: a série fortes-fracos-grossos-troncos-ramos consente o enxerto velhacos-clementes-sinceras, decididamente moral. O que tece o argumento com fios de riqueza expressiva é a força, a que não seria estranha a malignidade. Já a bondade é fraqueza que não é protegida nem pela história da vida, nem pela sociedade. O apetrechamento na luta pela vida (e nota‑se a tradução completa da selecção natural para «survival of the fittest») retoma o lema do «homem lobo do homem», e de uma forma mais do que congruente com a sabedoria popular («ou fortes ou velhacos»), a qual admite, posto desconheça Darwin, a homologia firme entre a força de convicção do endoxal e o mundo humano tal qual se apresenta depois de passado por algo de semelhante aos crivos da «selecção natural», ou seja, justificado, ou seja, adaptado. Em contra, a «filosofia» é o que não garante a existência de «pessoas sinceras e clementes», as quais justamente não existem mais do que existem: «E há pessoas…». Se a existência destas é um facto, estes primeiros princípios não podem todavia justificá‑la como um valor. Finalmente, a vegetação serve agora uma analogia protectora contra o lamarckismo com que Spenser contaminou Darwin. Pela dependência dos ramos do tronco, a árvore é genealógica (como de resto explicita a quadra seguinte); e se são «grossos» os troncos, a fraqueza de alguns ramos não lhes pode ser imputada, sequer a título de caracteres adquiridos e transmitidos. A figuração é rigorosamente um álibi: pretende inculcar que, posto estejam no tronco, os ramos não estão no tronco. A transposição da imago para ‘populações’ reencontraria porventura a noção darwinista da selecção benemérita, que viabiliza populações «saudáveis», ao preservar as «raças favorecidas» na «luta pela vida». Todavia, a selecção sexual, já não directamente luta das espécies pelos recursos naturais mas dos machos pelas fêmeas no interior de cada espécie, leva-nos, parece‑me bem, para longe da noção da população seleccionada para «raça protegida». Em perspectiva evolucionista, uma boa porção do canto lírico remonta em história e função à exibição dos hinos e das plumagens com que os passarinhos se oferecem à selecção das fêmeas. A selecção multimilenar dos machos mais belos e melodiosos não teria deixado de produzir, escreve Darwin, efeitos marcantes. Porém, a beleza associada ao canto, e mesmo produzida pelo canto, não é aqui procriadora: ou antes, não é vector de uma função de «prolificness», capaz de garantir a preservação de uma «raça». Que a mulher seja irmã do cantor ajuda o argumento pela dessexualização; e que a mulher seja «bela» — e que participe, portanto, na consolidação de padrões sociais por contágio de imitação (cf. Scarry, 20002) — não parece sofrer dúvidas. Pelo fim-de-século, e em grande parte graças a um afastamento conjunto da sexualidade óbvia e da função procriadora, esta beleza que remonta (ou se faz remontar) ao romantismo (e talvez às pagelas do pré-rafaelismo) vai-se tornando mais e mais padrão entre os produtores de textos que sofrem do «atavismo» do canto: À procura da libra e do shilling, Eu andava abstracto e sem que visse Que o teu alvor romântico de miss Te obrigava a morrer antes de mim. (88, meu negrito) Por derivação longínqua mas firme a beleza da irmã representa ainda a sexualidade procriadora, e logo protegida pelos machos da família, que aí exercem uma função social delegada; somente, não são protectores já de um corpo que procria — em vez, teriam sentimentos e arte literária. Como diferenciação, digamos, do redondo em esguio — «a fina curva, a indefinida linha» (87) —, a beleza da irmã está pronta a transformar‑se no emblema da decadência (ainda não desejada, vd. a «geração exangue de ricos», sem «riqueza química no sangue») que irão reivindicar certas classes de indivíduos como um signo de superioridade; ao mesmo tempo, este apuro ajudará, com outros, à viabilização social da noção de que as populações preservadas por selecção natural não são superiores mas caracteristicamente medianas. Durante algum tempo, a arte ligará mesmo o seu destino a indivíduos inviáveis, marcados pela decadência ou até pela «devolução», os quais se chamarão artistas e génios, quando não «criminosos». E a substituição do darwinismo pelo lamarckismo e afins acabará por substanciar mais capazmente a assumpção de comportamentos e práticas que se querem socialmente contra-intuitivos. A clorose parece, e já muito antes, imaginar‑se como a produção de uma alma no corpo: Era essa tísica em terceiro grau, Que nos enchia a todos de cuidado, Te curvava e te dava um ar alado Como quem vai voar de um mundo mau. (99, itálico meu) Sendo a tuberculose considerada uma doença da aceleração fisiológica, dir-se-ia que a alma, conquanto apuramento, é a «população» cujo destino se acha ligado ao rápido, feroz e completo esgotamento dos recursos do «meio» — ou seja, do corpo: E foi num ano pródigo, excelente, Cuja amargura nada sei que adoce, Que nós perdemos essa flor precoce, Que cresceu e morreu rapidamente! (85, meu itálico) No caso da irmã de Cesário, ao transitar pelo sentimento do desvelo sem objectivos «reais», a beleza («nota galante e melindrosa» de rosa «ténue») passa também, sem dúvida, a signo da fraqueza não protegida da maldade quando se nasce «neste caos» (86); mas a autorização do sentimento, e mesmo do sentimentalismo, com deprecação da «filosofia» («caos» e «mundo mau») leva o apuramento pela tísica (como de um híbrido que não conta para desígnios procriativos) a entrar pelos sentidos de uma certa distinção já atrás anunciada. O apuro filosoficamente aceite e humanamente rejeitado (100) — e é curioso que ele deveras implique as bodas («Se a morte nos procura em nossos leitos!») — surge como diferenciação de uma população mediana. Esta individuação que será emblemática do «artista» é tal que a irmã se não esconde ou do meio ou no meio. A cabeça, que o pescoço esguio ergue acima do comum, vale metafórica e metonimicamente pelo caule que atrai a atenção da Foice: Ó flor cortada, susceptível, alta, Que assim secaste prematuramente! (101) — figuração já prenunciada atrás: «E, surgindo da gola e da gravata, / Teu pescoço era o caule duma flor!» (87). Note-se que a bondade é inferida da fraqueza; tudo se passa quase como se a irmã tivesse a possibilidade (ao caso, rejeitada) de optar por ser carnívora — ou por ser uma camponesa com pano no rosto. Finalmente, a rejeição da selecção natural enquanto sobrevivência dos «fittest» (dos «ou fortes ou velhacos») e do seu eugenismo benemerente desemboca num instante de desconcerto temporal, que apetece dizer metaléptico. A história da vida, e inegavelmente quando a vida somos «nós», perspectiva‑se por uma direccionalidade inversa e figura-se numa espécie de «complexo de Cronos»; é por ela que se dá apoio à noção de decadência (avaliada decerto como contingência e injustiça) e se nega, contra Spenser, o fundamento físico-biológico do progresso indefinido: Não desejemos, — nós, os sem defeitos —, Que os tísicos pereçam! Má teoria, Se pelos meus o apuro principia, Se a Morte nos procura em nossos leitos! (…) E que fazer se a geração decai! Se a seiva genealógica se gasta! Tudo empobrece! Extingue‑se uma casta! Morre o filho primeiro do que o pai! (100, 101) Aparentemente menos integrado do que será em outros escritores e publicistas, este darwinismo genérico (onde convergem o viajante do Beagle, Haeckel, Spenser — e Comte com este) assumiu em Portugal, e normalmente em indivíduos de intenção reformista (Antero, Martins e Teófilo…), uma presença determinante e não desacertada pelo relógio europeu. (cf. Pereira, 2001) Em «Nós», assume‑se como um espaço conceptual (pois também se pensa em verso) onde um materialismo que fundamenta o progresso indefinido em termos evolucionistas e perfectibilistas se confronta com as crenças que teria tornado obsoletas — tão obsoletas, digamos, como a monarquia ou o culto dos mortos que ainda se tem. (cf. Saraiva & Lopes, 2001) O confronto põe em causa o «materialismo» que se aceitou, mas como quem diga que a contra-espaço e a contra-tempo. Com tais expressões, não me refiro apenas a coisas simplesmente «anacrónicas» e marcadas pelo «atavismo», mas também a posições mais «prospectivas» (e ainda pouco explícitas), que desviam tais concepções do estado de doxa social a que aspiram, e. g., «o alvor romântico de miss», a emergência valorizada a contrario de indivíduos de excepção nas populações rotineiramente criadas pelo apuro selectivo, etc. Como seja, é no âmbito do social-darwinismo (grosso modo transformação do struggle-for-life em «procura da libra e do shilling») que se abre naquele espaço conceptual a fissura mais evidente. Deixando o que foi dito com alguma demora, passo aqui a outro aspecto muito perfunctoriamente referido. A «natureza» que fora forçada a vincular-se à urbe (mais do que a separar-se dela) através de umas bodas fantásticas, que o homem não restringe e ainda alimenta (e a aproveitar da continuidade do movimento e da indestrutibilidade da matéria), transformar-se-á em «campo» e o «campo» será «Portugal». Se bem que, como veremos, não se perca de vista alguma adunação possível, sofrerão uma «dissociação semiótica» acentuada a nação lusa e a Grã-Bretanha, o campo e a cidade, o orgânico e o artificial, quando o spenserismo mandaria que os segundos termos das polarizações fossem entendidos como o apogeu e a justificação evolutivas dos primeiros. Neste ponto, os fabulosos partos das primeiras bodas (das vegetações) parecem sacudir de si toda a carga de inferioridade que é bem a que lhe destina a divisão internacional do trabalho… e também do «fisiológico». As laranjas lusitanas e todavia «equatoriais» não somente ultrapassam a limitação natural-malthusiana dos alimentos, como rompem as restrições de prudência diante das bodas — e os marinheiros ingleses regridem à animalidade carnívora pela «bestial sofreguidão». São comidas como carne por carnívoros: Jack, marujo inglês, tu tens razão Quando, ancorado em portos como os nossos, As laranjas com cascos e caroços Comes com bestial sofreguidão!… (91) Todavia, comparticipação metaléptica típica — e inegavelmente assistida pela comparticipação no «lucro» —, os vegetais portugueses levam consigo reivindicações da bondade, da clemência e da fraqueza à existência. Não parece aqui impertinente lembrar, da irmã, a beleza pouco implantada no território dominado por carnívoros predadores; ela é uma extensão do indivíduo vegetariano, sem descaro afirmativo e sem dotes de agressividade, características ou carências explicitamente cruzadas com «bondades»: «(…) Do teu porte / A fina curva, a indefinida linha, /Com bondades de herbívora mansinha, / Eram prenúncios de fraqueza e morte!» (87). As vegetações que a aceitação do «darwinismo» colocaria (e coloca) na posição de um obséquio de ser devido a «carnívoros», fundo da pirâmide evolutiva que fora também predatória, passam a epítome valorizado das fraquezas e das bondades, e inegavelmente à condição da cultura que assenta rotineiramente na noção de complementos de gosto e de graça (surpresas, primores, etc). A seu cargo tomam a «riqueza expressiva», qual seria típica dos versos. Darão entrada na composição dos pratos dos comedores de carne, e Portugal com elas. Assim: Pois o que a boca trava com surpresas Senão as frutas tónicas e puras! Ah! Num jantar de carnes e gorduras A graça vegetal das sobremesas! (91) Trata-se de uma conformação especial (especializada) à inevitabilidade da luta pela existência: tal como as vegetações conquistariam o seu nicho nos pratos de carnes e gorduras, bondades e fraquezas, versos e cultura supõem-se integrados nas paisagens de aptidão dos fortes (e dos velhacos?). Por assim dizer, coadaptados. De resto, o argumento parece ir mais fundo, quando não estão em foco laranjas mas maçãs. Se podemos empanturrar os que foram mais longe na struggle-for-life com vegetais (caso da laranja), a maçã, como do conhecimento e do Éden, parece mais própria para se dirigir à actividade mental (não tenho a certeza, mas quero crer que algum hermeneuta haja descoberto já este argumento). O obséquio a Spenser é também uma vingança dirigida contra Spenser (diga-se que ao jeito das vindictas dos fracos, que usam ser simbólicas). O spenserismo, índice de domínio, poderia, por assim dizer, ter saído da maçã portuguesa — tal como o pensamento de Newton fora estimulado (novemdiale «perfeita») pela queda intempestiva de um fruto da mesma espécie, conquanto não lusitano: Ah! Que de glória e de colorido, Quando por meu mandado e meu conselho, Cá se empapelam «as maçãs de espelho» Que Herbert Spencer talvez tenha comido! (91) Cabe aqui um breve instante de reflexão hermenêutica. Pelo espaço metaléptico que pouco mais é do que complacência semântica toda pronta e solicitada por muitos tópicos e por outros tropos passaram não apenas reversões e polarizações completas, mas também acentuadas lateralizações de sentido; dir-se-á que a metalepse seja um território que dá acolhimento a variações, a ramificações, e ainda a opções «orgânicas» não apenas diversas por serem antitéticas; todavia, para que a aceitação da diferenciação fosse «selecção natural» optimizadora seria necessário que houvesse em todas estas formações «raças desfavorecidas», e sobretudo eliminadas. Nada disso me parece que acontece. Acrescentam‑se os sentidos, cruzam-se e divergem, retomam-se noutro ponto e ao invés. Por outro lado, as divergências e as contrariedades não me surgem compatibilizadas à outrance por alguma aporia que as enlace e que respondesse por uma necessidade ou mental, ou textual ou linguística. O que vejo, e pode ser dos meus olhos, são espécimes deslocados, sem eixo de simetria ou de divergência. Ficamos mais com a riqueza expressiva do álibi do que com o rigor e a exactidão do argumento. Mas não ficamos sem argumento — e, entre muitas outras coisas, as literaturas são também uma forma de pensamento, para o que porventura mais convém que sejam originais os «alexandrinos» do que exactos. voltar ao topo «La vegetale
nostalgia di un albero ô ô ô ô»
(Pino Minafra Ensemble, «Quando Dormi») Estes momentos de «Nós» parecem corresponder à compreensão, não necessariamente assimilada, de que a organização capitalista dos homens e das coisas não é um instante no curso da evolução para que as sociedades tendem todas com a «vida» (ainda as que não adergam cumprir tal desiderato), mas um forma particular na «história da vida», específica de alguns países do Ocidente, que depois se difundirá pelo planeta de uma forma globalmente articulada em relações de domínio. Inútil, porventura, ressalvar que essas relações não se consubstanciam todas em imposição pura e simples. O spenserismo, por exemplo, não é absorvido por «Nós» sem estas transformações figuráveis num labirinto enlouquecido. A compreensão de Cesário é tributária do que aceito que seja uma incompreensão ramificada: os vegetais que chegam ao prato como se supõe que cheguem versos e cultura à «história da vida», e levando no seu rasto protector «bondades» e «fraquezas», não chegariam de todo, se não fossem participação no «lucro». Exemplo razoável da alienação comandada pela busca do xelim, Cesário não há‑de ser diferente, como produtor, de qualquer outro capitalista. Basta ler todos os instantes em que o autor se preza de sensatez e sentido utilitário, mostrando no seu torrão o que também ocultará: «nada se vê que a nossa mão não regre» (85; e deve também sobretudo apreciar-se a série impressionante que se inicia em «Mas hoje a rústica lavoura», com a sua enumeração das «ásperas verdades» do trabalho e da luta pela vida; 96-99). A crer nessas reivindicações, Cesário é «um homem prático, que nem sempre tem em conta o que diz fora do negócio, mas sabe sempre o que faz no negócio.» (Marx, 1990, I: 222) Os vegetais com quanto representam não são impolutamente o «vivo e [o] real», que seria rítmico, e que o «maquinal», estático e «falso», «fabricado» — ou seja, abstracto —, teria colocado sob véu. Tanto o «real» da riqueza material como o da vida pré‑capital, escondidos ambos pela perfeição do «círculo» e do «quadrado», são passavelmente «abstractos»: integram as andanças do «lucro» (90). A crítica de Cesário, encomiástica do «ritmo», ou seja de alguma irregularidade que se supõe humana, é «gótica», descrê da «divisão do trabalho» — que, aliás, lhe concede não ser espécie rejeitada na struggle-for-life —, e cita por Ruskin, embora não infira do aço e da seda — «as lâminas e o estofo» — sinais de escravidão para si. E eis que agora os vegetais levam consigo a «obrigação» imposta aos «ricos» da compra de forma empírica e inexacta, rítmica, imperfeita, não platónica e não maquinal: (cf. Ruskin, 1866: 60; 1983: 55 ss) Bem sei que preparais correctamente O aço e a seda, as lâminas e o estofo; Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo, Tudo o que há de mais resistente! Mas isso tudo é falso, é maquinal, Sem vida, como um círculo ou um quadrado, Com essa perfeição do fabricado, Sem o ritmo do vivo e do real! (90) «Nós» adopta a transferência da crítica «aristocrática» ao capitalismo para os termos de uma guerra estética entre os moldes e os polidos saídos da fábrica e os nacos de empiria que brotariam directamente do trabalhador e da terra. Tal guerra não se trava sem suplementos morais. As coisas «rítmicas» — seja os produtos em forma de «coisas» — defenderiam o homem; não assim o perfeito fabricado, que seria próprio de «ricos suicidas» (89, sublinho). Por outro lado, as «coisas», desse modo colocadas na «história da vida» enquanto que os anglo-saxónios a si mesmos se retirariam dela, seriam «mais estéticas», posto imperfeitas: factores de integração, como se diz social, não excluiriam ninguém nem do «lucro», nem do «prato». Esta educação para o alargamento da «população», colocada sob os poderes do «santo sol» para poder ser «isto tudo», pode mesmo esquecer o trabalho, readquirindo assim a rotina simbólica que equaciona o ócio na natureza ou no Éden com a felicidade. O sol é o pai das bodas, que não passam sem a economia política do belo: E cá o santo Sol, sobre isto tudo, Faz conceber as verdes ribanceiras; Lança as rosáceas belas e fruteiras Nas searas de trigo palhagudo! (90) A natureza enquanto terra ao sol é colocada em posição análoga (apenas e tão-só) ao do alargado instante geoestacionário que vimos ocorrer pelo fim da Origem das Espécies. Imagina‑se o suporte neutro-feminino de todas as diferenciações — suporte fértil, tal que as ribanceiras, as searas e sobretudo as rosáceas fruteiras brotem por imaculada conceição. A terra não se afigura que seja «o meio universal de trabalho»; as plantas são meramente produtos da natureza — nem sequer produtos do labor do ano precedente ou da faina continuada de gerações anteriores. Daí as «ribanceiras» apropriada e porventura propositadamente «verdes»: epítomes da orografia acidentada e exposta aos elementos, não parecem valer por locii standi, nem por campo de acção do trabalhador. Não suportam facilmente formas de trabalho mediadas pelo trabalho: canais, arruamentos, edifícios… O que produzam brotaria das núpcias da terra e do sol. (adapto exemplos de Marx, id.: 209‑10) Na medida em que esta «lógica» ultrapasse Cesário — e, na verdade, não se vê como a possa rejeitar em consequência —, a terra em bodas, esquecida de todo o trabalho passado, o objectivado e o morto, e com ela a figuração que suporta as bodas da «história da vida», escorrega para representação em antonomásia desse ímpeto teratológico que se chama capital: pela via da transformação do trabalho morto, surge esse «valor que se valoriza a si mesmo, um monstro animado que começa a “trabalhar” como se tivesse o amor no corpo.» (id.: 224) Mas, mais uma vez, nem as reversões cancelam o revertido. Assim, o dédalo em que se transformou a «história da vida» preserva quanto chegue a definição da mesma «vida» pelo modelo «epigenético-natural». Daí que essa forma de capital constante que são os instrumentos de trabalho, a partir do momento em que estes se afiguram moribundos por incapazes de produzir «círculos» e «quadrados», alcance ser também «rítmica»: em contexto de suicídio dos ricos, e em mais um conjunto de prosopopeias bem marcadas, os instrumentais seriam a «vida» e seriam o «humano». Fabulosa união do preterido com o pretérito (potenciada talvez por uma retirada da circulação), permitiriam recuperar na evocação de experiências passadas — num tempo subjectivo — uma temporalidade desatrelada do avançar compulsivo característico do «monstro animado», que sustenta a visão dos Spenser com a suposição de uma coincidência feliz entre produtivismo e evolucionismo. Analogamente (posto as relações não sejam necessariamente identidades), a vegetação tende a ser a forma privilegiada da vitalidade — «tudo» na «história da vida» se comportaria como vegetal, e «tudo» na «história da terra» se acharia orientado para a vegetação. Tais conexões não são destrinçáveis da dissociação intrínseca mas não absolutamente evidente entre mercadoria e coisa, e entre valor e preço. Quando «empapeladas», maçãs não são maçãs mas mercadorias; quando «de espelho», são maçãs com polpa e muito corporalmente ponderáveis. A existência, em capitalismo mais ou menos óbvia, de coisas apreçadas mas sem valor nenhum permite que Cesário venha a retirar valor ao que tem muito preço, assim volvendo a «círculos» e «quadrados» «o mais dúctil» e «o mais fofo», «o mais rijo» e «o mais resistente» (90). Se há uma crítica em «Nós» à objectivação do trabalho abstracto como valor, a ela não escaparão os versos que não fossem, como os seus, de «fibra suculenta» (91). Este tecido de «análogos censitários» em torno dos vegetais, das bodas, do local, da população, etc. arregimenta, portanto, ainda os meios da instrumentação preterida (ou, como se disse, pretérita) — O meu ânimo verga na abstracção, Com a espinha dorsal dobrada ao meio; Mas se de materiais descubro um veio Ganho a musculatura dum Sansão!» (94) —, porém na condição de que o «trabalho técnico, violento» — ou seja, não qualificado e em rigor não-técnico — reverta à condição de trabalho negativo: (i) subsumpção do autor na população, de que não destaca (ser «como os mais»), com o abandono do «talento» e porventura dos «versos», (ii) corte com o produto, de resto omitido, e (iii) orientação do esforço, ao que parece, apenas para a produção do bem-estar corporal por elevação da taxa de endomorfinas (95). Uma boda peculiar. As bodas (e agora a minha leitura deve reivindicar a pertinência da plétora e da abundância) devem, por um lado, fixar nos vegetais a história direccionada da «vida», como se desse modo fosse estabelecido um contraste probatório com esse capital que, em paródia filosófica, se assume como a única forma epigenético-evolutiva real — com a ressalva de que esse valor vestido da indestrutibilidade da matéria e da continuidade do movimento em rigor não tem prevista uma forma final fixa; e por outro lado, devem marcar pela satisfação do «gosto» com «graças» um fracasso da dominação exercida por essa evolução optimizada de onde saiu a city — particularmente, devem deixar claro que ao capital, como forma de valor abstracto e geral, não pode reconhecer-se a capacidade de tudo avaliar quantitativamente, ou, como quem diga, de reduzir ao seu ethos todas as formas de riqueza pessoal e social. Pode supor-se que seja argumento (ou antes: riqueza expressiva) tão pobre como de pobres. Mas haverá que reconhecer alguma energeia probatória à figuração dos capitalistas (em rigor, representados pelos seus pobres) a legitimar superlativamente o fruto com o apetite e a devorar laranjas com cascas e caroços. Mas porquê os vegetais, perguntar-se-á, e porquê nestas figurações tão metalépticas? Não se pode esquecer, obviamente, a participação possível no «lucro». Mas apesar de ser uma actividade muito específica, e de resto assediada por toda a casta de populações predadoras, de modo que se acha bem inserida na struggle-for-life — «a nós tudo nos rouba e nos dizima» (97) —, a lavoura passa a natureza peculiar, centrada na vegetação sempre mais persuasiva da condição desejada de produto directo da terra. E não só: em «Nós» a flora parece ainda uma objectivação externa, com engrandecimento e transfiguração, das «paisagens» embrionárias, aliás com alguma confusão do onto e do filogenético, e assistida pela subsumpção do animal pelo vegetal, ao jeito da «fauna» com «pólipos» (84). Passa por aqui obviamente um fundo mítico, subjacente, por exemplo, à tópica, grega já e logo clássica, dos tempos em que a terra dava homens. Mas esta lembrança seria apenas literatura e versos, o seu tanto impertinentes quando agora os metros acompanham nolens volens os ímpetos do «lucro». A passagem pela primeira história de Narnia pode ajudar ao argumento. Recorramos à riqueza expressiva desse álibi e assistamos à criação do planeta: Em todas as
direcções, a terra ondulava formando bossas. Estas eram
de tamanhos muito diferentes, algumas apenas montículos de
terra, outras tão grandes como carrinhos de mão, virados
ao contrário, duas do tamanho de choupanas. As corcovas
moviam‑se e inchavam até rebentarem, a terra esboroada saltava
delas e de cada bossa brotava um animal. (Lewis, 1994: 107)
A representação destes animais que nascem da terra ordena-se em torno dos paradigmas africanos: panteras, leopardos, leões, elefantes… Para o tio Andrew, que traz o «lucro» a este ambiente, é um composto África-América. Assim, invocará a contratação de um «sujeito activo», nitidamente o explorador colonial por isso que seria «um desses caçadores de caça grossa»; (id.: 103) e, diante do candeeiro que nasce de um bocado de ferro inadvertidamente enterrado no chão, dirá: Descobri um mundo onde
tudo brota do solo e cresce. E agora venham falar-me do
Cristóvão Colombo! Que era a América comparada com
isto? As possibilidades comerciais deste país são
ilimitadas. Trazem-se umas peças de sucata para aqui,
enterram-se e aparecem carruagens de caminho-de-ferro, barcos de
guerra, o que se quiser, tudo novinho em folha. Não se gasta
nada e vendem-se por bom preço em Inglaterra. Vou ficar
milionário. E depois o clima! Já me sinto anos mais novo.
(id.: 105)
Assinale‑se (i) o modelo vegetal dos nascimentos, e, claro, os nascimentos como modelo geral de produção, o que implica a multiplicação de matrizes a céu aberto; (ii) a associação da plétora produtiva à aurora dos tempos, com o confronto mais ou menos explícito entre dois novos — aquele que é renovo natural, e o que se segue da compulsão do capital para o movimento (este aspira mesmo a ocupar a terra onde se renova tudo); (iii) finalmente, e como garantia de «lucro», a transformação pela terra em artefactos tecnológicos perfeitos de toda a espécie de sucata (não por acaso, tais artefactos são imagens do domínio do capital domo sua e por todo o planeta). A actualização do mito da geração espontânea socorre-se dos exempla imperialistas tão disponíveis e pervasivos em Inglaterra como em Portugal, mas neste por dois motivos: por ser nação europeia com colónias e por viver numa dependência algo «colonial» da primeira e da sua city. Com efeito, também «Nós» repete a convergência da África com as paisagens dos primeiros tempos, (cf. Pratt, 20007) e logo na primeira descrição da propriedade dos Verde como «torrão espontâneo», onde «Pela natural maturação dos pomos, / Com a carga, no chão pousam os ramos» (84). A antropomorfização e a animalização da flora remetem para o gigantismo que é um passo mais na aplicação à capacidade produtiva da retórica da amplificatio; a desmesura é referida às formas fabulosas dos primórdios pré-históricos supostamente desconcertantes da distinção vegetal/animal; e a África ocorre nestas caracterizações mais que uma vez: «escadarias de gigantes», «raízes verticais», «cabeças estupendas, grossas», «duma fauna surpreendente, / Os pólipos enormes, diluviais», «os renques africanos das piteiras, / Que como aloés espigam altos paus», «Tudo se atrai, se impõe, alarga e entufa, / Duma vitalidade equatorial.» (83, 84). Como se sabe, é suposto que tudo isto se descortinasse ainda em África (mormente, quando lá se não via gente que a habitasse). Como pode ser que «Nós» reivindique uma representação de desfavor, e venha a subsumir a horta portuguesa num território que, por ser diluvial ou pré-histórico, não é menos africano? Em primeiro lugar, dependendo da referida comparticipação no «lucro», esta outra metalepse afirma os direitos dos «fracos» à existência, rodeados do que são: «espécies botânicas diversas» que os fariam fortes (85); em segundo lugar, a África portuguesa resulta de uma espécie de movimento de colonização interna: é uma África sem africanos. Em último lugar, este reaver da pré-história através do imaginário colonial lida em maneira de patafísica com um problema que também surge na apreciação de Narnia pelo tio Andrew. Ponhamos o problema, que grosso modo consiste na transformação capitalista da produção em produtividade. Escreve Marx: A força produtiva
do trabalho é determinada por múltiplas
circunstâncias, entre as quais o grau médio de habilidade
dos operários, o estado de desenvolvimento da ciência e da
sua aplicabilidade tecnológica, a combinação
[Kombination] social do processo de produção, a
extensão e a eficácia dos meios de produção
e as condições naturais. (Marx, id.: 51)
A abundância diluvial e africana acautela a imagem do «torrão espontâneo», onde a riqueza é produto natural e partos que se seguem às bodas do sol e da terra; o argumento pré-histórico e africanista de «Nós» consiste na afirmação de uma produtividade que se bastaria das «condições naturais», quando aquela é constantemente realinhada a zero tão logo sejam geralmente adoptados os padrões mais capazes e desassimilados os ineptos e os vencidos. Com terra diluvial e africana, escusados seriam o acréscimo do grau médio de habilidade dos trabalhadores, a inovação tecnológica, as rearticulações sociais do processo de produção, etc. Com terra narniana, todo o passado morto e toda a sucata regressariam a capital. Por uma diferença de género entre os versos de Cesário e de outros e a literatura infantil de Lewis e de outros, «Nós» não vai tão longe. Basta-lhe que a instrumentação pretérita (e o que ela representa) não seja e/afectivamente preterida — que o valor perdido garanta uma riqueza. Depois, o que, como «passado morto», já não é capital, passa a humano: anima «as várzeas da retentiva» com «estremeções». Agora o humano é vegetação; e, suporte de vegetais, a memória é onde os instrumentos que denotam já qualidade de «coisa» deitaram suas «raízes»: A impressão doutros tempos, sempre viva, Dá estremeções no meu passado morto, E inda viajo, muita vez, absorto, Pelas várzeas da minha retentiva. (…) Com folhas de saudades um objecto Deita raízes duras de arrancar! (87, 94) Tudo isto resgata a ignorância e o trabalho desqualificado, e até às caixas, a que basta serem «feias e fortes»: E não eram caixitas bem dispostas Como as passas de Málaga e Alicante; Com sua forma estável, ignorante, Estas pesavam, brutalmente, às costas!» (93) Ainda outra vez, no contexto deste poema imenso nada há que se pareça com uma síntese superior, nem sequer a perpetuação de minutos (92) que se faz relacionada com estes «estremeções». Sem desvio excessivo às letras do texto, dir-se-á que a «opulenta fúria» viabilizaria económica e politicamente a estabilidade das «formas», por transposição «ignorante». Sem que realmente o saiba, conquanto o saiba, «Nós» mostra uma «população» que se quer achar viabilizada no território de outra «população» a título de «colónia» sua; que se faz natureza para ocultar e mostrar o imenso e infernal trabalho com que se produzem as frutas e primícias exportadas — como essa comparticipação no «lucro» se baseia na «cava», na «enxofra» e na contenção das «jornas», que se cuidam «caras» (98). A estabilidade ignorante da forma, que enfim é os instrumentos evocadores — podoas, enxós de martelo, navalhas de volta… —, arrisca‑se constantemente a ser «passado morto» e a deixar de integrar os fluxos do capital, impossibilitando no mesmo movimento o «exagero [d]os casos diminutos / Dentro dum véu de lágrimas bendito» (92). Veja-se «os vinhateiros de Almeria» que «competem contra os nossos fazendeiros»: Dão frutas aos leilões dos estrangeiros, Por um cotação que nos desvia! (97) E não se poderia talvez perceber a evocação, passada a pintura de «quadros por letras, por sinais» (92), como uma manifestação, temporã embora, da épica estática do Modernismo, a considerar como «reflexo» de relações burguesas igualmente estáticas ou porque se protegem da dinâmica histórica, ou porque arredadas dela (Lukács)? Todavia, na mesma «pintura» assoma não apenas a consequência suspeitavelmente abonatória de que a «vida» teria passado para o lado dos «fracos» — análoga à de que toda a forma rítmica haveria brotado do «pobre estrume» (93) —, mas também a noção poeticamente experimentada de que a riqueza não coincide necessariamente com o valor determinado como capital. «Nós» deixa que o produto especifique o valor, movimento que implica alguns «estremeções» até no «passado morto» — ou que não encontra sem ressalva onde aplicar-se, a não ser nesse «passado morto», situado (porque para chegar a censo há-de ter um «local») nas «várzeas» da «retentiva». Não esquecendo os humanos que alimentaram os vegetais no início de «Nós», o «passado morto» nunca longe do «estrume» parece encontrar aqui um modo de vir a ser «bodas». «As telas da memória», que todo o bom hermeneuta de Cesário tem presente serem «retocadas» (86), e que surgem em estado de análogos censitários no resumo «Horas, vozes, locais, fisionomias, / As ferramentas, os trabalhadores» (92), integram espectacularmente uma série de objectos de que se pode ajuizar terem sido forjados «no casebre de uma aldeia», como as «navalhas de volta». Tais objectos passados a coisas haveriam adquirido aos olhos do autor «um certo espírito secreto». Lembro as mesmas navalhas, alheias já à predação, as podoas, as enxós de martelo, os pregos, o fole, o braseiro, o malho, a bigorna, mas também a serra, a madeira cortada, os arcos de castanho e as caixas «feias e fortes», que podem passar pelo paradigma do que produzem todas as outras, a título de «forma estável, ignorante» (94, 92-3). A estabilidade ignorante da forma significa necessidade. Neste ponto, não está em pauta a indestrutibilidade da matéria, mas justamente a de uma forma que tanto é conformada a posteriori a uma origem natural (graças à passagem pelas «várzeas da retentiva» onde deita «raízes duras de arrancar»), como se apresenta em figura natural: as caixas pouco mais são do que a forma ‘recipiente’ que a natureza produz a pontapés, e os instrumentos mais não seriam do que meios de produção («serviam») dessa e de outras formas que tais, uma vez que — aí está — seriam probos, úteis, dignos e bons (94). Quando não fossem assim justificados, poderia considerar-se que chegaram a forma prototípica após uma passagem, como as «raças protegidas», por meios semelhantes ao da selecção natural: sobreviveram aos processos que lhes testaram a adequação a funções relativamente constantes, determinadas por essa outra estabilidade forte que é a da morfologia do ser humano. Este chega a estrume muito mais cedo do que as podoas, que também chegam a estrume, ou pelo menos a sucata — mas não a forma, que, à maneira de um natural inamovível, permanece, e como sendo virtualmente a mesma, para uma multidão sucessiva de subjectividades humanas — de gerações. Desaparece com a morte de cada um o sentimento de si que fora incorporado numa porção de matéria indestrutível; mas dir-se-ia que a forma prototípica pode assimilar alguma coisa das subjectividades desaparecidas. Por outro lado, a instrumentação que prolonga a mão, que se herda e se troca até vir a ser «passado morto», é um adjuvante poderoso na transformação das «populações» em «famílias». A percepção orientada para os instrumentos às avessas do tempo do valor e também do tempo histórico dispõe no «território» um ramo mais — relação antes do que identidade — que valoriza com a estabilidade a ignorância. Quero eu dizer ainda que estatui os lampejos de um tempo bastante indiferente a direccionalidades e teleologias, que é muito afim das rotinas que envolvem a vida humana, que se apodera de inícios, e que pouco ou nada sabe de fins. É inegável que, sendo muito alheia às pedras que do céu caem, não transmite ao ser humano ineducável esse alheamento. Como todas as outras representações censitárias, e as mais das vezes bodas, tão detidamente elaboradas todas, e tão feitas e tão refeitas, não protege da reflexão sobre o túmulo, que ao autor se afigura demasiado frequente, e feita com «desprazer» (101). Integrada nas tentativas de adequação de um saber global a uma situação humana histórico-específica, que acontece ser ao longo de toda ela um enorme trabalho de luto, a fruição do «passado morto» teria desembocado num certo apaziguamento e numa certa estabilidade não tanto pelo que ele mostra, mas pelo que nessa fruição é perlaboramento do nojo. Ora acontece que vinha o autor de «polir isto tranquilamente» (102), quando de novo caem do céu as pedras que o deixam sem bodas. O epílogo do poema aproxima‑se do registo do evento; não pretende encerrar a composição como todo em alguma suficiência sintética. Do que foi asseverado e negado, que é mais a tranquilidade da forma polida a posteriori do que conteúdos assertados, ficará antes a palinódia: De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo Com tanta crueldade e com tantas injustiças, Se inda trabalho é como os presos no degredo, Com planos de vingança e ideias insubmissas. E agora, de tal modo a minha vida é dura, Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos, Que sinto só desdém pela literatura, E até desprezo e esqueço os meus amados versos! (103) O epílogo abandona a estrutura, que é censo, e sujeita-se ao evento, que é morte. Mas note-se que isso que passará por desânimo, e como se fosse uma forma de descaso («desdém» e «desprezo»), parece ser o evento possível. Um daqueles que porventura se traduzem pelo escrever sobre o momento, a quente. Não há tempo já para metamorfoses em censo ou em bodas. Num certo sentido, não há de todo tempo. Tanto mais inesperado quanto deixara de ter acontecido para ser retentiva, e a perda estava sendo já pedra polida, o verdadeiro evento é repetido. 1 (s/d3) Obra Completa de Cesário Verde, organizada, prefaciada e anotada por Joel Serrão, Lisboa, Portugália Editora, «Poetas de Hoje», 15. 2 Darwin, Charles (1996)The Origin of Species by Means of Natural Selection or, The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life, Beer, Gillian (ed.), Oxford-New York, Oxford University Press. (19972)The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, Birx, H. James (int.), Amherst, Prometheus Books. Fontanier, Pierre (1977) Les figures du discours, Paris, Flammarion. Greimas, A. J. (1970) Du sens. Essais sémiotiques, Paris, Seuil. 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