Oriente e Consciência

A pesar de uma fortuna inegável, sobretudo quando avaliada pelo número de traduções, A Relíquia pôde passar pelo grande desaire eciano. Integrando o corpus das obras ântumas (como diria Alphonse Allais), e numa posição temporal que a refere de imediato quer ao autor filologicamente responsável, quer ao artista na plena posse dos seus recursos, o singular romance não parecia desculpável. Foi preciso buscar-lhe nomes de normalidade. Um dos mais recentes (relativamente recente, aliás) é o de picaresca. De qualquer modo, até pelo menos João Gaspar Simões, a dominância dos códigos da verosimilhança realista terá dispensado a crítica eciana de entrar em grandes despesas hermenêuticas; e mesmo um Guerra da Cal procede à rápida conversão da obra em realismo (tão rápida, dir-se-ia, como aquele câmbio em moeda portuguesa calculado por Teodorico na bíblica Jerusalém): com efeito, a picaresca salva A Relíquia, descobrindo-lhe por obrigação de género a finalidade realista.
Não estamos dizendo que o afastamento da crítica proveio simplesmente do temor de aceitar a imposição "ao leitor de um código de leitura tão oneroso que, decerto, subentende a ironização do próprio narrador e, plausivelmente, a de todo um idealismo autoral e geracional em bancarrota" (Lopes, 1994: 78). Dizemos também que a crítica dificilmente teria recursos para entrar em gastos que, vislumbrada tão-só a hipótese, teriam de ser sempre sumptuários. Não é essa já a minha obrigação. Vou somente tratar da configuração retrospectiva da obra, várias vezes, e a vários níveis, repetida e especulada. A Relíquia é o romance virado para uma Origem, eminentemente passiva ou sem consciência, mas que conta entre os seus tópicos definitórios a disposição perfectiva — ou a suposta acessibilidade plena a uma Consciência. É somente agora, depois de todas as modificações entretanto ocorridas na paisagem literária, que leituras como a recentíssima de Oscar Lopes (1992) ganham em plausibilidade e em autoridade (Lopes, idem). Aí adquirem relevo sem perderem discrição termos como 'metanarrativa', a ressalva do termo 'anacronicamente' por 'metacronicamente', ou finíssimas observações como o subreptício deslizar da narrativa autodiegética para homodiegética, ou ainda hipótese de identificação da instância autoral com uma formação textual de cariz geracional.

Máquinas de Tempo e Representação
A leitura do crítico alegoriza-se porventura a si própria numa confissão de perplexidade diante do "narcisismo retrospectivo do narrador d' A Relíquia", com que conclui o ensaio:

Pouco depois, a titi manda-o ajoelhar e persignar-se num oratório; Teodorico deslumbra-se, porque "Nosso Senhor Jesus Cristo era todo de ouro e reluzia", imagem que ficará a dominá-lo como um Leitmotiv; mas então surge uma frase narrativa que é, para mini, a mais crucial e perturbante. É esta: "Ergui para Jesus crucificado os meus lindos olhos negros" — que por sinal lembra "o brilho dos [...] olhos muito negros e muito abertos" do pequeno Carlos Eduado da Maia, "cavando o espaço largamente no trapézio" de Santa Olávia, diante do avô embevecido" (id.: 84).

Comentemos esta cena de sedução. Também ela procurará destinatário quer no romance, quer na crítica. É Oscar Lopes o primeiro a descobrir que a narração estaca neste ponto. Talvez seja sensível a uma inversão do sentido da narrativa, que é largamente da ordem do imaginário. Oscar Lopes comenta aliás a progressão da história, que é sem solavancos, refere-a ao ritmo igual do seu decurso, e assimila mesmo o pequeno órfão a uma câmara móvel sem consciência que possa opor resistências ao real (id.: ibid.) O narrador que, por assim dizer, foi encaminhando o personagem para a casa da titi, é subliminarmente percebido como estando atrás do pequeno Teodorico que a sua voz se limita a conduzir; mas, repentinamente, é como se viesse postar-se à frente do seu educando, assim se perdendo este objecto perfeito de uma filologia sem autor.
Trata-se de uma intromissão muito peculiar do narrador maduro que até aí (é esse o sentido da câmara móvel) fora ajustando os seus olhos aos da criança de sete anos. Teodorico adquire a posição, coincidente com a de Nosso Senhor, que lhe permite ver os seus lindos olhos.
Teodorico reinvindica privilégios de autor (Oscar Lopes dirá que estamos perante o instante em que nasce para si próprio). Vê o que Cristo viu ou deveria ter visto. A aproximação a Carlos e Afonso da Maia é pertinente, ou inintencionalmente guiada. Cristo substitui-se a Afonso, e, finalmente, Teodorico substitui-se ao crucificado num reconhecimento que, a ficar por aí, e achada uma filiação conveniente, dispensaria a narrativa. A história que se desenrolará depois — a história de Teodorico — começa a partir deste acabamento que não se basta.
Cristo deveria, pois, ter-se agradado da criança que para ele ergue os olhos lindos. Teodorico inventa os recursos do adoptado — os lindos olhos negros que, por muito que peçam retorno, promovem, afinal, o reconhecimento infantil de Mammon. Este instante idealizado, que, como todo o narcisismo, configura uma conclusão retrospectiva — e aliás encerra deveras o capítulo prologal —, sublinha à sua maneira uma constante de género. Narrado o antecedente, o romance vai verdadeiramente começar. Teodorico nasce. E o que se segue não parece depender menos de uma constante de cariz genológico. Se o romance parte de um desalojamento, se o romance é aprendizagem da realidade, o instante em que a criança ergue os olhos dá o tom para o tema, pela vertente formativa essencialmente romanesco da adopção. Teodorico terá de a si mesmo se adoptar. É o que, de resto, está fazendo já. É certo que, na distância assinalável entre o narrador Teodorico e o personagem Teodorico, o episódio pode ser que signifique a adopção inverosímil do segundo pelo primeiro. Mas, ao mesmo tempo, aqueles lindos olhos negros permanecem até ao fim da narrativa como o capital primitivo (e subsistente) de Teodorico, capaz de forçar a adopção pelo capitalista Crispim — e, ao que muito indica, identicamente por um efeito de narcisismo retrospectivo. Como diz o crítico, trata-se da definitiva associação dos olhos lindos a Mammon.
O sistema óptico do Teodorico infante, a que começou por reduzir-se a actividade da narração, revelou então o seu desdobramento inerente: o olhar camarário do petiz estaca sobre a mancha que lhe captura o olhar (o olho reluzente, a certificar pela Consciência e que a Consciência certificará a partir da Ilusão Universal); e esta, tornando visíveis os olhos que até aí se ocultavam na mera função de ver, torna-se um Teodorico olhado pelo Teodorico outro — afinal, (pel)o Teodorico incoincidente. A óptica transforma-se em consciência, mas apenas na medida em que a consciência não é identidade, não pode reivindicar como seu o tempo decorrido entre os dois Teodoricos que a ambos abarcasse, e é inerentemente excedida. A consciência é meramente a falta de simplicidade de uma óptica. Esta é uma situação oposta à incial, em que, embarcada na correnteza da narração, e por falácia habitual, a consciência se aprestava a tomar-se por uma óptica. O crítico comenta: "Talvez isto assinale o momento em que Teodorico nasceu para si próprio, como narrador e como narrado, perante um Cristo de ouro, uma espécie de Mammon" (Lopes, id.: 85).
Nascer é aqui uma metáfora de consciência. Trata-se, com efeito, de um nascer para si próprio. Todavia, quem ganha consciência? Em que sentido poderia o petiz ganhá-la? Em que sentido a ganharia o Raposão? Significante flutuante, a consciência adquirida parece pairar sobre os dois, não compõe com o recheio do seu interior, não adere aos seus corpos — e, sobretudo, não é a identidade de ambos. Será então que quem adquire consciência é a narrativa, que é ela a tornar-se consciente? A resposta mais justa parece ser que a narrativa ganha consciência, mas não se faz consciente. Esta perturbação indevidamente personificada, a que Oscar Lopes reserva o fim do seu ensaio, já o crítico entretanto a abordara. É esse o assunto maior do texto. Na sua protagonização, que como tal alicia, este episódio é o primeiro grande ponto crítico do romance.
O romance, enquanto (re)construção de um mundo onde, de resto, estaria desde sempre presente o realismo (cf. Queirós, s/d: 9), reserva ao espécime Consciência, como ao espécime Linguagem, a impossibilidade da relação, ou visual ou directa, com esse mundo. Diríamos, de outro modo, que esta passagem não é confinável como um tipo de ambiguidade na forma orgânica que supuséssemos à Relíquia (ocorre-nos obviamente a ironia); o que aqui temos é da ordem da alegoria que abre estranhas perspectivas sobre a temporalidade do binómio linguagem/consciência. Uma e outra dão-nos o (des)conhecimento do mundo, sustentado embora, se o fosse, por um realismo suficientemente disseminado; e aquela temporalidade é ainda textualmente abordada, irreconhecida como texto, inintegrável como forma, desaproveitada como saber. Lendo assim A Relíquia pela cartilha desconstrucionista, recuperaríamos a observação de Lopes quanto aos limites de um realismo imaginado como um sistema imune aos teoremas da incompletude; e recusaríamos o que no seu texto ainda tem a ver com uma consciência (a da Humanidade) que (i) se imagina funcionalidade subsistente, porque ininterruptamente incubada nas consciências humanas ao comprido dos tempos (caso dos olhos primitivos do Raposinho que chegam ao Raposão da narração posterior), e que (ii) se vai finalmente transfundindo em formas progressivamente melhoradas. Por argumentação implícita, A Relíquia seria uma dessas formas, que podendo ser muito más do ponto de vista formal, na perspectiva da necessidade histórica o não seriam de modo nenhum.
Nascimento sim, mas, como todos (mesmo os de invenção retrospectiva), nascimento para o narrador e para o narrado — para o que excede a suposta consciência de ambos, como excederá ainda aquela outra imagem de Cristo que, interpelada e interpelante, se irá animar como proposopeia da Consciência. O Teodorico subitamente amadurecido, narrado e narrador — que Oscar Lopes neste passo crê bem designar como "narrador definitivo" (id.: ibid.) —, sujeito cindido enfim de uma narração incessantemente laminada, teria então, como Teodorico e Eça não sabem, nascido não apenas da História humana mas já de uma incessante morte dela:

Mas, narrador definitivo, o cunhado de Crispim, futuro barão do Mosteiro — esse associará os seus lindos olhos negros a Mammon, que é como quem, em aramaico, a língua de Jesus, precisamente dissesse os seus bens, esses bens que, graças à "razão liberal", já dispensam crucifixos, coroas, ou relíquias garantidas pelo Dr. Topsius, doutor pela Universidade de Bona e membro do Instituto Imperial das Escavações Históricas. Estamos, note-se bem, em 1887, e, como se sabe, a história humana já acabou, 16 anos antes, 1871, em Paris (id.: ibid.).

Todas estas considerações, é preciso dizê-lo, surgem no rasto da assombrosa redução de um género àquilo a que, em terminologia lacaniana, cremos que apropriadamente se chamaria um ponto de estofo. Pelo género, falamos daquela que é uma "generalizada tendência estética queirosiana" (id.: 79), e, pelo ponto, dos meus lindos olhos negros. O género é o da biografia histórica de carácter panegírico, no qual a lindeza dos olhos, sendo em rigor o único traço encomiástico, e acusando a paródia pela irrelevância, opera, não obstante, de forma a tornar simultâneas a falha do discurso e a sua plenitude. Assim, a não coincidência do narrador e do autor com uma consciência (ou a falácia de uma narração autodiegética que é homodiegética); e, ainda assim, a coincidência de Teodorico com Teodorico, que o faz nascer para si mesmo (afinal, e alienadamente, como filho de Mammon).
Analogamente modulada pelo amor próprio ou pelos seus distúrbios (tanto pessoais, como de classe, como genológicos), nos surge deste modo a consabida paródia "de um género clássico, o panegírico biográfico", de que se imita "aparentemente a atitude encomiástica, certas comparações ou metáforas concisamente hiperbólicas, um tom ponderadamente argumentativo, a gravidade de certas cláusulas sentenciosas" (id.: 79). É inegavelmente no prefácio, "mas de interesse claramente epilogal" (id.: 73), que se concentra o panegírico histórico. Aí se declara a intenção de suprimir o pitoresco exterior, que vai até à negação das potencialidades turísticas do Oriente Médio, para melhor evidenciar a lição de uma vida que passou da tutela da Igreja (e da titi) a uma situação de paridade no interior da Burguesia Liberal. Todavia, à suposta "lição lúcida e forte", não se lhe dá de caracterizar-se como "páginas de repouso e de férias, onde a Realidade sempre vive, ora embaraçada e tropeçando nas pesadas roupagens da História, ora mais livre e saltando sob a caraça vistosa da Farsa!" (Queirós, s/d: 5, 9). Esta presença de uma Realidade constante, que não pode responder inteiramente pelo seu decoro próprio, parece antecipar ou corroborar as leituras críticas que apontam para preservação do realismo como finalidade.
Entretanto, achamo-nos perante um caso eminentemente paradoxal em que a ironia estável, tipicamente queirosiana, integra um dispositivo tal que a torna eminentemente instável. Falamos da não fiabilidade peculiar deste narrador homodiegético, que connosco contratou um estatuto autodiegético, que aponta para a autoria do romance por uma formação textual, e que deixa a porta aberta à ironização, para além do narrador, de "todo um idealismo autoral e geracional em bancarrota" (Lopes, id.: 78) — o qual, para o Eça posterior, permanecerá como a soma de toda uma série de impasses não resolvidos. A esse idealismo em bancarrota cumpre ainda adicionar o realismo, enquanto ficção que postula "um mundo de coerência fechada, um pouco à maneira de um sistema formal consistente, completo e decidível" (id.: 74).
Assim, resulta idealizada (e não só pelo narrador) uma Burguesia Liberal que esperaria desagravo do bacharel que se arroga passear na Terra Santa com os ossos dos antepassados que a ela faltam, embrulhados "nas dobras moles de um papel pardo" — e que, pela farsa atentatória do seu amor próprio, lhe pretende dar satisfação, rebaixando os ossos que lhe concedem a legitimidade simbólica de comendador proprietário do Mosteiro (Queirós, id.: 8). O irónico panegírico é aqui o dessa Burguesia, e não tanto o de um Teodorico que reconhece a obrigação de denegrir-se que os seus próprios termos não comportam. Pois não acolhe a dita burguesia com alacridade "o vinho precioso e velho que vai apurar o vinho novo e cru" (id: ibid.)? Por uma estranha retrospecção narcísica, o bacharel, que Tedorico já não é, apaga o comendador proprietário, que Teodorico agora é (e que, com o apoio de Crispim, acabara de apurar o vinho familiar com a compra legítima do Mosteiro).
Esta concordância forçada, atenta à continuidade biográfica que só consegue descontinuar, é intrinsecamente posta em causa, como o é noutro plano a coerência temática do panegírico histórico. De forma evidente é apenas abalada pela reclassificação final, facilmente atribuível a Eça, da biografia como "páginas de repouso e de férias'', mas é questionada pelo estilo, que como Oscar Lopes faz notar, é retintamente autoral. A dicção bacharelada, a figura de Z. Zagallo, a persuação retórica confiada a um pôr ad oculos, e até certo ponto a exclamação, só afloram no panegírico das belezas portuguesas do suave e claro Lima, palco negado ao Jeová ameaçador que os anjos anunciariam:

e todavia, vede!, estas meigas águas portuguesas não correram jamais entre os joelhos de um Messias, nem jamais as roçaram as asas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do Céu à Terra as ameaças do Altíssimo! (Queirós, id.: 7).

Em suma, A Relíquia é notoriamente um conjunto de enunciados em busca de enunciação. A própria indecisão genológica, que abrange o acabamento orgânico do romance como um facto de arte, nos dá conta dessa errância (Oscar Lopes menciona mesmo "o narrador imaginário"). Para o mesmo Eça, o grande sonho bíblico desequilibra o que de outro modo seria uno quando percorrido por um sopro naturalista de ironia forte, proveniente do personagem de D. Raposo. Entretanto, teríamos ficado (propõe-nos Oscar Lopes) com (i) uma consciência que, enquanto personagem, não abarca o que abrange como narrador, e (ii) com uma experiência de pensamento que, transbordando para a obra toda do sonho com que coincide, não pode de forma alguma pensar-se na dependência fenomenológica de uma consciência: o "narrado ou descrito como sendo um sonho (...) excede o seu [de Teodorico] horizonte de consciência possível, quer como personagem quer até como narrador amadurecido e post festum" (Lopes, id.: 82).
É notória aqui, todavia, a fusão simpática, se não hermenêutica, de dois horizontes. Oscar Lopes acha nitidamente aceitável aquela que considera ser uma das opções religiosas d' A Relíquia — "um deísmo progressista de imanência psíquica humana", herdado dos românticos franceses de 50 e 60 (Lopes, id.: 74), que adiante relevará na Consciência plausivelmente capaz daquele experimento mental: "a simples Consciência imanente a uma larga gestação histórica nas consciências humanas" (idem: 76) —, de resto representada pelo Cristo que no final da obra salta do quadro para se dirigir a Teodorico. Ora, quando Lopes recorre à noção de Gedankenexperiment, é para nos dar conta dos objectos de um discurso que na sua configuração excederiam a consciência empírica do autor, e exigiriam um autor que excedesse o emprirismo inultrapassável de qualquer consciência. De facto, o experimento é da ordem do fazer ao qual nenhuma consciência (que nestes transes é meramente o nome do já feito, virtual ou não) pode presidir ou tutelar ab initio; e como não se regressa ao que fora concebido, a experiência mental é produção do que à partida é imprevisível. Neste ponto, deve assinalar-se a autonomia do personagem, que nunca sai inteiramente do registo afadistado, e é mesmo um deliberado produtor de anacronismos. Incapaz do sopro naturalista da ironia forte, não coincidirá com o narrador e não suportará a unidade da obra.
Naquela fórmula de Lopes, em transe de secularização imanente, é-nos apresentada uma consciência colectiva e progressista, capaz de interiorizar o dispositivo do romance representado pela experimentação, i. e., de o englobar, i. e., de o represenlar. O sonho (que, de resto, pelo salto no tempo sublinha uma larga gestação histórica) seria uma representação capaz da Consciência imanente à demorada laboração nas humanas consciências. Parafraseando o próprio crítico, trata-se de um progresso moral que se consuma fazendo-se melhor forma. Neste momento histórico, o sonho como experiência mental é deveras a forma melhor daquele progresso moral — apesar, ou por causa, de todas as tribulações que a forma está padecendo. Por interposto Brecht, assistimos então a uma redenção hermenêutica. O que se dá por consumada é a ilusão realista, que, no seu plano, diagnostica ou antecipa a bancarrota de uma sociedade (ou de uma consciência): aquela dominada pela Burguesia Liberal (id.: 74). Cremos que nos basta a forma e que nos sobra a consciência. O sonho é uma forma que busca ou antecipa nomeações socialmente representativas; e, noutro plano, se Eça dispusesse, como H. G. Wells, da máquina do tempo, muito plausivelmente outro Raposo lhe regougaria.
Ganho ainda do ensaio, que não pode ignorar-se, é a demonstração da contemporaneidade deste romance e de Os Maias. Em ambos assistiríamos à liquidação de dois romantismos: o da errância erótica afadistada e o iconoclasta. Curiosamente, a liquidação do segundo adapta-se bastante bem à paixão da forma, uma vez que, com todas as implicações que tem para a definição do romance, surge sobretudo da incapacidade de Teodorico em assumi-lo (id.: 80). A falência das personagens no grande romance familiar decorre da liquidação objectiva dos dois romantismos que os formaram; n' A Relíquia, a falência da personagem-narrador enquanto forma revela um défice de formação inerente aos dois, e só pode recuperar-se como Origem ou como Causa quando transferida para uma autoria colectiva: a da "contextualidade tecida num grupo de jovens intelectuais, entre as várias traduções de Renan em 1863 e a Restauração bourbónica em Espanha, em 1873, com o epicentro situado algures, entre a crise dinástica espanhola de 1868 e a repressão da comuna parisiense, ao tempo das Conferências Democráticas do Casino" (id.: 80-1).
Aos Maias foi possível situá-los a nível do decorum trágico (id.: 80); a mesma bancarrota, de que tanto se falou já, é transposta n' A Relíquia — dir-se-ia que de forma mais autêntica — para o plano da farsa (id.: ibid.). O mesmo é dizer que o crítico procede ao registo genológico das suas descobertas (e note-se que o vai buscar a Eça). A tragédia era o manto diáfano que n' Os Malas encobria a realidade, atribuindo-lhe por ocultação a unidade orgânica que historicamente já não tinha; n' A Relíquia a farsa informa-nos da perda da forma como decoro: no plano estético, e ao contrário do grande romance eciano, oferece-nos, como arremedo de catarse, uma grande abundância de respostas inócuas (e uma boa porção de Romantismo e Realismo torna-se lixo estético). N' A Relíquia o manto diáfano da tragédia, dispositivo cúmplice da superior realização da forma realista, transforma-se no véu da Maia; e se Lopes tem razão, a forma excelente fica exposta como mentira.
Admiráveis meandros que nos conduzem a um Realismo superior, dotado da carência de forma necessária a que a Burguesia Liberal nele se não reveja, o qual é aqui o Nome da consciência! Na esteira da tradição crítica eciana, e através de uma laboração extraordinária, Lopes foi inventando um ponto de consistência para a Relíquia, atingido pela conversão da consciência em realismo e vice-versa. Para este realismo e para esta consciência, proponho eu uns outros nomes, que suponho menos co-incidentes: Orientalismo e Filologia.
Tal como Oscar Lopes, proponho-me recuperar algum Romantismo. Não propriamente o da Consciência que fez a sua demorada gestação nas consciências humanas, mas o da cena oriental que é um dos seus berços. Nesse berço se repetirá o distúrbio do nascimento de D. Raposo.
De facto, esta reivindicação de uma autoridade para a "técnica", por parte do crítico, acaba por desembocar na difícil identificação de um autor. Lopes foi-nos de algum modo dizendo (e por sintoma) que a burguesia, em 1887, já não está onde supunha estar: em toda a parte, porque em parte nenhuma. Mas, se A Relíquia não pode furtar-se a significar, creio eu que é antes de mais (a prioridade é textual, ou seja, filológica) por uma certa obrigação de realismo local. Assim, o muito renitente narrador pronunciar-se-á todavia; e a sua declaração tem como consequência, não digo intencional, que o romance não terá a última palavra. A perspectiva do protagonista não coincide com a colocação da óptica que regista.
Entre Raposão e Raposinho surge portanto o narrador como um facto negativo. O que nos é assim comunicado é que o protagonista assumiu indevidamente e incapazmente a posição do narrador que falta. Eu diria mesmo que a ausência do narrador (e ausência no sítio certo) nos assinala que a posição do Raposão, que usa o Raposinho como se este fosse a sua óptica, é radicalmente falsa. E diria ainda que este nó narrativo antecipa sobre a moral ou as morais da história. Num contexto histórico-cultural marcado pelo triunfo da filologia sub specie orientalismo, em que o discurso humano é legitimado por essa ciência capaz de discorrer rigorosamente, racionalmente, e com igual proficiência, sobre o mistério da Ressurreição e a maneira de embainhar das raças semitas, o narrador não se limita a assumir uma posição — antes nos confessa que não há uma posição que possa assumir. O mundo desencantado pela filologia (e desencantado como Oriente) é agora meramente o véu de Maia, rasgado por (e note-se o rigor "filológico") heresiarcas sentimentais. A Relíquia, e também O Mandarim, reduzem o realismo à simples nudez. Romances da ausência de um programa para o realismo, lançam sobre este o véu da Ilusão Universal. Mas esta, e vai aqui alguma semelhança entre Eça e Renan — de resto, o primeiro usa abundantemente a Vida de Jesus —, é ainda sentimentalmente adulada como diáfana fantasia. De outro modo e lendo sintomas: o narrador em excesso (ou em falta) não é capaz de ler a sua criatura passada senão pelos lindos olhos, e como se ambos olhassem de frente; o romance considera ter concluído os necessários fundamentos não tanto quando foi descrito o meio & etc, o que é uma forma de orientalismo e filologia (descrição de «infâncias»), mas quando o Raposo passado tem olhos para o Raposo presente — quando um e outro como que fisicamente se encontraram.
Neste contexto, permita-se-me a nostalgia por um passado mais crítico: ao identificar no seu artigo o triunfo da burguesia com o triunfo do Realismo, realidade omnipresente por não ser local, Óscar Lopes dizia-nos como A Relíquia nos dissera quão falaciosas eram essas epifanias; e, de facto, como que deduzia da derrota do Realismo o fim daquela classe (no ensaio, e não muito em surdina, a data de 1887 corresponderia ao retorno farsesco da data de 1871). Ora bem, não posso impedir-me de pensar (ou de Fantasiar, se o quiserem) que a Universal Ilusão veio ocupar o lugar dos Triunfos . Um realismo sem ilusões (e sem consciente capacidade de agir), mas que afinal obedeceria à óptica daquela classe, vem afirmar que as não tem, adoptando o nome que afirma a dominância universal delas. Em qualquer dos casos, supõe-se a existência do lugar Um que compensa da existência necessária de lugares. E que — diga-se —, pela inutilidade de todos os calendários, mesmo os que rezam pelas calendas algo gregas da Consciência, permite ignorar a data fundadora de 1871. De resto, não há como evitar que a transformação de Cristo em Imagem da Consciência seja desde sempre precedida pela transformação da Consciência em Imagem. Já se vê que entre os nomes que atribuo ao romance se encontra uma série (narcísica) que gira entre metanarrativa, metafícção, ou mesmo pós-modernismo. Acrescentemos-lhes outros dois: o de Ficção Científica, à conta da viagem no tempo; e o de Orientalismo, sem dúvida de mais decente filologia.

O romance filológico
Topsius, almirante da metafísica armada, aparece-nos acusado de respeito plebeu pelos títulos. Como estarão lembrados, faz de Teodorico "o ilustre fidalgo lusitano". Entretanto, se tem de atribuir-lhe "o sábio chorume e arrogância teológica" de um Bossuet (Queirós, s/d: 7) — que não menos lisongeia o amor-próprio de ambos —, é de notar que o verniz dos respeitos estala indubitavelmente no confronto entre duas mentes. De um lado está meramente a crença, e do outro a razão crítica (realismo, consciência) nascida como filologia do orientalismo, i. e., como a exacta ciência dos objectos mentais (Renan, apud Said, 1978: 132).
Num sistema de oposições necessariamente curto, é inevitável que Topsius venha a ser o orienlalista e D. Raposo o oriental:

Como, porém, as arengas que me atribui não são inferiores em sábio chorume e arrogância teológica às de Bossuet, eu não denunciei, numa nota [Nota 1] à "Gazeta de Colónia", por que tortuoso artifício a afiada razão da Germânia se enfeita assim de triunfos sobre a romba fé do Meio-Dia (Queirós, id.: 7; sublinhados meus).

Estas relações, de resto, parecem seguir por caminhos menos óbvios. Tal como o oriental, ao fidalgo lusitano não é reconhecida a capacidade de se auto-representar — embora, desta vez como não o oriental, D. Raposo afinal reivindique a capacidade de o fazer. O romance é uma resposta à Jerusalém Passeada e Comentada, título eminentemente filológico, que tem Jerusalém por um texto incapaz de se opor à presença do sábio germânico que o passeia (e o comenta). Concordantemente com esse não reconhecimento, Topsius inibe a capacidade de representação ao seu Teodorico, não menos comentado e passeado, tomando-o pela origem. Com efeito, ao mostrar-no-lo permanentemente agarrado a um embrulho de papel pardo que conteria "os restos dos seus antepassados", o orientalista diz-nos que, como o Oriente, o fidalgo lusitano só tem origem. Arma-se assim Topsius da sua exacta ciência que conhece o objecto pela origem a que o reduz — ou que transforma o objecto inerentemente em conhecimento (em facto), que, não podendo crescer e eventualmente vir a opor uma consciência à consciência que o escrutina, não pode senão deixar-se conhecer (o inaugural encontro de olhares é o disparate alegórico destas assimetrais)[Nota 2]. Por outro lado, não tendo tido diferenciação no tempo que lhe aproveitasse, e não se tendo especializado em consciência, o objecto, coincidente nem com o passado mas com a origem, vem confessar-nos que necessita de um "estudo correctivo" (Said, id.: 32). Não será por acaso que D. Raposo reivindique a correcção, e pretenda discutir tanto do facto como da "maneira de [o] dizer singularmente falaz e censurável" por parte de um Topsius ironicamente representado pelos "penetrantes óculos" (Queirós, id.: 8). D. Raposo recusa considerar-se oriental. E, aliás, para além da afectiva relação de ambos que efectivamente lembra a de D. Quixote com Sancho Pança, existe alguma congenialidade entre Topsius e Raposo. Em graus diferentes, as suas deambulações orientais acham-se amputadas da sombra imperial. Topsius roja-se diante das águias de César, mais uma vez como plebeu; a presença imperial do Albuquerque terrível é docemente alpedrinhada. O Oriente quer do sábio quer do fadista reduz-se, como sabemos, a um sonho filológico.
É inegável que estes ossos companheiros de Raposo podem ver-se como uma alegoria em sentido estrito, plausivelmente eciana, da presença de Portugal no Oriente (não fora que Topsius os inventou com seus óculos penetrantes). A autoridade imperial que assistiria o nosso orientalista singular não iria além da verdadeira invenção de umas ossadas embrulhadas em papel pardo; e não ultrapassaria a realidade do Alpedrinha. A reivindicação de D. Raposo esbarraria na decadente realidade nacional. Entretanto, se as páginas de repouso e férias vieram à luz motivadas pelo dizer falaz e censurável do douto Topsius, não se coíbem elas de classificar-se como um romance filológico, que talvez se estejam propondo (des)classificar a filologia como romance, mas que aqui giram ainda à vista da união aufklärer entre sense e sensibility (que se hão-de reunir em exactas derrogações do tipo heresiarca sentimental):

Por isso intimo o meu douto Topsius (que com os seus penetrantes óculos viu formar os meus embrulhos, já na terra do Egipto, já na terra de Canaã) a que na edição segunda da "Jerusalém Passeada", sacudindo pudicos escrúpulos de Académico e estreitos desdéns de Filósofo, divulgue à Alemanha científica e à Alemanha sentimental qual era o recheio que continham esses papéis pardos — tão francamente como eu o revelo aos meus concidadãos, nestas páginas de repouso e de férias (Queirós, id.: 8-9; sublinhado meu).

No fim d' A Relíquia, surge-nos o romance filológico virtual. Tivesse tido Raposo a coragem de dizer que a camisa de Mary era a de Maria Madalena, e, entre outras, veria satisfeitas as ambições intelectuais que a companhia de Topsius nele teria despertado. E eis que, como a arte, a ciência exacta dos objectos mentais, entricheirada na sua vocação secular, nos aparece como desejosa de assimilar os objectos da fé; e eis também que nesse romance nos surge aquela exacta figura de um Renan "heresiarca sentimental".

Porque talvez a ciência, invejosa do triunfo da fé, reclamasse para si esta camisa de Maria de Magdala, como documento arqueológico... Ela poderia alumiar escuros pontos na história dos costumes contemporâneos do Novo Testamento — o feitio das camisas na Judeia no primeiro século, o estado industrial das rendas da Síria sob a administração romana, a maneira de abainhar entre as raças semíticas... Eu surgiria, na consideração da Europa, igual, aos Champollions, aos Topsius, aos Lepsius, e outros sagazes ressuscitadores do Passado. A Academia logo gritaria: "A mim, o Raposo!". Renan, esse heresiarca sentimental, murmuraria: "Que suave colega, o Raposo!". Sem demora se escreveriam sobre a camisa da Mary sábios, ponderosos livros em alemão, com mapas da minha romagem em Galileia... (id.: 274).

Entre outras coisas que o não são menos, é sobretudo burlesca a adscrição de uma fórmula de filologia oriental — as raças semíticas — à maneira de embainhar camisas de dormir. Entretanto, filologia e romance só são equiparáveis por uma analogia que descuida considerar a desigual relação de ambos com o realismo. O fútil romancear da filologia só o é porque se lhe retirou a autoridade; mas não é certo que a ganhe o romance. Pelo menos, não a ganharia no terreno de um realismo que existia como tal desde sempre, saltitasse ou tropeçasse. A Raposo teria faltado o descarado heroísmo de afirmar, que, por um lado cria indiferentemente ciência e religião, e que, por outro lado, supõe necessariamente a ausência do realismo enquanto ausência absoluta de realidade independente de uma crença (de um modo afirmativo) ou de uma perspectiva (de um modo de ver). Nada mais haveria do que "a universal ilusão". Ora, como, em sentido de descaro heróico, o véu da Maia não é visível nem afirmável, podemos pensar que o está a ser de forma algo análoga ao do encontro dos Raposões com os respectivos olhos negros.
Nestes termos, a autoridade é um evento por essência aleatório. Ora, é porque o realismo existe que não existe o simples heroísmo nem o descaro simples de afirmar. Permanentemente enxovalhado, a nível de protocolos, entre Raposo narrador e Raposo personagem, o realismo surge aqui como limite (histórico) inultrapassável. Na verdade, pertence à mesma época crítica e não heróica a que também pertencem orientalismo e filologia. São congéneres. Mesmo quando o realismo apenas o assombre, a autoridade do romance não decorre da afirmação que se propõe ou impõe como a imagem da autoridade. Como sistema de afirmações, o realismo no romance ou na filologia é um texto como o é o orientalismo: um conjunto discursivo de "factos" de poder, certificado ou não pela Academia, que já não extrai realidade (senão) da ilusão universal. A sua transformação de ficções em certezas, a sua autoridade representada por Renan ou Lepsius, se se torna completamente irrelevante quando contraposta ao heroísmo (Weber talvez dissesse profetismo), não pode deveras contrapor-se-lhe. A primeira tem uma tópica; o segundo é atópico. A autoridade, que inegavelmente se pode ter sobre a camisa de Maria Madalena, é situada. É nessa situação que começa a bancarrota do sistema completo onde o próprio sistema seria proposição decidível. Na forma inintencional da alegoria, o inultrapassável realismo é assumido aqui pela Relíquia irrealista como uma carência de autoridade — mas meramente por isso que assenta sobre um discurso e não sobre a afirmação criacionista proferida sobre o vácuo universal. Neste sentido, A Relíquia é um romance do romance filológico, que nos explica como a exactidão da ciência dos objectos mentais, enquanto orientalismo, pôde atribuir-se, por meios discursivos, a autoridade superior de uma metafísica armada. Autoridade que o romance não conseguiria nunca que lhe reconhecessem, ao reivindicar a vocação realista que dele faria analogamente uma ciência dos objectos mentais.
Podemos agora retomar a não paridade entre romance e filologia. Diríamos então que A Relíquia é o romance enquanto vítima obrigada do realismo.

Sinopse do argumento, ou talvez não
A missão desmistificadora do realismo-naturalismo, não sem errância, permanece em movimento; mas o que lhe assegura a vocação é a narrativa filologicamente corrigida da morte de Jesus, acontecimento nuclear da cultura ocidental.
1. A filologia oriental mostra o fundo ilusório da religião cristã, tornada igual a todas as outras religiões.
2. A religião é filha da ilusão universal.
3. A filologia que a desmistifíca é filha da mesmíssima ilusão.
4. Filologia e religião rivalizam pela posse das consciências.
5. Os pontos anteriores são enunciados do romance, que possuiria as consciências em disputa como ilusão (mantenha-se universal).
A lição forte do romance é, então, a lição que de Topsius se aproveita: a redução do objecto de conhecimento (a nossa realidade ocidental) à sua Origem (ao Oriente). Falo obviamente dessa paixão de Cristo onde (i) o cristianismo começa para o vulgo (e, por lugar-comum realista, na motivação histérica daquela de quem nos sobra a camisa ou virtual ou falsa), e onde (ii) se inicia, para o indivíduo emancipado, aquela Consciência que o Raposão filólogo desvia para o mesmo Cristo. Essa Consciência, que anima uma imagem, é, entretanto, bastante íntima da caraça que se afivelou o realismo. A estranha emancipação de Raposo, e até onde é consistente, tem a ver com a fuga a ser Oriente (ou crença romba do Meio-Dia); na subsequente produção de umas páginas de repouso e de férias (um romance); na tentativa de, por sua vez, amarrar a filologia oriental a uma Origem para tudo definitiva: Maia, a Ilusão Universal.
Crucificado o rival sobre a Cruz desta Origem, o romance segue portanto, e não obstante, a lição filológica; e descobre-se, estilo pior a emenda que o soneto, a legitimidade de ser um estudo correctivo, a um tempo cego e lúcido, porque também ele ali crucificado, da filologia oriental.
Diríamos de outro modo que o romance hipoteca o realismo à Plena Consciência, ou à Consciência Absoluta. Pediu para isso emprestado à filologia oriental. Desemboca em figuras da Consciência, a última das quais — a real, a do realismo — é ser consciente da dominância da inconsciência, i. e., da Universal Ilusão. Não era este porventura o sentido da hipoteca.

(1994)

Queirós, Eça de

(s/d) A Relíquia, Lisboa, Livros do Brasil.

Lopes, Óscar

(1994) «O Narrador d'A Relíquia in A Busca do Sentido. Questões de Literatura Portuguesa, Lisboa, Caminho.

Said, Edward W.

(1978) Orientalism, London, Penguin Books.