Teoria, Didáctica, Sombras Chinesas
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volta de 1863, Júlio Verne escreveu Paris no Século XX, inédito
até 1994. Conta-nos de uma França dominada pelo monopólio, e
de uma Sociedade de Crédito Instrucional, com os estatutos cuidadosamente
redigidos em linguagem financeira. Com o fim de tranquilizar os accionistas,
nenhum sábio ou professor fazia parte do conselho de administração. A
Sociedade coroava uma situação de difusão completa da instrução: ninguém
lia, mas toda a gente sabia ler e até escrever. Não havia filho de artesão
ou de camponês que não aspirasse a um lugar na administração; e, sob todas
as formas, o funcionalismo crescia. A Sociedade teria vindo na sequência
lógica das imobiliárias do século XIX, dos gabinetes de construção civil,
do Crédito Predial. Ora — escreve Verne -, construir ou instruir é
tudo a mesma coisa para os homens de negócios, não sendo a instrução,
por assim dizer, mais do que um género de construção, um pouco menos sólida.
Foi isso mesmo que pensou, em 1937, o barão de Vercampin, muito conhecido
pelas suas vastas iniciativas financeiras, porque teve então a ideia de
fundar um imenso colégio em que a árvore do ensino pudesse conter todos
os seus ramos, deixando aliás ao Estado o cuidado de a tratar, podar e
adubar à sua vontade. (Verne, 1995: 28) Iniciativa coroada de êxito.
As acções da Companhia decuplicaram em vinte e dois anos, e valiam já
10 000 francos cada uma. Como reza um ditado de banqueiro e de político,
os números falam por si. Entretanto, parece ter crescido a quantidade
de línguas mortas, entre as quais o francês, e entre estas o das línguas
inumadas como o grego e o latim. Algumas classes de letras tinham ainda
existência formal. "Eram mal frequentadas, pouco consideráveis e ainda
menos consideradas" (id.: 30). Dicionários, gramáticas, temas,
versões, autores clássicos, apodreciam nas prateleiras da velha editora
Hachette. Em contrapartida, floresciam os resumos de matemáticas, os tratados
de geometria descritiva, mecânica, física, química, astronomia, cursos
de indústria prática, comércio, finanças, artes industriais, que conviriam
à hegemonia do capital financeiro (às "actuais tendências especulativas")
(id.: ibid.).
A acção do romance começa com a cerimónia
de distribuição de 15 000 prémios e 27 000 distinções,
assistida por 250 000 pessoas. O primeiro prémio é o da
alta matemática. O aluno distinguido ganha uma biblioteca de três
mil volumes. A cerimónia prossegue, guiada pela infinita nomenclatura
das ciências que se ensinavam nesse estabelecimento de ensino. Os
aplausos são entrecortados de risadas "sempre que algum pobre-diabo
da secção de letras, orgulhoso por ouvir chamar o seu nome,
recebia um prémio relativo a um tema latino ou uma distinção
por qualquer versão de grego" (id.: 34). A risada
é geral, quando se atribui o primeiro prémio de versos em
latim a um jovem, cuja testa de resto resplandece porque é o herói
do romance. Enquanto avança, ouve comentários assim:
- Prémio de versos em latim!
- Teria sido ele sozinho a compor!
- Reparem neste colega do Pindo!
- Neste habitante do Hélicon!
- Nesta coluna do Parnaso! (id.: 35)
Finalmente, o prémio consiste
num único volume: o Manual do Bom Industrial. (id.:
ibid.) Uma nota. É curioso que Verne não ultrapasse
a literatura (testas resplandecentes pertencem a heróis literários
oitocentistas); como é ainda curioso que nos seus gozadores não
tenha morrido o capital cultural humanístico. Mesmo quando ex-existe,
a literatura é muito persistente!
Braga no século XX
Verne, que tanta coisa terá antecipado, parece ter previsto também
uma mutação bastante grande do capital
cultural. Permito-me esboçar rapidamente um construto
histórico. Em Setecentos, princípios de Oitocentos, não
só a gramática é literatura — diria Jerónimo
Barbosa apelando à etimologia (Barbosa, 18714) —, como é
toda a literatura que uma pessoa bem nascida ou bem criada necessita.
Nos tempos de Garrett — do Garrett das Viagens, mas não
só —, a literatura suporta, pelo menos em imaginação,
uma larga aliança da classe dominante com as massas nacionais,
e o romance de actualidade é ainda simplificação
linguística do capital de cultura e promoção de códigos
de comportamento desafectados, i. e., que lendo passado pelo crivo do
bom tom, do tacto ou do gosto, integram o povo a título de paradigma
do pitoresco (e aqui dificilmente existirá outro melhor). Com o
realismo-naturalismo, temos por um lado a transcrição de
códigos literários em códigos de gosto (o paradigma
tem sem duvida o exemplo mais capaz nos códigos descritivos), e,
por outro lado, um processo que, acompanhando a passagem da literatura
para as instituições académicas como objecto de outros
discursos (latamente críticos), consiste em "identificar e
extrair valores éticos dos textos literários" (Gumbrecht,
1995: 503). Os dois processos contribuem inegavelmente "para a constituição
de novas imagens normativas da sociedade" (idem: 502-3).
Com o modernismo a literatura retira-se, em marchas forçadas, do
espaço público. Esta debandada é muito claramente
assumida por um António Ferro jornalista, que identifica o poeta
ao animal de estimação da madame, e os livros às
bonecas. O gosto pelo paradoxo, e o desprendimento com que estas coisas
finas se sussurram ao ouvido da madame dita, não ultrapassam
em muito a realidade desta fuga da literatura da vida pública para
a alcova (cf. Diogo, 1994). Essa passagem hiperbólica, que transforma
o livro em bibelô, é porventura uma figura de outras coisas.
A burguesia é uma classe que, nos limites do seu estado nacional,
já se sente suficientemente segura para poder dispensar os seus
artistas, os quais, por uma espécie de identificação
ao agressor, calçam "as botas de marfim do sem-sossego"
(cito um verso de António Franco Alexandre), e se dedicam a apurar
a língua da tribo, de modo a que a tribo não possa mais
falá-la. Do mesmo modo, a literatura vai extraindo de si mesma
valores éticos que não são propriamente os pontos
de identificação, ou seja, de estabilização,
das imagens socialmente normativas.
Com o modernismo e com o esteticismo fínissecular que o prepara
estamos falando já de uma área de produção
restrita no campo literário, que para si reivindica toda
a literatura enquanto grande literatura. No campo da produção
alargada, não há dissídio deliberado entre os produtores
e o público. Entre um e outro campo, ergue-se a figura do capital
cultural como capital de distinção — onde as chamadas
Humanidades têm um papel de destaque —, que as escolas legitimam
e reproduzem, e tanto mais quanto maior for o âmbito social e temporal
da escolaridade. Avaliado pelo sucesso escolar, o êxito geral da
instrução neste campo parece contra-intuitivo em relação
ao que toda a gente julga saber. À saída do 9° ano,
os alunos não saberão ler, nem escrever, nem contar.
Entretanto (e cito John Ellis), a literatura é aqui cumpridora
pica-ponto de uma função ideológica muito importante.
Favorece, ou pretende favorecer, a união das classes pelo sentimento
de pertença a uma pátria comum — por assim dizer trovadoresca,
camoniana e pessoana — tanto mais respeitável quanto é
vetusta a nação e a linguagem literária parece sempre
o que efectivamente é: um conjunto de usos fora de uso, que inegavelmente
nos antecedem. Nas ditas escolas vai aparecendo a disciplina de Português,
aglutinada em torno dos textos literários. A respeitabilidade da
língua afirma-se mais capazmente na língua literária:
aquela é mais antiga do que nós. Deve ser por isto que há
lírica galego-portuguesa, Gil Vicente e Camões no programa
do 9° Ano. Mas diga-se que Eça, Trindade Coelho ou Altino do
Tojal farão mais ou menos o mesmo efeito. Ao mesmo tempo que daria
os alunos ao respeito, a literatura (e também outras Humanidades)
é um dos operadores mais fiáveis de corroboração
das classificações sociais pré-existentes à
entrada do processo de escolarização. Qual outro papel azul
de tornesol seria o grande revelador, levassem-lhe tão-só
ao sério as disciplinas em que comparece, da desigual distribuição
social de todos os capitais? Como é necessário escolarizar,
faz-se de conta que todos os discentes falam e escrevem o português
que se exige nos programas. Em suma, a literatura que centraliza as práticas
do Português dá quando muito corpo e presença nas
instituições pedagógicas à cultura nacional
(cada vez mais, esta é de resto uma questão de património).
Em suma, devemos conceder razão aos iogurtes Mimosa, que lançaram
no mercado um conjunto de emblemas com as figuras dos professores e dos
alunos típicos. Muito apropriadamente, a professora de Português
era a D. Portugália. Mas também não lha devemos de
todo em todo conceder, porquanto esta imagem da D. Portugália assinala
ainda um anacronismo, tal que os iogurtes a estão achando a ela
uma ternurinha e em nós, abusivamente, os cúmplices desta
imagem. É um boneco social, efectivamente pouco normativo já,
e logo muito cota, que tenta preencher um vazio mais e mais inane
e vácuo — esse que justamente leva algumas D. Portugálias
a tentar ocupar o areal deixado pelo refluxo da cultura (ou seja a ensinar
duvidosamente aquela presença do passado que significa o seu fracasso
como agentes educativos), e a proceder, portanto, como o professor
americano de literatura de Harold Bloom procederia (mas o espécime
bloomiano sente-se apropriadamente angustiado):
o professor de Literatura americano,
bem mais do que o professor de História da Filosofia ou da Religião,
está condenado a ensinar a presença do passado, porque
a História, a Filosofia e a Religião, como agentes, se
retiraram da Cena da Instrução, deixando junto à
ara o desorientado professor de Literatura, o qual, horrorizado, se
pergunta se acaso virá a ser a vítima ou o sacerdote.
(Bloom, 1975: 39)
O professor português que conheço
minhoto não sua sangue porque provém de um curso profissionalizante[Nota
1], onde se acha assistido por disciplinas de didáctica.
De facto, quando se chega ao século XX de Verne, que é razoavelmente
o nosso, o capital cultural reduz-se por um lado a saber ler e escrever,
mesmo que ninguém leia já — e isto produz os agentes
necessários à terciarização das economias
que se vão pós-industrializando; Verne certeiramente diz
que todos aspiram a ser funcionários —, e por outro lado
a um capital de informação que nada tem já a ver
com as Humanidades. Posso dar um exemplo razoável da dominância
deste nos processos educativos que têm lugar também na aula
de Português. A escala artesanal a que isto se passa torna o que
se passa porventura mais significativo. É prática invariável
dos estagiários que todos os anos enviamos para o Secundário[Nota
2]o recurso aos dicionários, aos dicionários e histórias
de literatura, às enciclopédias... Esta prática,
inexistente no meu tempo, de resto é uma parte significativa da
autonomia do aluno: é este que muitas vezes compulsa os dados.
Finalmente, quem assistir às aulas dará notícia de
que a prática pedagógica tem como ideal regulativo a conversão
do discurso pedagógico, com textos literários ou sem eles,
em informação, ou seja, e guiando-me pelas metodologias
da palanifícação, em produto.
Queria partir agora de uma transformação visível
nos programas desta disciplina de Português. Refiro-me à
presença da literatura universal, que não diz respeito meramente
à dos PALOP' s. Considero a mudança sintomática dos
tempos de integração que vivemos. Não se trata meramente
da União Europeia, mas das mudanças que conduziram à
União Europeia. Vivemos em tempos de capitalismo multinacional
em que a forma do capital vai coincidindo com a do capital informacional.
A economia é muito dificilmente controlável por qualquer
instância nacional. Os eventos económicos tendem a acontecer
em tempo real. E, ainda há pouco tempo, um obscuro funcionário
de um grande banco inglês, no Extremo Oriente, conduziu a sua instituição
à bancarrota. Estas transformações que afectam o
capital cultural não aconteceriam se não nos afectassem.
A nossa dimensão, a Universidade do Minho (ou não fosse
ela uma Universidade Nova) é bem representativa da mudança
que assume o rosto da universidade sem cultura. As Humanidades tradicionais
partilham o seu terreno com as Ciências da Educação;
especialistas de Ciências Humanas (penso nos sociólogos,
por exemplo) são distribuídos por escolas que, de resto,
não têm ou tendem a não ter cursos próprios;
os filósofos leccionam opções culturais, e, quando
têm cursos próprios de pós-graduação,
leccionarão indivíduos formados por outras Universidades;
é encorajada a dissociação entre ensino e investigação;
recomenda-se a estabilização (por triénio lectivo,
creio) dos programas das disciplinas; o estudante é um cliente;
escolas e institutos há que se resumem ou resumirão a uma
especialidade das muitas existentes no seu âmbito (Direito Económico,
Economia e Gestão, Medicina Dentária, etc.)... Retomando
uma recente anedota americana, aquilo que de facto mais nos une, docentes
e discentes, é um interesse comum na universidade enquanto parque
de estacionamento. E a esse legítimo interesse nosso, como os outros
porventura mais parcelares, responde-se com actos de gestão (Readings,
1995).
Sintomático deste estado de uma universidade que pelos velhos padrões
não é uma universidade, é certamente o que se passou
recentemente com uma reunião de humanistas promovida pelo curso
de Relações Internacionais (Ramo Económico) que,
no contexto da internacionalização das economias, pretendia
transformar em capital a identidade proto-nacional, comum ao Minho e à
Galiza. Enquanto o maior e mais solene dos anfiteatros da Universidade
estava quase às moscas, o repórter Fernando Pessa linha
ao lado a audiência correspondente ao seu mérito inegável.
Mas eu já vi um poeta com projecto (Melo e Castro) apresentar vídeo-poemas
no mesmo anfiteatro e para apenas seis pessoas. E um pouco mais de gente,
dizem-me, estava presente numa reunião por Timor, nos tempos em
que mandámos para lá um barco solidário e afinal
solitário.[Nota 3]
O século XX em Braga
Posto isto, eu proponho que a didactização global da universidade,
a tentativa de conversão do capital cultural em capital informacional,
acontece connosco (professores de literatura e professores de didáctica)
de um modo um pouco específico. Os cursos que temos em comum (e
que neste momento são cinco[Nota
4]) são cursos profissionais, que correspondem também
ao desaparecimento da literatura como objecto de gestão do Ministério
da Cultura (ou da mera Secretaria da Cultura), para reaparecer na dependência
do Ministério da Educação. O capital cultural de
espécie informacional assume aqui a forma do capital profissional.
Como no-lo dirá a montra da livraria que mais trabalha com a Universidade
(falo da "Minho", passe o reclame), a literatura didáctica
ou em geral pedagógica é o rosto visível deste capital
profissional[Nota
5]. E os nossos alunos, futuros professores do Ensino Secundário,
não parecem querer outro. Estes agentes educativos serão
os profissionais que queremos que sejam quando detenham um saber, latamente
um capital de informação, que ninguém mais no mercado
legitimamente possui; quando sejam uma classe (como a dos canalizadores)
com quem ninguém esteja autorizado a concorrer deslealmente. Numa
sociedade como a nossa em que mais de metade dos recursos sociais são
geridos pelo Estado, têm de resto à partida a vantagem de
terem como empregador o mesmo Estado. O seu capital profissional é
deveras um capital fiduciário[Nota 6].
A minha proposta é que são as didácticas da língua
e da literatura que transformam o capital cultural literário em
capital profissional informacional. E o papel da didáctica, como
nos dirá o professsor Rui Vieira de Castro, num momento mais descritivo
do que explicativo, consiste não só em didactizar os discursos
teóricos sobre a língua ou sobre a literatura que se produzem
em instância "científica" (na Linguística
e na Teoria da Literatura, por exemplo), mas também em legitimar,
em certificar, em tornar capital de confiança essa formatação
ou essa recontextualização. Esta prática decorrerá,
ainda segundo o mesmo professor, no sentido de uma certa uniformização,
de uma certa banalização, e sobretudo vai ao encontro de
um desejo de estabilidade que, de resto, o nosso Reitor também
já nos manifestou como sendo em sua opinião aquilo a que
a Universidade deve aspirar. O discurso "científico"
sobre a língua e sobre a literatura tem que transformar-se em informação
útil (isto é, assimilável), e há-de pelo menos
parecer que tem atrás de si a caução científica
das áreas de onde supostamente partiu.
Devo agora sublinhar uma certa incompatibilidade entre o campo literário
e o campo didáctico. Enquanto o primeiro, como espaço de
produção restrita, é governado pela inovação,
o segundo pela estabilização regressiva. Em tempos propus
uma analogia séria entre o livro de textos escolar e a única
literatura que nasceu casada (embora ultimamente se queira separar) com
a pedagogia: a literatura infantil. Um e outro consistem na perpetuação
de modelos secundários; e (não tenhamos ilusões)
estes são anacrónicos, mas nos seus limites funcionais são
também modelos de comportamento e normas sociais (Diogo, 1994).
O irredutível núcleo da didactização do texto
literário é constituído pelos textos do cânone
escolar, e ainda pelo modo como eles aí aparecem, infantilizados
para serem interrogados. Interrogá-los consiste em deixar-lhes
quieto o Bom e o Belo que lhes caucionou a entrada e fazê-los produzir
matéria referencial (avaliável). Na perspectiva do campo
literário são capital simbólico obsoleto; da perspectiva
do campo pedagógico são capital convertível (e antes
de mais nada em certificados escolares). De qualquer modo, supõem
a continuidade entre a informação sob o controlo do professor
e os valores éticos que continuam a configurar, mas que são
agora em geral imagens normativas da sociedade que vêm de ontem.
A estabilização começa aqui, mas diga-se que, em
geral, a disciplina de Literatura Moderna e Contemporânea nas universidades
portuguesas também tende a confinar-se a textos passados, não
considerando a produção mais recente[Nota 7]. E já
que o nosso assunto é capital, falemos de valores. O valor literário
corresponde a um máximo de capital simbólico e a um mínimo
de capital profissional; o valor da literatura na Didáctica corresponde
a um máximo profissional e a um mínimo simbólico.
Escrevi na Didáctica, porque o valor literário tende a ser
reivindicado desde o modernismo como valor didáctico per se.
De outro modo: as respostas que os textos literários exigirão
do leitor seriam respostas não imediatas, não emotivas,
não identificatórias. As leituras do lexto literário
devem respeitar aquela sua estrutura eufemizante (a expressão é
de Bourdieu) que o torna inconclusivo. Desde a Mlle de Maupin
que o valor literário consiste na sua inutilidade. Em contrapartida,
um texto em instância pedagógica exige respostas emotivas
e identificatórias (ou não se apelaria à motivação)
e conclusivas (ou não haveria avaliação). Gostar
ou degostar de cavalos é requisito para chegar a um texto com equídeos;
e o texto não falha em possuir coisas de definição
como a zoologia: no caso, metáforas talvez e narradores porventura.
Em suma, um produtor que trabalhe na área da produção
restrita, se for consequente, não reconhecerá nem legitimará
os usos didácticos dos seus textos.
As produções didácticas configuram uma espécie
de arte média como será para Bourdieu a fotografia. Os produtos
textuais distinguem-se pela frontalidade e centralidade, que não
só cancelam todos os sinais de temporalidade e contingência,
como pretendem erradicar a obliquidade do sentido. A construção
de textos com textos (o livro de leitura é uma colecção
de excertos ou de textos que podem passar por tal) é uma arte da
découpage que se adapta ao espaço "físico"
e não físico (centralidade e frontalidade) da aula. Corresponde
a um juízo didáctico. O juízo didáctico não
trata questões de valor, mas de identidade. Os textos são
transformados em generalizações e são lidos de um
ponto de vista genérico, que tem ver com a representação
da realidade em forma de assunto (isto é isto e aquilo é
aquilo, enrolado embora por modos tortuosos de ser). O contexto tende
a ser banido das actividades interpretativas. A data e a circunstância
são relegadas para segundo plano ou meramente convertidas em informação
que pode ir colher-se num acervo. Dou como exemplo, e dele não
extrapolo muito, um livrinho que tem para mim um título extraordinário
e um conteúdo que não o é menos: A Síntese
em Esquema. Análise Textual. (Fernandes, 1994) É informação
transformada em informação, tão deserto de cultura
e de passado como A Introdução à Leitura de Os
Maias. Porque o grande pressuposto da Didáctica, que tenho
visto não ser disciplina histórica, é que tudo isso
a que se pode chamar actividade de leitura apenas mobiliza a enciclopédia
actual do leitor-didacta, ou seja, as mil e uma certezas de ontem. Diga-se,
aliás, com didáctica reflectida ou sem didáctica
reflectida, que todos quantos trabalhamos academicamente neste campo didactizamos.
E que, ao didactizar, podemos incorrer na ira dos produtores, pelos incómodos
que lhes causamos. A ira dos produtores creio eu que responde a uma enorme
falta de respeito já pelos direitos de autor, já pelo
copyright moral. Enzensberger conta-nos dos seus problemas com o
dono do talho onde se abastecia. O rebento deste dono teria chumbado num
exame nacional em que se utilizara um poema seu. O poeta não desejaria
que, a pretexto de poesia sua, fizessem aquelas perguntas que fazemos
nos exames, e que, no momento, lhe estão causando aborrecimentos
com o seu abastecedor que o acha responsável pela reprovação
do filho. Ainda por cima, o talhante identifica as perguntas com o conteúdo
do texto e pergunta-lhe o que é que ele, Enzensberger, pretendia
com aquilo, assim o culpando de escrever corpos de enigma — umas
espécies de adivinhas que não terão outro propósito
senão o de rasteirar. (Enzensberger, 1992). Já
Jacinto do Prado Coelho reconhecia o embaraço quando lembrava que
a literatura não se fez para se ensinar — mas saía-se
de apuros, identificando globalmente (não parece restar-nos outro
recurso) a integridade do texto e da língua (i. e., uma imagem
esteticista e modernista da arte autónoma) a um valor ético
— em algo, portanto, que se pode legitimamente ensinar aos filhos
do homem do talho (Coelho, 1976). Com estas desenfadadas anedotas não
pretendo propriamente fazer rir; convido apenas que se estranhe a legitimidade
destes usos autorizados por programas de estado; como é possível
lançar mão dos acervos literários, mesmo os não
caídos no domínio público, por editoras e governos
instalados nos negócios do bem comum.
A situação actual é porventura mais propícia
ao reconhecimento de que a ligação da literatura à
didáctica, com Didáctica ou sem Didáctica, é
inteiramente contingente. Podia ter-se ensinado, e pode-se ensinar a ler
e a escrever sem Literatura. Não há nada de intrínseco
nem ao ensino da língua nem ao ensino da literatura
que tornem necessária a ligação de ambas. E pode-se
reconhecer mais facilmente que o professor Jacinto do Prado Coelho não
estava a fazer mais do que a tentar legitimar a apropriação
da literatura pelas instituições pedagógicas —
e precisamente quando a literatura enquanto tal mais se afastou da possibilidade
de ser ensinada.
No campo em que trabalho, ensina-se, como é óbvio, literatura.
Eu ensino literatura medieval portuguesa. No meu campo tenho assistido
a uma outra resposta à obsolecência do capital literário,
que consiste na sua transformação em capital teórico.
Esta transformação assenta basicamente na positivação
da impossibilidade de definir referencialmente a literatura, e pretende
assimilar nos seus termos o valor literário da literatura, o seu
valor didáctico e ainda o seu valor profissional.
O assunto é complexo. Aquele Modernismo que propulsionou a obsolecência,
adaptando-se bem de mais à sua inutilidade social, é regido
por uma compulsão didáctica evidente. O objecto literário
é paradoxalmente objecto didáctico. Um objecto que ensinaria,
oferecendo-nos como espelho a opacidade dos seus discursos. A Chuva
Oblíqua, por exemplo, resultaria numa revelação
da vida autêntica. E não falemos de Caeiro... Do mesmo modo,
as vanguardas históricas parecem ter tido como suposição
fundadora que os valores estéticos são aqueles que nos conviriam
e que, num acto de maldade, a instituição artística
mantém sequestrados. O seu projecto seria eliminar a instituição
e derramá-los no nosso quotidiano. Mais recentemente, quando Eduardo
do Prado Coelho escreve explicitamente da literatura e do seu ensino encontra
os valores didácticos desta opacidade, que eu creio esconderem
a nosso desejo de deter um capital profissional extraordinário.
Uma espécie de pedra filosofal. A literatura em instância
de conversão em teoria é definida por um resto irredutível
que resiste ao ensino. Ela é, aliás, esse resto. A Literatura-Teoria
é assim o melhor exemplo (por metáfora, diria Prado Coelho)
de capital profissional: renova-se sem esforço nosso, ou por esforço
só. De facto, aqui não interessa propriamente o nosso aperfeiçoamento.
Façamos como fizermos, o resto emerge sempre; e resultando do "excedente
de sentido", é "garante da permanência do trabalho
crítico" (Coelho, 1982: 17). Parece-me isto em termos económicos
a redução astuciosa do lucro a um mínimo marginal
inesgotável (o tal resto) que assim garantiria o retorno
ad eternum do nosso investimento. Um texto do professor Aguiar
e Silva (1993) é altamente sintomático desta consubstanciação
de teoria e literatura. Por mediação da teoria da desconstrução
versão Hillis Miller, adscreve à leitura uma ética
que lhe permite reconfigurar a autonomia textual. O texto tem um sentido
dele (na verdade, dois: o que tem e ainda o seu contrário); e esse
sentido é um mandamento ético que me obriga a ler assim
e a não trazer de fora sentidos que não são o dele.
Num passo de magia tonta, a teoria-literatura torna-se a fiel depositária
não tanto deste rigor filológico mas do amor à leitura,
por que se traduz a designação 'filologia'. E propõe-nos
a leitura como terapêutica civilizacional neste tempo dominado pelas
imagens. Já se vê que a teoria se reivindica o estatuto do
Grande Capital profissional. Porque teoria, rigor e filologia são
imagens de uma classe de especialistas. E a que melhor didáctica
poderia aspirar a teoria-literatura do que a esta vocação
terapêutica?
Ora bem, quando se passa da escola para o mundo é de desconfiar
que o remédio é bastante ineficaz. E sobretudo, neste caso,
não passámos da escola para o mundo. Estamos em pleno logocentrismo
académico; estamos apenas no campo da teoria-literatura e, mesmo,
afinal, de uma velhíssima mas recorrente afirmação
a-teórica, qual seja: os textos ensinam-se a si mesmos. De facto,
não só qualquer docente reconhecerá que os leitores
desta leitura terapêutica não são os seus leitores
(razoavelmente inexistentes, e não há sequer indícios
de que os estejamos formando); como estes leitores ideais em quantidade
suficiente para que possam curar o mundo não são obviamente
as tartarugas-ninjas desconstrucionistas. O professor Aguiar e Silva está
supondo leitores comuns, que lêem por prazer, i. e, aqueles que
são ensinados pela literatura mesma e já não porque
o texto mande ler exactamente assim. Não podem ser profissionais
da leitura. Quem pagaria a estes amadores em função do tempo
que os profissionais demoram a ler assim? E (já agora) ter-se-ia
lido antes da civilização das imagens, i. e., na civilização
da leitura? E se se leu, como puderam aquelas infectar a nossa civilização?
Se a leitura não se pôde opor às imagens quando terá
sido tempo disso, como poderia agora curar-nos delas?
Em contraste, dir-se-ia, Maria de Lourdes Dionísio de Sousa, que
trabalha na área da Didáctica do Português, ao colocar
a leitura no centro da sua praxis teórica, evita ao mesmo
tempo a questão do estatuto especial do texto literário,
e, no mesmo lance, creio eu, cancela tendencialmente a questão
dos seus valores e, bem assim, a dimensão histórica do cânone
literário. Basicamente, e à maneira de Eco, trata-se de
considerar o texto como um mecanismo reticentemente orientado para transmitir
informação, o qual, por isso que é preguiçoso,
depende razoavelmente da competência do leitor. Assim se leva a
fazer coincidir a prática de ler com os processos realmente existentes
num texto que a leitura, por um lado, é obrigada a actualizar,
e, por outro lado, é convidada a realizar. O uso explícito
destes mecanismos é a leitura como pedagogia e é pedagogia
de leitura. Nem os movimentos cooperativos mais complexos, a que Eco chama
passeios inferenciais, renegam o grande pressuposto destas concepções,
a saber, que um texto não pode ultrapassar-me, admitir como compatíveis
uma série de hipóteses de leitura, que ele finalmente seja
um objecto sensato, contido pelos quadros de referência que, de
resto, me orientou para procurar. Finalmente, quem como eu tem acompanhado
a produção de Maria de Lourdes Sousa notará que as
suas propostas de actividades para docentes e discentes no campo de leitura
evitam em geral os textos velhos ou envelhecidos — em suma, as grandes
obras do cânone. Lembrarei, e somente a título de exemplificação,
que não lhe devemos ainda um tratamento d' Os Lusíadas,
ou de um soneto de Camões. Enfim, códigos literários
ou tão-somente retóricos não parecem existir no seu
horizonte de trabalho. Como no-lo diriam as teorias que a sua investigação
convoca, o que até aqui lhe interessou, e suponho que o seu campo
de trabalho lhe exige, é — não por acaso — uma
concepção do texto como processamento de informação
que se possa adaptar às teorias da literacia. A autora interessa-se
menos por ensinar (a ensinar) literatura e mais por usar a literatura
para desenvolver competências de leitura. (Sousa, 1993) Trabalho
estranho, que não tem razão de ser senão a ditada
pelos curricula dos cursos em que lecciona. Usar a literatura
para desenvolver competências de leitura (não específicas,
porém genéricas)? Bem poderia esperar. Não tem, todavia,
com que desespere; é um pressuposto de carreira, que, como a minha,
se passa de outro modo.
Wlad Godzich ensina-nos porventura que esta posição particular
se acha subsumida numa situação mais geral. No seu domínio,
e à escala, tal como à escala o professor Aguiar e Silva
no seu domínio, Maria de Lourdes Sousa vai buscar uma contrução
da linguagem que é uma construção da literacia e
para a literacia. Ora, segundo Godzich (1994), se vivemos numa cultura
da literacia é porque existe um mercado da linguagem (desde, digamos,
os estados nacionais), tal que todas as construções da linguagem
de que dispomos são efectivamente da literacia e para a literacia
— e isto justamente porque a informação que nos seria
necessária para uma praxis efectiva em qualquer domínio
social (o que, creio, incluirá as instituições pedagógicas)
não é já susceptível de absorção
ou de assimilação individual imediada. A linguagem é
justamente convocada a proceder à mediação de aprendizagens.
Nada proscreve que se chegue ao mundo, e ao mundo que nos paga, com filmes
e video clips. As noções de teoria-literatura,
ou de leitura do professor Aguiar e Silva, como as noções
de leitura aferidas pela dimensão do texto que encontro na obra
da didacta, manifestam em primeiro lugar o desejo de que os instrumentos
linguísticos de mediação, sejam eles os textos à
maneira de Hillis Miller ou o texto à maneira de Eco, gozem da
universalidade mais universal. Nada de mais oposto à realidade.
Como sabemos, estamos empenhados na construção da torre
de Babel. E não porque o queiramos, mas talvez porque estamos enganados
ao creditar à linguagem uma natureza que dela faria o universal
mediador.
Em suma, literatos, teóricos e críticos da literatura, professores
e didactas, partilham de diversas formas de um mesmo destino crepuscular.
E a sua condição comum reside em grande parte não
só na questão da ensinabilidade da literatura, mas quiçá
também na capacidade de manter essa ensinabilidade em questão.
Se possível, sem a isso conceder a centralidade de uma solução.
E já agora espera-se que a teoria também exista aqui. Não
se compreende, com efeito, tanto elogio ao existente por parte de quem
é condenado a um sopro de vida por isso mesmo que se vai louvaminhando.
a primeira versão
deste texto foi lida no Colóquio Didácticas, 1995, Universidade
do Minho
Aguiar
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