O Diabo na Caixa

E m breve e em concentrado. António Franco Alexandre é um daqueles poetas que, desde o Modernismo, se não toma impossível a existência do poeta menor, lhe vai fazendo a existência impossível. Um autor da sua geração, Joaquim Manuel Magalhães, dir-nos-á que uma cultura saudável, i. e., orgânica, exige o poeta menor. Ao que creio, esta menoridade necessária — eis um tópico eliotiano — vinha envolvida na tentativa de curar a literatura do princípio modernista da superação (do make it new); e parecia extremamente preocupada com a irrelevância social da literatura (sobretudo da poesia, face à qual, de resto, e agora num outro sentido — evidentemente superador —, todos os outros géneros fariam figura de coisa de outro modo menor e bertrandizável). É certo que no crítico a irrelevância acaba por ser culpa da sociedade.
O que desta problemática me interessa tem sobretudo a ver com o que na prescrição da poesia menor (a qual obviamente deveria existir e não recomendar-se) surge muito exactamente como uma emancipação da "cultura", isto é, da sociedade herbertianamente entendida como interesse de terceiros. A invisibilidade social da poesia (ou da arte em geral), é uma reivindicação do artista, no caso não interessa se por identificação ao agressor. De resto, haverá aqui matéria de acordo, e até mesmo um pacto assombrado pela terceira pessoa do social. Porque a sociedade consente na reivindicação, desde que o interesse na poesia seja coisa do foro de cada um; e porque, pese ao Magalhães que penso entender, a situação em pauta não corresponde à de uma arte de tal modo recolhida a si que se torne incompreensível a não ser para iniciados, ou que ela deva vitalmente situar-se para lá da interpretação. Os nossos unhappy few não compensam da inexistência de aldeias, ou outras comunidades de forma-e-sustância, nem sequer com serem uma comunidade iniciática. Posto ele seja o poeta obscuro, a poesia de Herberto Helder não é hermética, nem rompe do corpo do societário único, pois também ela se acha filosoficamente desalforriada. É só considerar — e mais não digo — a existência de Photomaton & Vox. De outro modo, dir-se-á que esta poesia não faz sentido sem a sua crítica; e que tudo isto faz sentido com as lógicas da produção restrita no campo literário. Encaremos esta configuração do campo cujo sentido é um precipitado de história, como se dirá na química. A essa configuração poderia lê-la como funcionalização de uma história. Corresponde na obra de Alexandre a mais um instante de internacionalização da nossa literatura; mas trata-se ainda de uma diferenciação, da Poesia 61, um pouco como Neto Jorge, e na Poesia 61, e noutros tipos de internacionalização como a representada pela Po-EX, mas também pela ruptura que foi fulgurante de António Ramos Rosa por relação ao neo-realismo. E outros omito, que o leitor acrescentará se lho cantar a sineta. Sem Palavras nem Coisas não veio do nada, nem se recorta sobre um nada.

Screen tests
Em Sem Palavras nem Coisas, António Franco Alexandre começa por submeter a poesia (e parto do princípio que ela à partida lhe é de facto "cultura" e poesia menor) a alguns screen tests. Assim, o poema que abre a colectânea, "Universo Animal". Este texto cujo título que lembra um dos poetas mais visíveis dos inícios de 70 — António Ramos Rosa — fabrica-se uma poética da coincidência, justamente essa do universo animal, que ele mesmo está tornando tradicional; e submete a poesia armada desse garbo à prova da enunciação paralela de Charles Olson (um poeta "vitalista", digamos) e de alguma realidade. Fica a contra-dicção entre o instante propício que conduz ao "círculo cerrado" (natureza no universo e no homem) e a história marcada pelo "rumor das cidades devastadas". A comoção das pedras por este novo
Orfeu (ou, para manter paralelos, esta nova Eurídice) conclui de facto por uma suspeita: a de que, com a poética "animal", que promove a coincidência de sujeito e objecto, o poeta (mas não este poeta) pretende escapar à ruína no objecto e no sujeito. Esta "verdade" não tem casa. Eu não tenho casa para esta verdade. Requiescat in pacem.

-------------------------------------------------------o wheel, draw
-------------------------------------------------------that truth
-------------------------------------------------------to my house
para que a pedra se encoste contra a pedra, muro
a muro, noite sobre noite, no rumor das cidades
devastadas, nos seja leve o crânio estilhaçado.
(Alexandre, 1974: 7)

De certo modo, o screen test tornado filme ou integrando o filme, como em Godard (cf. Cavell, 1979), permite pôr ideias (digamos ideias), na boca de uma pessoa bela. Daí as inúmeras citações, e o aparelho bibliográfico que acompanha alguns textos. O estranho nesta poesia ou nesta bela pessoa é a reivindicação da História (ou de umas Histórias), numa situação de desprovimento pós-estrutural, em que é duvidosa a própria possibilidade de História. Enquanto o café na chávena é a espiral de uma nebulosa enrolando-se para centro, o poema excede todos os efeitos de montagem sobre que porém repousa e, num renovo do Verfremdungseffekt brechtiano, ou perdendo a mão dos estilos para a segunda mão (interrupção em roda livre da origem), vai achando actores dentro de cena e fora dela, que, sobre a forma, dão notícia de mil e uma realidades fora de uso (e do pouco de realidade). Não é verborreia, porém a união improvável da extravagância colossal (cf. as qualificações nominais e verbais) com um modo assertivo de secura. Que o princípio do teste de ecrã institua a história como uma espécie de outro da poesia, é tanto mais interessante quanto aquela situação se acha circunscrita entre Deleuze e Foucault, e num território assombrado por um marxismo em transe de desmaterialização. Quer isto dizer que aquela história é já interrogada (e desde o título que parodia o foucauldiano) em função das tópicas da sua possibilidade. Assim, o screen test mais notório (cuja matéria é retomada de algum modo em Visitação) tem um título assaz revelador: "Arqueologia História Possível". Um tanto à maneira de Enzensberger, a poesia cede também aqui a posse da enunciação, para construir um mausoléu da história — para se constituir em mausoléu da história, que a vida, havendo vida, deverá contestar. Torna-se o envólucro desta matéria, que é terrível que seja "arqueológica" — i. e., e para além do mais, matéria de "arquivo":

condenado das leis e sem
outra defesa que os lábios emudeceu subitamente.
vendido escravo pró Brasil, o Pe. A. V.
o iluminou na fé cristã & misericórdia.
José Ignacio Pombo: injusto también y bárbaro el derecho
que se cobra en cada venta de los esclavos.
Es un derecho sobre los homhres.
Mas guardou (hoje o sabemos) crenças
selvagens & qa impiedade natural das origens,
alheio à salvação espiritual & progresso na via do culto.
-----------------------------------------------------y él grava también
-----------------------------------------------------sobre la agricultura,
os ombros tremiam-lhe por dentro devagar. Fugido
em novembro dois, de 1804
& entregue a estas autoridades cinco meses passados
& cortadas as mãos em culpa de furto,
morte, e hábitos (dizem) viciosos que uma missão
não extirpou completamente,
habitava em comunhão natural contra natura,
adorando ídolos, dado a bruxedo & feitiçaria, etc.
(id.: 33)

A poesia pode reduzir-se, pois, à sua mera presença. Fornece o suporte, o espaço, o enquadramento ou o envolvimento para outros discursos. Será História quando o "facto de arqueologia" dilacerar o envólucro poético.

Forma e história
Por instantes, dir-se-ia que essa presença permite, por isso que não é interventiva (i.e., partidária de si ou da sua história), o decurso autónomo das coisas, que afinal não pode não deixar entregues a si. Parece confiar-se que estas ("As Coisas Justamente") têm uma função de resistência ao discurso (ao "verniz da violência"); que elas produzem a realidade como contra-realidade, ao destruírem até ao osso a transfiguração mistificadora daqueles discursos — genericamente, da poesia — que este poeta nos apresenta pela espécie do sarro, da camada, da inscrustação.

as coisas justamente dilaceram
o verniz da violência, o sebo
prematuro das coxas, junto
ao resistente pelo das mulheres.
em direcções diversas (ocultando
no íntimo dedo a marca
dos anéis) vão perfurando
o céu que por palavras se fez boca.
abrindo a melancia, retirando
a semente queimada, o nervo
eréctil,
batem no mundo com suor inútil, (id.: 36)

Mas aquela presença que suporta a dicção da matéria histórica e social, tende a mostrar essa matéria ou como passado, ou como inconsciente. O social tornado inconsciente, afectado pela ilegibilidade ou pela ausência de sentido, parece-me correlacionável com um acordo entre o poema e o corpo, tornados ambos "inorgânicos". É certo que entre estes fragmentos se contam topoi "deleuzianos", genericamente 'capitalismo e esquizofrenia', e mais proximamente 'escrita pulsional'. Mas parece-me que são submetidos a derrogações do tipo de 'molhar na cinza o pénis da hora'. Nem inconsciente, nem desejo chegam a ser nesta poesia positivos ou positivamente produtivos (dou conta de algo como uma excepção no último poema da colectânea). Por exemplo, lemos em "Coito":

todos os sítios presos como me pesa o braço de ouro
essa tarde de sandálias atadas ao coração com a boca
húmida de esperma & contraceptivos eficazes
escrevemos o poema com o pavor da baba sobre os olhos
mentindo devagar. (...) (id.: 10)

Ou em "Tríptico Nómada":

por times square o tempo de virar
uma narina ao lado do silêncio
alisando as verrugas molha na cinza
o pénis da hora
na vitrina inconsolável presidente violeta
"são sensíveis,
animal perfeito, ninguém que descubra
o enxame inclinado nas axilas" (id.: 44)

Estes produtos afectados à forma do descontínuo, do lacunar e do insensato, estariam a ser continuamente produzidos — e em profundidade — por uma energeia tautológica, e por assim dizer "viciosa", através da qual provavelmente se configura mais um dos estranhos motores da história que encontramos na nossa literatura recente. O que garante a fragmentaridade e a errância do sentido é esta energia negativa — um princípio de ludíbrio nas relações humanas (que já foi a exploração da força de trabalho, digamos, e é, por assim dizer metaforicamente, a exploração da força de trabalho).
A repetição, de feição serial, acorda-se com este mecanismo "cego", e torna improvável (ou provável meramente) que o negativo trabalhe, discorra em direcção da "lâmpada única", ou sequer se abeire do mundo, tornado todo porque todo escurecido, no "instante de florir". Creio impossível não tomar nota do desacordo de princípio entre este "avesso" e um "direito" que não é mais do que o retorno igualmente "vicioso", produzido pela combinatória textual. Substituindo o sentido pelo regresso das palavras, traz-nos o Sentido (o "único nome") como palavras que regressam, podendo ser outras:

o que os homens uns aos outros trocam, se escondem
curva pouco a pouco escurecendo os ossos, até
ser uma lâmpada única, um despojo
rosas (digamos rosas): nascem sem nome:
dentro do nome florescem, se tornam
fusíveis do silêncio que morde do avesso
a pálpebra deserta, o que os homens

dividem na sombra, o espesso
coração debruçado
lanternas (digamos) oscilando no átrio saliva
escorrendo dos olhos, até
florescer, pouco a pouco furando
a pele outra das ossos, mancha
que deixaram no ventre
pálpebras de rosas
---------------------------------(digamos)

o que os homens uns aos outros dividem, se recusam
despojo dos olhos dentro do nome único dos olhos, etc.

O que cabe a este poeta — e sobretudo se poesia é "universo animal", "lâmpada única" ou o não menos único "nome dos olhos" — é a múltilpla inscrição que assinala a relação ficcional com a realidade (e, por vezes, disfemicamente fictiva) que nos aparece em "Tríptico Nómada": invento/ não invento, (id.: 50-1) E, em geral, nesta perspectiva que devem ler-se todos aqueles passos que, por invenção, apontam à poética da coincidência ou da intimidade. A relação adesiva ao mundo, que faria o sujeito confiar-se cegamente a um desejo positivo — "colar a boca aos passos, o desejo." (id.: 50) —, pode reveladoramente vir na sequência de coisas como estas, dominadas pela cisão da origem como paternidade ontote(le)ológica, pela definição da imagem como ludíbrio, pelo sono do falso mediador:

a casa, escura, a relva incendiada, e por dentro
da luz, a seiva do calcário, miragem, invento.
o sol partido em dois. azul. e quase noite
os degraus encardidos, a cama onde adormece
o moedeiro falso, (id.: ibid.)

Não menos interessante é o tratamento do topos marxista da velha toupeira, que às vezes parece por vocação poética um bicho de conta, enrolado sobre si, primeiramente senhor da sua autonomia (em formulário lukácsiano, começa por ser forma formada), e beneficiando finalmente daquela relação de privilégio com o tempo que necesariamente arrancaria a história à arqueologia. Este bicho é congénere daquelas coisas que, deixadas a si, avançariam, roendo sarro e verniz; ou que são a projecção sobre a história do "universo animal": uma forma cega, mas lucidamente colada ao mundo, que produziria o tempo às ocultas. Porém não pode não ser colocado numa dimensão absolutamente paradoxal, que não se fica meramente pela leitura "especiosa" — ou poética— de uma certa definição de história, que afinal pede isenção do tempo:

um bicho morre, interminavelmente.
nunca, desperto, morre. um osso
o rói por dentro.
fura na carne do dia, e forma (em osso)
um astro eterno onde enterrar o azul. (id.: 52)

A história faz-se inconsciente, dir-se-ia que para continuar a laborar; e, por relação a este poeta, e ao ser chamada à presença, também a poesia se tornou inconsciente. Noutro plano, e num poema que funciona segundo um princípio de combinatária do tipo curso e recurso, temos que a produção do tempo é deveras formal: obtém-se por um pequeno desvio na repetição, como se a um aumento de quantidade correspondesse um salto qualitativo. A palavra, e inevitavelmente o seu ludíbrio, tem precedência. O poeta diz assim, finalmente sem palavras nem coisas:

um bicho forma
a forma de roer: ergue
(impalpável) o coração dos astros.
(…)
fura na terra paciente o furo
onde enterrar (em osso) o coração.
tem os olhos roídos de não os fechar nunca:
abertos ao azul, inclinação do tempo.
faz, ocultado, o tempo: e tem
na concha agrreste o osso, a frincha
onde inclinar o dia.
(…)

Estamos (e não só com este poema) perante poesia de combate que passa pela auto-referência já desde Nuno Guimarães e da proliferação dos rebentos cívicos da Po-Ex e da Poesia 61. A forma formada pelo bicho e do bicho seria história; assim no-lo dirá a sua auto-mortificação que daria testemunho. A sua cegueira seria lucidez, "olhos intactos"; e a história (imporia) uma ética da forma. O poema condena-se a evitar a concretização de um telos, quando justamente profere essa concretização. Torna-se inevitavelmente substituição representativa da realidade. E se, entretanto, isto está re-produzindo um topos humanista — o do humano como auto-superação do humano —, este, todavia, é agora o que resta. Ora, o que resta (o qual, como se sabe, poetas o fundam) parece-me uma coisa transformada num em-si, com tempo próprio, intrinsecamente inacabável, e, portanto, renitente ao instante que a finalizaria. De resto, corresponde bem ao labor de quem interminavelmente morre, de quem está continuamente na iminência de morrer, ou de quem finalmente morre nunca:

mas os olhos: nossos um bicho guarda,
intactos em seu tempo, intermináveis, (id.: 53)

Citação mais por extenso:

não se poupa.
rói no azul o arrepanhar da carne,
a luz: move, no tempo,
os ossos: mas os olhos,
um bicho os guarda intactos (implacáveis)
dentro dos punhos, junto ao coração.
(...)
rasga nos dentes o lugar dos ossos.
interminavelmente oculta
a ocupação dos astros.
em seu lugar se guarda, mistura
no sangue e na saliva o azul, a carne.
faz, ocupado, o tempo: e ocupa
enterrado as palavras, em seu osso.

mas os olhos: nossos um bicho guarda,
intactos em seu tempo, intermináveis,
(id.: 52-3)

Faz-se confiança ao bicho, porque inominável: um bicho. É esse, a meu ver, o sentido que se despega não só do indefinido, como ainda do substantivo que se furta à especificação de uma forma. Portanto, a forma formada pelo bicho — a irmã de roer — está sendo designada como energia, coisa que neste contexto não deve ser uma mera invenção nossa, como em contrapartida o poderia ser uma forma. Esta forma, ou este bicho, habita a contradição — é contradição, e por isso mesmo resolvida. E não é genericamente aquela que se estabelece entre uma coisa e seu contrário, mas especialmente a que se estabelece na relação com o tempo:

um bicho perde (em osso) o tempo todo.
de lado a lado o prende nos seus dentes,
de lado a lado o perde, mas na terra.
em seu lugar se enterra, e não ocupa
mais sítio que ocultar-se.
(id.: 53)

Afigura-se-me óbvio que prender o tempo e perder o tempo são por assim dizer equivalentes. Por permissão da ambiguidade — "em osso" — , a perda é, de resto, um ganho fundamental ou um ganho de fundamento, adiante mais decisivamente afirmado pela ressalva: "mas na terra". Retomo a ideia da energia inconsciente, ou um inconsciente energético, que aposta no jogo do perde-ganha a permanência seu "círculo vicioso". A terra diz-me ambas as coisas, permanência e inconsciente, cegueira de contacto do universo animal com a realidade, crueldade táctil. De facto, trata-se de uma adesão por extenso, como também no-lo diria o mundo itaminado pela "forma de roer" que, sendo produção do bicho, é o conteúdo formal ou vazio da "sua forma". Tudo isto terá virtudes representativas, se não se der o caso de que o bicho está na verdade reivindicando a representatividade, para o que perde em presença na realidade. Aprecie-se como, em lugar do tempo, o bicho não ocupa espaço. Aprecie-se esta ubiquidade especiosa — ou como (parto aqui do pli deleuziano) esta ex-istência em prega se reduz ao acto de ocultar-se:

move na terra o azul, inquieto de poupar-se.
atento fura o eterno, tem
garras de punhos, água, um astro ardente
em táctil crueldade, e espalha
a forma de roer em sua forma.
(id.: ibid.)

Se entre bicho e tempo há uma bem marcada transacção de tópicos (é lugar-comum que o tempo roa; o poema rumina, e é lugar poético a produção do tempo como ruminação), assistimos ainda a uma notável convergência de tópicas, ou notável partilha de significados, digamos que entre história e poesia. A ambas convém este 'bicho' como um sinónimo. Ora, esta poesia ou esta história animal foi isolada na sua cegueira; e, nos termos do imaginário que nos importa, essa ação era necessária para que, entre nós e ele, se instituísse a distância que nos dá uns certos olhos. Justamente os olhos (e as palavras não seriam menos funcionalmente distantes) que concederiam ao bicho a sua morte. Se o bicho é a história, poesia dessatisfeita com a história, o que os olhos concedem é uma configuração acabada, mais da ordem do escatológico do que do teleológico:

(...)
move no azul o tempo: mas os olhos:

nossos um bicho aguarda, comovido.
na terra onde se enterra atento aguarda
os olhos, as palavras em seu osso.
vive (talvez) no eterno, mas os olhos:

nossos aguarda, de dizê-lo morto.
um bicho move a morte, e guarda

intactas as palavras, mas os olhos.
(id.: 54)

Recorrendo ao imaginário espacial a que já recorri, estes olhos, que o diriam morto, olham-no inevitavelmente de para lá do fim; ou, quando de facto o olhassem, por esse mesmo acto instituiriam o fim a partir de um além. Portanto, o fim da história adviria necessariamente de fora da história: o "bicho" não é lógica de existir que o leva da origem à conclusão que é razão do começo; o bicho é o preente enorme em que persistiu roendo. E, de resto, estes olhos situam-se muito realisticamente entre um instante de convergência e um instante de divergência. De facto, são em primeiro lugar o que corresponde àquilo que no bicho, que é afinal o bicho todo, tende para a finalidade ou para o reconhecimento; e, quando o poema acaba, são aquilo que suspende o sentido e a sua escatologia: a mera existência dos olhos (e na frase nominal é isso que nos é sugerido) opõe-se à, ou diverge da, situação perfeita em que o diríamos morto. Para encerrar este ponto, queria realçar uma figura a que voltarei adiante. A do guardião das "palavras intactas". Essa configuração é articulada sobre determinantes espaciais: aqui/ além e, sobretudo, dentro/ fora. Possui a mobilidade de uma metáfora que nos dois casos relaciona o interno com o externo. Como estão ainda aqui envolvidos textos de "predecessores" submetidos a revisão (discursos da poesia e discursos da história), poderíamos, com Bloom, e em certas ocasiões, chamar-lhe askesis.

Poesia
A colectânea encerra com "Lançando Papagaios Junto ao Rio". O poema parece oferecer um vislumbre sobre uma sageza — tipo zen — que se dá como ocupação lançar papagaios, circunscreve alguns correlatos à área lexical e semântica da pequenez, refere o papagaio aos mestres e os mestres às crianças, e ao também metaforizar implícita e explicitamente, local e globalmente, o poema como papagaio, vai elaborando um acto — justamente sage — de dissipação do sentido. Em termos winnicotianos, o papagaio é um brinquedo que se movimenta num espaço transicional:

(os mestres são crianças, só eles conhecem
a lei dos papagaios, a distância
boiando à superfície
,
a doce crueldade
das esquinas de um rio)
(id.: 59, meu sublinhado)

O papagaio recupera a continuidade aquém da diferença cultural entre interior e exterior:

é o olhar paniculado de um "verde"
ao abrir subreptícia a porta do bar,
voando sobre os copos de cerveja morna
e o pêlo debruçado das mamas
(cinzentas, quase) das mulheres.
(id.: 55)

Finalmente, o papagaio não assume somente a ubiquidade da libido (por marcada adesão à sua forma, é uma lamela); é ainda escrita libidinal, desterritorialização; e, dispensando de resto alguma seriedade, está presente por metáfora em áreas semânticas muito concretas. Repare-se na ambiência "macha" de uma comunidade homo, a que convém o pavonear-se fálico, alatinado:

: papagaíto, de esporas levantadas,
ad usum delphini.

onde o nervo se estende no suor
do ânus, os machos
circulando nos altos bancos altos
de calças azuis apertadas no sexo,
boys aguardando o apito do começo
para abrir os portões aos cavaleiros. (id.: 5-6)

E, mais adiante, numa colecção de sinónimos:

folha, melindre, coração de cannabis,
come-gente nas unhas, dito papa-rapazes,
papa-gente de contas à medida,
(id.: 56)

O papagaio é celebrado pela sua conveniência a mil-nomes. O poema entra, assim, numa mecânica jubilatória — é, para que o digamos, repetição e diferença —, afectada por uma derrogação quase imperceptível. O papagaio é inefável, imponderável, como Deus ou o poema. O poema-papagaio é actividade autónoma infinalizável (devaneia no espaço, ao sabor do vento a que todavia impõe a sua forma ergonómica); e a autonomia poética, como noutros passos da obra, é identificável com uma suficiência libidinal. Todavia, os nomes todos, que confessam a plenitude divina por lhe poderem ser todos atribuídos, são aqui tendencialmente reduzidos a uma série de sinónimos, colhíveis, como nos diz a referência em rodapé, no artigo "cerf-volant" de La Grande Encyclopédie. Pensemos, entretanto, o papagaio como um papel estranho, que a poesia vai representar à Buster Keaton. Fá-lo-á então "com [o] mutismo alegre que garante a sua invulnerabilidade" (Sontag, 1987: 160). Assim:

----------------------------------papagaio, melindre,
peixe pequeno às mãos, doce
nas mãos,
voltejando nas coxas, no buraco
de estar só,
de assobio repentino
na dureza do peito,
marinho, fratercula, chimaera monstruosa,
papagaio de leme horizontal e manso,
tinhorão, pé-de-bezerro, brasileiro,
----------------------------------papa-figo-nocturno,
amarante, merlante, mananteu,
figo-loiro de inverno, linaria canabina,
folha, melindre, coração de cannabis,
come-gente nas unhas, dito papa-rapazes,
papa-gente de contas à medida.
----------------------------------falcão doce,
de seis faces descendo sobre o rio,
milvus dragão arquitectado
por Archytas de Tarento,
cervo, cometa, babaga,
bartolomeu de esquina à beira-mar
flutuando em hexágono com chaves no bico,
apara-espíritos do pobre, recado,
aeroplano da simplicidade
(o mais simples lhe chama
a Grande Enciclopédia),
----------------------------------papagaio falante,
sabido, inocente, veloz,
com palavras na cauda e desenhos às costas,
poema, na atenção do equilíbrio,
cratera, sinal, cicatriz entreaberta,
ao nono dia do nono mês lançado
sobre a água impassível do silêncio,
herança de Han-Sin, ideograma,
pércido, gaio, malaio,
princípio ardente da ponte
sobre o rio, de lábio a lábio,
----------------------------------papagaio do riso,
repetindo o discurso do lado mais duro,
espalhando palavras, nuvens de lâmpadas,
papagaio poema de mãos na tristeza
como um coldre,
sem veias nem vísceras
abrindo no alto
a pele do espaço, etc.
(56-7)

Eis um objecto idêntico a si desde a origem (desde o "milvus dragão arquitectado/ por Archytas de Tarento"), mas porque rejeita a identidade ou é uma identidade nómada, que por política da época tem o seu modelo mais evidente no plano sexual. Ocasião de litania, ou de palialia que dissipa o sentido, este papagaio recusa evidentemente a castração, digam-no embora "voo/ ligado à terra". (id.: 58)
Será uma realidade infixa, situada para além da identidade (das identidades) e, obviamente, para além da história. É um reflexo razoável do corpo pleno sem órgãos (noção, aliás, moldada sobre a de libido):

como um coldre,
sem veias nem vísceras
abrindo no alto
a pele do espaço,
(id.: 57)

Este objecto pretende-se radicalmente democrático, ou seja, anárquico ou misárquico. Mas, nos próprios termos do poema, afigura-se-me que essa democraticidade é largamente contra-intuitiva —

parece (só parece) obedecer
aos cautelosos gestos
no coração dos mestres.
(id.: 59, meu itálico) —,

obrigando a um parêntesis que passa às crianças, modelos da autobastança libidinal, o diploma do mestre autêntico:

(os mestres são crianças, só eles conhecem
a lei dos papagaios, a distância
boiando à superfície,
a doce crueldade
das esquinas de um rio)
(id.: ibid.)

Ora, a verdade é que a afirmação estratosférica nunca é completa; e que procede como se nada disto se opusesse "à vontade/ de tocar a terra/ misturado ao orvalho, aos ramos/ das árvores, ao rumor da água/ à feroz ameaça/ de uma mão alheia". (id.: 60) A política do desejo é ainda um desejo de política; a pele deseja outra profundidade: a emancipação da história seria história deveras e o texto revolução. Parece-me então necessário repensar o acordo entre heteronomia e autonomia, que o papagaio-poema subsumiria na tópica do equilíbrio; e no mesmo caso está a compatibilidade, se não a sinonímia, que o poeta estabelece entre os termos de uma política insurreccional que cita por Brecht —

máquina da mansidão, poema,
submarino aéreo
na atenção da mudança.
papagaio
doente de abecedário quando o vento enfraquece,
bom presságio de exércitos na noite,
(id.: 58, meu itálico) —

e a autonomia da arte, o silêncio, ou o sem-sentido, que seriam muito por menos o presságio disso:

ao nono dia do nono mês lançado
sobre a água impassível do silêncio,
herança de Han-Sin, ideograma, (id.: 57)

Eis aqui os elementos fundamentais de uma "instalação" peculiar, documentada em Os Objectos Principais: o ideograma sobre o silêncio, o prognóstico, os exércitos na noite, & a feroz ameaça de uma mão alheia (cf. Diogo, 1995). Mas também aqui já se entrevê a orientação para práticas da dissipação do agente com o sentido e a capacidade de fazer o poema funcionar por palavras de intimidade e insulto.

O gnomo
Na primeira das suas teses sobre a Filosofia da História, Benjamin apresenta-nos um autómato, e um interior onde se esconde um corcunda eficaz:

The story is told of an automaton constructed in such a way that it could play a winning game of chess, answering each move of an opponent with a countermove. A puppet in Turkish attire and with a hookah in its mouth sat before a chessboard placed on a large table. A system of mirrors created the illusion that this table was transparent from all sides. Actually, a littie hunchback who was an expert chess player sat inside and guided the puppet's hand by means of strings. One can imagine a philosophical counterpart to this device. The puppet called "historical materialism" is to win all the time. It can easily be a match for anyone if it enlists the services of theology, which today, as we know, is wizened and has to keep out of sight. (Benjamin, 1982 4 b: 255)

Posto sem convicções de vitória, pode dizer-se que, da convergência por sinonímia entre poema e história à articulação ou à desarticulação de interior e exterior, do bicho que guarda as palavras intactas à presença da poesia como arquivo ou mausoléu da história, Sem Palavras nem Coisas procurava um dispositivo deste tipo...; e que é esse um dos achados de Os Objectos Principais. Este livro integra uma peculiar forma de edição, que de certo modo documenta. Falo de Cartucho. Alguns poetas, entre os quais Alexandre, publicaram-se em conjunto. Os poemas seriam como rebuçados, dentro do envólucro típico e já anacrónico da mercearia. Tratava-se de um dispositivo performativo, análogo, ao que creio, daquela escultura minimalista (na qual tanta pintura se subsume) que, tendendo à arquitectura sem função, pode ver-se como um pretexto para a reunião em seu torno não propriamente de espectadores, mas de uma comunidade reflexiva. O dispositivo, diga-se que muito pós-modernista porque finalmente metaficcional e sobretudo auto-reflexivo, especula sobre a arte tornada objecto como res publica e deriva para algumas feições aporéticas dessa dimensão política. Essas feições confiam-se à forma e às fórmulas do índice — nos termos de Sem Palavras nem Coisas, à feroz ameaça de uma mão alheia. O índice, que na obra posterior se fará vazio indicial, subsume algumas possibilidades poéticas que rezam todas pelo contacto com o real, produzido ou re-produzido por uma consciência colectiva orientada para a emancipação. O poema, que de resto vai pedindo aquele estatuto derivativo (e denegando o pedido), poderia vir a ser um produto dessa Origem revolucionariamente fundada. Como signo, seria um efeito de uma Causa. Assim:

as suas unhas, essas suas unhas incomodam-me, o seu
rumor no meu papel, e a pálpebra que escondem,
rasgaram o cartão, sei-o seguramente, estas
flechas
, o sangue, o pavor doentio da eternidade,
nasceram desse bico de cobre,
da sua unha de ouro, do remédio
vulgar das suas chagas.
irrita-me transportar estas palavras, a elas
me obriga a sua mão coberta de alicates.
(id., 1979: 33, carrego o "vazio" indicial e sublinho o olhar virtual da consciência)

O contacto da origem ou da causa com o signo (tipo impressões digitais) acentua-se várias vezes como contágio. E neste caso pode ver-se uma aproximação à terapêutica, do tipo da vacina, em que as chagas são remédio — e remédio vulgar. De qualquer modo, dir-se-ia que se parte de uma situação de desfiguração que tocaria em bloco a sociedade presente, de tal modo que tudo o que nela escolhêssemos ao acaso, e tudo aquilo que é deveras acaso ou necesariamente ignorância nossa, não pode não deixar de fazer esse sentido. Tudo o que aleatoriamente colhemos, colhemo-lo nas "públicas estrebarias"; o cartucho, ou o poema com o seu conteúdo, não menos é uma estrebaria pública. Ora bem, existirá aqui uma posição crítica assaz privilegiada (teológica, digamos): a de quem está dentro. Parece que quem fala na maior parte dos Objectos é um conteúdo em hibernação que muitas vezes não é mais do que a forma, a fórmula e as aporias da autonomia poética, as quais, de resto, teriam guardado contacto com a história — com aquela outra história, razoavelmente invisível, de que nos fala Benjamin: a dos vencidos (cf. Diogo, id.). O que se quer tornar público — educaria consciências, provavelmente — é esse conteúdo exilado, cifrado na hibernação poética, que, aliás, não substitui tanto o proletariado, como nos confessa um protelamento essencial— uma noite, um escuro, uma vida de morcego: "vivo dentro de si, como um vulgar morcego". (Alexandre, id.: 10) A toca é desconfortável; a fala autêntica, por condição imposta pelo exterior, é murmúrio de formigas e agonia de cães:

o desconforto desta toca, não pode imaginar, as formigas
murmuram quando dormem, na saleta ao lado.
e estes cães que agonizam com os dentes na pedra!
porque insiste em ouvir? que outras palavras
lhe merece o pavor dos
---------------------------------------arvoredos brancos?
(id.: 45)

O privilégio do interior cita pelo silêncio da autonomia poética; e a sinagoga está decerto também por aquela história que se confunde totalmente com as "nódoas do passado", que de resto "nunca se calam": (id.: 16)

e estes lugares sem água, quem dentro
da silenciosa sinagoga
deixaria de escutá-los?
(id.: 19)

Tem também Alexandre tem o seu corcunda; e é este quem está dentro e escuta:

o mais ligeiro é o gnomo que pinta acessos
de ironia no tapume, algumas estas horas
o visitaremos, abrindo
-----------------------------rapidamente a caixa onde o sabão
nos esteve atraiçoando.
e ainda as impressões digitais espalhadas na mesa
não teriam permitido reconhecê-lo; tanto
o pavor nos inclina os ramos mais altos
perturbando a passagem dos navios.
(id.: 18-9, eu sublinho)

O acesso está inegavelmente perturbado pela ironia:

a conclusão parece próxima, mas
poderá o gnomo recusá-la? estas questões
sejam indevidamente as douradas vidraças
do envelhecer, como evitar
o que recordaremos, estas algumas horas?
and yet
---------------------these foolish things
-----------------------------remind me of you
(id.: 21, meu carregado de uma certa antecipação da frivolidade)

Em Moradas l & 2, o gnomo sai da caixa; usa um tu para dizer este seu interior. Mas agora o gnomo é por demais experiente, ou sabe demais (pois não é certo que o nome 'gnomo' possa designar aquele que não padece do que sofre o tu). Convir-lhe-ia uma redução do seu saber, tal que a promessa do sensível, guardada na caixa, pudesse aplicar-se sobre o que sabe de Adam Smith (i. e., sobre o que isso implica por metonímia). Contudo, essa redução do saber aparece-me afinal circunscrita a uma oposição entre o objecto fatal da economia política (esse é o saber que é saber demais) e aquele sensível prometido (uma saudável ignorância, alheia à inércia museológica da história). O gnomo, que escuta agora, desdobrado?

o gnomo diz, sabes muito ou demais, escolhe
a divisão das horas o alfinete ou a casa
em toulouse onde viveu Adam Smith:
uma paisagem, ou a ligeira, céptica surpresa;
o gnomo escuta, com a cabeça experiente,
a invenção no espaço de puros movimentos.

o gnomo grita, para quando o sensível prometido,
a exaltação do céu, o sol inteiramente
meu e de toda a gente? porque tarda
a tão mesquinha salvação de tudo?
o gnomo estremece, ao susto das lágrimas,
ao sulco da terra sobre o espaço nu. (id., 1987: 23)

Esta escuta vem na sequência da transformação deste interior num outro tendencialmente não regido — nem por um agente, nem por uma consciência —; e onde,aliás, a separação de interior e exterior seria pouco menos que impossível. A isso se chamou frívolo. Não seria impossível regressar ao poema-papagaio (e ao que, sobre nomes de papagaio, papagueia ele). O poema é um "erro musical", (id., 1983: 58) que se situa aquém da concretização e do mundo. Aqui estremece o Mesmo:

saberás que a linguagem
não começou ainda
o seu passo perdulário,
não há, no mundo, modos
de dizer o movimento e o imóvel,
o surgir repetido
(...)

esta impressão apenas digital
de nenhum sopro,
o liso, limpo silêncio, o frívolo,
o estremecer dos flancos na brancura. (id.: ibid.)

Mas que o frívolo é uma fórmula de tratamento derrogatório da autonomia poética face à história, tornar-se-ia evidente pelo que continua a avistar-se do lugar do frívolo. O poema já não serve de mapa, ou de "radioscopia"; e parece que isso é assim por uma transformação na própria realidade: as "bandeiras vermelhas" são objectos menores, afectados a práticas topográficas do tipo da agrimensura:

a meio do caminho os troncos derrubados
as pequenas bandeiras vermelhas,
choveu, são modos de falar,
ténues, dentro do nevoeiro.
(id.: 59)

Juntam-se duas hipóteses: a da hibernação que cita pelo frívolo, recusando-se alcance político, e a de uma transformação que depende do esquecimento da história (das nódoas do passado). Em qualquer caso, o gnomo deixaria de escutar.

a escrita seria, ouça,
silenciosa,
como os passos claros da neve,
o frio

aroma dos sentidos.
não poderia ouvir, abrir
a sua voz pequena,
cantar

essas inúteis coisas
mergulhadas na areia, um dia
de calor tão grande,

que o inverno nos troca
os gestos e as palavras.
e como, na brancura, a ouviria?
(id. 24, eu sublinho)

E eis como se recusa a história que nos assombra com o seu pesado testemunho. Ela vem afectada à nódoa e ao crime; mas já não tanto ao morto, como ao lugar do morto. Recusa-se a herança como se ela proviesse do Pai Ideal, que goza sem limitações e nunca morrerá; não se herda já — o que nos Objectos acontecia — aquela responsabilidade e aquele sentido acumulado na história (do sentido?) que de nós ou do poema faria Legatários Universais. Fecham-se, enfim, os ouvidos àquilo que bate à porta; negam-se os direitos sobre nós ao passado que os reclama:

entre as folhas do ar o chão respira, virão
bater à porta os usuais recados
as faces que se apagam na brancura.

(a giz, no chão, com longos braços mudos,
a sal ardido,
a ocre e a vermelho.)

como quem ordena
visitam os armários, o sossego
das crianças que fogem no terror
no fundo arder do escuro,

dizendo: morrereis, morrereis,
feitos de carne e chama morrereis,
nem nunca vossos pais seriam
imortais. (id.: 36)

Não é todavia impossível detectar nestes passos o amargor de uma ironia que viabiliza o texto como a pequena oração pelo gnomo. A meu ver, o frívolo participa do que neste poema mais se insinua: uma deriva infantil da tópica, que é bem mais do que mera referência a estas crianças. E, aliás, elas continuam a sê-lo da História. Seriam o gnomo, o corcunda, Odradek. E, como poderia dizer Benjamin — que o disse no seu ensaio sobre Kafka —, estariam pela união entre a culpa e o mundo pré-histórico esquecido (o frívolo, a infância..., que não menos estarão por). Esta infantilização contígua à culpa histórica fica, assim, suspensa entre dois esquecimentos: o do mundo pré-histórico e o do mundo da história. O Odradek de Alexandre começa por ser um fantasma, habita corredores e salas com armários, rasga as mãos "no vão das escadas", vive em cavernas e tocas, é uma pequena porta

pequena porta, tu

uma pequena porta, mesmo, esquecerás. (id., 1979: 30 e passim)

E, se pode imprecar e gritar pela terra ferida, é porque ele mesmo é terra ferida — e o seu grito, a sua voz, nunca se despegam do restolhar outonal das folhas que é o som do seu riso. Com a teoria do frívolo, o texto retorna. A autonomia poética é Odradek e o sótão que Odradek habita, onde foram parar os objectos principais. A suficiência da forma é, ao mesmo tempo, forma distorcida por um esquecimento.

a primeira versão deste texto foi publicada em 1996. A reescrita foi ligeira e cortou-se ao ensaio o ponto final, que seria sobre "tradução".

 

Alexandre, António Franco
(1974) Sem Palavras Nem Coisas, Lisboa, Iniciativas Editoriais.
(1979) Os Objectos Principais, Coimbra, Centelha.
1983 a) Visitação, Porto, Gota de Água.
(1983b) A Pequena Face, Lisboa, Assírio e Alvim.
1987) As Moradas 1&2, Lisboa, Assírio & Alvim.
Benjamin, 'Walter
(19824 a) "The Task of the Translator", In Illuminations, London, Fontana.
(19824b) "Theses on the Philosophy of History", in Illminations, London. Fontana.
Cavell, Staniey
(1979) The World Viewed. Reflections on tbe Ontology of Film, enlarged edition, Cambridge & London, Harvard University Press.
Diogo, Américo António Lindeza
(1995) Aventuras da Mimese na Poesia de Carlos de Oliveira e na Poesia de António Franco Alexandre, Pontevedra-Braga, Cadernos do Povo-Ensaio.
Sontag, Susan
(1987) Contra a Interpretação, Porto Alegre, L&PM Editores S/A.